NO ALARIDO DE UM POVO A SE INVENTAR – LENINE AO VIVO COM “TUAREGUE E NAGÔ”

Lenine – “Tuaregue e Nagô”

É a festa dos negros coroados
No batuque que abala o firmamento
É a sombra dos séculos guardados
É o rosto do girassol dos ventos

É a chuva, o roncar de cachoeiras
Na floresta onde o tempo toma impulso
É a força que doma a terra inteira
As bandeiras de fogo do crepúsculo

Quando o grego cruzou Gibraltar
Onde o negro também navegou
Beduíno saiu de Dacar
E o Viking no mar se atirou
Uma ilha no meio do mar
Era a rota do navegador
Fortaleza, taberna e pomar
Num país Tuaregue e Nagô

É o brilho dos trilhos que suportam
O gemido de mil canaviais
Estandarte em veludo e pedrarias
Batuqueiro, coração dos carnavais

É o frevo a jogar pernas e braços
No alarido de um povo a se inventar
É o conjúrio de ritos e mistérios
É um vulto ancestral de além-mar

Quando o grego cruzou Gibraltar
Onde o negro também navegou
Beduíno saiu de Dacar
E o Viking no mar se atirou
Era o porto pra quem procurava
O país onde o sol vai se por
E o seu povo no céu batizava
As estrelas no sul do Equador

POR UMA ARTE DE INTERVENÇÃO CONTRA A OPRESSÃO – Reflexões pós “O Estopim” (Brasil, 2014, 80 min), documentário de Rodrigo Mac Niven

Bertolt Brecht diz que a arte não é um espelho pra refletir o mundo, mas um martelo com o qual esculpi-lo. A arte não é mecanismo neutro de “registro” do real, mas sim uma produção do labor criativo humano, surgindo da realidade mas transformando-a por sua própria irrupção. A arte é intervenção no real mais do que sua mera cognição. Por isso considero tão essencial que o filósofo vá à escola com o artista: pois o pensador nunca pode esquecer-se do que ensinava Karl Marx na célebre Tese Contra Feuerbach: até agora os filósofos parecem ter se ocupado somente em compreender o mundo, mas o que importa de fato é transformá-lo. A música, o cinema, a poesia, a escultura, o romance, o grafite, a dança, todas as vertentes da arte, são arma nas mãos da libertação. A arte é ação libertadora e intervenção ativa, ou não merece o nome de arte.

Digo isto sob o impacto do filmaço O Estopim, de Rodrigo McNiven (de Cortina de Fumaça), uma obra de alta qualidade estética e importante intervenção política em um debate radicalmente contemporâneo. A mesma violência que o pescador exerce sobre o peixe, ao fisgá-lo com uma isca, para em seguida puxá-lo com força para extraí-lo da água rumo a um ar irrespirável, é exercida pelos opressores sobre aqueles que parecem ter nascido para “morrer na praia”, de morte precoce, e não de morte morrida mas de morte matada. Interessante expressão do cotidiano: nadar, nadar e nadar, para morrer na praia. Amarildo foi um pouco a encarnação simbólica desta labor mau-pago, de sabor amargo, que tantas centenas de bilhões de oprimidos são coagidos a engolir em nosso planeta.

Amarildo poderia ter entrado como anônimo nas estatísticas obscenas da letalidade policial no Brasil; por sinuosos caminhos da estrada da História, este homem iria se transformar, durante o tsunami de manifestações populares de Junho e Julho de 2013, em símbolo de algo que não cessa de alimentar a indignação das mentes compassivas e lúcidas. Nos morros do Rio, há guerra civil, e como em toda guerra o chão está repleto de cadáveres de crianças de 10 anos, de mães baleadas por balas perdidas, de trabalhadores humildes confundidos com chefes-de-boca…

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Era Julho de 2013 e o Brasil vivia ainda sob o impacto dos eventos grandiosos do mês anterior: as “Jornadas de Junho”. Muitos daqueles que haviam se desesperançado com a política viram seu ânimo revigorado com a fenomenal adesão da população aos protestos que tiveram como estopim o aumento das tarifas públicas do transporte urbano. Os 20 centavos foram a gota d’água que fez transbordar o copo de fúria, mas este copo já havia sido gradativamente enchido. Enchemos o saco depois de tanto descalabro, de tanto descaso com o bem público, de tanta privatização-e-precarização corroendo a nação, de tanta militarização e truculência manifestando-se no morro e no asfalto (com várias diferenças, é claro, já que nas favelas as balas não são de borracha…).

Se o “caso Amarildo” explodiu no cenário público – sendo reivindicado nas ruas e nas redes, no país e no exterior, e recebendo atenção da mídia de massas, que de costume tende a ignorar este tipo de pauta – foi um pouco do mesmo modo: torturado até a morte pela PM, Amarildo foi como a gota d’água que fez transbordar de indignação todos aqueles que sabem da vivência cotidiana de milhões de brasileiros, em especial o esculacho que sofrem os afrodescendentes, no Brasil, por ação de instituições sociais que conservam o ranço do racismo institucionalizado e da ditadura militarizada. Amarildo, morrendo, forneceu um mártir oportuno àqueles que berravam em protesto frente às matanças, às torturas, às práticas ditatorialescas, da Polícia Militar brasileira.

Amarildo era carioca da gema, descendente dos africanos que o colonianismo europeu extraiu da África a fórceps, morador da mega-favela da Rocinha, e  trabalhava duro como auxiliar de pedreiro. Um edificador de lares, um membro de comunidade. Eu duvido muito que Amarildo tenha imaginado, enquanto sofria horrores em seus últimos instantes entre os vivos, ao ser torturado até a morte pela polícia em uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora?), que estaria prestes a entrar para a história. Morrendo, causou um tsunami: o poderio da manifestação popular manifestou-se então com força descomunal.

Sonhos e Urnas

Pois Junho de 2013, na História, foi também um dos ápices, no Brasil contemporâneo, de contestação da militarização que ainda vige, e tanto, em nossa vida cotidiana. Com aplausos, é claro, das elites e de certa fração das classes médias, que parecem realmente acreditar que a violência policial e a expansão do aprisionamento em massa são as soluções para nossa mega-tragédia de (in)segurança pública. É bem sabido e vastamente denunciado o tamanho hipertrofiado do complexo policial e carcerário brasileiro, sem falar em sua ineficiência e desumanidade.

Somos uma pátria encarceradora, que acompanha EUA, China e Rússia na liderança global nos índices de aprisionamento. Muitos julgam que a prisão é instituição que deve servir para proteger-nos contra a violência, mas se esquecem de lembrar o crucial: a prisão é um espaço onde pratica-se uma violência contra o cidadão lançado a ela, verdadeiro “inferno na terra”, que longe de “regenerar-se” e re-aprender as regras de convívio civilizado, fica privado não só da liberdade mas das mínimas condições dignas de existência… Conhece um Estado selvagem e revanchista, que joga gente na jaula após ter fracassado em levar políticas públicas que são direitos constitucionais.

No filme, os entrevistados na Rocinha salientam que as dificuldades da vida no morro ajudam os moradores a perceberem sua força na soma, na comunidade, um aprendizado que é fruto de experiências difíceis vividas por parentes e antepassados: os favelados são aqueles que, devido à sua situação precária de moradia, estão mais vulneráveis a perderem seu abrigo; um temporal mais forte, com grande volume de águas e fúria de ventos, pode derrubar suas casas. Estas vidas, construídas heroicamente sob o terreno movediço de um solo sujeito a periódicos deslizamentos, vão somando forças em busca do ser-mais, vão compondo raps para expressar suas angústias e esperanças, mas sempre antagonizando contra os opressores e seus braços armados.

