O ESPÍRITO DO ATEÍSMO: EPICURO, LUCRÉCIO E ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

Epicuro
“Ou Deus quer eliminar o mal e não pode; ou pode e não quer; ou não pode nem quer; ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente, o que não corresponde a Deus; se pode e não quer, é mau, o que é estranho a Deus. Se não pode nem quer, é ao mesmo tempo impotente e mau, logo não é Deus. Se quer e pode, o que corresponde somente a Deus, de onde então vem o mal ou por que Deus não o suprime?” EPICURO

Excelentes questões, as de Epicuro, e que não cessam de dar nó no cérebro dos teólogos. Lucrécio, o maior herdeiro de Epicuro no mundo romano do I século antes de Cristo, escreveu seu poema e magnum opus, Da Natureza das Coisas, na intenção de divulgar e enaltecer o epicurismo, dissipando superstições e temores a golpes de desmistificação. Lucrécio também afirmava, como lembra André Comte-Sponville, que 

“A natureza mostra bastante bem, com suas imperfeições, ‘que não foi criada para nós por uma divindade’. O poeta, sobre esse tema, encontrará um dos seus mais belos e mais trágicos timbres: a vida é difícil demais, a humanidade é fraca demais, o trabalho é extenuante demais, os prazeres vãos ou raros demais, a dor é demasiado frequente ou demasiado atroz, o acaso é demasiado injusto ou demasiado cego, para que se possa crer que um mundo tão imperfeito seja de origem divina!” (COMTE-SPONVILLE)

Em “O Espírito do Ateísmo”, Sponville sintetiza sua posição atéia, calcada em larga medida na filosofia de Epicuro e Lucrécio, com as seguintes – e eloquentes – palavras ímpias:

sponville

“Há horrores demais neste mundo, sofrimentos demais, injustiças demais – e muito pouca felicidade – para que a idéia de ele ter sido criado por um Deus onipotente e infinitamente bom me pareça aceitável.(…) Há todos esses sofrimentos, desde há milênios, pelos quais a humanidade não é responsável. Há todas essas crianças que morrem de doenças, muitas vezes com sofrimentos atrozes. Esses milhões de mulheres que morreram de parto (que às vezes ainda morrem), com a carne e a alma dilaceradas. Há as mães dessas crianças, há as mães dessas mulheres, quando ainda vivas, incapazes de ajudá-las, de aliviá-las, que só podem assistir, impotentes, ao horror… Quem ousaria lhes falar de pecado original? Há um número incontável de cânceres (nem todos se devem ao meio ambiente ou ao modo de vida). Há a peste, a lepra, o impaludismo, a cólera, o mal de Alzheimer, o autismo, a esquizofrenia, a mucoviscidose, a miopatia, a esclerose múltipla, o mal de Charcot, a coréia de Huntington… Há terremotos, maremotos, furacões, secas, inundações, erupções vulcânicas. Há a desgraça dos justos e o sofrimentos das crianças. Ao que o pecado original dá uma explicação ridícula ou obscena. ‘Tínhamos de nascer culpados, ou Deus seria injusto’, escreve Pascal. Há uma outra possibilidade, mais simples: que Deus não existe.” 

ANDRÉ COMTE-SPONVILLE. O Espírito do Ateísmo. Ed. Martins Fontes.

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2 pensamentos sobre “O ESPÍRITO DO ATEÍSMO: EPICURO, LUCRÉCIO E ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

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  2. Mats disse:

    Se Deus não existe, o “argumento” do André Comte-Sponville refuta-se a ele mesmo. Sem Deus, não há qualquer tipo de problema com o “sofrimento humano”. Sem Deus, o “sofrimento humano” pode ser doloroso de sentir, mas é tão relevante como o sofrimento de qualquer outro animal.

    É Deus Quem dá valor à vida humano. Sem Ele, a vida humana vale tanto como qualquer outra forma de vida.

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