INDIANIDADE OU MORTE – Bruno Torturra fala sobre Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo-fotógrafo

Viveiros

INDIANIDADE OU MORTE

VIVEIROS DE CASTRO por BRUNO TORTURA
http://www.fluxo.net/tudo/2015/9/7/viveirosfotografo

“…nenhuma metáfora seria capaz de superar a síntese que a realidade nos ofereceu para o presente estado do debate político nacional: Lula e Dilma infláveis no centro da cobertura e das discussões no 7 de setembro.

Mais do que a idiotice tétrica, mais do que a mentalidade – também ela quase oca – que totemizou os bonecões de ar, o que me choca é como, bem antes de Pixulecos, estamos criando todo tipo de polêmica política, entrando em todo tipo de treta trend para não encararmos o titanic na sala. Para não admitirmos que, no fundo, o que entendemos por política – seja densa ou inflável – não tem mais qualquer relação com a realidade em que nossa espécie está acuada.

E não uso o termo espécie de forma leve aqui. Pois estou absolutamente convicto de que a encruzilhada política que estamos vivendo não é tanto civilizatória quanto evolucionária. Acredito que a sentença do projeto humano ao final do século 21 será fruto da resposta a uma pergunta crucial. A humanidade vai conseguir se perceber como uma espécie? Vai conseguir reconstruir suas fundações econômicas, políticas e mitológicas a partir de uma consciência biológica?

Guardo a pergunta para ir ao ponto desse texto. E dizer que hoje, no dia da independência, estou em casa transtornado depois de um passeio no Ipiranga, ali do lado de onde o imperador deu seu brado retumbante, ali perto do instituto Lula. Mas exatamente no Sesc, onde vi a exposição “Variações do Corpo Selvagem”. Uma ampla coleção de fotos feitas por Eduardo Viveiros de Castro, em curadoria brilhante de Eduardo Sterzi e Verônica Stigger.

Viveiros, para os que não sabem, é dos mais importantes, originais e relevantes antropólogos em atividade no mundo. Sua lucidez intransigente articula um panorama realista, apocalíptico do psicótico Antropoceno. A era em que nós, humanos, nos tornamos a força geológica determinante do planeta. O que quase ninguém sabia, certamente eu não, era que Viveiros é um fotógrafo tão refinado e implacável quanto seu pensamento.

A coleção cobre principalmente seu trabalho nas décadas de 70 e 80, em convívio íntimo com diferentes tribos e etnias indígenas brasileiras. E em convívio íntimo com artistas como Hélio Oiticica, Ivan Cardoso e grande elenco nos bastidores ou como fotógrafo de cena de importantes filmes nacionais.

Não vou nem tentar resenhar demais as conexões entre os dois universos. Mas há entre eles um tropicalismo mais trágico, mais profundo e mais antropofágico do que o dos discos sessentistas. Um tropicalismo que parece assombrar as imagens e o destino que elas sugerem para muito além do Brasil. Imagens que me disseram mais sobre política – e sobre nossa disfunção política – do que sobre arte, cultura ou antropologia.

As fotos de Viveiros de Castro são como seus textos. A observação analítica da vida, do corpo, da construção social e da humanidade do índio sem o paternalismo mistificador do “exótico” expresso por tantos retratistas e estudiosos de populações nativas. Ao contrário. Como nunca, a exposição me expôs o índio “endógeno”. O índio que não se define por nosso interesse nele, ou por sua suposta pureza, ou por sua também mistificada “harmonia” com a natureza. Mas o índio que se define pela humanidade que massacramos antes em nós mesmos – só depois nas florestas. O índio que desterramos de nossas origens evolutivas, só depois de suas terras. E que realocamos em uma ideia arqueológica de passado, só depois em reservas demarcadas ou vilas de alvenaria.

O índio que não nos remete a um passado, mas a um mal passo fundamental (mitológico me parece) que dissociou nossa história de nossa história natural. O índio que se torna, ainda e cada vez mais, quem aponta o diagnóstico e a vítima física e espiritual de nossa psicose política. O índio não é um estranho, nem um irmão. É um espelho capaz de nos despir de algumas das maiores alucinações. Capaz de nos fazer enxergar as cicatrizes de enormes acidentes evolutivos que nos trouxeram até aqui. Acidentes que se travestem de escolhas. Passos sem volta que insistimos em chamar de cultura, ciência, trabalho, economia, capitalismo. Em chamar de civilização…

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O trabalho de Viveiros – e preciso frisar mais uma vez a precisão da curadoria do casal Stigger e Sterzi – nos força a compreender que toda essa ansiedade urbana nada mais é do que o frio na barriga da queda livre em que estamos. E nos explica que isso que chamamos de história é uma ficção compartilhada, escrita com muitos propósitos mas com apenas uma função: nos fazer esquecer de que não somos filhos favoritos de Deus algum. E que nosso maior atributo não é exatamente a inteligência, mas a capacidade de acreditar em ilusões. E é graças a elas, ilusões como mitos, justiça, economia e moral que fomos capazes de condicionar a vida humana à causa da ordem e do progresso.

Foi esse poder reflexivo – o do espelho mesmo – que transformou essa exposição em fundamental. Enquanto, em nome do desenvolvimento nacional, estamos massacrando o que resta dos direitos e das sociedades indígenas no Brasil, essa mostra apresenta uma dimensão tão crucial quanto oculta desse etnocídio. Estamos cortando as raízes que ligam nossa espécie à sua própria natureza. Por isso sinto que essa exposição é um poderoso catalizador estético e emocional dessa consciência de espécie que tanto espero ver emergir. Uma consciência dura, realista, trágica, futurista e estranhamente pragmática diante da vida. E, por isso mesmo, profundamente política.

Eis então a ironia épica de ter uma coleção como essa às margens do Ipiranga. Capaz de demolir toda a glória, de pátria, de grandeza nacional que nosso 7 de setembro tenta simular. Por isso a beleza também épica do tipo de emancipação que Viveiros e seus retratados bradam aos fundos do palácio.

A independência que precisamos conquistar de ideias infláveis como os novos totens de protesto. Das identidades políticas cada vez mais murchas. De modelos de economia e desenvolvimento hiperinflados, prestes a estourar. Independência do avatar de humanidade que construímos dentro e fora de nós mesmos. Uma independência cuja alternativa – a um prazo cada vez mais curto – é a morte.”

Bruno Torturra

No Fluxo

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