A operação “Paz Armada”, como de praxe, envolveu muitos esculachos cometidos pela polícia contra os que são “detidos para averiguação”. Amarildo, aos olhos dos fardados, não foi visto como cidadão brasileiro com certos direitos constitucionais e humanos básicos, mas como bandido-em-potencial, e que por isso pode ser interrogado com métodos violentos e requintes de crueldade. O fim – a “averiguação” – justifica os meios – a prisão arbitrária, a tortura, o homicídio legalizado.

A última palavra de A Pedagogia do Oprimido, o clássico livro de Paulo Freire, é “amar”.  Ali ele diz que é preciso inventar, através de nossa práxis (a união indissociável entre ação e reflexão), um mundo onde seja menos difícil amar. Amarildo é também um nome que carrega em seu bojo o amor, ironicamente, pois eis o nome de alguém que morreu nas mãos do ódio institucionalizado: donde o poder do “símbolo” Amarildo como souvenir de um Estado que não ama, de uma polícia que não dialoga, de uma realidade sócio-política, historicamente determinada, que divide e segrega ao invés de somar e unir. O Brasil é um continente repleto de fraturas expostas.

A denúncia dos oprimidos é uma forma de ação que não deve ser menosprezada, já que é uma ativa tomada de voz e uma vitória sobre a doença do silêncio. O documentário de Mac Niven é excelente em sua disponibilidade de ouvir e dar ressonância ao discurso daqueles que viveram com Amarildo e que conhece o cotidiano esculachador imposto pela ocupação militar, Gaza style, vigente atualmente com as UPPs. Um dos protagonistas de Estopim, o “Duda”, encarna esta figura do denuncista que deseja desvelar as práticas desumanizadoras que testemunha, mesmo correndo risco de vida, o que é heróico e louvável.

Por exemplo: denuncia-se a prática policial comum de matar alguém primeiro e depois rotulá-lo como traficante. Como se fosse justificável o assassinato neste caso, o de vitimar uma pessoa que comercializa substâncias químicas que foram tornadas ilegais em um certo momento histórico do Direito… Até onde sei, tráfico de drogas não é crime punível com a pena-de-morte; no entanto, a polícia brasileira pratica a pena-de-morte diariamente contra suspeitos de tráfico. Duda – ecoando a mensagem de Marcelo Freixo (Deputado do PSOL) – denuncia uma polícia miliciada, gangsterizada, fascista, que prende e tortura gente inocente e mata trabalhador desarmado e desvalido…

Maioridade Penal

A morte de Amarildo gerou um debate público amplo; em muitos setores, em especial da mídia corporativa, o problema foi colocado nos seguintes termos: Amarildo era ou não era um traficante? Como se fosse plenamente justificada a tortura e a morte de um homem que fosse traficante de drogas. Ideia perversa, que utiliza a acusação de tráfico como estigma que justifica a ação homicida da polícia. É a mesma lógica vigente no sistema penal, na Guerra às Drogas, como se o problema da segurança pública pudesse ser resolvido na base da violência estatal exercida sobre aqueles que são estigmatizados como inimigos públicos número 1 só pelo fato de que vendem substâncias que o proibicionismo estipulou como ilícitas…

Como diz o juiz João Batista Damasceno, da associação Juízes para a Democracia, há uma “fantasia de que o traficante é alguém que precisa ser exterminado.” (49 min) Ou, como diz Francisco Carlos Teixeira, PhD em Ciência Política, membro do Instituto Tempo Presente, “você está escolhendo pessoas para morrer, e depois que elas estão mortas imediatamente viram traficantes. (…) Ora, mas quem mata criminoso também é criminoso. A Guerra às Drogas é uma cortina de fumaça para esconder um extermínio dos pobres.

Em uma das cenas mais impressionantes do cinema brasileiro no século XIX, O Estopim representa a tortura sofrida por Amarildo sem dourar a pílula, sem suavizar o horror: Toda a barbárie cotidianizada vêm à tona nesta cena onde os policiais-torturadores não poupam nada de seu arsenal bélico para humilhar e ofender Amarildo. A violência não é só física, destinada a alquebrar o corpo da vítima, mas é violência verbal da mais cruel:

Policial-torturador à Amarildo: “- Trabalhador? Todo vagabundo diz que é trabalhador! E você diz me que é trabalhador, seu merda? Só se for trabalhador do tráfico! Vocês são tudo amiguinho de bandido. Tua mulher é uma vagabunda cheiradora-de-pó. E eu vou armar um flagrante pra prender teu filho, Amarildo…”

O discurso policial, no trato com o outro, é o anti-diálogo por excelência. É o que esta cena com Amarildo explicita: a polícia como uma vespa que pica, odienta e sem misericórdia, sendo o supra-sumo do que Paulo Freire chama de “ação antidialógica”. A tortura é o oposto antagônico do diálogo, a encarnação explícita do fascismo cotidianizado. Tese do filme, tal como o compreendi: a polícia que tortura é bárbara e desumana, e Amarildo uma das milhares de vítimas que ela faz de maneira cotidiana.

O amigo do falecido deveria sentir o quê diante de policiais assassinos senão indignação e rebeldia? Uma polícia que planta injustiça vai colher rebelião. Duda expressa-se sobre Amarildo mostrando-se estarrecido que “eles tenham conseguido fazer uma maldade com uma pessoa tão boa” (59 min). Antes de simplesmente descartarmos este testemunho, como se não passasse de uma idealização póstuma que um amigo realiza em seu retrato do amigo-morto, levemos a sério a hipótese de que houve sim maldade, uma injustiça, uma barbárie injustificável. 

E que a Ditadura civil-militar (1964 – 1985) pode até ter sido extinta para dar lugar a este interminável processo de redemocratização, mas a Ditadura continua incrustada em várias instituições, sobretudo as Polícias Militares, e inclusive as UPPs. Moradores acusam as UPPs de serem uma carta branca que é dada para que as polícias dominem o morro, instalem milhares de câmeras de vigilância, dando o passo rumo a transformar o morro do Rio em Gaza. A Palestina – pasmem! – é aqui. E o Big Brother da TV não tem nada a ver com o Big Brother da UPP.

No Big Brother da vida real, soldados podem chutar a porta dos barracos para abri-los, sem aviso prévio. Podem levar presos quaisquer cidadãos que julgem “suspeitos”. Podem expulsar gente dos lares para que sejam construídos trecos “pra inglês ver” na Copa ou nas Olimpíadas. Podem mandar prender, por desacato a autoridade, quem contesta o abuso de poder praticado por milicos fardados. Fala o MC em Estopim: “A UPP é o AI-5 das favelas cariocas… Como era chamado o DOPS? Era a Polícia da Política. O que é uma UPP? É a mesma coisa, só muda o ano! A UPP só daria certo se fosse Unidade de Políticas Públicas”.

A UPP é sintoma de um aumento da militarização, de um Estado que sobe o morro querendo mostrar somente sua faceta repressiva e punitiva, seu ímpeto controlador e dominador. Nas periferias brasileiras, 1968 ainda vive. Esquecemos de desinventar a barbárie militarizada. Ainda falta-nos descobrir que a questão social não é uma questão de polícia, que não se constrói solidariedade com fuzis, e que não é reproduzindo o caso Amarildo que vamos superar estas páginas tão tristes de nossa História – repleta delas.

