A Desumanidade Humana: Novos Ensaios Sobre a Cegueira (por Eduardo Carli de Moraes)

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A Humanidade como Fraternidade permanece no horizonte das utopias. A cada passo em sua direção que damos, para relembrar um célebre dito de Galeano, a utopia dá dez passos para trás. Como se fugisse do abraço. Como se quisesse forçar-nos a ser camelos no deserto, em busca de oásis incerto, pelos séculos e milênios. Já são mais de 3 décadas desde que John Lennon imaginou, sentado ao piano branco, que não haveria mais céu nem inferno, apenas uma “brotherhood of man”. Mas ele, que só estava dizendo “dê uma chance à paz”, acabou assassinado.

Outro célebre pacifista, que peregrinou de pés descalços por toda a Índia, tentando ensinar a hindus, muçulmanos e sikhs a arte da convivência pacífica e do respeito à multiplicidade e à diferença, dizia: “O olho-por-olho vai deixar o mundo todo cego.” A triste verdade é que a cegueira venceu e também Gandhi foi assassinado, tendo seu ideal tripudiado pela catástrofe histórica da Partição Índia / Paquistão: em 1947, o pior dos pesadelos gandhianos se tornou realidade quando estourou a guerra civil entre hindus e muçulmanos. O saldo trágico do conflito: mais de 1 milhão de mortos e mais de 7 milhões de refugiados.

Invocar uma canção de Lennon, um dito sábio de Gandhi, um convite à caminhada de Galeano: de que serve isso diante da desumanidade dos assassinos, diante do militarismo brucutu dos tiranos? Cantar sobre a beleza das flores e dos pássaros algum dia já impediu os tanques-de-guerra de marcharem sobre os jardins e de metralharem os sabiás? Clamar para que o valor da vida humana seja respeitado é o bastante para dissuadir os homens de uniforme, armados por seus Estados com licença-para-matar?

“A humanidade é desumana”, cantava Renato Russo, que encontrava razões para ser otimista no fato de “que o Sol nasce pra todos (e só não sabe quem não quer)”. O Sol pode até ser o mesmo, mas é bem diferente vê-lo nascer de uma cobertura de luxo em Ipanema ou Miami, e vê-lo nascer em um campo de refugiados na Palestina.

Em Gaza, hoje o Sol ilumina uma pilha de cadáveres, uma multidão de estropiados, um oceano de lágrimas. Às vezes me pergunto se o Sol não tem vergonha de iluminar certas realidades que meus olhos consideram obscenas. Por que ele não protesta e se recusa a nascer? Suspeito que também o Sol seja desumano.

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JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

Enquanto as utopias de paz fogem para longe, enfiando-se no horizonte distante, cá estamos com as pernas enfiadas em poças de sangue. No rés-do-chão da realidade contemporânea, permanecemos cindidos em facções frequentemente fratricidas. Como não poderia deixar de ser, escrevo isso sob o impacto dos acontecimentos horrendos que tem se desenrolado nas últimas semanas na faixa de Gaza.

Há quem pense que há justificativas aceitáveis para a ofensiva de Israel contra os palestinos, mas não sinto senão nojo e desprezo por genocidas que procuram justificar o injustificável. O que dizem os carniceiros sionistas que participaram ativamente do massacre de bebês e crianças? Que isso se justifica pois toda criança palestina pode crescer e um dia tornar-se um terrorista afiliado ao Hamas? Tudo não passa de uma louvável e pia ação de prevenção ao terrorismo?

E como justificar a matança de moças, mulheres e senhoras, que não oferecem nenhum perigo militar ao estado de Israel? Também neste caso se trata de prevenir o terrorismo, já que toda fêmea palestina tem um ventre com potencial de parir futuros terroristas? E que justificativas para a destruição de escolas e hospitais, de universidades e usinas de eletricidade, de abrigos da ONU e de instituições humanitárias? Tudo não passa, é claro, de uma tentativa de enfraquecer a infra-estrutura de uma sociedade que abriga terroristas, não é isso?

Pensei em escrever um conto sobre um jovem estudante em Gaza, que dedicou toda a sua breve existência a uma tentativa de compreensão e solução da discórdia sangrenta que opõe árabes e judeus na região. Devorador de livros, em especial os de Edward Said e Ilan Pappe, este jovem estaria no interior da Universidade Islâmica, nutrindo-se com o saber de Maimônides e Averróis, quando o prédio da Universidade é bombardeado.

