O POEMA CÓSMICO E SEU AUTOR – Notas sobre a poesia de Rabindranath Tagore (1861 – 1941)

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Um dos maiores sábios da Índia dos últimos séculos, Rabindranath TAGORE (1861-1941), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1913.

Não faço segredo: prefiro a companhia dos poetas à dos padres. Gosto mais da palavra brincalhona e peralta do que das pontificações arrogantes e dogmáticas. Ler Maiakóvski, Brecht, Shakespeare, Blake, Pessoa, Shelley, Brodsky, Manoel de Barros, J. P. Paes, dentre tantos outros mestres, é muito mais saboroso ao meu paladar do que as bíblias e torás e corões (apesar da beleza de certos mitos, da qualidade de certas narrativas, o texto de pregação religiosa é-me amargo). É que não creio no mito de que a Verdade caiba inteira num livro só. Acho ridículo qualquer pregador que, do alto de sua empáfia, suba em altar tendo em mãos um livro dito “sagrado”  e minta: “Toda a verdade está contida nestas páginas.”  

Contra a ideologia do Livro Sagrado que contêm a verdade toda e absoluta – lorota teocrática que convêm lançar à lata-de-lixo da História! – alio-me a Oswald de Andrade e sinto-me na selva da cultura muito mais como um antropófago, papador de poetas e filósofos, devorador de músicos e bufões, aluno também na escola de Falstaff e Quixote… Considero o conjunto dos livros, em sua maravilhosa multiplicidade e em sua estonteante infinitude, como ídolo mais digno dos meus entusiasmos do que o livro de ego-inflado que alardeia: “contenho tudo o que você precisa saber! Não leia nada além de mim!”

Considero que é melhor um mundo de leitores vorazes e curiosos, que queiram agir como abelhas nômades a colher néctar nas flores de todos os continentes, do que um mundico de leitores que estreitaram seus horizontes e tornaram-se rebanhos cabisbaixos e obedientes, que seguem caminhos apontados de cima pelo mestre, pelo messias, pelo “dono da verdade” com pose de redentor. E como ouvi uma aluna sagaz comentar dia desses em sala: “Quem se mete a redentor acaba crucificado…”

Suspeito: que a verdade não tem dono; que o cosmos não é possuível (há limites bem estritos para a tal da propriedade privada, ó burguês!); que não se compram estrelas e cometas na bolsa de valores. Só sei que a poesia anima e revitaliza, tonifica e encanta, quando abrimos as portas e janelas a ela. Mas a poesia exige de nós um escancaro prévio, uma disponibilidade, uma abertura, uma pré-disposição psíquica que permite que jorrem adentro seus tesouros potenciais (às vezes guardados dentro de livros empoeirados e esquecidos em um canto da biblioteca mais rústica).

A poesia reflete pedaços de uma Verdade espantosa e gigantesca, mas nunca inteiramente desvelada, pois sempre permanece envolta em uma certa bruma de mistério. O lirismo talvez seja filho da percepção súbita – insight relampejante – de nossa pequenez de mortais diante das esfinges, inumeráveis e indecifráveis, propostas pela sucessão eterna de dias e noites, vivos e mortos, verões e invernos, milênios e éons.

 No poema Gitanjali de Tagore encontro algo que me soa como quintessência do poético: o poeta entoa um hino em louvor do poeta cósmico, daquele responsável por uma magnum opus que transcende o Verbo, já que não é com palavras que se fazem oceanos e montanhas, florestas tropicais e desertos imensos, nem são compostos por letras estes nossos corpos viventes e que, por costume linguístico muito sábio, chamamos por seu devido nome: organismos de carne e osso.

O eu-lírico de Gitanjali (título que significa algo como “oferendas” em formato “canção”) dirige-se a uma certa entidade que ele deseja celebrar. O poema de Tagore poderia ser enquadrado como poesia devocional, onde estamos claramente diante de um worshipper que canta a uma deidade. Desde os primeiros versos, porém, sabemos que não estamos no terreno do monoteísmo, que não é nem o Jeová dos hebreus, nem o Deus-Pai dos católicos, nem o Alá dos islâmicos Aquele que está sendo louvado. Em termos afetivos, não há sinal de ascetismo auto-mortificante nos versos de Tagore, pelo contrário, eles são sensuais e luxuriantes como uma viagem de ácido rodeada pelo colorido rebilhante do dínamo estrelada da noite rodopiante. Tagore não penitencia-se, ele canta. Ele traz os pés desnudos correndo sobre o chão do mundo, os cabelos decorados com flores colhidos no caminho, e uma harpa afinada com que musicaliza os fluxos de ar à sua volta.

E a essência do cântico de Tagore é um all is well que já a poesia beatnik, dum Ferlinghetti ou dum Kerouac, identificava com os grandes gênios do jazz. Charlie Parker com seu sax é um pouco como Tagore com seu verbo poético destravado: ambos são como pássaros que expressam-se através da música. É como um cantor que o eu-lírico de Tagore pretende aparecer diante da Presença daquele que celebra. Descreve-se como alguém “embriagado com a delícia de cantar” (drunk with the joy of singing) e dedica muitos versos a sacralizar a música como fluxo sagrado (holy stream) que veleja pelos ventos.