A arte, para relembrar Brecht e Boal, deve ser intervenção na realidade ao invés de passividade fatalista diante dela. O Estopim faz isso com excelência. Entra para uma história bela e fecunda: a do documentário brasileiro, uma das “coisas” que vai melhor em nosso país. O documentário, no âmbito do cinema, parece-me ser o ápice deste ideal da arte que não deseja só retratar o real, mas também informá-lo para revolucioná-lo. 

O documentário brasileiro é um “campo”  repleto em preciosas obras-primas e gênios justamente venerados – Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Pra Morrer, Jogo de Cena, Edifício Master), Silvio Tendler, João Moreira Salles (Santiago, Entreatos), Jorge Bodanzky, José Padilha (Ônibus 174, Garapa), dentre tantos outros. Os filmes de Mc Niven chegaram para integrar uma bela tradição, vivíssima a tal ponto que fica até estranho referir-se a ela usando um nome com tanto ranço de antiguidade quanto “tradição”. Um saravá, pois, ao tão iluminante e tão veraz documentário brasileiro, que desvela realidades com a ousadia de suas destemidas lentes!

E.C.M., Goiânia 29/07/15
@ A Casa de Vidro.com
Shortlink: http://bit.ly/1MVvnCC

10714387_536402499824550_9173944318112282282_o Capturar Diretor Rodrigo Mac Niven e Diretor de Fotografia Neto de Oliveira com o ator Brunno Rodrigues.  Informações do filme:
Gênero: Documentário
Diretor: Rodrigo Mac Niven
Duração: 80 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português
Qualidade de Vídeo: webrip
Vídeo Codec: V_MPEG4/ISO/AVC
Áudio Codec: AAC LC
Tamanho: 1,09 gB
Legendas: Sem Legenda

Link do torrent:
O Estopim (2014)
Via Filmes Brazukas

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SIGA VIAGEM:

Cortina de Fumaça

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ANTES N’A CASA DE VIDRO:

QUE PAÍS É ESSE? SOLIDARIEDADE SOCIAL OU PRÁTICAS DO APARTHEID?

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P.S.

“Catatau chegou legal no Vidigal
Ia haver uma blitz naquele local
O malandro pinoteou
Pouco antes da hora que a justa chegou
Por onde está, Por onde andou, Ninguém dedou
De repente no beco da grande favela
Um vulto surgiu na viela
O soldado deu voz de prisão com decisão
Do outro lado negro desempregado
Bastante desesperado
Se rende correndo e cai
Mas caiu com a mão na cabeça
Para que ninguém esqueça
O quanto pediu clemência
E não foi ouvido
Por causa da violência
Que fez chorar o soldado
Que muito mal orientado não pode evitar o mal
E nem a sorte daquele inocente lá do Vidigal…”

O POEMA CÓSMICO E SEU AUTOR – Notas sobre a poesia de Rabindranath Tagore (1861 – 1941)

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Um dos maiores sábios da Índia dos últimos séculos, Rabindranath TAGORE (1861-1941), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1913.

Não faço segredo: prefiro a companhia dos poetas à dos padres. Gosto mais da palavra brincalhona e peralta do que das pontificações arrogantes e dogmáticas. Ler Maiakóvski, Brecht, Shakespeare, Blake, Pessoa, Shelley, Brodsky, Manoel de Barros, J. P. Paes, dentre tantos outros mestres, é muito mais saboroso ao meu paladar do que as bíblias e torás e corões (apesar da beleza de certos mitos, da qualidade de certas narrativas, o texto de pregação religiosa é-me amargo). É que não creio no mito de que a Verdade caiba inteira num livro só. Acho ridículo qualquer pregador que, do alto de sua empáfia, suba em altar tendo em mãos um livro dito “sagrado”  e minta: “Toda a verdade está contida nestas páginas.”  

Contra a ideologia do Livro Sagrado que contêm a verdade toda e absoluta – lorota teocrática que convêm lançar à lata-de-lixo da História! – alio-me a Oswald de Andrade e sinto-me na selva da cultura muito mais como um antropófago, papador de poetas e filósofos, devorador de músicos e bufões, aluno também na escola de Falstaff e Quixote… Considero o conjunto dos livros, em sua maravilhosa multiplicidade e em sua estonteante infinitude, como ídolo mais digno dos meus entusiasmos do que o livro de ego-inflado que alardeia: “contenho tudo o que você precisa saber! Não leia nada além de mim!”

Considero que é melhor um mundo de leitores vorazes e curiosos, que queiram agir como abelhas nômades a colher néctar nas flores de todos os continentes, do que um mundico de leitores que estreitaram seus horizontes e tornaram-se rebanhos cabisbaixos e obedientes, que seguem caminhos apontados de cima pelo mestre, pelo messias, pelo “dono da verdade” com pose de redentor. E como ouvi uma aluna sagaz comentar dia desses em sala: “Quem se mete a redentor acaba crucificado…”

Suspeito: que a verdade não tem dono; que o cosmos não é possuível (há limites bem estritos para a tal da propriedade privada, ó burguês!); que não se compram estrelas e cometas na bolsa de valores. Só sei que a poesia anima e revitaliza, tonifica e encanta, quando abrimos as portas e janelas a ela. Mas a poesia exige de nós um escancaro prévio, uma disponibilidade, uma abertura, uma pré-disposição psíquica que permite que jorrem adentro seus tesouros potenciais (às vezes guardados dentro de livros empoeirados e esquecidos em um canto da biblioteca mais rústica).

A poesia reflete pedaços de uma Verdade espantosa e gigantesca, mas nunca inteiramente desvelada, pois sempre permanece envolta em uma certa bruma de mistério. O lirismo talvez seja filho da percepção súbita – insight relampejante – de nossa pequenez de mortais diante das esfinges, inumeráveis e indecifráveis, propostas pela sucessão eterna de dias e noites, vivos e mortos, verões e invernos, milênios e éons.

 No poema Gitanjali de Tagore encontro algo que me soa como quintessência do poético: o poeta entoa um hino em louvor do poeta cósmico, daquele responsável por uma magnum opus que transcende o Verbo, já que não é com palavras que se fazem oceanos e montanhas, florestas tropicais e desertos imensos, nem são compostos por letras estes nossos corpos viventes e que, por costume linguístico muito sábio, chamamos por seu devido nome: organismos de carne e osso.

O eu-lírico de Gitanjali (título que significa algo como “oferendas” em formato “canção”) dirige-se a uma certa entidade que ele deseja celebrar. O poema de Tagore poderia ser enquadrado como poesia devocional, onde estamos claramente diante de um worshipper que canta a uma deidade. Desde os primeiros versos, porém, sabemos que não estamos no terreno do monoteísmo, que não é nem o Jeová dos hebreus, nem o Deus-Pai dos católicos, nem o Alá dos islâmicos Aquele que está sendo louvado. Em termos afetivos, não há sinal de ascetismo auto-mortificante nos versos de Tagore, pelo contrário, eles são sensuais e luxuriantes como uma viagem de ácido rodeada pelo colorido rebilhante do dínamo estrelada da noite rodopiante. Tagore não penitencia-se, ele canta. Ele traz os pés desnudos correndo sobre o chão do mundo, os cabelos decorados com flores colhidos no caminho, e uma harpa afinada com que musicaliza os fluxos de ar à sua volta.

