REFLEXÕES SOBRE A FORÇA E A VIOLÊNCIA NA FILOSOFIA DE MICHEL SERRES E SIMONE WEIL

PRELÚDIO

“Por que não deixaríamos
o banquete da vida
como convivas saciados?” 

Lucrécio (Séc. I A.C.)

Que sejam bem-vindos todos os mortais, convidados à convivência fraternal aqui neste cyberjardim, onde planta-se a semente da Philia no chão comum, na vontade de que germine e frutifique!

 Entrego aqui à Teia Mundial da WWW um hipertexto, verbal e audiovisual, aberto à devoração antropofágica e ao comentário livre de todos e quaisquer dos humanos mortais que saibam decifrar sua linguagem talvez um pouco tortuosa (mas é que são tortuosos os caminhos da força e da violência, que se trata aqui de sondar com curiosidade e sem medo!).

Os textos aqui entregues foram tecidos talvez como uma vereda de caminhos difíceis, mas caminháveis, nos quais compartilho alguns frutos de estudos, algumas explorações de temas que andam me interessando e me inquietando – e não sei filosofar senão na inquietude!

É uma tentativa de pesquisar em aberto. Aqui no blog vão sendo disponibilizados estes escritos, que são como que os cadernos de um professor-aprendiz, rebentos de uma outra fase, de alguém que vê-se na condição repleta de novidade do sujeito ensinante. Textos nascidos de dentro do processo de estar vivenciando muitas ótimas experiências como próf de filô no IFG (Instituto Federal de Goiás), mas que continuam sendo textos de alguém que prossegue no pique do aluno, nos corres da descoberta

Creio que professor tem que seguir investigando, caso contrário torna-se uma múmia paralítica, a promulgar verdades fixas do alto de sua cátedra. E professor não é padre, pastor, demagogo, idéologo, porra nenhuma: é a antítese do pregador de verdades absolutas e divinas. Aquele que pretende-se dono da verdade e quer pregá-la para forçar os outros a segui-la é alguém de atitude que não me atrai nem um pouco e que, nos professores que tive, dava-me uma certa repulsa. Pra lembrar Gonzaguinha, creio que há virtude em alguém sentir-se “eterno aprendiz”.

Hoje, sem me sentir velho, tampouco sinto-me “verde” e imaturo: este que atingiu suas 3 décadas de vida humana chegou não a um lugar de paragem, de fixidez, mas pelo menos ao resultado atual de um amadurecimento, e agora vê-se nesta fascinante posição, tão cheia de responsabilidade e promessa, do sujeito ensinante. Um professor-aluno na era da Internet, tentando ir em frente e avante, mas rodeado pela barbárie e acossado pelas marés montantes dos fascismos horrendos.

Nunca foi fácil ser vivo. Sempre foi perigoso ser mortal. Ainda assim, prosseguimos e convivemos.

Sinto visceralmente que professor que chegou a um estado onde parou de aprender e agora só ensina é um bicho bastante preocupante. Professor tem que continuar sendo aluno, pois professor que não aprende tem tudo para tornar-se um chato pedante, um arrogante papagaio de saberes supostamente acabados. Não sinto-me acabado, mas um mortal que vive e vai se fazendo, num improviso existencial um tanto  jazzístico. Ensinar é um aprendizado e sempre se vive um pouco de improviso. Professor que não aprende com aluno é bicho tapado.

Aqui, em aberto, neste blog, neste texto (e nos outros), pretendo praticar um questionamento e uma reflexão no aberto e no fluxo – como num Jardim de Epicuro, ao qual todos vocês estão convidados a frequentar… Deitem à vontade nas relvas, puxem um papo sempre que quiserem, colham frutos e embriaguem-se com suaves ervas, aqui reina a philia! 

Quero pôr-me a praticar aqui uma filosofia sem mapas prévios, sem ideologias a servir de joelhos. Uma filosofia para andarilhos sem respostas. Uma filosofia para questionadores, para fascinados, para aqueles que enxergam a vida, individual e coletiva, um pouco como mistério (em parte decifrável), um pouco como quebra-cabeça (e sempre faltam tantas peças para compreendermos o quadro todo, “the big picture” [como canta Bright Eyes!]).

A Internet possibilita que, ao invés de manter preso na gaveta aquilo que tenho pesquisado e descoberto, que isto seja posto em comum, para que também possa ser influenciado por esta própria abertura, pelos comentários e repercussões que o autor muito contente ficaria de receber: o eco dos feedbacks é uma das maravilhas que faz com que a vida não seja deserto solitário, mas espaço de convivência. Os mortais são convivas debaixo das mesmas estrelas. Embarcados no mesmo rio cósmico, somos corpos-barcos seguindo o declive desta enxurrada que é a vida. Irmãos em potencial somos: ainda que não tenhamos nascido das mesmas mães, somos todos filhos da Natura Creatrix, da Pachamama, da PanPresente Gaia.

Se falo como um hippie, é culpa desta mescla de Hendrix com Michel Serres, de Lennon com Suzuki, de Leminski com Raul Seixas, que constitui este meu cérebro aberto às influências dos meus semelhantes. Busco neles ardor e verdades, furor e loucuras, sem pudor de misturar poetas e pintores, filósofos e músicos. Conhecer é múltiplo. E às vezes desnorteia. Não troco por nada este desnorteio excitante pela apatia da ignorância.

Infelizmente, somos também capazes de fratricídio e barbárie. Com potencial para a fraternidade e para a chacina, oscilamos nessa gangorra. Cabelos ao vento, de pés agarrados ao chão deste planeta que já viu extinguirem-se Neandertais e Dinos, seguimos nosso caminho tão repleto de insânia, tão raramente iluminado por sábios preciosos como os Epicuros e Budas e Spinozas. Vivemos com os joelhos atolados no pântano deste rio de sangue que derramamos, o sangue de nossos semelhantes, o sangue dos mortais e dos animais, e ainda assim temos algo que nos impele para esta bela tarefa da construção de convívio, convivência, comunidade.