Uma parte do teto despenca e rasga sua testa. Os livros mancham-se de sangue e concreto. Ele abandona as ruínas da universidade e corre para casa, só para descobri-la também bombardeada, com toda a sua família dentro. Mortos estão seus 3 irmãos, todos com menos de 10 anos de idade; mortos seu pai (um médico), sua mãe (uma professora de história), e sua avó (que completaria 90 anos no próximo mês). Esmagado pela súbita tragédia, rasgado internamente pelo trauma, ele chora torrentes de lágrimas sobre os cadáveres de sua ex-família e as ruínas de seu frágil lar, agora só escombros.

Ele nunca havia simpatizado ou participado de nenhuma organização armada islâmica; sempre havia discordado do terrorismo inspirado na idéia de jihad (guerra santa). Agora, num ímpeto de indignação e raiva, toma nas mãos uma pedra, um pedaço da parede que outrora protegera sua família contra as intempéries.

Sua ira é tamanha – maior do que qualquer que ele jamais sentira – que ele não pensa antes de agir. Simplesmente precisa liberar um pouco da insuportável pressão psíquica, realizar algum tipo de catarse-pela-agressividade, e assim lança o pedregulho contra soldados israelenses protegidos dentro de um tanque.

Um dos soldados mira em sua cabeça com um rifle M-16 e estoura seus miolos.

Os mortos da família eram seis, agora são sete. Mas com uma diferença: os seis primeiros entrarão nas estatísticas como mortos entre os civis, meros “efeitos colaterais”; o sétimo será caracterizado como terrorista (a evidência: lançou um pedregulho!) e sua morte será, nas estatísticas de Israel, justificável, legítima, irreprochável.

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A ÁLGEBRA DA JUSTIÇA INFINITA

Assisto, via Al Jazeera, com um misto de indignação fervente e melancólica sensação de impotência, as reportagens realizadas em Gaza. Quanto mais assisto, mais concluo que o Estado de Israel perdeu todo o senso de proporção, toda a capacidade de distinguir entre alvos legítimos e ilegítimos. Partiu para a truculência ignorante mais desumana: aquela que mata à esmo, que “mata geral”, que mata todo um coletivo para puni-lo pelos atos de uma parcela deste coletivo.

Mas matar crianças às centenas, e julgar que isso é um “efeito colateral” de uma ofensiva legítima contra o Hamas, parece-me o supra-sumo da cegueira desumana destes que Bob Dylan cognominou “Masters of War”. Escrevo para dizer que vejo através de suas máscaras.

Deixemos de balela. Se formos aos dicionários buscando a palavra mais adequada para descrever as ocorrências, com certeza esta não será “conflito”, mas sim “massacre”. O que Israel está praticando nestas últimas semanas não é uma campanha militar de auto-defesa legítima, é um genocídio. E eu diria que vai além do genocídio, porque os crimes do sionismo israelense vão além da destruição em massa de vidas; o que Israel está tentando fazer é transformar Gaza num Inferno terrestre, num território inabitável, ao destruir hospitais, escolas, universidades, usinas de eletricidade etc.

É como se o objetivo de Benjamin Netanyahu e sua trupe fosse não somente cometer um genocídio, mas depois impedir que água, comida, remédios, médicos, ajuda humanitária internacional, entrem em Gaza para aliviar os imensos danos causados pelos ataques. É como se Israel, depois da chuva de bombas, quisesse que os sobreviventes morressem de fome, de sede, no escuro, que agonizassem por semanas com suas feridas e queimaduras.

É o Guernica de Picasso, redivivo em território palestino. É um ato de extermínio do Outro, de aniquilação da infra-estrutura da sociedade do Outro. Não é só matar; é transformar a vida dos sobreviventes em algo tão insuportável, tão desumano, que eles enfim se decidam: ou vazam logo para longe, indo procurar refúgio em algum outro país do mundo árabe, ou então que se levantem em uma nova Intifada, ou juntem-se aos grupos armados, o que então daria uma justificativa extra para que Israel prossiga com o massacre.

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GUERRA AO TERROR OU TERRORISMO DE ESTADO?

Sob a máscara da Guerra ao Terror, o que Israel está praticando é terrorismo de Estado. Os quase 2 milhões de seres humanos que vivem em Gaza – em péssimas condições de existência, aliás – estão sendo tratadas pelo Estado de Israel como sub-humanas, como se fossem pragas e não pessoas. É um processo de desumanização que lembra aquele perpetrado contra os judeus pelo III Reich e que agora a teocracia sionista aplica aos palestinos.

A propaganda sionista e seus aliados ocidentais – EUA e Reino Unido entre eles – podem até ter o cinismo repugnante de justificar o injustificável. No entanto, as evidências concretas não deixam dúvidas: há uma imensa desproporção entre as forças em combate. A pilha de cadáveres palestinos sobe até o céu, enquanto a pilha de cadáveres israelenses mal bate no teto. É triste que haja pilhas de cadáveres dos dois lados, mas isto não nos deve cegar para a enormidade da discrepância entre o tamanho das pilhas.