E a essência do cântico de Tagore é um all is well que já a poesia beatnik, dum Ferlinghetti ou dum Kerouac, identificava com os grandes gênios do jazz. Charlie Parker com seu sax é um pouco como Tagore com seu verbo poético destravado: ambos são como pássaros que expressam-se através da música. É como um cantor que o eu-lírico de Tagore pretende aparecer diante da Presença daquele que celebra. Descreve-se como alguém “embriagado com a delícia de cantar” (drunk with the joy of singing) e dedica muitos versos a sacralizar a música como fluxo sagrado (holy stream) que veleja pelos ventos.

A música, em Tagore, como já era em Pitágoras há mais de 2.500 anos atrás, não é compreendida como circunscrita ao âmbito do ser humano: também as abelhas e os colibris, também os macacos e as baleias, também as ondas quebrando nas praias e as estrelas brilhando no firmamento, fazem música, como nós. O poema de Tagore é só um riachinho de música que deseja somar-se ao grande coro cósmico, oceânica polifonia do Universo em existência. Não falta ao cosmos som e fúria. E Deus, se existir, é poeta.

Donde a força da poesia de Tagore é justamente a consciência epifânica que ele tem de sua fraqueza, de sua pequenez. O poeta sabe que é pouco diante daquele que chama “Master Poet”, o escritor dos céus estrelados, o arquiteto dos planetas rodopiantes, o compositor das gargantas de todos os vivos… “Minha vaidade de poeta morre de vergonha diante da tua visão, ó master poet!” Tagore sabe que nenhum poeta humano pode rivalizar com o poeta cósmico que, num lirismo que transcende o verbo, sem precisar de letras ou fonemas, compôs nebulas, fabricou protozoários, fez advir dinossauros, seguiu adiante em mutante mutância e em fluxidão sempiterna.

Em transe diante da cósmica transa, Tagore torna-se um místico, prenunciador de hippies e beatniks, que fala de Deus em termos que parecem deleitosos absurdos: “God’s garment is covered with dust.” Que eu traduziria livremente por: “a roupa de Deus está toda suja de terra”. Verso de poeta místico que convêm não explicar demasiado, sob o risco de pôr em perigo, por excesso de claridade, o que o autor quer neblinoso e enigmático. De todo modo, Tagore parece-me muito próximo de um panteísta à la Spinoza, que canta seus evoés (belíssimos) ao deus sive natura, ao deus-idêntico-à-natureza.

Assim, sua poesia pode ser “instrumento” para transcender o ego, peregrinação poética que ajuda na conquista do Nirvana, pois acorda a consciência para tudo aquilo que supera a estreiteza do ego, esta auto-decretada mônada que pretende terminar nas fronteiras do próprio corpo. O eu de Tagore é tão expandido que ele, longe de mônada solitária e deprimida, abraça Shiva em sua dança, acompanha as bacantes dionisíacas, afina sua harpa dourada e destila uma canção de boas graças, feliz pela pertença ao conjunto do cosmos-que-se-cria em uma espantosa auto-poiésis que, ainda que estejamos longe de compreender por inteiro, não podemos evitar, testemunhando, uma admiração estupefata. Mais ou menos o estado de espírito em que eu pensava quando batizei o blog Awestruck Wanderer, que pretende ser propiciador de peregrinações poéticas.

Eu diria que Tagore é um poetinha, sabedor de sua pequeneza, que mergulha no oceano do mega-poeta, aquele que alguns chamam de Criador, e que Tagore não permite, em seu teo-misticismo, que esteja hoje aposentado e inativo: Tagore não crê que o ato criador ficou pra trás. Em Tagore, a criação é dança contínua, o poeta cósmico não pára de inventar novidade. E tudo o que constitui o mérito do poeta humano é ser uma espécie de caixa de ressonância desta Presença Criadora que desenrola-se eternidade afora, manifestando-se em nós, diante de nós, ao nosso redor, e à qual somos às vezes cegos e semi-conscientes.

Eu diria que Tagore tece versos que tem por tema principal o poema cósmico e seu autor. Conserva-se, portanto, a ideia de algum tipo de criação divina, equiparada a uma obra-de-arte infinitamente continuada, já que o master poet não se cansa e não descansa. Fabrica e aniquila mundos enquanto pula suas cirandas de Shiva. O deus de Tagore não descansa no sétimo dia. Ele está poetando agora mesmo. Aqui-e-agora. Em mim, em ti, no colibri.

Evocando um dos mais belos versos de Lucrécio, poeta romano do século I a.C., que recomendava a serenidade de espírito diante da morte dizendo: “por que não deixar o banquete da vida como um conviva saciado?”, Tagore também nos legou trechos de profundo sabor epicurista, solares como Horácio às vezes tem o dom de raiar. Antes de deixá-los lerem o poema Gitanjali na íntegra, encerro este prelúdio citando o cantor de Tagore, com a lira dourada em mãos, entoando:

“I have had my invitation to this world’s festival, 
and thus my life has been blessed. 
My eyes have seen and my ears have heard.
It was my part at this feast 
To play upon my instrument, 
and I have done all I could.”

TAGORE

* * * *

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Rabindranath-Tagore-–-Gurudev-of-India

“GITANJALI – SONG OFFERINGS” 

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Thou hast made me endless, such is thy
pleasure. This frail vessel thou emptiest
again and again, and fillest it ever with
fresh life.

This little flute of a reed thou hast carried
over hills and dales, and hast breathed
through it melodies eternally new.

At the immortal touch of thy hands my little
heart loses its limits in joy and gives birth
to utterance ineffable.

Thy infinite gifts come to me only on these
very small hands of mine. Ages pass, and
still thou pourest, and still there is room to fill.

When thou commandest me to sing it
seems that my heart would break with
pride; and I look to thy face, and tears
come to my eyes.

All that is harsh and dissonant in my life
melts into one sweet harmony–and my
adoration spreads wings like a glad bird
on its flight across the sea.

I know thou takest pleasure in my singing.
I know that only as a singer I come before
thy presence.

I touch by the edge of the far-spreading
wing of my song thy feet which I could
never aspire to reach.

Drunk with the joy of singing I forget
myself and call thee friend who art my lord.

I know not how thou singest, my master!
ever listen in silent amazement.
The light of thy music illumines the world.

The life breath of thy music runs from sky
to sky. The holy stream of thy music
breaks through all stony obstacles and
rushes on.

My heart longs to join in thy song, but
vainly struggles for a voice. I would
speak, but speech breaks not into song,

and I cry out baffled. Ah, thou hast made
my heart captive in the endless meshes of
thy music, my master!

Life of my life, I shall ever try to keep my
body pure, knowing that thy living touch is
upon all my limbs.

I shall ever try to keep all untruths out from
my thoughts, knowing that thou art that
truth which has kindled the light of reason
in my mind.

I shall ever try to drive all evils away from
my heart and keep my love in flower,
knowing that thou hast thy seat in the
inmost shrine of my heart.

And it shall be my endeavour to reveal
thee in my actions, knowing it is thy power
gives me strength to act.

I ask for a moment’s indulgence to sit by
thy side. The works that I have in hand I
will finish afterwards.

Away from the sight of thy face my heart
knows no rest nor respite, and my work
becomes an endless toil in a shoreless sea
of toil.

Today the summer has come at my window
with its sighs and murmurs; and the bees
are plying their minstrelsy at the court of
the flowering grove.

Now it is time to sit quite, face to face with
thee, and to sing dedication of live in this
silent and overflowing leisure.

Pluck this little flower and take it, delay
not! I fear lest it droop and drop into the
dust.

I may not find a place in thy garland, but
honour it with a touch of pain from thy
hand and pluck it. I fear lest the day end
before I am aware, and the time of offering
go by.

Though its colour be not deep and its smell
be faint, use this flower in thy service and
pluck it while there is time.