Que o convívio humano possa ser fraternal e belo é algo que meu coração um tanto anarquista encontra felizmente realizado em certos pontos do real. Fortaleço-me em minha humanidade ao pensar nos camaradas de Sierra Maestra, outrora, e nas montanhas de Chiapas, nos últimos tempos, apesar de admirá-los à distância, inspirado pelo exemplos de figuras como Che e  Marcos. O cortejo triunfal da violência e da barbárie, é o que me fortalece, não passa nunca sem que se confronte com uma resistência, com a indignação dos rebeldes, com a virtude corajosa dos que se recusam a deixar a opressão e a tirania reinar inconteste.

Sei também dos conjuntos humanos aprazíveis e benéficos; e não sei exemplificá-los melhor do que dizendo: ó que lindeza é uma orquestra filarmônica! Que harmonia coletiva emana de um coro de vozes e uma sinfonia de instrumentos! Que boniteza indizível é esta polifonia harmônica trazida à tona pela interação conjunta dos músicos quando estes vivificam, através da performance comum, a beleza pungente e deliciosa de um Mozart, um Schubert, um Beethoven, um Dvorak…

Por outro lado, a que extremos de discórdia e de chacina não podem chegar os humanos! Diante de tal mistura de angelical e demoníaco, de herói e de vilão, quis explorar o mistério de ser humano, sua glória e sua miséria, sem pressupostos, navegando com meus guias filosóficos prediletos. Saio aqui em viagem de pensamento, jornada de reflexão, e pretendo escrevê-la em aberto, tecendo minha teia verbal na rede, pois ¿não age assim também a  aranha ao ir tecendo a sua teia?

Esta aranha humana que aqui vos interpela, mortais, pretende apenas capturar em sua teia algumas realidades, ainda que de gosto amargo, ainda que pareçam indigeríveis. Este andarilho pelas pradarias do saber, este aventureiro das ciências e das artes, este aprendiz que quer aprendizados colhidos entre sábios e entre loucos, este buscador que aceita lição de gays e de prostitutas tanto quanto de presidentes e papas, este awestruck wanderer que guia-se mais pelo espanto e pela dúvida do que pelas certezas ortodoxas, ataca aqui o problema tão difícil, tão fascinante, que na vida de cada um de nós impõe-se tão radicalmente, da violência, da barbárie, enfim, o antiquíssimo tema do mal. Mal tão arcaico e tão sempiterno, tão antigo e tão contemporâneo. Mal lá fora, mal aqui dentro.

É também uma busca por esta força justa que contrapõe-se ao maléfico, ao danoso, ao mortífero, ao que adoece nosso corpo e avilta nossa dignidade; esta força ativa e criativa, aquilo que os filósofos chamam de virtude, de sabedoria, de aretê, de sophia. Força alegre de criação e invenção daquilo que nos supera e nos amelhora. Pois o que importa é jamais repetir as carnificinas de outrora: que não haja mais Ifigênias imoladas. Que o futuro seja desprovido de Hitlers. Que os fascismos e o totalitarismos sejam mortos e enterrados, restritos aos museus e livros de história. A tarefa é fazer com que Philia reine, que Vênus prevaleça sobre Marte, que o Jardim Fraterno tenha primazia sobre a carnificina das batalhas. Lucrécio, subindo nos ombros de Epicuro, aponta o rumo. Assim como Michel Serres e Simone Weil. E também os mestres zen. Eis a jornada pela frente, brevemente delineada.

I. DO ABISMO ENTRE DIREITO & JUSTIÇA

“Nunca se esqueça que tudo que Hitler fez na Alemanha era legalizado.” (Martin Luther King)

Só em um mundo ideal, harmônico, perfeito, utópico (do grego a-topos, sem lugar, pois não se encontra em lugar nenhum do real, habitando neste “espaço” meramente especulativo do Ideal…), só aí, na Utopilândia, na Cucolândia das Nuvens de que nos fala Aristófanes, a Justiça e o Direito estão perpetuamente em um amplexo amorável, em cópula gostosa, unidos e indissociáveis, constituindo o Reino Róseo da Fraternidade Humana Oni-Harmoniosa.

No real, a utopia é algo que sonha-se, mas que escapa ao nosso abraço, como diz Eduardo Galeano: caminhamos dez passos em sua direção, e a utopia dá dez passos atrás, furtando-se ao encontro. No entanto, caminhamos. Não necessariamente para o melhor.  Pois neste grande pesadelo desperto da História (“History is a nightmare from which I’m trying to awake”, para lembrar James Joyce), neste Theatrum Mundi onde desenrola-se de fato a vida dos mortais, não é preciso ser Shakespeare para perceber que o Direito às vezes é injusto, as leis com frequência infames e bárbaras, os árbitros e juízes com frequência tenebrosos, corruptíveis, vingativos, cruéis, kafkianos.

Por exemplo, como dizia Martin Luther King (que morreu assassinado pela barbárie), havia na matança organizada pelo regime Hitlerista todo um esforço de justificação, de legalização, de tornar lícito no Direito aquilo que hoje tão claramente sentimos como o fascismo bárbaro e terrorista da Shoah, da horrenda “Solução Final”, este ápice das atrocidades naquilo que o historiador Eric Hobsbawm chamou “A Era dos Extremos”.

