POR UMA ARTE DE INTERVENÇÃO CONTRA A OPRESSÃO – Reflexões pós “O Estopim” (Brasil, 2014, 80 min), documentário de Rodrigo Mac Niven

Bertolt Brecht diz que a arte não é um espelho pra refletir o mundo, mas um martelo com o qual esculpi-lo. A arte não é mecanismo neutro de “registro” do real, mas sim uma produção do labor criativo humano, surgindo da realidade mas transformando-a por sua própria irrupção. A arte é intervenção no real mais do que sua mera cognição. Por isso considero tão essencial que o filósofo vá à escola com o artista: pois o pensador nunca pode esquecer-se do que ensinava Karl Marx na célebre Tese Contra Feuerbach: até agora os filósofos parecem ter se ocupado somente em compreender o mundo, mas o que importa de fato é transformá-lo. A música, o cinema, a poesia, a escultura, o romance, o grafite, a dança, todas as vertentes da arte, são arma nas mãos da libertação. A arte é ação libertadora e intervenção ativa, ou não merece o nome de arte.

Digo isto sob o impacto do filmaço O Estopim, de Rodrigo McNiven (de Cortina de Fumaça), uma obra de alta qualidade estética e importante intervenção política em um debate radicalmente contemporâneo. A mesma violência que o pescador exerce sobre o peixe, ao fisgá-lo com uma isca, para em seguida puxá-lo com força para extraí-lo da água rumo a um ar irrespirável, é exercida pelos opressores sobre aqueles que parecem ter nascido para “morrer na praia”, de morte precoce, e não de morte morrida mas de morte matada. Interessante expressão do cotidiano: nadar, nadar e nadar, para morrer na praia. Amarildo foi um pouco a encarnação simbólica desta labor mau-pago, de sabor amargo, que tantas centenas de bilhões de oprimidos são coagidos a engolir em nosso planeta.

Amarildo poderia ter entrado como anônimo nas estatísticas obscenas da letalidade policial no Brasil; por sinuosos caminhos da estrada da História, este homem iria se transformar, durante o tsunami de manifestações populares de Junho e Julho de 2013, em símbolo de algo que não cessa de alimentar a indignação das mentes compassivas e lúcidas. Nos morros do Rio, há guerra civil, e como em toda guerra o chão está repleto de cadáveres de crianças de 10 anos, de mães baleadas por balas perdidas, de trabalhadores humildes confundidos com chefes-de-boca…

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Era Julho de 2013 e o Brasil vivia ainda sob o impacto dos eventos grandiosos do mês anterior: as “Jornadas de Junho”. Muitos daqueles que haviam se desesperançado com a política viram seu ânimo revigorado com a fenomenal adesão da população aos protestos que tiveram como estopim o aumento das tarifas públicas do transporte urbano. Os 20 centavos foram a gota d’água que fez transbordar o copo de fúria, mas este copo já havia sido gradativamente enchido. Enchemos o saco depois de tanto descalabro, de tanto descaso com o bem público, de tanta privatização-e-precarização corroendo a nação, de tanta militarização e truculência manifestando-se no morro e no asfalto (com várias diferenças, é claro, já que nas favelas as balas não são de borracha…).

Se o “caso Amarildo” explodiu no cenário público – sendo reivindicado nas ruas e nas redes, no país e no exterior, e recebendo atenção da mídia de massas, que de costume tende a ignorar este tipo de pauta – foi um pouco do mesmo modo: torturado até a morte pela PM, Amarildo foi como a gota d’água que fez transbordar de indignação todos aqueles que sabem da vivência cotidiana de milhões de brasileiros, em especial o esculacho que sofrem os afrodescendentes, no Brasil, por ação de instituições sociais que conservam o ranço do racismo institucionalizado e da ditadura militarizada. Amarildo, morrendo, forneceu um mártir oportuno àqueles que berravam em protesto frente às matanças, às torturas, às práticas ditatorialescas, da Polícia Militar brasileira.