My song has put off her adornments. She
has no pride of dress and decoration.
Ornaments would mar our union; they
would come between thee and me; their
jingling would drown thy whispers.

My poet’s vanity dies in shame before thy
sight. O master poet, I have sat down at
thy feet. Only let me make my life simple
and straight, like a flute of reed for thee to
fill with music.

The child who is decked with prince’s
robes and who has jewelled chains round
his neck loses all pleasure in his play; his
dress hampers him at every step.

In fear that it may be frayed, or stained
with dust he keeps himself from the world,
and is afraid even to move.

Mother, it is no gain, thy bondage of
finery, if it keep one shut off from the
healthful dust of the earth, if it rob one of
the right of entrance to the great fair of
common human life.

* * * *

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On Being: He bestowed the title “Mahatma” on Gandhi. He debated the deepest nature of reality with Einstein. He was championed by Yeats and Pound to become the first non-European to win the Nobel Prize for Literature in 1913. Rabindranath Tagore was a polymath — a writer and a painter, a philosopher and a musician, and a social innovator — but much of his poetry and prose is virtually untranslatable (or inaccessibly translated) for modern minds. We pull back the “dusty veils” that have hidden his memory from history.

Listen to the podcast: https://soundcloud.com/onbeing/anita-desai-and-andrew-robinson-the-modern-resonance-of-rabindranath-tagore

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EU SEI PORQUE CANTA O PÁSSARO ENGAIOLADO – Dois poemas: Maya Angelou e Rabindranath Tagore

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Caged Bird

By Maya Angelou

A free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wing
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

The free bird thinks of another breeze
and the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn bright lawn
and he names the sky his own

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

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DIALOGUE BETWEEN A FREE BIRD AND A CAGE BIRD
by Rabindranath Tagore (The Gardener, 1915)
* * * *

The tame bird was in a cage,
the free bird was in the forest.
They met when the time came,
it was a decree of fate.

The free bird cries,
“O my love, let us fly to the wood.”
The cage bird whispers,
“Come hither, let us both live in the cage.”

Says the free bird,
“Among the bars, where is there room to spread one’s wings?”
“Alas”, cries the cage bird,
“I should not know where to sit perched in the sky.”

The free bird cries,
“My darling, sing the songs of the woodland.”
The cage bird says,
“Sit by my side, I’ll teach you the speech of the learned.”

The forest bird cries,
“No! Ah no! Songs can never be taught.”
The cage bird says,
“Alas for me, I know not the songs of the woodlands.”

Their love is intense with longing,
but they never can fly wing to wing.
Throught the bars of the cage they look,
and vain is their wish to know each other.

They flutter their wings in yearning,
and sing, “Come closer, my love!”
The free bird cries,
“It cannot be, I fear the closed doors of the cage.”
The cage bird whispers,
“Alas, my wings are powerless and dead.”

i know why the caged bird sings
SIGA VIAGEM:

Coletânea A Casa de Vidro
 This Is What Freedom Sounds Like

01. HENDRIX, 02. J. LENNON, 03. J. JOPLIN, 04. B. MARLEY, 05. MC5, 06. NEIL YOUNG & CRAZY HORSE, 07. RICHIE HAVENS, 08. THE DT’S, 09. THE BLACK PANTHERS, 10. CHARLES MINGUS, 11. BEN HARPER, 12. NINA SIMONE.

TAME IMPALA LANÇA SEU TERCEIRO ÁLBUM, “CURRENTS” (2015) – OUÇA / BAIXE NA ÍNTEGRA

Tame Impala, banda australiana liderada por Kevin Parker (o primeiro à esquerda na foto acima)

Tame Impala, banda australiana liderada por Kevin Parker (o primeiro à esquerda na foto acima)

Currents-hi-res
Tame Impala – Currents [2015]

DOWNLOAD TORRENT (MP3 320 kps)

01) Let It Happen – 0:00
02) Nangs – 7:47
03) The Moment – 9:35
04) Yes I’m Changing – 13:50
05) Eventually – 18:21
06) Gossip – 23:40
07) The Less I Know the Better – 24:36
08) Past Life – 28:14
09) Disciples – 32:02
10) Cause I’m a Man – 33:51
11) Reality in Motion – 37:53
12) Love/Paranoia – 42:06
13) New Person, Same Old Mistakes 45:12

Reviews: Pitchfork (9.3/10)

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Alguns posters:

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DOCUMENTÁRIO SOBRE JIMI HENDRIX (1942 – 1970): “THE UNCUT STORY” [VÍDEO COMPLETO]

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DOCUMENTÁRIO SOBRE JIMI HENDRIX (1942 – 1970): “THE UNCUT STORY”

EPISÓDIO 1 – 1942 a 1961

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EPISÓDIO 2 –1961 – 1967

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2

EPISÓDIO 3 – 1967 – 1970

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3

Artist Biography by Richie Unterberger

In his brief four-year reign as a superstar, Jimi Hendrix expanded the vocabulary of the electric rock guitar more than anyone before or since. Hendrix was a master at coaxing all manner of unforeseen sonics from his instrument, often with innovative amplification experiments that produced astral-quality feedback and roaring distortion. His frequent hurricane blasts of noise and dazzling showmanship — he could and would play behind his back and with his teeth and set his guitar on fire — has sometimes obscured his considerable gifts as a songwriter, singer, and master of a gamut of blues, R&B, and rock styles.

When Hendrix became an international superstar in 1967, it seemed as if he’d dropped out of a Martian spaceship, but in fact he’d served his apprenticeship the long, mundane way in numerous R&B acts on the chitlin circuit. During the early and mid-’60s, he worked with such R&B/soul greats as Little Richard, the Isley Brothers, and King Curtis as a backup guitarist. Occasionally he recorded as a session man (the Isley Brothers’ 1964 single “Testify” is the only one of these early tracks that offers even a glimpse of his future genius). But the stars didn’t appreciate his show-stealing showmanship, and Hendrix was straitjacketed by sideman roles that didn’t allow him to develop as a soloist. The logical step was forHendrix to go out on his own, which he did in New York in the mid-’60s, playing with various musicians in local clubs, and joining white blues-rock singer John Hammond, Jr.’s band for a while.

Are You Experienced?

It was in a New York club that Hendrix was spotted by Animals bassist Chas Chandler. The first lineup of the Animals was about to split, and Chandler, looking to move into management, convinced Hendrix to move to London and record as a solo act in England. There a group was built around Jimi, also featuring Mitch Mitchell on drums and Noel Redding on bass, that was dubbed the Jimi Hendrix Experience. The trio became stars with astonishing speed in the U.K., where “Hey Joe,” “Purple Haze,” and “The Wind Cries Mary” all made the Top Ten in the first half of 1967. These tracks were also featured on their debut album, Are You Experienced, a psychedelic meisterwerk that became a huge hit in the U.S. after Hendrix created a sensation at the Monterey Pop Festival in June of 1967.

Are You Experienced was an astonishing debut, particularly from a young R&B veteran who had rarely sung, and apparently never written his own material, before the Experience formed. What caught most people’s attention at first was his virtuosic guitar playing, which employed an arsenal of devices, including wah-wah pedals, buzzing feedback solos, crunching distorted riffs, and lightning, liquid runs up and down the scales. But Hendrix was also a first-rate songwriter, melding cosmic imagery with some surprisingly pop-savvy hooks and tender sentiments. He was also an excellent blues interpreter and passionate, engaging singer (although his gruff, throaty vocal pipes were not nearly as great assets as his instrumental skills). Are You Experienced was psychedelia at its most eclectic, synthesizing mod pop, soul, R&B,Dylan, and the electric guitar innovations of British pioneers like Jeff Beck, Pete Townshend, and Eric Clapton.