A partir de 1933, quando chega ao poder o chanceler messiânico, autor do Mein Kampf, líder supremo deste totalitarismo genocida que tanta barbárie causou entre 1933 e 1945, instaurou no Direito, como legítimo, o extermínio em massa dos judeus. E tudo o que os nazis fizeram, todos os atos da Gestapo e dos SS, eram legais, ou melhor, foram tornados legais a partir do domínio sobre o aparato Jurídico, Policial, Militar, Carcerário, Burocrático, enfim: Estatal, conquistado por esta facção política que eram os nazis, infelizmente demasiado apoiados por vastas massas populares. Uma das mais tristes lições da História é esta: o Fascismo às vezes é Pop. Daí seguem-se devastações imensas. 

Eichmann, no tribunal de Jerusalém, como Hannah Arendt tão bem relatou, poderá manter sua pose de “cidadão de bem”, defensor da família, da religião, da propriedade, da tradição, justificando sua participação cotidiana no massacre da Shoah com uma velha desculpa: “eu apenas seguia ordens.” O fascismo funciona como maquinaria autoritária de controle e extermínio, exercida por uma fração da sociedade sobre o que esta facção decreta como “resto”. Judeus, ciganos, negros, índios, homossexuais etc., quando são declarados como sub-humanos sacrificáveis, eis o fascismo em uma pílula.

Mas o fascismo só ganha eficácia se puder pôr a seu serviço toda uma legião de funcionários. O führer era um só, é verdade, mas havia milhares de funcionários descerebrados dispostos a liberar o venenoso pesticida Zyklon B sobre seus irmãos, afinal “eram ordens de cima”.  Tampouco faltaram aqueles yankees obedientes que, dos seus aviões, borrifavam o Vietnã com o Agente Laranja (made by Monsanto) – o chefe tinha mandado, as ovelhinhas desumanas obedeciam. Todo regime fascista precisa de “gente normal” a manipular como títeres – e é chocante a quantia de gente que se presta a isso e que deixa-se aliciar por psicopatas demagogos, obedecendo àquilo que a dignidade humana e a fraternidade possível manda-nos recusar.

 O Holocausto evidentemente não era justo, mas tornou-se legalizado – abismo entre Direito e Justiça. O III Reich fez de seu Direito uma encarnação da barbárie. Por que o fascismo torna-se pop? A melhor resposta, creio eu, está em Erich Fromm e Wilhelm Reich, elucidada por Medo à Liberdade Psicologia de Massas do Fascismo. A liberdade pode ser sentida como um fardo, que nos implica com nossa escolha, que pesa sobre a consciência como responsabilidade, de modo que é mais fácil seguir o fluxo, obedecer às ordens, atribuir todo poder decisório a alguém que ordena, de cima para baixo, o caminho a seguir.

O fascismo torna epidêmico os descerebrados obedecimentos dos autômatos, a ausência perigosa de autonomia e capacidade crítica. O fascismo é simplista, reducionista, sectário, apelando para os piores ímpetos tribais arcaicos das massas que mobiliza: o líder fascista apela para que as pessoas identifiquem-se com a facção, que gozem com seu pertencimento a uma partição social, e que vejam todo o mal e toda a vilania em um certo outro, alteridade condenada e diabolizada, bode expiatório a ser imolado pela gangue de fascistas em grupo, psicopatas em facção, KKK ou SS. Diante de cenários assim, Howard Zinn, historiador norteamericano, dirá sob a influência das doutrinas de Desobediência Civil, celebremente defendidas por Thoreau e Gandhi:

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“A desobediência civil não é o nosso problema. Nosso problema é a obediência civil. Nosso problema é que muitas pessoas ao redor do mundo obedeceram às ordens dos líderes de seus governos e foram a guerra, e milhões foram mortos por causa dessa obediência… nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo diante da pobreza, da fome, da estupidez, da guerra e da crueldade. Nosso problema é que as pessoas são obedientes diante de cadeias que estão cheias de batedores de carteira, enquanto grandes bandidos governam a nação. Eis aí o nosso problema.” – Howard Zinn, historiador e cientista político. ACESSE: HOWARD ZINN EM PORTUGUÊS [BLOG]

Michel Serres falará de uma tendência histórica que há, contrapondo-se à barbárie, que procura fazer a História avançar, progredir, melhorar:

“A História avança, se podemos dizê-lo, quando uma disposição legal, aparentemente mais justa, substitui e anula a precedente, subitamente experimentada  como sobrecarregada de iniquidade. Sem esse movimento, jamais teríamos mudado de governo, nem nossas instituições e costumes evoluiriam. As leis saltam de injustiças duras para outras, mais brandas, com a justiça servindo de horizonte inacessível? Sejamos realistas; pois, como temos experimentado, nossa história constitui-se também de recuos; retrocessos misturam-se a progressos. Pior: nem sempre conseguimos avaliar o verdadeiro sentido, positivo ou negativo, desses dois movimentos.” (SERRES, A Guerra Mundial, pg. 88)

Nada nos permite crer na lenda otimista de uma História que só vai em direção ao melhor. O Progresso necessário é um mito, ou seja, quiçá uma mentira. Muitas guerras já foram deflagradas com a justificação de que trariam o progresso. Aqueles que envolvem-se em guerras quase sempre procuram justificativas para a carnificina, oferecem-nos uma explicação dos porquês da violência, chegando às vezes à curiosa e perigosa noção de guerra justa. Mas será que uma guerra pode mesmo ser justa, ou ela é justamente uma ofensa escabrosa à justiça? “Desconfio até inexistir, jamais ter havido guerra justa, o horror dos combates terminados em cadáveres amontoados sobrepujando, em atrocidade, a ideia de ser possível dizimar para estabelecer alguma equidade…” (SERRES, p. 88)

Zentralbild II. Weltkrieg 1939 - 45 Nach der Besetzung Frankreichs durch die faschistische deutsche Wehrmacht im Juni 1940 besucht Adolf Hitler Paris. UBz: Adolf Hitler mit seiner Begleitung nach der Besichtigung des Eifelturms. vlnr: SS-Gruppenführer Wolff, [Architekt Hermann Giesler], dahinter Generalfeldmarschall Wilhelm Keitel, SA-Gruppenführer Wilhelm Brückner, Reichsminister Albert Speer, Adolf Hitler, dahinter Reichsminister Martin Bormann, [Bildhauer Arno Breker], Reichspressechef Staatssekretär Otto Dietrich. 5527-40