Amarildo era carioca da gema, descendente dos africanos que o colonianismo europeu extraiu da África a fórceps, morador da mega-favela da Rocinha, e  trabalhava duro como auxiliar de pedreiro. Um edificador de lares, um membro de comunidade. Eu duvido muito que Amarildo tenha imaginado, enquanto sofria horrores em seus últimos instantes entre os vivos, ao ser torturado até a morte pela polícia em uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora?), que estaria prestes a entrar para a história. Morrendo, causou um tsunami: o poderio da manifestação popular manifestou-se então com força descomunal.

Sonhos e Urnas

Pois Junho de 2013, na História, foi também um dos ápices, no Brasil contemporâneo, de contestação da militarização que ainda vige, e tanto, em nossa vida cotidiana. Com aplausos, é claro, das elites e de certa fração das classes médias, que parecem realmente acreditar que a violência policial e a expansão do aprisionamento em massa são as soluções para nossa mega-tragédia de (in)segurança pública. É bem sabido e vastamente denunciado o tamanho hipertrofiado do complexo policial e carcerário brasileiro, sem falar em sua ineficiência e desumanidade.

Somos uma pátria encarceradora, que acompanha EUA, China e Rússia na liderança global nos índices de aprisionamento. Muitos julgam que a prisão é instituição que deve servir para proteger-nos contra a violência, mas se esquecem de lembrar o crucial: a prisão é um espaço onde pratica-se uma violência contra o cidadão lançado a ela, verdadeiro “inferno na terra”, que longe de “regenerar-se” e re-aprender as regras de convívio civilizado, fica privado não só da liberdade mas das mínimas condições dignas de existência… Conhece um Estado selvagem e revanchista, que joga gente na jaula após ter fracassado em levar políticas públicas que são direitos constitucionais.

No filme, os entrevistados na Rocinha salientam que as dificuldades da vida no morro ajudam os moradores a perceberem sua força na soma, na comunidade, um aprendizado que é fruto de experiências difíceis vividas por parentes e antepassados: os favelados são aqueles que, devido à sua situação precária de moradia, estão mais vulneráveis a perderem seu abrigo; um temporal mais forte, com grande volume de águas e fúria de ventos, pode derrubar suas casas. Estas vidas, construídas heroicamente sob o terreno movediço de um solo sujeito a periódicos deslizamentos, vão somando forças em busca do ser-mais, vão compondo raps para expressar suas angústias e esperanças, mas sempre antagonizando contra os opressores e seus braços armados.

A operação “Paz Armada”, como de praxe, envolveu muitos esculachos cometidos pela polícia contra os que são “detidos para averiguação”. Amarildo, aos olhos dos fardados, não foi visto como cidadão brasileiro com certos direitos constitucionais e humanos básicos, mas como bandido-em-potencial, e que por isso pode ser interrogado com métodos violentos e requintes de crueldade. O fim – a “averiguação” – justifica os meios – a prisão arbitrária, a tortura, o homicídio legalizado.

A última palavra de A Pedagogia do Oprimido, o clássico livro de Paulo Freire, é “amar”.  Ali ele diz que é preciso inventar, através de nossa práxis (a união indissociável entre ação e reflexão), um mundo onde seja menos difícil amar. Amarildo é também um nome que carrega em seu bojo o amor, ironicamente, pois eis o nome de alguém que morreu nas mãos do ódio institucionalizado: donde o poder do “símbolo” Amarildo como souvenir de um Estado que não ama, de uma polícia que não dialoga, de uma realidade sócio-política, historicamente determinada, que divide e segrega ao invés de somar e unir. O Brasil é um continente repleto de fraturas expostas.

A denúncia dos oprimidos é uma forma de ação que não deve ser menosprezada, já que é uma ativa tomada de voz e uma vitória sobre a doença do silêncio. O documentário de Mac Niven é excelente em sua disponibilidade de ouvir e dar ressonância ao discurso daqueles que viveram com Amarildo e que conhece o cotidiano esculachador imposto pela ocupação militar, Gaza style, vigente atualmente com as UPPs. Um dos protagonistas de Estopim, o “Duda”, encarna esta figura do denuncista que deseja desvelar as práticas desumanizadoras que testemunha, mesmo correndo risco de vida, o que é heróico e louvável.