Axis: Bold as Love

Amazingly, Hendrix would only record three fully conceived studio albums in his lifetime. Axis: Bold as Love and the double-LP Electric Ladyland were more diffuse and experimental than Are You Experienced On Electric Ladylandin particular, Hendrix pioneered the use of the studio itself as a recording instrument, manipulating electronics and devising overdub techniques (with the help of engineer Eddie Kramer in particular) to plot uncharted sonic territory. Not that these albums were perfect, as impressive as they were; the instrumental breaks could meander, and Hendrix’s songwriting was occasionally half-baked, never matching the consistency ofAre You Experienced (although he exercised greater creative control over the later albums).

The final two years of Hendrix’s life were turbulent ones musically, financially, and personally. He was embroiled in enough complicated management and record company disputes (some dating from ill-advised contracts he’d signed before the Experience formed) to keep the lawyers busy for years. He disbanded the Experience in 1969, forming the Band of Gypsies with drummer Buddy Miles and bassist Billy Coxto pursue funkier directions. He closed Woodstock with a sprawling, shaky set, redeemed by his famous machine-gun interpretation of “The Star Spangled Banner.” The rhythm section of Mitchell and Reddingwere underrated keys to Jimi’s best work, and the Band of Gypsies ultimately couldn’t measure up to the same standard, although Hendrix did record an erratic live album with them. In early 1970, the Experiencere-formed again — and disbanded again shortly afterward. At the same time, Hendrix felt torn in many directions by various fellow musicians, record-company expectations, and management pressures, all of whom had their own ideas of what Hendrix should be doing. Coming up on two years after Electric Ladyland, a new studio album had yet to appear, although Hendrix was recording constantly during the period.

While outside parties did contribute to bogging down Hendrix’s studio work, it also seems likely that Jimi himself was partly responsible for the stalemate, unable to form a permanent lineup of musicians, unable to decide what musical direction to pursue, unable to bring himself to complete another album despite jamming endlessly. A few months into 1970, Mitchell — Hendrix’s most valuable musical collaborator — came back into the fold, replacing Miles in the drum chair, although Cox stayed in place. It was this trio that toured the world during Hendrix’s final months.

It’s extremely difficult to separate the facts of Hendrix’s life from rumors and speculation. Everyone who knew him well, or claimed to know him well, has different versions of his state of mind in 1970. Critics have variously mused that he was going to go into jazz, that he was going to get deeper into the blues, that he was going to continue doing what he was doing, or that he was too confused to know what he was doing at all. The same confusion holds true for his death: contradictory versions of his final days have been given by his closest acquaintances of the time. He’d been working intermittently on a new album, tentatively titled First Ray of the New Rising Sun, when he died in London on September 18, 1970, from drug-related complications.” AMG ALL MUSIC GUIDE

Um bate-papo entre Michel Foucault e Gilles Deleuze

Deleuze

OS INTELECTUAIS E O PODER

Conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze

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Michel Foucault: Um maoísta me dizia: “Eu compreendo porque Sartre está conosco, porque e em que sentido ele faz política; você, eu compreendo um pouco: você sempre colocou o problema da reclusão. Mas Deleuze, realmente eu não compreendo”. Esta observação me surpreendeu muito porque isto me parece bastante claro.

Gilles Deleuze: Talvez seja porque estejamos vivendo de maneira nova as relações teoria-prática. As vezes se concebia a prática como uma aplicação da teoria, como uma conseqüência; as vezes, ao contrário, como devendo inspirar a teoria, como sendo ela própria criadora com relação a uma forma futura de teoria. De qualquer modo, se concebiam suas relações como um processo de totalização, em um sentido ou em um outro. Talvez para nós a questão se coloque de outra maneira. As relações teoria-prática são muito mais parciais e fragmentárias. Por um lado, uma teoria é sempre local, relativa a um pequeno domínio e pode se aplicar a um outro domínio, mais ou menos afastado. A relação de aplicação nunca é de semelhança. Por outro lado, desde que uma teoria penetre em seu próprio domínio encontra obstáculos que tornam necessário que seja revezada por outro tipo de discurso (é este outro tipo que permite eventualmente passar a um domínio diferente). A prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra. Nenhuma teoria pode se desenvolver sem encontrar uma espécie de muro e é preciso a prática para atravessar o muro.

Por exemplo, você começou analisando teoricamente um meio de reclusão como o asilo psiquiátrico, no século XIX, na sociedade capitalista. Depois você sentiu a necessidade de que pessoas reclusas, pessoas que estão nas prisões, começassem a falar por si próprias, fazendo assim um revezamento. Quando você organizou o G.I.P. (Grupo de Informação Prisões) foi baseado nisto: criar condições para que os presos pudessem falar por si mesmos. Seria totalmente falso dizer, como parecia dizer o maoista, que você teria passado à prática aplicando suas teorias. Não havia aplicação, nem projeto de reforma, nem pesquisa no sentido tradicional. Havia uma coisa totalmente diferente: um sistema de revezamentos em um conjunto, em uma multiplicidade de componentes ao mesmo tempo teóricos e práticos. Para nós, o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles. Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja na pessoa que fala ou age. Nós somos todos pequenos grupos. Não existe mais representação, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede.

M.F.: Parece-me que a politização de um intelectual tradicionalmente se fazia a partir de duas coisas: em primeiro lugar, sua posição de intelectual na sociedade burguesa, no sistema de produção capitalista, na ideologia que ela produz ou impõe (ser explorado, reduzido à miséria, rejeitado, “maldito”, acusado de subversão, de imoralidade, etc.); em segundo lugar, seu próprio discurso enquanto revelava uma determinada verdade, descobria relações políticas onde normalmente elas não eram percebidas. Estas duas formas de politização não eram estranhas uma em relação à outra, embora não coincidissem necessariamente. Havia o tipo do intelectual “maldito” e o tipo do intelectual socialista. Estas duas formas de politização facilmente se confundiram em determinados momentos de reação violenta do poder, depois de 1848, depois da Comuna de Paris, depois de 1940: o intelectual era rejeitado, perseguido, no momento mesmo em que as “coisas” apareciam em sua “verdade”, no momento em que não se devia dizer que o rei estava nu. O intelectual dizia a verdade àqueles que ainda não a viam e em nome daqueles que não podiam dizê-la: consciência e eloquência.

Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da “consciência” e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar “um pouco na frente ou um pouco de lado” para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso. E por isso que a teoria não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática. Mas local e regional, como você diz: não totalizadora. Luta contra o poder, luta para fazê-lo aparecer e feri-lo onde ele é mais invisível e mais insidioso. Luta não para uma “tomada de consciência” (há muito tempo que a consciência como saber está adquirida pelas massas e que a consciência como sujeito está adquirida, está ocupada pela burguesia), mas para a destruição progressiva e a tomada do poder ao lado de todos aqueles que lutam por ela, e não na retaguarda, para esclarecê-los. Uma “teoria” é o sistema regional desta luta.