Michel Serres fala, em A Guerra Mundial, de sua experiência própria, vivenciada em carne-e-osso: “durante a Liberação”, quando os franceses batalhavam para libertar-se da ocupação Nazi (que se estendeu de maio de 1940 a dezembro de 1944) , “uma guerra civil feroz estourou na França, e os mortos abundavam nos campos e nas ruas; (…) nós soubemos da Shoah (Holocausto), de Hiroshima e Nagasaki, de Dresden… Salváramos fugitivos, judeus, ciganos, mas, em relação ao número diluviano de cadáveres, eram migalhas.” (SERRES, p. 12)

Ora, Serres é um pacifista convicto, na práxis, alguém que escolheu a via da recusa ao belicismo. Mas ele compreende a guerra como algo que já pertence à história do Direito, ou seja, das táticas de regulação e domesticação da violência. “Na juventude, eu me demiti da Escola Naval, movido pelo que se chamava na época objeção de consciência. Enganei-me, confesso, ao confundir o exercício da violência com a existência do exército. Esse, não inventa nem consuma a violência, limita-a. Ele só faz combaterem adultos jovens, homens, antigamente mercenários, voluntários outrora, alistados na época… excluindo dos combates eventuais os anciãos, mulheres e crianças.” (SERRES, pg. 47)

O Direito não é santo. A guerra é um de seus meios, os exércitos às vezes suas ferramentas. Serres vai mais longe: só há guerra após o advento dos Estados. Para que seja possível que os beligerantes consintam com armistícios, tratados de paz, cessar-fogos, é preciso que já exista pelo menos um rudimento de Estados, constituídos, com algum Direito. “São necessários Estados para fazer a guerra, isto é, instituições já legais. A expressão “O Estado faz a guerra, e a guerra faz o Estado” parece-me conter também esse sentido jurídico(…) A guerra pressupõe um Contrato social. Ela se segue a ele; não conseguiria precedê-lo; acho mesmo que são contemporâneos.” (SERRES, pg. 90)

DENTRE OS TALENTOS HUMANOS, A MATANÇA ORGANIZADA E  A INCAPACIDADE DE ABOLIR A VIOLÊNCIA

“A guerra pode ser definida como organização da matança“, escreve Michel Serres em A Guerra Mundial (Editora Bertrand, Rio de Janeiro, 2008, pg. 25). Desde tempos imemoriais acontecia (e acontece até hoje em dia) que “depois de mil massacres na fornalha das batalhas, alguns medrosos grisalhos e frios, sãos e salvos, condecoravam os sobreviventes, feridos, com medalhas e os tratavam de heróis.” (pg. 26)

Serres também lembra, com René Girard, dos bodes expiatórios de que a História – pesadelo que passa? – está repleta: “ritos arcaicos e sacrificais, inteiramente inventados para desviar a violência coletiva para a imolação de uma vítima, o bode expiatório, que todos os que o matavam acreditavam culpado.” (p. 119) Ifigênia, lamentada por Lucrécio no Canto I de Da Natureza, é o símbolo imorredouro: virgem, pura, inocente, degolada no altar, a mando de seu próprio pai Agamemnon, o que arranca do poeta romano o seguinte lamento, cheio de blues: “A tão grandes males a superstição humana pode conduzir!”

A violência não é nova, na real é antiquíssima. A heroicização do homem viril, briguento, derramador de sangue, Hercúleo, bombado, que fala grosso, com fúrias de Aquiles, sangue-no-zóio como Agamemnon (que não tem misericórdia nem mesmo de sua filha Ifigênia!), tudo isso é bem arcaico e bem atual. Ainda hoje, temos serial killers com “sangue-azul”, gananciosos por tronos feito os Shakespeareanos Macbeths e Ricardos Terceiros. O belicismo viril, o falocentrismo briguento, a rivalidade descerebrada, a agressão gratuita, são dessas desgraças persistentes, destes estrupícios duráveis, que fazem da vida este treco um tanto difícil de ser digerido. A matança organizada prossegue entre nós como um legado obsceno do Patriarcado (Dominação Patriarcal que é ao mesmo tempo atual e arcaica). Hoje sobrevive uma barbárie cuja data de nascença é muito antiga e que continua sendo nossa tarefa contemporânea enfrentar, desconstruir e vencer. Smash it!

Estamos, é claro, muito longe de abolir a violência: não passa no mundo um minuto onde não registrem-se inúmeros casos de violência, e não somente os humanos, pois o lobo refestela-se com o banquete fornecido pelo assassinato que comete contra a lebre. Todo bicho que come um dia acaba por ser comido, lei natural necessária e sem escapatória. Resta a pergunta: é possível alguma sociedade, algum arranjo comunitário, onde a violência seja reduzida ao mínimo?

A utopia de uma sociedade que tivesse abolido a violência: quem é capaz de crer na possibilidade de realização disto? É claro que temos lindos exemplos de comportamento pacifista, belamente expressado, nas figuras de um Mahatma Gandhi ou de um John Lennon. Boto fé que há muito neles a ser aplaudido e celebrado (e por que não teríamos nossos heróis muito mais entre os pacíficos do que entre os guerreiros?). Mas ambos morreram assassinados. Tornar-se porta-voz do pacifismo, do brotherly love, da filantropia epicurista, do amai-vos uns aos outros, nada disso impede que um psicopata enfurecido ou um fascista bronco retire do coldre seu trabuco fálico e nos exploda o crânio com tiros. Filosofia trágica, real cheio de ágon.