A música, em Tagore, como já era em Pitágoras há mais de 2.500 anos atrás, não é compreendida como circunscrita ao âmbito do ser humano: também as abelhas e os colibris, também os macacos e as baleias, também as ondas quebrando nas praias e as estrelas brilhando no firmamento, fazem música, como nós. O poema de Tagore é só um riachinho de música que deseja somar-se ao grande coro cósmico, oceânica polifonia do Universo em existência. Não falta ao cosmos som e fúria. E Deus, se existir, é poeta.

Donde a força da poesia de Tagore é justamente a consciência epifânica que ele tem de sua fraqueza, de sua pequenez. O poeta sabe que é pouco diante daquele que chama “Master Poet”, o escritor dos céus estrelados, o arquiteto dos planetas rodopiantes, o compositor das gargantas de todos os vivos… “Minha vaidade de poeta morre de vergonha diante da tua visão, ó master poet!” Tagore sabe que nenhum poeta humano pode rivalizar com o poeta cósmico que, num lirismo que transcende o verbo, sem precisar de letras ou fonemas, compôs nebulas, fabricou protozoários, fez advir dinossauros, seguiu adiante em mutante mutância e em fluxidão sempiterna.

Em transe diante da cósmica transa, Tagore torna-se um místico, prenunciador de hippies e beatniks, que fala de Deus em termos que parecem deleitosos absurdos: “God’s garment is covered with dust.” Que eu traduziria livremente por: “a roupa de Deus está toda suja de terra”. Verso de poeta místico que convêm não explicar demasiado, sob o risco de pôr em perigo, por excesso de claridade, o que o autor quer neblinoso e enigmático. De todo modo, Tagore parece-me muito próximo de um panteísta à la Spinoza, que canta seus evoés (belíssimos) ao deus sive natura, ao deus-idêntico-à-natureza.

Assim, sua poesia pode ser “instrumento” para transcender o ego, peregrinação poética que ajuda na conquista do Nirvana, pois acorda a consciência para tudo aquilo que supera a estreiteza do ego, esta auto-decretada mônada que pretende terminar nas fronteiras do próprio corpo. O eu de Tagore é tão expandido que ele, longe de mônada solitária e deprimida, abraça Shiva em sua dança, acompanha as bacantes dionisíacas, afina sua harpa dourada e destila uma canção de boas graças, feliz pela pertença ao conjunto do cosmos-que-se-cria em uma espantosa auto-poiésis que, ainda que estejamos longe de compreender por inteiro, não podemos evitar, testemunhando, uma admiração estupefata. Mais ou menos o estado de espírito em que eu pensava quando batizei o blog Awestruck Wanderer, que pretende ser propiciador de peregrinações poéticas.

Eu diria que Tagore é um poetinha, sabedor de sua pequeneza, que mergulha no oceano do mega-poeta, aquele que alguns chamam de Criador, e que Tagore não permite, em seu teo-misticismo, que esteja hoje aposentado e inativo: Tagore não crê que o ato criador ficou pra trás. Em Tagore, a criação é dança contínua, o poeta cósmico não pára de inventar novidade. E tudo o que constitui o mérito do poeta humano é ser uma espécie de caixa de ressonância desta Presença Criadora que desenrola-se eternidade afora, manifestando-se em nós, diante de nós, ao nosso redor, e à qual somos às vezes cegos e semi-conscientes.

Eu diria que Tagore tece versos que tem por tema principal o poema cósmico e seu autor. Conserva-se, portanto, a ideia de algum tipo de criação divina, equiparada a uma obra-de-arte infinitamente continuada, já que o master poet não se cansa e não descansa. Fabrica e aniquila mundos enquanto pula suas cirandas de Shiva. O deus de Tagore não descansa no sétimo dia. Ele está poetando agora mesmo. Aqui-e-agora. Em mim, em ti, no colibri.

Evocando um dos mais belos versos de Lucrécio, poeta romano do século I a.C., que recomendava a serenidade de espírito diante da morte dizendo: “por que não deixar o banquete da vida como um conviva saciado?”, Tagore também nos legou trechos de profundo sabor epicurista, solares como Horácio às vezes tem o dom de raiar. Antes de deixá-los lerem o poema Gitanjali na íntegra, encerro este prelúdio citando o cantor de Tagore, com a lira dourada em mãos, entoando:

“I have had my invitation to this world’s festival, 
and thus my life has been blessed. 
My eyes have seen and my ears have heard.
It was my part at this feast 
To play upon my instrument, 
and I have done all I could.”

TAGORE

* * * *

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“GITANJALI – SONG OFFERINGS” 

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Thou hast made me endless, such is thy
pleasure. This frail vessel thou emptiest
again and again, and fillest it ever with
fresh life.