G.D.: Exatamente. Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante… É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. E curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica. E o poder que por natureza opera totalizações e você diz exatamente que a teoria por natureza é contra o poder. Desde que uma teoria penetra em determinado ponto, ela se choca com a impossibilidade de ter a menor conseqüência prática sem que se produza uma explosão, se necessário em um ponto totalmente diferente. Por este motivo a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou a reforma é elaborada por pessoas que se pretendem representativas e que têm como ocupação falar pelos outros, em nome dos outros, e é uma reorganização do poder, uma distribuição de poder que se acompanha de uma repressão crescente. Ou é uma reforma reivindicada, exigida por aqueles a que ela diz respeito, e aí deixa de ser uma reforma, é uma ação revolucionária que por seu caráter parcial está decidida a colocar em questão a totalidade do poder e de sua hierarquia. Isto é evidente nas prisões: a menor, a mais modesta reivindicação dos prisioneiros basta para esvaziar a pseudo-reforma Pleven. Se as crianças conseguissem que seu protestos, ou simplesmente suas questões, fossem ouvidos em uma escola maternal, isso seria o bastante para explodir o conjunto do sistema de ensino. Na verdade, esse sistema em que vivemos nada pode suportar: dai sua fragilidade radical em cada ponto, ao mesmo tempo que sua força global de repressão. A meu ver, você foi o primeiro a nos ensinar – tanto em seus livros quanto no domínio da prática – algo de fundamental: a indignidade de falar pelos outros. Quero dizer que se ridicularizava a representação, dizia-se que ela tinha acabado, mas não se tirava a conseqüência desta conversão “teórica”, isto é, que a teoria exigia que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias.

M.F.: E quando os prisioneiros começaram a falar, viu-se que eles tinham uma teoria da prisão, da penalidade, da justiça. Esta espécie de discurso contra o poder, esse contra-discurso expresso pelos prisioneiros, ou por aqueles que são chamados de delinqüentes, o que é o fundamental, e não uma teoria sobre a delinqüência. O problema da prisão é um problema local e marginal na medida em que menos de cem mil pessoas passam anualmente pelas prisões; atualmente, na França, talvez haja ao todo trezentas ou quatrocentas mil pessoas que tenham passado pela prisão. Ora, esse problema marginal atinge as pessoas. Fiquei surpreso de ver que se podia interessar pelo problema das prisões tantas pessoas que não estavam na prisão, de ver como tantas pessoas que não estavam predestinadas a escutar esse discurso dos detentos, o ouviam. Como explicar isto? Não será que, de modo geral, o sistema penal é a forma em que o poder como poder se mostra da maneira mais manifesta? Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. Outro dia eu falava com uma mulher que esteve na prisão e ela dizia: “quando se pensa que eu, que tenho 40 anos, fui punida um dia na prisão, ficando a pão e água!” O que impressiona nesta história é não apenas a puerilidade dos exercícios do poder, mas o cinismo com que ele se exerce como poder, da maneira mais arcaica, mais pueril. mais infantil. Reduzir alguém a pão e água… isso são coisas que nos ensinam quando somos crianças. A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral. “Tenho razão em punir pois vocês sabem que é desonesto roubar, matar…”. O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde, não se mascara cinicamente, se mostra como tirania levada aos mais íntimos detalhes, e, ao mesmo tempo, é puro, é inteiramente “justificado”, visto que pode inteiramente se formular no interior de uma moral que serve de adorno a seu exercício: sua tirania brutal aparece então como dominação serena do Bem sobre o Mal, da ordem sobre a desordem.

G.D.: E o inverso é igualmente verdadeiro. Não são apenas os prisioneiros que são tratados como crianças, mas as crianças como prisioneiras. As crianças sofrem uma infantilização que não é a delas. Neste sentido, é verdade que as escolas se parecem um pouco com as prisões, as fábricas se parecem muito com as prisões. Basta ver a entrada na Renault. Ou em outro lugar: três permissões por dia para fazer pipi. Você encontrou um texto de Jeremias Bentham, do século XVIII, que propõe precisamente uma reforma das prisões: em nome desta nobre reforma, ele estabelece um sistema circular em que a prisão renovada serve de modelo para outras instituições, e em que se passa insensivelmente da escola à manufatura, da manufatura à prisão e inversamente. É isto a essência do reformismo, a essência da representação reformada. Ao contrário, quando as pessoas começam a falar e a agir em nome delas mesmas não opõem uma representação, mesmo invertida, a uma outra, não opõem uma outra representatividade à falsa representatividade do poder. Lembro-me, por exemplo, de que você dizia que não existe justiça popular contra a justiça; isso se passa em outro nível.

M.F.: Penso que, atrás do ódio que o povo tem da justiça, dos juizes, dos tribunais, das prisões, não se deve apenas ver a idéia de outra justiça melhor e mais justa, mas antes de tudo a percepção de um ponto singular em que o poder se exerce em detrimento do povo. A luta anti-judiciária é uma luta contra o poder e não uma luta contra as injustiças, contra as injustiças da justiça e por um melhor funcionamento da instituição judiciária. Não deixa de ser surpreendente que sempre que houve motins, revoltas e sedições o aparelho judiciário tenha sido um dos alvos, do mesmo modo que o aparelho fiscal, o exército e as outras formas de poder. Minha hipótese – mas é apenas uma hipótese – é que os tribunais populares, por exemplo no momento da Revolução Francesa, foram um modo da pequena burguesia aliada ás massas recuperar, retomar nas mãos o movimento de luta contra a justiça. E para retomá-lo, propôs o sistema do tribunal que se refere a uma justiça que poderia ser justa, a um juiz que poderia dar uma sentença justa. A própria forma do tribunal pertence a uma ideologia da justiça que é a da burguesia.

G.D.: Se se considera a situação atual, o poder possui forçosamente uma visão total ou global. Quero dizer que todas as formas atuais de repressão, que são múltiplas, se totalizam facilmente do ponto de vista do poder: a repressão racista contra os imigrados, a repressão nas fábricas, a repressão no ensino, a repressão contra os jovens em geral. Não se deve apenas procurar a unidade de todas essas formas em uma reação a Maio de 68, mas principalmente na preparação e na organização de nosso futuro próximo. O capitalismo francês tem grande necessidade de uma “reserva” de desemprego e abandona a máscara liberal e paternal do pleno emprego. E deste ponto de vista que encontram unidade: a limitação da imigração, já tendo sido dito que se confiava aos imigrados os trabalhos mais duros e ingratos; a repressão nas fábricas, pois se trata de devolver ao francês o “gosto” por um trabalho cada vez mais duro; a luta contra os jovens e a repressão no ensino, visto que a repressão policial é tanto mais ativa quanto menos necessidade de jovens se tem no mercado de trabalho. Vários tipos de categorias profissionais vão ser convidados a exercer funções policiais cada vez mais precisas: professores, psiquiatras, educadores de todos os tipos, etc. E algo que você anunciava há muito tempo e que se pensava que não poderia acontecer: o reforço de todas as estruturas de reclusão. Então, frente a esta política global do poder se fazem revides locais, contra-ataques, defesas ativas e às vezes preventivas. Nós não temos que totalizar o que apenas se totaliza do lado do poder e que só poderíamos totalizar restaurando formas representativas de centralismo e de hierarquia. Em contrapartida, o que temos que fazer é instaurar ligações laterais, todo um sistema de redes, de bases populares. E é isto que é difícil. Em todo caso, para nós a realidade não passa de modo algum pela política, no sentido tradicional de competição e distribuição de poder, de instâncias ditas representativas do tipo P.C. ou C.G.T.. A realidade é o que está acontecendo efetivamente em uma fábrica, uma escola, uma caserna, uma prisão, um comissariado. De tal modo que a ação comporta um tipo de informação de natureza totalmente diferente das informações dos jornais (como o tipo de informação da Agence de Presse Libération).

