R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

In this 2007 photo provided by the BBC, Neurologist Oliver Sacks poses at a piano while holding a model of a brain at the Chemistry Auditorium, University College London in London. Noted neurologist Oliver Sacks has found common ground with the pastor of Harlem's Abyssinian Baptist Church: Both men believe in the healing power of music. Sacks, the best-selling author of

O Neurologista Oliver Sacks, em 2007, no  Chemistry Auditorium, University College, em London/UK (AP Photo/BBC, Adam Scourfield)

R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

A seguir:

Texto de Oliver Sacks quando descobriu que tinha câncer terminal

Este texto foi publicado originalmente no New York Times em 19 de fevereiro de 2015. A tradução é da Karin Hueck. Via Glück Project:
http://www.gluckproject.com.br/oliver-sacks-minha-propria-vida/

Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar de a radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.

Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.

Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.

“Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.”

Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.

Hume continua: “Eu sou… um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”

Aqui eu me distancio de Hume. Apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.

E ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me toca como especialmente verdadeira: “É difícil”, ele escreveu, “estar mais separado da vida do que eu estou no presente.”

Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altura, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.

Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso vai envolver audácia, claridade e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).

Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.

Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial do escritor e leitor.

Acima de tudo, fui um ser sensível, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.

* * * * *

1

P.S. – Um dos livros de Sacks que A Casa de Vidro recomenda é “MUSICOPHILIA – TALES OF MUSIC AND THE BRAIN” [eis o ebook, em formato epub, disponível pra baixar via Google Drive: http://bit.ly/1LMxlIM]. Começa assim:

“What an odd thing it is to see an entire species— billions of people— playing with, listening to, meaningless tonal patterns, occupied and preoccupied for much of their time by what they call “music.” This, at least, was one of the things about human beings that puzzled the highly cerebral alien beings, the Overlords, in Arthur C. Clarke’s novel Childhood’s End. Curiosity brings them down to the Earth’s surface to attend a concert, they listen politely, and at the end, congratulate the composer on his “great ingenuity”— while still finding the entire business unintelligible. They cannot think what goes on in human beings when they make or listen to music, because nothing goes on with them. They themselves, as a species, lack music.

We may imagine the Overlords ruminating further, back in their spaceships. This thing called “music,” they would have to concede, is in some way efficacious to humans, central to human life. Yet it has no concepts, makes no propositions; it lacks images, symbols, the stuff of language. It has no power of representation. It has no necessary relation to the world.

There are rare humans who, like the Overlords, may lack the neural apparatus for appreciating tones or melodies. But for virtually all of us, music has great power, whether or not we seek it out or think of ourselves as particularly “musical.” This propensity to music shows itself in infancy, is manifest and central in every culture, and probably goes back to the very beginnings of our species. Such “musicophilia” is a given in human nature. It may be developed or shaped by the cultures we live in, by the circumstances of life, or by the particular gifts or weaknesses we have as individuals— but it lies so deep in human nature that one must think of it as innate, much as E. O. Wilson regards “biophilia,” our feeling for living things. (Perhaps musicophilia is a form of biophilia, since music itself feels almost like a living thing.)”

Oliver Sacks

Musico

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Um pensamento sobre “R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

  1. cafecommosca disse:

    Fiquei super chateada com a notícia, mas só podemos agradecer tudo que ele nos deixou! Adorei a publicação 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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