Os fascistas não respeitam o paz-e-amor preconizado pelos hippies. Tem muito pacifista, na história, que tem seu discurso calado à bala. Como, diante desse quadro, agir? Em um mundo onde há a chance sempre presente de que sejamos vítimas da violência, como viver e conviver? Questão, creio eu, das mais contemporâneas que há, mas enraizada em uma vasta história. Questão que, me parece, era também visceralmente uma das experiências existenciais essenciais de Simone Weil  (1909-1943), esta pensadora preciosa e frágil, tão corajosa e tão fraca… Na companhia de Weil e Serres, coloco-me como missão, neste texto que aqui teço, sondar o enigma: a humanidade está impossibilitada de abolir a violência?

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III. POEMA DA FORÇA: SIMONE WEIL LÊ A ILÍADA

Ela, que viveu na pele a opressão que vivencia o operário e a desumanização que toma conta de todos em época de guerra, tinha em sua vida subjetiva esta mescla complexa e fascinante de gravidade e graça, de pacifismo e combatividade, que faz da leitura de Simone Weil algo que afeta o leitor em um nível muito mais fundo do que a razão. Simone emociona até o tutano dos ossos, comove como nenhum melodrama consegue. E que surpresa que tudo isto esteja escondido por trás de um livro com um título promissor de áridos marxismos – como A Condição Operária. 

Leitora da Ilíada, Simone Weil enxerga ali o problema filosófico da força, que interessa-lhe intensamente. O problema da violência, de sua abolição possível, está conectado ao problema da força, e não apenas da força humana. Homero é um poeta tão poderoso pois a Ilíada e a Odisséia são palcos iluminados para as manifestações da força, os embates entre diferentes forças, o conflito que há na existência e que os gregos chamavam de ágon. 

“Como definir força? É aquilo que transforma aquele submetido a ela em uma coisa”, escreve S. Weil em Ilíada – Poema da Força. “Exercida até o limite, a força realmente transforma o ser humano que é submetido a ela em uma coisa ao fazê-lo virar um cadáver. Fulano estava lá, vivo, e um instante depois não há nada ali além de um morto: eis um espetáculo que a Ilíada não cansa de apresentar-nos.” (SIMONE WEIL, Iliad: Poem of Force, pgs. 3-4-10.)

Pessimismo? Ou realismo? De todo modo, Weil e Serres sabem muito bem que a vida e a violência enredam-se de tal maneira uma com a outra que parecem indissociáveis. Era também a experiência de Heráclito e Nietzsche, de Foucault e Karl Polanyi. A ideia de que o ágon é parte integrante da condição humana, que a violência e o conflito fazem parte do próprio tecido da natureza, também marca presença em alguns dos pensadores mais importantes dos últimos séculos: Darwin e seu struggle for existence, a luta pela sobrevivência; Marx & Engels afirmando a luta de classes como motor da história; Sigmund Freud especulando sobre o Instinto de Morte, em conflito com Eros, e meditando em sua psicologia – tanto a individual quanto a de massas – sobre ímpetos agressivos, marciais, tanatocêntricos; todos esses caldeiões de ideias são evidências desta presença, através de todo o tecido do real, da força, do combate, da violência.

Capitalisme - Child Labor

A história do Capitalismo e do Patriarcado, o império da dominação burguesa e viril, imbricam-se para erigir um sistema social que cotidianiza a violência e a opressão, como vemos nas crianças operárias da foto acima, pequenos “motores” de carne-e-osso da Revolução Industrial e suas fábricas que eram como “moinhos satânicos” (Cf. A GRANDE TRANSFORMAÇÃO, de Karl Polanyi)

* * * * *

Na sequência, compartilho um texto que escrevi em Toronto, durante o ano que passamos no Canadá (2014), para o blog paralelo Awestruck Wanderer, em que falo sobre o livro de Simone Weil, Ilíada – Poema da Força, e tento conectá-lo com o zen budismo. Infelizmente, não tenho tempo no momento para traduzi-lo do inglês ao português:

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“The true hero, the true subject, the center of the Iliad is force. Force employed by man, force that enslaves man, force before which man’s flesh shrinks away.

To define force – it is that X that turns anybody who is subjected to it into a thing. Exercised to the limit, it turns man into a thing in the most literal sense: it makes a corpse out of him. Somebody was there, and the next minute there is nobody here at all; this is a spectacle the Iliad never wearies of showing us.

 Nearly all the Iliad takes place far from hot baths. Nearly all of human life, then and now, takes place far from hot baths…

Such is the empire of force, as extensive as the empire of nature.”

SIMONE WEIL  (1909-1943),
Iliad: Poem of Force, pgs. 3-4-10.

 

6Simone Weil reads the Iliad as if she’s witnessing, before her compassionate eyes, those occurrences evoked by the poet’s verses: she doesn’t turn her face away, refusing to see, when the horrors of war are graphically depicted in Homer’s blood-soaked pages. The war between Trojans and Greeks offers infinite occasions for us to reflect upon Force, especially in its deathly effects. What always results from battles is men laying lifeless on the ground, “dearer to the vultures than to their wives”, as Simone Weil stresses, and even the greatest heroes – Hector or Achilles – are frequently reduced to things by the enemy’s force. “The bitterness of such a spectacle is offered us absolutely undiluted. No comforting fiction intervenes; no consoling prospect of immortality; and on the hero’s head no washed-out halo of patriotism descends.” (WEIL: p. 4)

If there’s a lot of tragedy in the Iliad – and it surely has, even tough it was written centuries before the Greek tragedians (Aeschylus, Sophocles, Euripides etc) were born – it’s because force is often employed with tragic effects. It’s clear to me that Simone Weil uses the concept of “force” to denote something she morally condemns, and in such a manner that one might fell she has affinities with several branches of Eastern wisdom, especially Buddhist ethics.

