CACHOEIRAS DE CRIATIVIDADE – Concerto magistral da Filarmônica de Goiás revive Tchaikovsky, Smetana e Dvorak

Gyn Classic

Chovia a cântaros. O que não impediu o público goianiense amante da boa música de preencher as centenas de cadeiras do Teatro Goiânia, nesta última Quinta-Feira, 27 de Novembro, para um concerto de lavar a alma. Não faltaram experiências estéticas sublimes jorrando como temporal sobre a platéia: sob a batuta do maestro israelense Yishai Stekler, regendo a afinadíssima Orquestra Filarmônica de Goiás, ouvimos interpretações magistrais de Smertana, Tchaikovsky e Dvorak. A tempestade lá fora era tão intensa que cheguei a suspeitar que o evento teria que ser cancelado: uma pequena cachoeira de garoa, antes do começo de espetáculo, chovia do teto do teatro justo sobre o spot destinado ao maestro. Com um pouco de improviso, no calor da hora, tudo se arranjou para que o concerto prosseguisse a contento, iniciando com uma impactante interpretação da abertura da ópera “A Noiva Vendida”, do compositor tcheco Smetana (1824-1884).

Apesar da ausência de relâmpagos e trovões lá fora, a presença da chuva fazia-se presente, cúmplice da orquestra, não chegando porém a constituir concorrência à sonoridade poderosa do conjunto de músicos impecavelmente entrosados. A tensão que pairava no ar estava mais alta do que é corriqueiro nos tão solenes e regrados eventos de música erudita, já que a intempérie trouxe a Natureza para dentro do teatro de um modo incomum, exigindo dos músicos que adaptassem-se velozmente a um contexto novo, a que não estão acostumados. O violoncelista alemão Johannes Gramsch, nascido em Düsseldorf, mas radicado no Brasil desde 2003, quando assumiu seu posto na OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), solou um Tchaikovsky com muita graça, tirando de letra, para júbilo geral, as “Variações Sobre Um Tema Rococó Op. 33”. Foi tão aclamado que teve que voltar pro bis.


Tchaikovsky, “Variações Sobre Um Tema Rococó Op. 33”
com Orquestra Sinfônica da UNICAMP, 2012

Foi também sensacional e inesquecível ter testemunhado a Orquestra Filarmônica de Goiás tocando a Nona do Dvorak – “Sinfonia Novo Mundo” – no Teatro Goiás fustigado pela chuvarada. Sempre sonhei em um dia poder conferir ao vivo e a cores em minhas retinas estarrecidas esta peça de uma sublimidade e uma violência que não cessam de me espantar mesmo depois de anos de convivência. Para o meu paladar sônico Dvorak foi nada menos que um gênio do porte de Tchaikovsky, Schubert, Mozart, Beethoven e Bártok. Os “bravos!” ecoaram fortes e autênticos depois da última nota, a platéia transbordante de gratidão depois de tanta potência e graça. Oscar Wilde é que estava certo: “a música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela seu último segredo.”

E enquanto o Dvorak, o Tchaikovsky e o Smetana eram tocados à perfeição, a cachoeira no palco foi uma espécie de participação cenográfica imprevista, gerando um efeito estético inolvidável, pingando belamente sobre os suores dos músicos. Ao invés de empecilho, pedra no caminho, a Cachoeira de Garoa acabou tornando este um dos concertos mais memoráveis que já presenciei. Nesta noite, a OFG, o maestro israelense e o violoncelista alemão fizeram por merecer os aplausos efusivos da platéia: mandaram muito bem na atividade coletiva fantasticamente complexa que é reavivar, com tanta verve, uma obra-prima da história da Música. Parabéns a todos os envolvidos nesta noite musical em que nossos corações e mentes banharam-se em uma tempestade relampejante de belezas sem número!

Relembrem a peça de Dvorak, com Herbert Von Karajan e a Filarmônica de Viena:

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Veja também:

2 horas de B. Smetana (1824-1884), compositor tcheco, em concerto realizado em Praga com a Orchestre Philharmonique de Radio France em 2013. Peça: “Má Vlast”.

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Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

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Se me perguntarem quais foram as experiências estéticas mais impressionantes que já vivenciei, entre as mais fortes estará a atuação de Björk em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. Ali descobri, espantado, o enorme talento que ela possui para comunicar algo de tal magnitude e complexidade que só dá pra descrever apelando para os adjetivos “épico” e “trágico”. Depois de “conhecer” Selma na sala de cinema, é impossível não carregá-la consigo na memória, com seus olhos que vão gradualmente fracassando na percepção do mundo externo, enquanto o colorido carrossel interior da personagem segue transformando toda desgraça em opereta. Até que o cadafalso cala todas as canções – e é talvez o silêncio mais cruel que o enfant terrible Von Trier já nos expôs a sentir.

Se evoco aqui a obra-prima do provocador dinamarquês é para relembrar que Björk já tem um tremendo precedente em sua carreira “extra-musical” – e quão raro é que alguém do ramo da música vença um prestigioso prêmio como Melhor Atriz no Festival de Cannes. Agora Björk demonstra mais uma vez suas múltiplas habilidades como performer no filme-concerto Biophilia, que demorou 4 anos para ser concretizado: é um espetáculo multi-mídia, que congrega teatralidade, coreografia e ritual pagão de adoração à Pan. Suspeito que é uma obra que deve entrar para a história como um dos mais interessantes “filmes-show” já feitos, juntando-se ao Olimpo que já tem The Last Waltz (Martin Scorcese filmando a The Band) e Stop Making Sense (Jonathan Demme em sintonia com os Talking Heads), dentre outras pérolas do “cinema musical”.