M.F.: Esta dificuldade – nosso embaraço em encontrar as formas de luta adequadas – não virá de que ainda ignoramos o que é o poder? Afinal de contas, foi preciso esperar o século XIX para saber o que era a exploração, mas talvez ainda não se saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda parte, que se chama poder. A teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não esgotam o campo de exercício e de funcionamento do poder. Existe atualmente um grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder… Sabe-se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de “classe dirigente” nem é muito clara nem muito elaborada. “Dominar”, “dirigir”,’ “governar”, “grupo no poder”, “aparelho de Estado”, etc.. é todo um conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que  instâncias, freqüentemente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.

Se a leitura de seus livros (do Nietzsche e a filosofia até o que pressinto ser o AntiÉdipo: Capitalismo e Esquizofrenia) foi tão essencial para mim, é que eles me parecem ir bastante longe na colocação deste problema: sob o velho tema do sentido, significado, significante, etc., a questão do poder, da desigualdade dos poderes, de suas lutas. Cada luta se desenvolve em torno de um foco particular de poder (um dos inúmeros pequenos focos que podem ser um pequeno chefe, um guarda de H. L. M., um diretor de prisão, um juiz, um responsável sindical, um redator-chefe de um jornal). E se designar os focos, denunciá-los, falar deles publicamente é uma luta, não é porque ninguém ainda tinha tido consciência disto, mas porque falar a esse respeito – forçar a rede de informação institucional, nomear, dizer quem fez, o que fez, designar o alvo – é uma primeira inversão de poder, é um primeiro passo para outras lutas contra o poder. Se discursos como, por exemplo, os dos detentos ou dos médicos de prisões são lutas, é porque eles confiscam, ao menos por um momento, o poder de falar da prisão, atualmente monopolizado pela administração e seus compadres reformadores. O discurso de luta não se opõe ao inconsciente: ele se opõe ao segredo. Isso dá a impressão de ser muito menos. E se fosse muito mais? Existe uma série de equívocos a respeito do “oculto”, do “recalcado”, do “não dito” que permite “psicanalisar” a baixo preço o que deve ser o objeto de uma luta. O segredo é talvez mais difícil de revelar que o inconsciente. Os dois temas ainda há pouco freqüentes – “a escritura é o recalcado” e “a escritura é de direito subversiva” – me parecem revelar certo número de operações que é preciso denunciar implacavelmente.

G.D.: Quanto ao problema que você coloca – vê-se quem explora, quem lucra, quem governa, mas o poder é algo ainda mais difuso – eu levantaria a seguinte hipótese: mesmo o marxismo – e sobretudo ele – determinou o problema em termos de interesse (o poder é detido por uma classe dominante definida por seus interesses). Imediatamente surge uma questão: como é possível que pessoas que não têm muito interesse nele sigam o poder, se liguem estreitamente a ele, mendiguem uma parte dele? E que talvez em termos de investimentos, tanto econômicos quanto inconscientes, o interesse não seja a última palavra: há investimentos de desejo que explicam que se possa desejar, não contra seu interesse – visto que o interesse é sempre uma decorrência e se encontra onde o desejo o coloca – mas desejar de uma forma mais profunda e mais difusa do que seu interesse. E preciso ouvir a exclamação de Wilhelm Reich: não, as massas não foram enganadas, em determinado momento elas efetivamente desejaram o fascismo! Há investimentos de desejo que modelam o poder e o difundem, e que fazem com que o poder exista tanto ao nível do tira quanto do primeiro ministro e que não haja diferença de natureza entre o poder que exerce um reles tira e o poder que exerce um ministro. E a natureza dos investimentos de desejo em relação a um corpo social que explica porque partidos ou sindicatos, que teriam ou deveriam ter investimentos revolucionários em nome dos interesses de classe, podem ter investimentos reformistas ou perfeitamente reacionários ao nível do desejo.

M.F.: Como você diz, as relações entre desejo, poder e interesse são mais complexas do que geralmente se acredita e não são necessariamente os que exercem o poder que têm interesse em exercê-lo, os que têm interesse em exercê-lo não o exercem e o desejo do poder estabelece uma relação ainda singular entre o poder e o interesse. Acontece que as massas, no momento do fascismo, desejam que alguns exerçam o poder, alguns que, no entanto, não se confundem com elas, visto que o poder se exercerá sobre elas e em detrimento delas, até a morte, o sacrifício e o massacre delas; e, no entanto, elas desejam este poder, desejam que esse poder seja exercido. Esta relação entre o desejo, o poder e o interesse é ainda pouco conhecida. Foi preciso muito tempo para saber o que era a exploração. E o desejo foi, e ainda é, um grande desconhecido. E possível que as lutas que se realizam agora e as teorias locais, regionais, descontinuas, que estão se elaborando nestas lutas e fazem parte delas, sejam o começo de uma descoberta do modo como se exerce o poder.

G.D.: Eu volto então à questão: o movimento atual tem muitos focos, o que não significa fraqueza e insuficiência, pois a totalização pertence sobretudo ao poder e à reação. Por exemplo, o Vietnã é um formidável revide local. Mas como conceber as redes, as ligações transversais entre esses pontos ativos descontínuos entre países ou no interior de um mesmo país?

M.F.: Esta descontinuidade geográfica de que você fala significa talvez o seguinte: quando se luta contra a exploração é o proletariado que não apenas conduz a luta, mas define os alvos, os métodos, os lugares e os instrumentos de luta; aliar-se ao proletariado é unir-se a ele em suas posições, em sua ideologia; é aderir aos motivos de seu combate; é fundir-se com ele. Mas se é contra o poder que se luta, então todos aqueles sobre quem o poder se exerce como abuso, todos aqueles que o reconhecem como intolerável, podem começar a luta onde se encontram e a partir de sua atividade (ou passividade) própria. E iniciando esta luta – que é a luta deles – de que conhecem perfeitamente o alvo e de que podem determinar o método, eles entram no processo revolucionário. Evidentemente como aliado do proletariado pois, se o poder se exerce como ele se exerce, é para manter a exploração capitalista. Eles servem realmente à causa da revolução proletária lutando precisamente onde a opressão se exerce sobre eles. As mulheres, os prisioneiros, os soldados, os doentes nos hospitais, os homossexuais iniciaram uma luta específica contra a forma particular de poder, de coerção, de controle que se exerce sobre eles. Estas lutas fazem parte atualmente do movimento revolucionário, com a condição de que sejam radicais, sem compromisso nem reformismo, sem tentativa de reorganizar o mesmo poder apenas com uma mudança de titular. E, na medida em que devem combater todos os controles e coerções que reproduzem o mesmo poder em todos os lugares, esses movimentos estão ligados ao movimento revolucionário do proletariado. Isto quer dizer que a generalidade da luta certamente não se faz por meio da totalização de que você falava há pouco, por meio da totalização teórica, da “verdade”. O que dá generalidade à luta é o próprio sistema do poder, todas as suas formas de exercício e aplicação.

G. D.: E não se pode tocar em nenhum ponto de aplicação do poder sem se defrontar com este conjunto difuso que, a partir de então, se é necessariamente levado a querer explodir a partir da menor reivindicação. Toda defesa ou ataque revolucionário parciais se unem, deste modo, à luta operária.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

FOUCAULT, M. Microfísica do PoderOrganização, introdução e revisão técnica de R. Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979. LEIA MAIS.

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“Foucault, Deleuze e Derrida Frente à Crise”
Por Scarlett Marton

“Michel Foucault Por Ele mesmo”