For example, D. T. Suzuki’s Zen Buddhist philosopy, in which he opposes Power and Love and describes them as hostile to one another. Force/power is imposed upon a subject in order to reduce him to a thing, either by killing him (and thus forcingly throwing him back into the inanimate world), either by violating, humiliating, opressing or harming him in such a way that the person is still alive and breathing, but is no longer an autonomous subject. “A man stands disarmed and naked with a weapon pointing at him; this person becomes a corpse before anybody or anything touches him… still breathing, he is simply matter.” (WEIL: pg. 5)

A difference or imbalance between the forces of two individuals are excellent evidence of the onthological presence of Simone Weil’s force or Suzuki’s power among all that’s human. Trivial examples abound. Someone with a bazooka overpowers someone with a knife. A knifed man forces an unarmed woman into carnal processes she wouldn’t unforcibly agree to – I’m describing a rape. There are hundreds of movie scenes, especially in westerns and action-packed blockbusters, that tell stories about this battle of forces and powers. But for millenia before cinema was invented, human history contained in its bosom duels, rivalry, competion. One of the most ancient of literary monuments of the world, Homer, has the blood of battles soaked all over his pages. To speak like a Greek, human history is filled with ágon and húbris.

Weil writes about the Iliad being a French woman in the industrial-commercial age. Surely her experience in Renault’s factory, where she worked in order to experience in the flesh the fate of the proletariat, informs her readings of History as a whole. The factorys of the 20nd century are forces that dehumanize men, turns humans into things. The oppresion she dennounced on her writings, such as La Condition Ouvrière, well, she can sense similars processes of oppression and murderous folly, all mirrored in the Iliad.

Iliad

“There are unfortunate creatures who have become things for the rest of their lives. Their days hold no pastimes, no free spaces, no room in them for any impulse of their own. It is not that their life is harder than other men’s nor that they occupy a lower place in the social hierarchy; no, they are another human species, a compromise between a man and a corpse. The idea of a person’s being a thing is a logical contradiction. Yet what is impossible in logic becomes true in life, and the contradiction lodged in the soul tears it to shreds. This thing is constantly aspiring to be a man or a woman, and never achieving it – here, surely, is death but death strung out over a whole lifetime; here, surely is life, but life that death congeals before abolishing.” (WEIL: p. 8)

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In the epoch that the Iliad narrates, that is: The Greeks against Trojans Mega-War, it was the destiny of a conquered enemy to become a slave, that is, to be turned into a thing, deprived of autonomy. Homer describes in some occasions how people are forced into ships, taken away “to a land where they will work wretched tasks, laboring for a pitiless master” (HOMER. Iliad. Apud WEIL: p. 9).

A person enslaved is being treated like a beast, like a horse on reins. 12 Years A Slave, Scott McQueen’s film, is a fresh reminder of these horrors. Simone Weil denounces the in-humanity in human affairs wherever she sees it: be it on a Greek epic-poem, be it in the factories of the capitalism’s car-making industries. In this we can see how Simone Weil joins hands once again with Buddhist ethics: she denounces the ways in which misused force, or tyranny, disrespects sentient beings by treating them as if they were inert matter.

What Weil and Suzuki denounce in the workings of Force and Power is that lack of compassion which Buddhist ethics, by dissolving the ego, aims to cure ourselves of. Enlightnement or Nirvana, in Buddhism, can’t be achieved without compassion. And it may also be argued that French philosophy in the 20nd century has few voices more compassionate than Simone Weil’s.

“Force is as pitiless to the man who possesses it, or thinks he does, as it is to its victims; the second it crushes, the first it intoxicates. The truth is, nobody really possesses it. In the Iliad there is not a single man who does not at one time or another have to bow his neck to force.” (WEIL: p. 11)

There’s no simplistic, dualistic division between the forceful and the forceless in Weil’s philosophy – of course one can be a slave for a whole lifetime, and one can be a master and tyrant from birth to grave, but force isn’t something a human being can only exert upon others. Nature itself overpowers tremendously each and every one of the sentient and living creatures in its bosom, in such a way that even the most powerful among humans is still a frail thing – and always mortal, transient.

Let’s remember that the Iliad begins when a heated controversy is tearing apart two very powerful Greeks, Agamemnon and Achilles. This fight for supremacy is all around Homer’s poem, everyone wants to increase his own power, and this can’t be done by any other way than at the expense of others. The result of this mad rivalry is huge bloodshed. “He that takes the sword, will perish by the sword. The Iliad formulated the principle long before the Gospels did, and in almost the same terms: Ares is just, and kills those who kill.” (p. 14)

Mars, god of war, always ends up killing the killers.

1Certainly inspired and influenced by the philosophy of one of her dearest teachers, Alain  (Émile-Auguste Chartier, 1858-1961, author of Mars ou La Guerre Jugée), Simone Weil is a passionate apologist for philosophy’s powers against inhumanity. Because “where there is no room for reflection, there is none either for justice or prudence.” (p. 14) And she argues also: the horrors and tragedies that Homer depicts can be understood as results of lack-of-reflection, of hastiness to act, of an incapacity to refrain from agression etc.