Björk revela-se uma artista de imensa ambição e múltiplos talentos ao construir, em Biophilia, um retrato sônico, visual e teatral de certas coisas que não se imagina caberem no espaço restrito de um palco: por exemplo, galáxias de revirantes corpos celestes, unidos pela força invisível de abraços gravitacionais, que são evocados com recorrência durante o concerto: “heavenly bodies are whirling around me”, canta Björk como se em delírio de fascinação diante do dínamo iluminado da noite. A luz que penetra as retinas, vinda de astros há bilhões de anos-luz de distância, tem como equivalente interno a “nebula interior” que ela explora em uma das mais lindas composições do álbum, “Crystalline”.

O nome do projeto também dá o que pensar: como é evidente, Biophilia tem como proposta colocar a música em um contexto biológico e litúrgico, constituindo uma espécie de culto musical à Vida. Tanto é assim que o grande naturalista e broadcaster britânico David Attenborough é uma figura importante neste processo. Conhecido pelas mais de 5 décadas de trabalho educativo televisionado, em especial pela BBC, Attenborough viaja o mundo documentando a diversidade da vida para séries consagradas como Life e Planet Earth. Seu vozeirão à la John Hurt faz o prelúdio à Biophilia, convocando o público a explorar o amor à natureza em todas as suas manifestações.

Attenborough

Quando Björk desponta em cena, é em exuberante e exótica fantasia, que deixa aberta a via para múltiplas interpretações: a mim pareceu que ela estava vestida com uma espécie de fantástico animal marítimo, com os cabelões em fogo como uma espécie de Agni animalizada e encarnada com feições asiásticas… É como se Björk quisesse se desumanizar, mas em um bom sentido: ela tenta identificar-se com animais, plantas, rios, florestas, nuvens, estrelas, em uma espécie de devir-outro em que procura transcender os estreitos antropomorfismos e atingir uma arte que, apesar de humana, procura ser retrato de toda a beleza, força e mistério do inumano. Nada do que não é humano lhe é estranho.

Todos os conceitos que estão por detrás do projeto Biophilia são difíceis de compreender para um espectador que vai “virgem” ao álbum, ao espetáculo ou ao filme, o que é mais uma razão para louvar um documentário como When Attenborough Met Björk, que vai muito além de registrar uma conversação entre o erudito biólogo e a talentosa cantora no interior do Museu de História Natural de Londres. O documentário serve como ótimo “aperitivo” para Biophilia e merece ser exibido na sessão de cinema imediatamente anterior, fornecendo o “contexto” que possibilita perceber mais nuances da obra principal. Attenborough desfila seu vasto conhecimento sobre os animais e os sons que eles produzem para compartilhar uma tese que a alguns pode até soar estranha: a música transcende a humanidade; pode-se inclusive falar na “música dos pássaros”, na “música das baleias”, na “música dos macacos”…

Oliver Sacks

Oliver Sacks, com todo o conhecimento adquirido em mais de 80 anos de vida, devotada a pesquisas sobre o cérebro humano, revela no documentário suas opiniões sobre o quão importante a música pode ser como “terapia”, relatando um experimento com pacientes idosos, em estado de demência, que só “despertam” de suas letargias ou de seus delírios quando “penetrados” por uma música evocativa, que traz memórias à tona e comunica para além da verbalidade.

Björk, ela também, procura em sua música ir muito além da verbalidade – é evidente que suas canções tem palavras e que é plenamente possível imprimir suas letras em um encarte ou fazê-las aparecer em legendas, mas seu trabalho sobre o som é muito mais amplo do que uma mera artesania vocabular. A arte de Björk cria uma espécie de “atmosfera” em que o ouvinte-espectador pode mergulhar, realizar uma imersão, deixar-se afetar em todos os seus sentidos, para além da razão. Em Biophilia, o filme, as paisagens sonoras aparecem mais como forças da natureza do que como algo a ser restrito ao âmbito da criatividade humana.

Eis uma arte que não apela somente ao intelecto, mas sim à sensibilidade por inteiro, e quem quiser “entender” Björk unicamente com a cabeça vai fracassar, assim como aquele que é “todo coração” e zero cérebro, em sua relação com a música dela, também deixará de apreciar todo o arcabouço conceitual que está por detrás. A melhor atitude, creio eu, é ir de cabeça aberta e coração alerta, pronto para o encontro com a estranheza maravilhante e o exotismo exuberante. E quem quisar dropar um ácido ou intensificar sinapses com uma ganja pode ir a Biophilia sem medo de bad trip. O único risco, que não é grave, são experiências intensas de misticismo exacerbado, paganismo panteístico e biophilia desabrida. Em suma, Biophilia manifesta Björk ensinando-nos a melhor amar a vida ao encenar e cantar seu próprio amaravilhamento cósmico, e com aquela Exuberância que William Blake dizia ser sinônimo de Beleza.


