Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

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Se me perguntarem quais foram as experiências estéticas mais impressionantes que já vivenciei, entre as mais fortes estará a atuação de Björk em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. Ali descobri, espantado, o enorme talento que ela possui para comunicar algo de tal magnitude e complexidade que só dá pra descrever apelando para os adjetivos “épico” e “trágico”. Depois de “conhecer” Selma na sala de cinema, é impossível não carregá-la consigo na memória, com seus olhos que vão gradualmente fracassando na percepção do mundo externo, enquanto o colorido carrossel interior da personagem segue transformando toda desgraça em opereta. Até que o cadafalso cala todas as canções – e é talvez o silêncio mais cruel que o enfant terrible Von Trier já nos expôs a sentir.

Se evoco aqui a obra-prima do provocador dinamarquês é para relembrar que Björk já tem um tremendo precedente em sua carreira “extra-musical” – e quão raro é que alguém do ramo da música vença um prestigioso prêmio como Melhor Atriz no Festival de Cannes. Agora Björk demonstra mais uma vez suas múltiplas habilidades como performer no filme-concerto Biophilia, que demorou 4 anos para ser concretizado: é um espetáculo multi-mídia, que congrega teatralidade, coreografia e ritual pagão de adoração à Pan. Suspeito que é uma obra que deve entrar para a história como um dos mais interessantes “filmes-show” já feitos, juntando-se ao Olimpo que já tem The Last Waltz (Martin Scorcese filmando a The Band) e Stop Making Sense (Jonathan Demme em sintonia com os Talking Heads), dentre outras pérolas do “cinema musical”.

Björk revela-se uma artista de imensa ambição e múltiplos talentos ao construir, em Biophilia, um retrato sônico, visual e teatral de certas coisas que não se imagina caberem no espaço restrito de um palco: por exemplo, galáxias de revirantes corpos celestes, unidos pela força invisível de abraços gravitacionais, que são evocados com recorrência durante o concerto: “heavenly bodies are whirling around me”, canta Björk como se em delírio de fascinação diante do dínamo iluminado da noite. A luz que penetra as retinas, vinda de astros há bilhões de anos-luz de distância, tem como equivalente interno a “nebula interior” que ela explora em uma das mais lindas composições do álbum, “Crystalline”.

O nome do projeto também dá o que pensar: como é evidente, Biophilia tem como proposta colocar a música em um contexto biológico e litúrgico, constituindo uma espécie de culto musical à Vida. Tanto é assim que o grande naturalista e broadcaster britânico David Attenborough é uma figura importante neste processo. Conhecido pelas mais de 5 décadas de trabalho educativo televisionado, em especial pela BBC, Attenborough viaja o mundo documentando a diversidade da vida para séries consagradas como Life e Planet Earth. Seu vozeirão à la John Hurt faz o prelúdio à Biophilia, convocando o público a explorar o amor à natureza em todas as suas manifestações.

Attenborough

Quando Björk desponta em cena, é em exuberante e exótica fantasia, que deixa aberta a via para múltiplas interpretações: a mim pareceu que ela estava vestida com uma espécie de fantástico animal marítimo, com os cabelões em fogo como uma espécie de Agni animalizada e encarnada com feições asiásticas… É como se Björk quisesse se desumanizar, mas em um bom sentido: ela tenta identificar-se com animais, plantas, rios, florestas, nuvens, estrelas, em uma espécie de devir-outro em que procura transcender os estreitos antropomorfismos e atingir uma arte que, apesar de humana, procura ser retrato de toda a beleza, força e mistério do inumano. Nada do que não é humano lhe é estranho.

Todos os conceitos que estão por detrás do projeto Biophilia são difíceis de compreender para um espectador que vai “virgem” ao álbum, ao espetáculo ou ao filme, o que é mais uma razão para louvar um documentário como When Attenborough Met Björk, que vai muito além de registrar uma conversação entre o erudito biólogo e a talentosa cantora no interior do Museu de História Natural de Londres. O documentário serve como ótimo “aperitivo” para Biophilia e merece ser exibido na sessão de cinema imediatamente anterior, fornecendo o “contexto” que possibilita perceber mais nuances da obra principal. Attenborough desfila seu vasto conhecimento sobre os animais e os sons que eles produzem para compartilhar uma tese que a alguns pode até soar estranha: a música transcende a humanidade; pode-se inclusive falar na “música dos pássaros”, na “música das baleias”, na “música dos macacos”…

Oliver Sacks

Oliver Sacks, com todo o conhecimento adquirido em mais de 80 anos de vida, devotada a pesquisas sobre o cérebro humano, revela no documentário suas opiniões sobre o quão importante a música pode ser como “terapia”, relatando um experimento com pacientes idosos, em estado de demência, que só “despertam” de suas letargias ou de seus delírios quando “penetrados” por uma música evocativa, que traz memórias à tona e comunica para além da verbalidade.

Björk, ela também, procura em sua música ir muito além da verbalidade – é evidente que suas canções tem palavras e que é plenamente possível imprimir suas letras em um encarte ou fazê-las aparecer em legendas, mas seu trabalho sobre o som é muito mais amplo do que uma mera artesania vocabular. A arte de Björk cria uma espécie de “atmosfera” em que o ouvinte-espectador pode mergulhar, realizar uma imersão, deixar-se afetar em todos os seus sentidos, para além da razão. Em Biophilia, o filme, as paisagens sonoras aparecem mais como forças da natureza do que como algo a ser restrito ao âmbito da criatividade humana.

Eis uma arte que não apela somente ao intelecto, mas sim à sensibilidade por inteiro, e quem quiser “entender” Björk unicamente com a cabeça vai fracassar, assim como aquele que é “todo coração” e zero cérebro, em sua relação com a música dela, também deixará de apreciar todo o arcabouço conceitual que está por detrás. A melhor atitude, creio eu, é ir de cabeça aberta e coração alerta, pronto para o encontro com a estranheza maravilhante e o exotismo exuberante. E quem quisar dropar um ácido ou intensificar sinapses com uma ganja pode ir a Biophilia sem medo de bad trip. O único risco, que não é grave, são experiências intensas de misticismo exacerbado, paganismo panteístico e biophilia desabrida. Em suma, Biophilia manifesta Björk ensinando-nos a melhor amar a vida ao encenar e cantar seu próprio amaravilhamento cósmico, e com aquela Exuberância que William Blake dizia ser sinônimo de Beleza.


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Um pensamento sobre “Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

  1. […] também em nosso trato com a vida em geral, em quaisquer de suas manifestações específicas? Só a Biophilia – para usar a expressão muito feliz de Björk – irá salvar-nos de seguirmos nesta sina de sermos uma catástrofe para o equilíbrio […]

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