 “Hence we see men in arms behaving harshly and madly. We see their sword bury itself in the breast of a disarmed enemy who is in the very act of pleading at their knees. We see them triumph over a dying man by describing to him the outrages his corpse will endure. We see Achilles cut the throats of twelve Trojan boys on the funeral pyre of Patroclus as naturally as we cut flowers for a grave. These men, wielding power, have no suspicion of the fact that the consequences of their deeds will at lenght come home to them – they too will bow the neck in their turn.” (WEIL: p. 14)

What’s astonishing about these last words is how closely Weil gets close to the Buddhist idea of karma. And what’s also touching is how compassionate Simone Weil truly is when she describes those numerous occasions when we fail to treat ourselves as “brothers in humanity” (WEIL: p. 15). But Weil is no Buddhist, and in the text we are following here she’s interested mainly in the Greeks, and how they also had a concept similar to karma, some sort of “retribution which operates automatically to penalize the abuse of force”. She claims this is the “the main subject of Greek thought”:

Nemesis

Greek goddess Nemesis

“It is the soul of the epic. Under the name of Nemesis, it functions as the mainspring of Aeschylus’s tragedies. (…) Wherever Hellenism has penetrated, we find the idea of it familiar. In Oriental countries which are steeped in Buddhism, it is perhaps this Greek idea that has lived on under the name of Karma. The Occident, however, has lost it, and no longer even has a word to express it in any of its languages: conceptions of limit, measure, equilibrium, which ought to determine the conduct of life are, in the West, restricted to a servile function in the vocabulary of technics.” (WEIL: p. 16)

In André Comte-Sponville’s philosophy, especially in his Short Treatise Of Great Virtues, Simone Weil’s ethical legacy lives on. It’s enough to read his wise chapters on “temperance”, “prudence” or “love” to get convinced that France’s philosophers are beautifully keeping alive the flame of these virtues, or at least hoping to spread them by inviting more humans to practise them. “A moderate use of force, which alone would enable man to escape being enmeshed in its machinery, would require superhuman virtue, which is as rare as dignity in weakness.” (WEIL: p. 20)

In Simone Weil’s ethics, moderation of force, care for the feelings of others, awareness of alterity, are virtues to be practised by those who see themselves as brothers and sisters in humanity. But when we look back at History we have few reasons to be optimistic. And besides, as Simone Weil points out with irony, we still live in times where “there is always a god handy to advise someone to be unreasonable.” (p. 21)

Simone Weil’s writings frequently denounce inhumanities commited by humans. She spreads awareness of our common humanity by showing how frequently we treated ourselves in a subhuman ways. And it’s not true that only the slaves are turned into subhumans when they are forced into slavery: the master also loses his humanity when he enslaves. And war and slavery are dehumanizing forces because they work towards destruction and death, “yet the idea of man’s having death for a future is abhorrent to nature. Once the experience of war makes visible the possibility of death that lies locked up in each moment, our thoughts cannot travel from one day to the next without meeting death’s face.” (WEIL: p. 22)

Is Weil, then, simply a pacifist, a Gandhian? Or did she approve armed uprisings against the Nazi’s occupation of Paris, for example? Her condemnation of war – bot only on “moral” grounds, but in a much broader sense, in an existential level – would necessarily lead her to a practice of non-resistance? The answer is hard to give, considering that Simone Weil, during the Spanish Civil War (1936-1939), enlisted to fight against the fascists. She can be seen in a famous photograph with a shotgun in her hands, quite willing to add a little bit of force to the Anti-Franco militias. But Simone Weil was no brute – on the contrary, she was gentleness incarnate, and her personal favorite in the Iliad is “Patroclus, who knew how to be sweet to everybody, and who throughout the Iliad commits no cruel or brutal act.” (WEIL: p. 26)

The possession of a fire arm does not imply the right to brutality or cruelty. Being armed isn’t a license to act with mad húbris. When I think of Simone Weil armed with a shotgun in Spain, willing to fight against Fascism when she saw it dangerously spreading through Europe, I can’t be simplistic about pacifism, as if it was some kind of ethical absolute. I don’t believe it is – and neither did Simone Weil back in the 1930s or did the Zapatistas under the guidance of Marcos in Chiapas, Mexico, nowadays.

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War turns us into subhumans beasts killing themselves in mad rivalry, but how on Earth are we to build a planetary community in which war has been banned, and ample dialogue and mutual enlightnement between cultures reign? For thousands of years, war seems to follow humanity, always on its trail. That ideal sung by John Lennon in “Imagine”, the Brotherhood of Man, remains to be futurely made flesh. It ain’t here now, it hasn’t been around lately, I guess, I suppose…

In Homer’s Iliad Simone Weil sees nothing to be optismistic about, just “a picture of uniform horror, of which force is the sole hero.” (p. 27) But what’s sublime about Homer’s art: the lasting artistic value of ancient epic poetry lies in the poet’s capacity to portray suffering befalling all – both Greeks and Trojans. Thus it points out to the fact that we’re all brothers in sorrow, and that’s an excellent reason for peace and compassion, as a Buddhist could put it.

“However, such a heaping-up of violent deeds would have a frigid effect, were it not for the note of incurable bitterness that continually makes itself heard. It is in this that the Iliad is absolutely unique, in this bitterness that proceeds from tenderness and that spreads over the whole human race, impartial as sunlight. Never does the tone lose its coloring of bitterness; yet never does the bitterness drop into lamentation. Justice and love, which have hardly any place in this study of extremes and of unjust acts of violence, nevertheless bathe the work in their light without ever becoming noticeable themselves, except as a kind of accent. Everyone’s unhappiness is laid bare without dissimulation or disdain; no man is set above or below the condition common to all men; whatever is destroyed is regretted. (…) Whatever is not war, whatever war destroys or threatens, the Iliad wraps in poetry; the realities of war, never. (…) The cold brutality of the deeds of war is left undisguised; neither victors nor vanquished are admired, scorned, or hated. An extraordinary sense of equity breathes through the Iliad. One is barely aware that the poet is a Greek and not a Trojan.” (WEIL: p. 30 – 32)

For Simone Weil, the poet who wrote the Iliad acted with marvelous impartiality, and sang about the misfortunes and losses, about the victories and triumphs, of both sides of the conflict, in such a way that Greeks and Trojans are shown as co-participants of a common process.