O Petróleo do Pré-Sal e as Hidrelétricas Amazônicas: Dois Projetos de Reportagem Abortados

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Durante as últimas semanas, mergulhei de cabeça nas pesquisas, analógicas e digitais, on e off line, sobre dois temas essenciais para o Brasil de hoje e para o planeta de amanhã. A Agência Pública de Jornalismo Investigativo e o Greenpeace estavam oferecendo microbolsas de R$5.000 para realização de grandes reportagens sobre os meandros e veredas da produção de energia em terra brasilis. Abaixo, compartilho as duas pautas que apresentei a eles na esperança de ser agraciado com uma das bolsas. Não fui um dos 4 selecionados, e eis-me aqui restituído à melancolia do desemprego; mas ao invés de engavetar esse material, escondendo-o nos armários do fracasso junto com milhares de outros papéis cuja brancura eu ousei profanar, preferi postar as pautas neste blog transparente e despoluído ( e que não vale um puto na bolsa de valores… ). Fica aí como uma espécie de monumento-em-escombros, dedicado a algo que eu planejei realizar mas que não terá verbas para deixar o mundo platônico das ideias inúteis  tão cedo… A serventia disso, acredito, é pouca mas não nula: com estes planos de reportagem, procurei compartilhar um pouco das informações mais estarrecedoras que andei descobrindo, e cuja relevância prossigo acreditando imensa. Agradeço ao companheiro Rodrigo Gomes Lobo, poeta-jornalista-antropólogo-e-muito-mais, que estava topando embarcar comigo nessa jornada em busca das verdades infames sobre o pré-sal e sobre as barragens hidrelétricas amazônicas. A vontade de expandir nossa amizade para abarcar uma parceria de trabalho prossegue viva e, oxalá, apenas adiada.

Eis aí o que não vai ser:

Fossil Fuel

 

 CONCURSO DE MICROBOLSAS – GREENPEACE & PÚBLICA

MUITO ALÉM DO DINHEIRO: OS CUSTOS SOCIOAMBIENTAIS DO PRÉ-SAL

* Resumo da proposta

Propomos investigar várias vozes que argumentam pelo fim da era dos combustíveis fósseis. Ofereceremos um quadro geral das controvérsias a respeito dos impactos socioambientais do projeto energético do pré-sal em nossa era de aquecimento global.

* Pré-Apuração. Explique o que você já apurou sobre a pauta e por que ela é relevante. Deve conter pesquisa inicial, contexto e relevância (Máximo 4 mil caracteres)

Nas profundezas do oceano, com 800km2 de extensão e 200km2 de largura, jaz a “província do pré-sal”. As reservas valem trilhões de dólares no mercado internacional e a produção atual já ultrapassa os 500 mil barris por dia (http://bit.ly/1sEkeu7). O relatório “Point of No Return” do Greenpeace, classifica-o entre os 14 maiores projetos de energia “suja” hoje em curso no planeta. Se todos esses mega-empreendimentos extrativistas e poluidores seguirem em frente, avalia-se que a média das temperaturas globais vai subir entre 4º e 6º C neste século.

Em entrevista concedida a Eliane Brum, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro criticou o status quo político no Brasil por sua incapacidade de enxergar o pré-sal no contexto do planeta – entendido como “a casa das espécies” (http://bit.ly/1vpFf0H). Segundo Viveiros, o pré-sal não é meramente uma oportunidade comercial para que o Brasil faça fortuna e acarretará efeitos socioambientais que vão muito além do dinheiro. Longe de ser algo de interesse local, o pré-sal é um problema para o planeta. Em tom similar, o deputado federal Chico Alencar sustenta que “cada vez mais somos tripulantes de uma nave comum ameaçada que é a Mãe-Terra.” (http://bit.ly/1tGGnIu)

Como alertam o IPCC e as Cúpulas do Clima da ONU, há alarmantes índices de CO2 já na atmosfera e as emissões prosseguem muito acima do recomendável. Há evidências empíricas da crise ecológica global em profusão: queda brutal da biodiversidade, derretimento das calotas polares, ascensão dos eventos de disrupção climática (como aqueles documentados em “Disruption”: http://bit.ly/1xhiXRk).

Estamos presenciando também crescentes mobilizações de ativistas e ONGs que militam em prol de um “futuro verde”, o que atingiu seu ápice na People’s Climate March 2014 (Mídia Ninja: http://bit.ly/1pIO4xl). Uma das principais demandas deste recente ecoativismo é o fim da hegemonia das corporações de petróleo, carvão e gás natural. As ruas bradaram um “chega!”, por exemplo, ao cartel das Sete Irmãs (http://bit.ly/1unDilz), aos crimes da Shell na Nigéria, aos derramamentos tóxicos cancerígenos da Texaco no Equador e da British Petroleum no Golfo do México. Afinal de contas, como aponta reportagem do The Guardian (http://bit.ly/1gCaHA0), 90 corporações (a imensa maioria delas do setor energético) são responsáveis por mais de 2/3 de todas as emissões de gases de efeito estufa.

Julgamos relevante, através da realização deste projeto em parceria com a Pública e o Greenpeace, dar voz àqueles que, no Brasil, diante dos ecocídios, levantam-se em resistência organizada para constituir um movimento global em defesa da biosfera. Queremos materializar em uma grande reportagem (ricamente ilustrada) e em um documentário curta-metragem algumas das manifestações brasileiras desta efervescência global de ativismo, já analisada por Naomi Klein em seu livro This Changes Everything (http://bit.ly/VEOtIc).