Por exemplo: denuncia-se a prática policial comum de matar alguém primeiro e depois rotulá-lo como traficante. Como se fosse justificável o assassinato neste caso, o de vitimar uma pessoa que comercializa substâncias químicas que foram tornadas ilegais em um certo momento histórico do Direito… Até onde sei, tráfico de drogas não é crime punível com a pena-de-morte; no entanto, a polícia brasileira pratica a pena-de-morte diariamente contra suspeitos de tráfico. Duda – ecoando a mensagem de Marcelo Freixo (Deputado do PSOL) – denuncia uma polícia miliciada, gangsterizada, fascista, que prende e tortura gente inocente e mata trabalhador desarmado e desvalido…

Maioridade Penal

A morte de Amarildo gerou um debate público amplo; em muitos setores, em especial da mídia corporativa, o problema foi colocado nos seguintes termos: Amarildo era ou não era um traficante? Como se fosse plenamente justificada a tortura e a morte de um homem que fosse traficante de drogas. Ideia perversa, que utiliza a acusação de tráfico como estigma que justifica a ação homicida da polícia. É a mesma lógica vigente no sistema penal, na Guerra às Drogas, como se o problema da segurança pública pudesse ser resolvido na base da violência estatal exercida sobre aqueles que são estigmatizados como inimigos públicos número 1 só pelo fato de que vendem substâncias que o proibicionismo estipulou como ilícitas…

Como diz o juiz João Batista Damasceno, da associação Juízes para a Democracia, há uma “fantasia de que o traficante é alguém que precisa ser exterminado.” (49 min) Ou, como diz Francisco Carlos Teixeira, PhD em Ciência Política, membro do Instituto Tempo Presente, “você está escolhendo pessoas para morrer, e depois que elas estão mortas imediatamente viram traficantes. (…) Ora, mas quem mata criminoso também é criminoso. A Guerra às Drogas é uma cortina de fumaça para esconder um extermínio dos pobres.

Em uma das cenas mais impressionantes do cinema brasileiro no século XIX, O Estopim representa a tortura sofrida por Amarildo sem dourar a pílula, sem suavizar o horror: Toda a barbárie cotidianizada vêm à tona nesta cena onde os policiais-torturadores não poupam nada de seu arsenal bélico para humilhar e ofender Amarildo. A violência não é só física, destinada a alquebrar o corpo da vítima, mas é violência verbal da mais cruel:

Policial-torturador à Amarildo: “- Trabalhador? Todo vagabundo diz que é trabalhador! E você diz me que é trabalhador, seu merda? Só se for trabalhador do tráfico! Vocês são tudo amiguinho de bandido. Tua mulher é uma vagabunda cheiradora-de-pó. E eu vou armar um flagrante pra prender teu filho, Amarildo…”

O discurso policial, no trato com o outro, é o anti-diálogo por excelência. É o que esta cena com Amarildo explicita: a polícia como uma vespa que pica, odienta e sem misericórdia, sendo o supra-sumo do que Paulo Freire chama de “ação antidialógica”. A tortura é o oposto antagônico do diálogo, a encarnação explícita do fascismo cotidianizado. Tese do filme, tal como o compreendi: a polícia que tortura é bárbara e desumana, e Amarildo uma das milhares de vítimas que ela faz de maneira cotidiana.

O amigo do falecido deveria sentir o quê diante de policiais assassinos senão indignação e rebeldia? Uma polícia que planta injustiça vai colher rebelião. Duda expressa-se sobre Amarildo mostrando-se estarrecido que “eles tenham conseguido fazer uma maldade com uma pessoa tão boa” (59 min). Antes de simplesmente descartarmos este testemunho, como se não passasse de uma idealização póstuma que um amigo realiza em seu retrato do amigo-morto, levemos a sério a hipótese de que houve sim maldade, uma injustiça, uma barbárie injustificável. 

E que a Ditadura civil-militar (1964 – 1985) pode até ter sido extinta para dar lugar a este interminável processo de redemocratização, mas a Ditadura continua incrustada em várias instituições, sobretudo as Polícias Militares, e inclusive as UPPs. Moradores acusam as UPPs de serem uma carta branca que é dada para que as polícias dominem o morro, instalem milhares de câmeras de vigilância, dando o passo rumo a transformar o morro do Rio em Gaza. A Palestina – pasmem! – é aqui. E o Big Brother da TV não tem nada a ver com o Big Brother da UPP.