“Attic tragedy, or at any rate the tragedy of Aeschylus and Sophocles, is the true continuation of the epic. The conception of justice enlightens it, without ever directly intervening in it; here force appears in its coldness and hardness; (…) here more than one spirit bruised and degraded by misfortune is offered for our admiration.” (p. 34) The enduring existential value of such art lies in this: to be aware of human misery is “a precondition of justice and love”, claims Weil. (p. 35)

When Simone Weil affirms also that “misery is the common human lot” (p. 35), she’s once again approaching a landscape familiar to Buddhists: one of the Four Noble Truths enounced by the enlightened Sidharta Gautama is:  “all is suffering”. From this awareness  springs compassion. Love, justice, compassion, can’t arise without the clear perception of our brotherhood in suffering. However, it’s clear as water that, even tough she was born in a Jewish family, Simone Weil is deeply suspicious of the doctrines and dogmas of Judaism:

“With the Hebrews, misfortune was a sure indication of sin and hence a legitimate object of contempt; to them a vanquished enemy was abhorrent to God himself and condemned to expiate all sorts of crimes – this is a view that makes cruelty permissible and indeed indispensable. And no text of the Old Testament strikes a note comparable to the note heard in the Greek epic, unless it be certain parts of the book of Job. Throughout 20 centuries of Christianity, the Romans and the Hebrews have been admired, read, imitated, both in deed and word; their masterpieces have yielded an appropriate quotation every time anybody had a crime he wanted to justify.” (p. 36)

Belief in gods is seen as highly problematic in Simone Weil’s philosophy, even tough it would be an exageration to call her an atheist, considering the intense mystical impulses that she manifests so vividly in her ouevre. What Weil can’t stand is the arrogance of those who use religion to falsely believe they are superior to the rest, that they are immune from evils that will only befall others. When religion leads to the denial of our common humanity, Weil rejects it: “the only people who can give the impression of having risen to a higher plane, who seem superior to ordinary human misery, are the people who resort to the aids of illusion, exaltation, fanaticism, to conceal the harshness of destiny from their own eyes.” (p. 36)

We still have a lot to learn from the Greeks, including its great epic poet, and Simone Weil admires Homer’s Iliad so much that she claims that

“in spite of the brief intoxication induced at the time of the Renaissance by the discovery of Greek literature, there has been, during the course of 20 centuries, no revival of the Greek genius. Something of it was seen in Villon, in Shakespeare, Cervantes, Molière, and – just once – in Racine. To this list of writers a few other names might be added. But nothing the peoples of Europe have produced is worth the first known poem that appeared among them. Perhaps they will yet rediscover the epic genius, when they learn that there is no refuge from fate, learn not to admire force, not to hate the enemy, nor to scorn the unfortunate. How soon this will happen is another question.” (WEIL: p. 37).

These words also sound, to my ears, in tune with Buddhist ethics, especially for the praise of compassion for the suffering of others. And of course that within the realm of The Other we should include Life-As-A-Whole, and not only human life. The Buddhist notion of “sentient beings” is such a great idea, methinks, because it describes something much vaster than Mankind, something that, without being a god, certainly transcends the individual self. Dogs and cats, lions and owls, sunflowers and worms, they all belong to the great family of the living, they are all sentient beings, even tough the degree of self-cousciousness greatly varies.

If both Simone Weil’s philosophy and Buddhist ethics are worthy of our attention, study and discussions, methinks it’s mainly because of the imminent ecological catastrophes that will quake our future and will shatter the current “Western Way of dealing with Nature”. Or, to put it in another words, it won’t be possible for the West to continue in its industrial-commercial path, on its productivist húbris, in its crazy consumerism meddled with egotisticall individualism, simply because the Earth’s biosphere won’t stand for it. And if we keep on going in the same direction, we can only expect mass-scale tragic consequences arising from so much atmospherical pollution, fossil-fuel burnings, deforestations, oil spills… A wiser relationship with Nature urgently needs to emerge from the cultural slumber of destructive capitalism – or else we’re damned.

Suzuki 2

“Westerners talk about conquering Nature and never about befriending her. They climb a high mountain and they declare the mountain is conquered. They suceed in shooting a certain type of projectile heavenwards and then claim that they have conquered the air. (…) Those who are power-intoxicated fail to see that power is blinding and keeps them within an ever-narrowing horizon. Love, however, transcends power because, in its penetration into the core of reality, far beyond the finiteness of the intellect, it is infinity itself. Without love one cannot see the infinetly expanding network of relationships which is reality. Or, we may reverse this and say that without the infinite network of reality we can never experience love in its true light.

To conclude: Let us first realize the fact that we thrive only when we are co-operative by being alive to the truth of interrelationship of all things in existence. Let us then die to the notion of power and conquest and be resurrected to the eternal creativity of love which is all-embracing and all-forgiving. As love flows out of rightly seeing reality as it is, it is also love that makes us feel that we – each of us individually and all of us collectively – are responsible for whatever things, good or evil, go on in our human community, and we must therefore strive to ameliorate or remove whatever conditions are inimical to the universal advancement of human welfare and wisdom.”

(D. T. Suzuki, The Awakening of Zen, “Love and Power”, pg. 70)

Article by Eduardo Carli de Moraes,
at Awestruck Wanderer.

Toronto, Canada. March 2014.

* * * * *

BILIOGRAFIA BÁSICA

A GUERRA MUNDIAL, de Michel Serres

ILÍADA: POEMA DA FORÇA, de Simone Weil. In: WEIL, Simone; BESPALOFF, Rachel. War and Iliad. Preface by Christopher Benfley. New York Review Books Classics, 2005.

THE AWAKENING OF ZEN, de Daisetz Teitaro Suzuki. The Awakening of Zen. Edited by Christmas Humphreys. Boston: Shambhala, 1980.

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Um pensamento sobre “REFLEXÕES SOBRE A FORÇA E A VIOLÊNCIA NA FILOSOFIA DE MICHEL SERRES E SIMONE WEIL

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