Propomos investigar e comunicar ao leitor/espectador várias vozes que argumentam pelo fim da era dos combustíveis fósseis. Um painel de argumentos e opiniões colhidos entre ecosocialistas, antropólogos, climatologistas, midiativistas e militantes. Figuras como Alexandre Araújo Costa, que sustenta: “A exploração das últimas reservas fósseis (o que inclui o pré-sal brasileiro) é absolutamente incompatível com qualquer perspectiva mínima de manter o sistema climático sob limites precariamente seguros. (…) É preciso parar de crescer e desacelerar a locomotiva tresloucada do capital, arrancando a riqueza diretamente do punhado de bilionários que a controla.” (http://bit.ly/1qDQ0aK)

As perguntas norteadoras deste projeto podem ser: “Em que mundo irão viver as futuras gerações (inclusive as não-humanas) caso as reservas de petróleo hoje conhecidas, inclusive o pré-sal, sejam queimadas? Que tipo de amanhã estamos legando à Teia da Vida (para usar a célebre expressão de Chief Seattle: http://bit.ly/1v4hIEM)? Há mundo por vir?”

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PAUTA 2:

OS HERÓIS ANÔNIMOS DA RESISTÊNCIA AMAZÔNICA CONTRA AS BARRAGENS

Resumo da proposta

Propomos dar voz aos povos indígenas e ribeirinhos afetados pelas usinas hidrelétricas na Amazônia, comunicando ao leitor as vivências subjetivas e posturas políticas dessa gente, com foco no ecoativismo popular e na solidariedade comunitária.

Pré-Apuração. Explique o que você já apurou sobre a pauta e por que ela é relevante * Deve conter pesquisa inicial, contexto e relevância (Máximo 4 mil caracteres)

Nos últimos anos, muita controvérsia envolveu os megaprojetos hidrelétricos brasileiros. Um relatório do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) aponta que “1 milhão de pessoas foram expulsas de suas terras devido a construção de barragens. Isto corresponde a 300 mil famílias. Dados do MAB apontam que a cada 100 famílias deslocadas, 70 não receberam nenhum tipo de indenização.” (http://bit.ly/1zRRdUa)

Belo Monte, a terceira maior barragem do mundo, atrás apenas de Itaipu e da chinesa Três Gargantas, é só a ponta-de-lança de um fenômeno mais amplo: a disseminação das hidrelétricas em rios como Xingu, Amazonas e Tapajós, em obras financiadas pelo PAC e celebradas pelo governo federal como templos do progresso. As 29 novas hidrelétricas na Amazônia, informa O Globo em 2012, “alagarão uma área de ao menos 9.375,55 km2, quase oito vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro.” (http://glo.bo/1xxbif6)

Atualmente, cerca de 80% da eletricidade brasileira é gerada em hidrelétricas (como esclarecido no vídeo “A Luz Que Vem Das Águas”, da série Linhas: http://bit.ly/1BfG01i). É raro que a imprensa corporativa conte a história das milhares de vidas que são afetadas por estes mega-empreendimentos, responsáveis por imensos fluxos de migração forçada, problemáticos reassentamentos e colapso de ecossistemas.

Nesta pauta aqui apresentada à Pública e ao Greenpeace, propomos investigar a condição existencial dos brasileiros afetados por barragens, que foram empurrados para fora de seus lares, em com destaque para aqueles que tornam-se ecoativistas ou líderes comunitários. Nossa reportagem buscará revelar a densidade psicológica das subjetividades condenadas a uma sina de “desenraizamento”, para usar um conceito de Simone Weil. Nossa intenção é também dar voz à resistência popular daqueles que, por terem sofrido danos, militam para barrar as barragens.

Nos últimos anos, irromperam inúmeras manifestações, protestos, ocupações e greves relacionadas à luta contra as barragens. Um dos episódios mais célebres desta saga ocorreu em 1989, quando os Kayapó, liderados pelo cacique Raoni, conseguiram frear os projetos hidrelétricos do governo Sarney. Duas décadas e meia depois, o ímpeto “conquistador” da Ditadura Militar (1964-1985) em suas relações com a Amazônia não foi inteiramente superado com a re-democratização e alguns pesquisadores, como Idelber Avelar e Viveiros de Castro, acusam o projeto “belo montista” de ser um entulho legado pela ditadura.

No primeiro mandato de Dilma na presidência, houve a emergência de uma resistência multi-facetada a estes projetos faraônicos em eventos como o Xingu +23 e movimentos como Xingu Vivo Para Sempre e o supracitado MAB. Buscaremos entrevistar figuras significativas deste embate e que trazem escritas na carne as estórias de como lutam diariamente para defender rios, florestas e ecossistemas contra a devastação que costuma vir na esteira das hidrelétricas.

Julgamos relevante apresentar ao Brasil alguns de seus heróis anônimos do ecoativismo “grassroots” , ainda mais quando consideramos quanta coragem é necessária para este engajamento em um país que é campeão mundial em assassinatos de ativistas da ecologia, segundo o relatório da Global Witness (http://bit.ly/1u7rFOd). É preciso dar visibilidade e proteção às pessoas que denunciam o desmatamento da Amazônia e que militam contra os grandes projetos de barragens, para que seus direitos de expressão e seus modos de vida sejam respeitados, de modo a evitar novas tragédias como aquelas sofridas por Chico Mendes, Dorothy Stang, José Cláudio Ribeiro, entre outros.

Em suma, procuraremos dar voz aos brasileiros que resistem às barragens, revelando suas perspectivas sobre os rumos do país, de modo a questionar uma das ideologias hegemônicas no país: aquela que Arundathi Roy, em The Greater Common Good (http://bit.ly/113Sbhj), apelida ironicamente como “Local Pain for National Gain” (Dor Local Para Benefício Nacional).