No Big Brother da vida real, soldados podem chutar a porta dos barracos para abri-los, sem aviso prévio. Podem levar presos quaisquer cidadãos que julgem “suspeitos”. Podem expulsar gente dos lares para que sejam construídos trecos “pra inglês ver” na Copa ou nas Olimpíadas. Podem mandar prender, por desacato a autoridade, quem contesta o abuso de poder praticado por milicos fardados. Fala o MC em Estopim: “A UPP é o AI-5 das favelas cariocas… Como era chamado o DOPS? Era a Polícia da Política. O que é uma UPP? É a mesma coisa, só muda o ano! A UPP só daria certo se fosse Unidade de Políticas Públicas”.

A UPP é sintoma de um aumento da militarização, de um Estado que sobe o morro querendo mostrar somente sua faceta repressiva e punitiva, seu ímpeto controlador e dominador. Nas periferias brasileiras, 1968 ainda vive. Esquecemos de desinventar a barbárie militarizada. Ainda falta-nos descobrir que a questão social não é uma questão de polícia, que não se constrói solidariedade com fuzis, e que não é reproduzindo o caso Amarildo que vamos superar estas páginas tão tristes de nossa História – repleta delas.

A arte, para relembrar Brecht e Boal, deve ser intervenção na realidade ao invés de passividade fatalista diante dela. O Estopim faz isso com excelência. Entra para uma história bela e fecunda: a do documentário brasileiro, uma das “coisas” que vai melhor em nosso país. O documentário, no âmbito do cinema, parece-me ser o ápice deste ideal da arte que não deseja só retratar o real, mas também informá-lo para revolucioná-lo. 

O documentário brasileiro é um “campo”  repleto em preciosas obras-primas e gênios justamente venerados – Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Pra Morrer, Jogo de Cena, Edifício Master), Silvio Tendler, João Moreira Salles (Santiago, Entreatos), Jorge Bodanzky, José Padilha (Ônibus 174, Garapa), dentre tantos outros. Os filmes de Mc Niven chegaram para integrar uma bela tradição, vivíssima a tal ponto que fica até estranho referir-se a ela usando um nome com tanto ranço de antiguidade quanto “tradição”. Um saravá, pois, ao tão iluminante e tão veraz documentário brasileiro, que desvela realidades com a ousadia de suas destemidas lentes!

E.C.M., Goiânia 29/07/15
@ A Casa de Vidro.com
Shortlink: http://bit.ly/1MVvnCC

10714387_536402499824550_9173944318112282282_o Capturar Diretor Rodrigo Mac Niven e Diretor de Fotografia Neto de Oliveira com o ator Brunno Rodrigues.  Informações do filme:
Gênero: Documentário
Diretor: Rodrigo Mac Niven
Duração: 80 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português
Qualidade de Vídeo: webrip
Vídeo Codec: V_MPEG4/ISO/AVC
Áudio Codec: AAC LC
Tamanho: 1,09 gB
Legendas: Sem Legenda

Link do torrent:
O Estopim (2014)
Via Filmes Brazukas

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ANTES N’A CASA DE VIDRO:

QUE PAÍS É ESSE? SOLIDARIEDADE SOCIAL OU PRÁTICAS DO APARTHEID?

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P.S.

“Catatau chegou legal no Vidigal
Ia haver uma blitz naquele local
O malandro pinoteou
Pouco antes da hora que a justa chegou
Por onde está, Por onde andou, Ninguém dedou
De repente no beco da grande favela
Um vulto surgiu na viela
O soldado deu voz de prisão com decisão
Do outro lado negro desempregado
Bastante desesperado
Se rende correndo e cai
Mas caiu com a mão na cabeça
Para que ninguém esqueça
O quanto pediu clemência
E não foi ouvido
Por causa da violência
Que fez chorar o soldado
Que muito mal orientado não pode evitar o mal
E nem a sorte daquele inocente lá do Vidigal…”

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2 pensamentos sobre “POR UMA ARTE DE INTERVENÇÃO CONTRA A OPRESSÃO – Reflexões pós “O Estopim” (Brasil, 2014, 80 min), documentário de Rodrigo Mac Niven

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