Vladimir Safatle está estarrecido: “Fiquei procurando um cartazete sobre a corrupção no metrô de São Paulo, um ‘Fora, Alckmin!’, grande timoneiro de nosso ‘estresse hídrico’, um ‘Fora, Eduardo Cunha’ ou ‘Fora, Renan’, pessoas da mais alta reputação. Nada.”

Em um artigo brilhante publicado na Folha De São Paulo, o filósofo Vladimir Safatle, com altas doses de sarcasmo e apurado senso crítico,  comentou as manifestações do último Domingo, 15 de Março de 2015. Em sua avaliação, não houve nada remotamente parecido a uma festa da democracia, apesar de todo o “confete” que a imprensa corporativa lançou sobre estes atos, que ela aliás ajudou a convocar e bombar, como a atitude manipulatória da Rede Globo comprova.

Uma pesquisa da Datafolha apontou que 82% dos manifestantes que foram à Avenida Paulista votaram em Aécio e que 74% deles participavam pela primeira vez de uma manifestação. O que é um índice forte de que um pessoal apolítico e desinformado, sem conexão alguma com ativismo ou militância, serviu como massa de manobra do P.I.G. (o Partido da Imprensa Golpista), do Tucanato (derrotado nas urnas) e dos interesses petrolíferos do imperialismo yankee (em especial a Koch Industries).

Decerto muita gente esteve nas ruas por causas tão singelas quanto o desejo de aparecer no Plim Plim (como se pedissem às câmeras:”Filma a gente pra passar no Faustão!”). Muito mais grave do que o  rolê patriótico dominical ao qual alguns compareceram só pois o ato ia passar no Fantástico ou ser comentado no intervalo do jogo pelo Galvão e pelo Arnaldo, foi a licença que alguns tomaram para soltar os cachorros do ódio (como sugere o ótimo texto de Leandro Fortes) e bradar abundantes defesas reacionárias da barbárie e do fascismo em várias formas.

A começar, é claro, por aqueles brasileiros que clamavam por uma intervenção militar contra um governo democraticamente eleito (eles têm realmente saudade dos 21 anos tenebrosos que passamos entre 1964 e 1985? Querem o retorno das torturas, dos exílios, dos desaparecimentos, do terrorismo de Estado institucionalizado?); aqueles que queriam a extinção da influência marxista e deletéria de Paulo Freire na pedagogia brasileira (o que propõem estes mentecaptos?Que façamos grandes fogueiras públicas para incinerar não só Freire, mas também reduzir a cinzas o pensamento d’um Florestan Fernandes ou d’uma Marilena Chauí? Devemos apostar numa educação “100% Bíblica”?); para não falar naqueles que pregavam a pena de morte ou o linchamento para Dilma, Lula ou Stédile… Fascismos do cotidiano deste tipo conduzem-nos a suspeitar, como fez o rapper Criolo em já clássica canção, que “Não Existe Amor em SP”.

Paulicéia Desvairadíssima:

Em meio à pior crise de abastecimento de água já vivenciada em São Paulo, não se ouvia um pio, nem se via um mísero cartazete, contra o governador Geraldo Alckmin, ironicamente descrito por Safatle como o “grande timoneiro de nosso estresse hídrico” (leia também: Breve Tratado Sobre o Sonambulismo Paulista). Beira o inacreditável a relação sadomasoquista que boa parte dos paulistas têm com seu governador, como aponta Altamiro Borges: “a aceitação bovina pelos paulistas dos problemas advindos da incúria do governo estadual na questão da distribuição de água fez essa relação quase sadomasoquista atingir o fundo do poço”.

Quão tragicômicos são estes paulistanos que, vestidos com suas camisas canarinho da corruptíssima CBF, depois de terem votado em Aécio Neves e Geraldo Alckmin na última eleição (aparentemente não dando a mínima para os casos de corrupção e má gestão do bem público em que estiveram envolvidos estes tucanos-dos-trensalões-e-das-privatarias…), tenham aparecido para esta versão 2015 da “Marcha da Família, com Deus, pela liberdade” e que nela bradassem sua indignação seletiva e simplória contra Dilma Rousseff e os “petralhas”, tidos como os únicos culpados por todos os males da pátria. Como mandava a cartilha pregada pela mídia corporativa golpista e que muita gente, papagaios da Globo ou da Veja, repete de modo acéfalo.