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SIGA VIAGEM…

O DESEQUILÍBRIO É A NORMALIDADE: uma relembrança d’O Alienista de Machado de Assis

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Que exista a palavra “loucura” no singular talvez seja uma doidice da linguagem. Pois no mundo das gentes, quer parecer-me, só há loucuras no plural, doiduras das mais várias e múltiplas, e quase sempre cada um de nós tem dentro si pelo menos uma meia dúzia.

Quase ninguém é doido igual aos mentecaptos ilustres como Dom Quixote ou Rei Lear. As pessoas sempre dão um jeito de inventar uma loucura bastante singular e própria.

O que não impede que os profissionais da área gastem as pontas de seus lápis e as tintas de suas canetas em intermináveis catalogações, classificações, rotulamentos. Dá para encher um dicionário (e já existem) só contendo termos como histeria, psicose, depressão, megalomania, sadomasoquismo e que tais.

Nenhum dicionário esgota todas as potencialidades de diferenciação das mentecaptices humanas. Há as insânias de amor e as de ódio, há as de ganância e as de frugalidade, as de ascetismo e as de libertinagem. Há os que alucinam que são Napoleões e há aqueles que querem enfiar a cabeça na areia, como avestruzes pudorosos, de tanta vergonha de serem quem são…

(Caro leitor, favor levar a sério as reticências que acabo de antepor a vosso caminho, e pareis para pensar por três segundos, ou até minutos, ou até horas, uma para cada ponto, no tanto de gente doida que você já conheceu…).

Se tivesse escrito somente O Alienista, Machado de Assis já mereceria um lugar de destaque naquela seleta galeria de criadores dotados de alta perspicácia em matéria psicológica – como eram Stendhal e Dostoiévski, segundo a avaliação de Nietzsche – ele, que dizia ter aprendido psicologia sobretudo com os mestres da literatura.

A novela tem algo de Fausto, o Doutor Simão Bacamarte sendo também um obcecado pela ciência, pela leitura, pelo saber alquímico capaz de curar os males d’alma… Mas em Machado não há tanto da soturnidade goethiana, já que o brasileiro faz por todas as páginas dúzias de cabriolas e molequices de deixar até um Mefistófeles sentindo-se careta.

Se fosse mais tenebrosa, a obra poderia até passar por um conto de Hoffman ou Edgar Allan Poe. Mas é leitura leve, aprazível, que convida a uma alegre apreciação das irracionalidades humanas, que passam em desfile nesta carnavalesca procissão de doidos, enquanto a narrativa vai desenrolando uma pergunta destinada a tornar-se pulga atrás da orelha do leitor: “se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (2007, pg. 59)

Simão Bacamarte, homem de ciência, de nobreza, nascido em berço d’ouro, servidor de Vossa Majestade em Lisboa, torna-se uma espécie de tirano em Itaguaí ao inaugurar seu hospício, A Casa Verde. Doutor Simão garante que não tem interesses capitalistas ao encerrar tanta gente na casa dos doidos, mas ele enriquece velozmente a ponto de poder mandar a esposa, Dona Evarista, para um passeio ao Rio de Janeiro, de onde ela retorna toda adornada de vestidos de seda e pedras preciosas.

Simão Bacamarte atravessa a obra sendo alguém que julga os outros sem antes ter parado para julgar a si mesmo. O alienista considera-se tão evidente e indubitavelmente são, já que está em plena posse do equilíbrio de suas faculdades mentais, que não questiona quase nunca se realmente é são o bastante para ter o direito de sair trancando gente adoidada no hospício.

E o narrador nos garante: foi uma “coleta desenfreada” a que realizou Doutor Simão, agindo um pouco como se fosse o Poderoso Chefão de uma instituição pública que se assemelha à carrocinha que recolhe cães vira-latas – com a diferença de ser destinada aos humanos. Itaguaí apelida o doidódromo de Simão Bacamarte como “Bastilha” e o equivalente Itaguaiense da Revolução Francesa não tarda a estourar: é o levante dos Canjicas!

O Alienista  retrata um amálgama perigoso entre a psiquiatria e o presídio: na novela, a autoridade em psicologia torna-se o executor de um plano quase kafkiano de totalitarismo em que o encarceramento em massa não tarda a surgir como resultado.

A ironia que Machado despeja sobre esta situação provêm da percepção do artista do quão insana seria uma sociedade onde há mais gente presa detrás de grades do que solta ao ar livre – e tudo em nome da preservação da sanidade e segurança públicas.

Machado de Assis analisa com seu sagaz brilhantismo a figura do “cientista maluco”, no caso um doutor em psicologia que acredita fanaticamente que a austeridade, a impassibilidade, a imperturbabilidade, a condição de ser não-emocionável e imune às paixões, como uma estátua de mármore, é o supra-sumo das virtudes.

Bacamarte considera que normal é aquele que está com o cérebro equilibrado; porém, quanto mais conhece o ser humano, mais convence-se de algo diferente: quase todo mundo é um desequilibrado. Logo, aquele que, como Bacamarte, tem um equilíbrio psíquico que não se perturba… esse aí é o maior dos anormais.

O alienista descobre-se alienado. O déspota faz-se libertador daqueles que havia falsamente condenado à sina de anormalidade, e o sábio, de modo até um pouco socrático, diz algo semelhante ao “só sei que nada sei”: louco devo ser eu, de tão equilibrado que sou!