Sei bem que isto não é um filme de Hollywood onde são facilmente discerníveis os bandidos e os mocinhos. Sei bem que toda análise que queira ser fiel aos fatos tem que evitar o perigo do maniqueísmo. O escritor israelense Amoz Os diz que o conflito Israel e Palestino é muitas vezes um choque entre “certo e certo”, ou entre “errado e errado” – pois ambos os lados do conflito tem demandas legítimas. Segundo ele, é uma situação que constitui uma tragédia grega muito mais do que um faroeste hollywoodiano.

Até concordo que o choque entre o Estado teocrático-sionista de Israel e os grupos islâmicos fundamentalistas como o Hamas possa ser descrito como um choque entre “errado e errado”. Uma questão importante, porém – e Amoz Os prefere não mencioná-la – é a desproporção da força militar. Israel tem um exército mega-mortífero e recebe centenas de milhões de dólares de seus aliados ocidentais, em especial os EUA; o Hamas pode até ter seus foguetes, mas seu poderio de destruição é minúsculo quando contrastado com as hecatombes que Israel é capaz de causar.

O argumento sionista, que me parece estar sendo abraçado pela maioria da sociedade civil em Israel, é o seguinte: “se o Hamas tivesse maior poderio militar, o que vocês acham que ocorreria? Se o Hamas tivesse em seu poder uma bomba atômica, Tel Aviv já teria se tornado a nova Hiroshima!” Isso é usar a paranóia como justificativa para o genocídio; é fazer uma previsão sobre o genocídio que o Hamas poderia vir a cometer, caso tivesse os meios, servir como pretexto para o genocídio que Israel está cometendo, em posse plena dos meios (e com o amém dos Estados Unidos da América).

Não subestimo o ódio do Hamas – e de outros grupos jihadistas – contra Israel. Também sei o quão repugnantes são muitas das doutrinas do Hamas – por exemplo o tratamento autoritário das mulheres, com a imposição patriarcal violenta das jihabs e burcas ou a pena de morte sem julgamento para as “adúlteras”. Há uma cena no “Palestina” de Joe Sacco que me parece emblemática do que está errado na visão-de-mundo tacanha, dogmática e moralista de muitos fundamentalistas islâmicos: uma mulher com os cabelos à mostra, dentro de seu carro, é apedrejada por uma gangue de fanáticos, que só descobrem que ela é uma cristã depois que o rosto da pobre mulher já está todo arrebentado e o sangue já jorrou pra todo lado.

Joe Sacco, Palestina

Joe Sacco, Palestina

Ser contra o Hamas, sua ideologia, seus métodos, seus atentados, não significa ser a favor da carniceria genocida do sionismo em sua luta contra o Hamas. Centenas de pessoas que foram assassinadas por Israel nestas campanhas de Julho e Agosto de 2014 não tem conexão alguma com o Hamas, com o terrorismo, com intifadas; considerá-las como meros “efeitos colaterais” de uma guerra santa e justa é uma abominação lógica, política, moral.

A propaganda sionista quer nos convencer de que Israel é uma pobre vítima dos foguetes do Hamas e que a ofensiva contra Gaza faz parte de um programa justo e legítimo de Defesa Contra o Terrorismo. Porém, a grande ironia dessa História é que as dores de parto do Estado de Israel estiveram repletas de atos de terrorismo perpetrados por grupos sionistas. Anos antes da fundação do Estado de Israel em 1948 – após a expulsão forçada de centenas de milhares de palestinos, chutados para fora do território em que haviam vivido por gerações – os sionistas utilizaram múltiplos atentados terroristas como método de “pressão política” para conquistar sua “Independência”. Por exemplo:

“O atentado do Hotel King David foi um ataque terrorista na cidade de Jerusalém, na então Palestina, ocorrido a 22 de Julho de 1946 , tendo como idealizadores uma organização sionista denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional) e como alvo as instalações do Hotel King David.

O Hotel King David, um hotel de luxo de sete andares, situado a oeste da zona da Cidade Antiga de Jerusalém, sediava quase toda a administração do mandato da Palestina, atribuído pela Sociedade das Nações ao Reino Unido.