This little flute of a reed thou hast carried
over hills and dales, and hast breathed
through it melodies eternally new.

At the immortal touch of thy hands my little
heart loses its limits in joy and gives birth
to utterance ineffable.

Thy infinite gifts come to me only on these
very small hands of mine. Ages pass, and
still thou pourest, and still there is room to fill.

When thou commandest me to sing it
seems that my heart would break with
pride; and I look to thy face, and tears
come to my eyes.

All that is harsh and dissonant in my life
melts into one sweet harmony–and my
adoration spreads wings like a glad bird
on its flight across the sea.

I know thou takest pleasure in my singing.
I know that only as a singer I come before
thy presence.

I touch by the edge of the far-spreading
wing of my song thy feet which I could
never aspire to reach.

Drunk with the joy of singing I forget
myself and call thee friend who art my lord.

I know not how thou singest, my master!
ever listen in silent amazement.
The light of thy music illumines the world.

The life breath of thy music runs from sky
to sky. The holy stream of thy music
breaks through all stony obstacles and
rushes on.

My heart longs to join in thy song, but
vainly struggles for a voice. I would
speak, but speech breaks not into song,

and I cry out baffled. Ah, thou hast made
my heart captive in the endless meshes of
thy music, my master!

Life of my life, I shall ever try to keep my
body pure, knowing that thy living touch is
upon all my limbs.

I shall ever try to keep all untruths out from
my thoughts, knowing that thou art that
truth which has kindled the light of reason
in my mind.

I shall ever try to drive all evils away from
my heart and keep my love in flower,
knowing that thou hast thy seat in the
inmost shrine of my heart.

And it shall be my endeavour to reveal
thee in my actions, knowing it is thy power
gives me strength to act.

I ask for a moment’s indulgence to sit by
thy side. The works that I have in hand I
will finish afterwards.

Away from the sight of thy face my heart
knows no rest nor respite, and my work
becomes an endless toil in a shoreless sea
of toil.

Today the summer has come at my window
with its sighs and murmurs; and the bees
are plying their minstrelsy at the court of
the flowering grove.

Now it is time to sit quite, face to face with
thee, and to sing dedication of live in this
silent and overflowing leisure.

Pluck this little flower and take it, delay
not! I fear lest it droop and drop into the
dust.

I may not find a place in thy garland, but
honour it with a touch of pain from thy
hand and pluck it. I fear lest the day end
before I am aware, and the time of offering
go by.

Though its colour be not deep and its smell
be faint, use this flower in thy service and
pluck it while there is time.

My song has put off her adornments. She
has no pride of dress and decoration.
Ornaments would mar our union; they
would come between thee and me; their
jingling would drown thy whispers.

My poet’s vanity dies in shame before thy
sight. O master poet, I have sat down at
thy feet. Only let me make my life simple
and straight, like a flute of reed for thee to
fill with music.

The child who is decked with prince’s
robes and who has jewelled chains round
his neck loses all pleasure in his play; his
dress hampers him at every step.

In fear that it may be frayed, or stained
with dust he keeps himself from the world,
and is afraid even to move.

Mother, it is no gain, thy bondage of
finery, if it keep one shut off from the
healthful dust of the earth, if it rob one of
the right of entrance to the great fair of
common human life.

* * * *

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On Being: He bestowed the title “Mahatma” on Gandhi. He debated the deepest nature of reality with Einstein. He was championed by Yeats and Pound to become the first non-European to win the Nobel Prize for Literature in 1913. Rabindranath Tagore was a polymath — a writer and a painter, a philosopher and a musician, and a social innovator — but much of his poetry and prose is virtually untranslatable (or inaccessibly translated) for modern minds. We pull back the “dusty veils” that have hidden his memory from history.

Listen to the podcast: https://soundcloud.com/onbeing/anita-desai-and-andrew-robinson-the-modern-resonance-of-rabindranath-tagore

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Sadhana: The Realisation of Life Download e-book (McMillan, 1913, English) or Listen to audiobook:

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Precious poets previously published @ Awestruck Wanderer:

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Weird in the head and wild at heart.

4 pensamentos sobre “O POEMA CÓSMICO E SEU AUTOR – Notas sobre a poesia de Rabindranath Tagore (1861 – 1941)

  1. Nossa, pontos instigantes, mesmo que o entusiasmo tenha me soado verdade absoluta. Fiquei pensando, pensando, pensando. E isso é bom

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  2. Michele Viviane Vasconcelos disse:

    Que belíssimo texto! Poesia, música, natureza e liberdade de pensamento. Contagiante! Pra inspirar dessa forma, Tagore é mesmo incrível.

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá, Michele! Obrigado. Realmente contagiei-me com Tagore desde que o conheci, cerca de um ano atrás, e agora meu plano é ler tudo que encontrar desta grande figura da Índia (e do mundo!). Em breve, compartilho uns ebooks dele que estou reunindo e te aviso, caso te interesse ler mais a fundo, ok? (Infelizmente, só em inglês!)

      Volte sempre 😉

      Curtido por 1 pessoa

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