O Alienista é também o retrato de uma sublevação social, com golpes de Estado e massacres, alianças e traições. A maníaca campanha de aprisionamento dos cidadãos de Itaguaí, posta em marcha por Simão Bacamarte e seus paus-mandados, desperta a resistência e a rebeldia popular.

Em uma cena memorável, a sublevação dos Canjicas vai à Câmara para demandar que o tirano Bacamarte cesse de possuir tamanhos poderes de encarceramento. Uma turba desequilibrada e passional exige que o Doutor pare de enterrar vivos em cubículos todos aqueles que manifestam desequilíbrio emocional e furiosas tempestades psíquicas.

“A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião, e destruir a Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis, algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e em falta delas a Câmara, pagavam o alienista…” (pg. 58)

Há quem acuse Machado de ser um pouco misantrópico, ou seja, de ser desses doidos que odeiam a humanidade, já que escreveu frases imorredouras como “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Mas O Alienista me deixa com outro sabor na boca que não é o da misantropia, mas muito mais de uma fascinação bem-humorada diante dos comportamentos e crenças humanos. Para Machado de Assis, o homem é um animal fundamentalmente irracional, e como escritor Machado vincula-se a uma longa genealogia de autores – que inclui Luciano, Horácio, Cervantes, Chamfort, Voltaire, Sterne… – daqueles que  proponho chamar de ironistas das irracionalidades de que a condição humana está repleta.

Não é que gente não preste, é só que entre as gentes quase nunca se encontra alguém que não seja singularmente doido. Olhando de perto, ninguém é normal. Ou melhor, como logo descobre, em um insight quase epifânico, o Doutor Simão Bacamarte:  a loucura é quase universal, e quem não é louco portanto é o mais anormal dos anormais.

A quase universalidade da loucura é o que Machado põe-se a examinar, com todas as ironias bem alertas, narrando-nos um causo que não tem poucas ocasiões que nos fazem rir às bandeiras despregadas. Aqui, quem se pretende são é tanto mais suspeito de ser louco por isso. E quem pretende ser louco pode ser que seja são.

Machado embaralha as categorias rígidas a golpes de poesia e arruaça. Pois esse é um texto tão arruaceiro que pode-se dizer que prenuncia a estética punk em quase um século. Tem até 11 mortos e 45 feridos fornecendo o banho-de-sangue que é sempre necessário para uma obra-de-arte alçar-se aos ouropéis gozados por Macbeth, a Ilíada ou Os Miseráveis.

Sangue em profusão jorra quando a rebelião dos Canjicas choca-se contra os dragões armados da legalidade; lendo esta cena, descobrimos que no Rio de Janeiro de Machado já haviam, guardadas as devidas proporções, um caldeirão de hostilidades e loucuras sempre às beiras de degringolar em chacina.

O gênio de Machado de Assis aparece como que concentrado em O Alienista, uma narrativa que nos conduz por uma montanha-russa de ideias estéticas, éticas, políticas, psicológicas, sócio-econômicas.

Por exemplo, a noção de que aqueles que se distinguem por suas perfeições morais são também um pouco malucos, já que desviantes da norma. O normal é ser moralmente imperfeito, cheio de vícios vários, arrastado por  diversas paixões desequilibrantes, de tal modo que Simão Bacamarte, a certo ponto, escolhe curar aqueles “cruelmente afligidos de moderação e equidade” para “restituí-los ao perfeito desequilíbrio das faculdades” (pg. 78).

Uma vida inteira devotada à ciência, à pesquisa do comportamento, para que o Alienista chegasse à este conclusão (bem-louca!): “se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que  aquele equilíbrio fosse ininterrupto.” (pg. 72)

O próprio Machado de Assis, decerto um dos maiores escritores da história da América Latina, figura monumental na Literatura Universal, é grandioso também por causa de sua genial loucura. Simão Bacamarte é um símbolo de uma ironia tão lúcida que beira a insanidade: depois de passar uma vida a analisar o ser humano, descobre que aquilo que de mais certo podemos dizer é que nada é mais normal que o desequilíbrio e a irracionalidade. Todo sábio e todo gênio é tão desviante da norma da mediocridade que periga ser rotulado de doido pela turba insana dos normais.

Por Eduardo Carli de Moraes
Para A Casa de Vidro

Todas as citações: 50 Contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Mix: coelho de Dürer com versos de Whitman (experimente este drink!)

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ALBRECHT DÜRER (1471-1528)  ‘A Young Hare’ – 1502 (watercolor and gouache)

“Eu penso que poderia volver e viver com animais,

tão plácidos e autocontidos,

Eu paro e me ponho a observá-los longamente.

Eles não se exaurem e gemem sobre a sua condição,

Eles não se deitam despertos no escuro

E choram pelos seus pecados,

Eles não me deixam nauseado discutindo

O seu dever perante Deus,

Nenhum deles é insatisfeito,

Nenhum enlouquecido pela mania de possuir coisas,

Nenhum se ajoelha para o outro,

Nem para os que viveram há milhares de anos,

Nenhum deles é respeitável ou infeliz em todo o mundo.”

WALT WHITMAN. Folhas de Relva.

The Earth Woman (by Arundhati Roy, in “The God Of Small Things”)

Accion-Ecologica-logo

THE EARTH WOMAN
Arundhati Roy (1961 – )

1“We belong nowhere”, Chako said. “We sail unanchored on troubled seas. We may never be allowed ashore. Our sorrows will never be sad enough. Our joys never happy enough. Our dreams never big enough. Our lives never important enough. To matter.”