Ora, se a manifestação era contra a corrupção, como é que não se viam manifestações de repúdio a figuras como Renan Calheiros ou Eduardo Cunha, nem muito menos questionamentos sobre a gestão Alckmista desastrosa da Sabesp? Se a manifestação pedia por reformas que pudessem melhorar a qualidade de vida de 99% dos brasileiros, por que não começar pela taxação das grandes fortunas (prevista na Constituição de 1988) ou (como outro artigo de Safatle sugere) pelo fim dos privilégios concedidos à elite que “anda” de jatinho e helicóptero particular, sem ter que pagar IPVA? (“Se os 20 mil jatos particulares e os 2.000 helicópteros que voam livremente no Brasil pagassem IPVA, teríamos algo em torno de mais R$ 8 bilhões.”)

O artigo de Safatle também aponta bem o quanto a histeria anti-comunista chegou a tais níveis de irracionalidade e de representação delirante da realidade que – pasmem! – tem gente que acredita que o PT governista, na Era Lula e Dilma, representa um regime comunista, cubano, bolivarista… Petista é tudo comedor de criancinha, financiador de Black Bloc e defensor de vietcongue…

Após esta introdução, convido os leitores d’A Casa de Vidro a deixarem-se provocar e refletir por mais um texto primoroso do Vladimir Safatle, um dos maiores pensadores políticos brasileiros, que é radical e contundente a ponto de enfatizar que o país precisa de uma “refundação radical de sua República”.

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Você na rua, de novo. Que interessante. Fazia tempo que não aparecia com toda a sua família. Se me lembro bem, a última vez foi em 1964, naquela “Marcha da família, com Deus, pela liberdade”. É engraçado, mas não sabia que você tinha guardado até mesmo os cartazes daquela época: “Vai para Cuba”, “Pela intervenção militar”, “Pelo fim do comunismo”. Acho que você deveria ao menos ter tentado modernizar um pouco e inventar algumas frases novas. Sei lá, algo do tipo: “Pela privatização do ar”, “Menos leis trabalhistas para a empresa do meu pai”.

Vi que seus amigos falaram que sua manifestação foi uma grande “festa da democracia”, muito ordeira e sem polícia jogando bomba de gás lacrimogêneo. E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe militar, ou seja, regimes que torturam, assassinam opositores, censuram e praticam terrorismo de Estado. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime. Mas é verdade que os tempos são outros.

Por sinal, eu queria aproveitar e parabenizar o pessoal que cuida da sua assessoria de imprensa. Realmente, trabalho profissional. Nunca vi uma manifestação tão anunciada com antecedência, um acontecimento tão preparado. Uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado.

Agora, se não se importar, tenho uma pequena sugestão. Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras, um “Fora, Alckmin”, grande timoneiro de nosso “estresse hídrico”, um “Fora, Eduardo Cunha” ou “Fora, Renan”, pessoas da mais alta reputação. Nada.

Se você não colocar ao menos um cartaz, vai dar na cara de que seu “apartidarismo” é muito farsesco, que esta história de impeachment é o velho golpe de tirar o sujeito que está na frente para deixar os operadores que estão nos bastidores intactos fazendo os negócios de sempre. Impeachment é pouco, é cortina de fumaça para um país que precisa da refundação radical de sua República. Mas isto eu sei que você nunca quis. Vai que o povo resolve governar por conta própria.

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4 pensamentos sobre “Vladimir Safatle está estarrecido: “Fiquei procurando um cartazete sobre a corrupção no metrô de São Paulo, um ‘Fora, Alckmin!’, grande timoneiro de nosso ‘estresse hídrico’, um ‘Fora, Eduardo Cunha’ ou ‘Fora, Renan’, pessoas da mais alta reputação. Nada.”

  1. […] alvos quase únicos desta contestação marcada por indignação altamente seletiva. Vladimir Safatle ficou estarrecido: “Fiquei procurando um cartazete sobre a corrupção no metrô… (op cit, nota […]

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