Then, to give the twins Estha and Rahel a sense of Historical Perspective, he told them about the Earth Woman. He made them imagine that the earth – 4600 million years old – was a 46-year-old woman. It had taken the whole of the Earth Woman’s life for the earth to become what it was. For the oceans to part. For the mountains to rise. The Earth Woman was 11 years old, Chacko said, when the first single-celled organisms appeared. The first animals, creatures like worms and jellyfish, appeared only when she was 40. She was over 45 – just 8 months ago – when dinosaurs roamed the earth.

“The whole of human civilization as we know it”, Chacko told the twins, “began only 2 hours ago in the Earth Woman’s life.”

It was an awe-inspiring and humbling thought, Chacko said, that the whole of contemporary history, the World War, the War of Dreams, the Man on the Moon, science, literature, philosophy, the pursuit of knowledge – was no more than a blink of the Earth Woman’s eye.

“And we, my dears, everything we are and ever will be are just a twinkle in her eye…”

 ARUNDHATI ROY, The God Of Small Things (1997).

Harper Perennial.
Winner of the Booker Prize 1998.

O escritor no interior da ampulheta do tempo

ampulheta

por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com

Uma ampliação da consciência das interconexões que constituem o tecido da realidade parece-me um caminho recompensador para qualquer dentre nós que sente-se como um peregrino buscador de sabedoria. É claro que, como Zaratustra não tardou a descobrir (assim como seu criador, Nietzsche), também há muita solidão e incompreensão na estrada daquele que tenta ficar sábio. Ao seu redor ele tromba com muita frequência com a tolice, a estupidez, a trivialidade, para não falar na perfídia e na crueldade – sabedoria é não pagar na mesma moeda, e responder com razão à desrazão, com doçura à bruteza, com amizade à hostilidade, com fraternidade ao sectarismo, e por aí vai.

Às vezes é mais fácil encontrar sábios entre os mortos do que entre os vivos – muitos “seekers”, para lembrar a canção fodástica do The Who, acabam preferindo a leitura à conversação e preferem a biblioteca ao bar. Eu penso que nada impede aprender sabedoria tanto em bares quanto em bibliotecas – em papos e livros, em filmes e discos, em peças-de-teatro e em palhaçadas – quem é aprendiz aprende até com a sarjeta (todos estamos nela, dizia Oscar Wilde, mas alguns olham para as estrelas ao invés de manter o focinho no vômito…). Gosto da idéia de Simone Weil sobre a atenção, esta virtude subestimada e subpraticada, sem a qual não tem jeito de ficar sábio: prestar atenção, às sinfonias do Schubert e aos pássaros que cantam lá fora,  aos filmes do Bergman e aos cardumes que nadam nos oceanos, aos sonetos de Shakespeare e às palavras de amor que às vezes brotam de lábios humanos como suculentas e nutritivas frutas.

Sabedoria é também saber ouvir os outros, vivos ou mortos, atentando às palavras que escrevem e às palavras que falam, mas também à língua muda, e tão expressiva, da expressão facial e dos trejeitos corporais: às vezes, em silêncio, basta atentar nos olhos de alguém e sabe-se mais do que se poderia após a troca de muitas palavras – o afeto “tá na cara”. Tenho concebido a sabedoria como esforço de ampliação de limites, de busca por melhoria na aposta de que somos perpetuamente perfectíveis e nunca perfeitos. Rompendo a gaiola da verbalidade, percebemos que há muito de expressável que está para além da escrita – que também comunicam, e como, abraços, sorrisos, melodias, batuques, cores, mímicas. Não há escassez de linguagens a aprender e treinar nesta vida que pode ser vista como campo-de-experimentação onde nós, que vivemos em teia, ontologicamente conectados, superemos a falácia ilusória da separação, percebendo-nos cada um e todos como “parte de nós”, para citar um dos achados poéticos do álbum do Diego de Moraes e o Sindicato. Viver até corre o risco de ter sentido se a gente corre atrás de adquirir os meios de expressão que construam pontes e permitam somatórias de forças: aí o túmulo engole a nossa carne, mas não vivemos em vão pois em algo melhoramos o mundo comum, a Hannah Arendtiana “esfera pública”.

Ultimamente, tenho me sentido movido e influenciado principalmente por autores-ativistas, que li com voracidade e imensos proveitos: penso principalmente em Naomi Klein, Raj Patel e Arundhati Roy. Os três são figuras públicas de impacto, ultra-requisitados para palestras e depoimentos a documentários, muito alertas aos acontecimentos contemporâneos, cultos e conhecedores da História, desejosos de fazer uma diferença para melhor e contribuir para um outro mundo possível: para citar o célebre discurso de Arundhati Roy em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial 2003: “another world is not only possible, she’s on her way On a quiet day, I can hear her breathing.” Lendo autores assim, já tão queridos pra mim, como Klein, Patel e Roy, sinto-me preenchido com um grau mínimo de esperança que impede meu naufrágio no iceberg do desespero supremo – como se neles a alternativa sã aos rumos ecocidas e genocidas do capitalismo global já respirasse e nos ensinasse um rumo – mais sábio, decerto, mas difícil. Pois ninguém disse que é fácil.

Ler um romance como The God Of Small Things (O Deus Das Pequenas Coisas) foi para mim um deleite indizível, um banquete verbal delicioso, mas também é sofrido, para alguém com sonhos de um dia vir a escrever algo que preste, testemunhar a senhorita Roy em toda sua genialidade e graça, esmagando auto-estimas de escritores quem piores do que ela e que jamais conseguiriam tecer uma tapeçaria narrativa tão brilhante. Foi, no entanto, inspirador ao extremo: preencheu-me com os mistérios da Índia, com os fascínios pela linguagem, com as indignações fecundas, e posso dizer que sem dúvida nunca mais serei a mesma pessoa que fui antes de devorar, na sequência, todos os livros dela – e aqueles de “não-ficção” são líveis com um grau de prazer equivalente ao que sentimos com os mais gostosos dos poetas (Manoelzin de Barros, Alberto Caeiro, Mário Quintana…).

Peguei-me perguntando-me o que é que torna tão raro um talento literário como este que se manifesta no Deus Das Pequenas Coisas. No meu caso, sinto que ainda há muito chão pela frente até que eu atinja tais poderes de expressão. Percebo que existe dentro de mim uma aporrinhante censura interna, ativa mesmo quando escrevo para mim mesmo, em um caderninho que pretendo conservar secreto  e engavetado. Há confissões que não faríamos em um texto a ser tornado público; mas há também confissões que é difícil de articular até mesmo na solidão de um texto privado. Senti muitas vezes que eu me utilizava da escrita como uma escola de autenticidade, como experimento de sinceridade, como treino na arte de ser verídico. Isso só exacerbou minha suspeita de que somos em geral bem pouco inclinados a admitir toda a verdade sobre nós mesmos (supondo que a conheçamos, o que é supor demais); somos cheios de máscaras e poses; queremos aparecer bem na foto e preferimos a maquiagem ao nu-e-cru.

Call Me Burroughs

Um texto também funciona como uma espécie de selfie em que procuramos excluir da percepção do Outro – o leitor – aquilo que consideramos um chulé psíquico, um cabelo desgranhado na nossa constituição moral ou estética, um sentimento cancerígeno, um desejo feio feito pústula. O escritor “seleciona-se” e silencia muito de si – tudo aquilo que considera que iria chocar, desagradar ou gerar chacota nos leitores. Um pouco do charme punk das obras de Céline ou William S. Burroughs é que eles não estão a fim de mentirem que são melhor do que são, não tem pudores de vomitarem no papel suas nóias, seus ódios, seus vícios, seus pensamentos secretos mais inconfessáveis. Sem dúvida, por mais que me desagrade o anti-semitismo célineano ou uma certa glamourização da junkidade em Burroughs, lê-los representou para mim experiência libertária. Aprendi que havia uma escrita que queria revelar os lados sujos e sanguinolentos de nossa existência cheia de som, fúria e hostilidades – que recusavam-se ao kitsch, descrito por Milan Kundera como aquela tendência de varrer a sujeira para baixo do tapete. 

Também andei matutando que os textos podem ser diferenciados, distinguidos, a partir do seu endereçamento: para quem se escreve, e em que “tom-de-voz”? Há quem escreva como quem fala do alto de uma torre de marfim, pontificando da cátedra ou do púlpito; há quem escreva como quem acabou de encontrar um amigo na fila da padaria e quer só “jogar conversa fora”; há quem escreva para lidar com a ameaça da loucura, para pôr ordem no caos interior, realizar pela linguagem alguma catártica terapia; e a panóplia de múltiplas escritas poderia seguir sendo enumerada sem fim em vista. Um texto pode ser mercadoria ou pode recusar-se a ser monetarizado; pode ser um convite ou um tabefe; talvez convoque à ação (como um panfleto anarquista) ou seduza à preguiça (como um anúncio de poltrona); entre os efeitos que podem ser gerados por um texto também reina grande diversidade – inclusive há a chance, terrível, do texto sem efeito. Inútil. Aquele que a ninguém toca e a nada muda. Que é engolido pelo esquecimento, apagado pelas imensas borrachas do tempo. Que leitor algum julga digno de lembrança. E às vezes não é garantido que basta a gente se esforçar para conseguir criar algo digno de sobreviva na posteridade: tem muito texto que os vermes engolem inteiro.

De todo modo, acho que ainda vale ouvir a dica de Newton, que só foi quem foi pois subiu nos ombros de gigantes. Ninguém vê longe sem auxílio – de gênios e poetas, de músicas e filmes, de papos e porres, de telescópios e microscópios. Às vezes, bem raramente, um mortal consegue, depois de muito escalar os corpos dos gigantes para observar mais longe lá das alturas, atingir aquela sabedoria que eu evoquei no primeiro parágrafo deste texto aqui… que lanço agora como um pergaminho de bits, numa cybergarrafa, ao oceano da Internet. A que destinos o levarão as marés das vias informativas digitais? De todo modo, não sei existir senão no ímpeto de buscar sabedoria comunicável – e fico replenificado de vida e esperança quando encontro palavras preciosas como estas próximas, que só não grafitei nas paredes do meu quarto pois moro de aluguel e também porque já estão pixadas nas paredes do coração:

“If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers because they know that the forests, the mountains and the rivers protect them. The first step towards reimagining a world gone terribly wrong would be to stop the annihilation of those who have a different imagination—an imagination that is outside of capitalism as well as communism. An imagination which has an altogether different understanding of what constitutes happiness and fulfillment. To gain this philosophical space, it is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past, but who may really be the guides to our future.” —Arundhati Roy

Sabedoria é isso.

RoyLeia também: In Praise of Arundhati Roy’s “The God Of Small Things”