O ataque foi organizado por Menachem Begin, que mais tarde ocupou o cargo de primeiro-ministro de Israel por duas vezes. O ataque terrorista resultou na morte de 91 pessoas e ferimentos graves em outras 45 pessoas…” – Wikipédia

Os palestinos que hoje recorrem ao terrorismo para protestar contra as condições de vida desumanas, impostas por Israel nos campos-de-concentração a céu aberto para onde foram empurrados os refugiados, estes “terroristas” são pintados como demônios e devotos do deus errado; já os sionistas que recorreram ao terrorismo lá atrás são, é claro, heróis da pátria e devotos do deus certo…

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TRANSCENDER AS DUAS CEGUEIRAS

Se tivéssemos que escolher entre o fundamentalismo do Hamas e a teocracia sionista de Israel, estaríamos limitados a uma escolha entre duas cegueiras. Gostaria de arriscar-me a propor aqui um caminho, difícil de ser trilhado e sem dúvida utópico, mas que me parece um dos poucos capazes de nos libertar destes infindáveis fratricídios. Este caminho passa necessariamente por uma vitória contra o dogmatismo. Nietzsche dizia que “convicções são prisões”; quando a mente adere rigidamente a uma certa convicção, perde sua graça, sua leveza, seu dinamismo, solidifica-se em uma espécie de rigor mortis. A idéia de que judeus e árabes são incapazes de coexistência pacífica e frutífera não passa de um dogma, jamais de uma verdade absoluta. Trata-se de desalojar este dogma das mentes, dos comportamentos, das identidades.

Gosto muito de um pensamento de Montaigne, nos Ensaios, em que ele questiona as relações entre as identidades que assumimos e as condições em que nascemos: ele pergunta a um cristão francês, por exemplo, o que teria acontecido se ele tivesse nascido no Tibet ou na China. Nascido em outras circunstâncias, não teria ele se tornado um budista, um taoísta, um confuciano? A idéia aqui, no fundo, é a seguinte: ninguém “é” cristão ou judeu ou muçulmano, como se já nascesse com isso nos genes, mas ao contrário “torna-se” cristão, judeu ou muçulmano pelo acaso de ter nascido em um certo meio, em uma certa família, ter sido educado e doutrinado em uma certa cultura.

No fundo, as pessoas aderem a uma certa identidade, vestem uma certa máscara, introjetam uma certa ideologia, e depois se esquecem de que, na origem, a doutrina religiosa ou política que transformaram em dogma é fruto de um condicionamento social, dependente de um tempo-espaço histórico específico. Este caminho para a convivência pacífica que tento pensar passa necessariamente por des-dogmatizar as identidades – ou seja, precisamos deixar de levar tão a sério as nossas identificações identitárias com religiões, raças, pátrias etc.

Como fazê-lo? Eis o ponto mais complicado, até porque algumas das possibilidades que eu sugeriria seriam desprezadas como absurdas e irrealizáveis. Por exemplo: uma das experiências mais destroçadoras de dogmas, uma das vivências mais libertárias em relação às jaulas das identidades rígidas, é sem dúvida a expansão de consciência possibilitada por agentes psicodélicos naturais (como o chá de ayahuasca) ou sintéticos (como o LSD).

Os dogmatismos e fundamentalismos, tanto dos sionistas quanto dos jihadistas, poderiam ser intensamente postos em nova perspectiva pelas capacidades descomunais do ácido lisérgico de liberar-nos das crenças identitárias e abrir-nos para uma vivência visceralmente cosmopolita. “Namastê!” Vão querer me internar no hospício (ou me mandar pra delegacia…) por dizê-lo, mas direi-o do mesmo jeito: um dos problemas de nosso mundo é que está faltando psicodelia e está sobrando dogmatismo. Entenda-se: uso o termo “psicodelia” aqui como sinônimo de uma capacidade existencial de permitir que a psiquê se transforme, que a mente seja dinâmica, que os valores se modifiquem e evoluam, sem a rigidez cadavérica dos fanatismos de toda estirpe.

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Percebo muito bem que é preciso encontrar alguma solução realista – já que é quase demandar o impossível sugerir que árabes e judeus expandam sua consciência e libertem-se de suas obsessões identitárias e fanatismos religiosos. Já que despejar litros de LSD no sistema de entrega de água está fora de questão, teríamos que atingir por outros meios esta amplidão de visão e esta liberdade quanto às máscaras que a experiência psicodélica possibilita. Por exemplo, com uma mega-campanha de educação para a laicidade, para a coexistência frutífera, para o amor à idéia de convivência no seio da multiplicidade e de enriquecimento mútuo na trans-individualidade. As identidades sólidas, a filiação dogmática a seitas e ideologias, a incapacidade de enxergar o que nos une ao invés do que nos separa, tudo isso precisaria ser transcendido para que fôssemos capazes de nos perceber como conviventes sob o mesmo sol, todos juntos no mesmo planeta, todos iluminados pela luz distante da mesma miríade infindável de estrelas.

Seria preciso que enxergássemos, para além de nossa cegueira habitual, já encrustada nas retinas e nos neurônios, que ninguém está condenado, do berço ao túmulo, a ser algo de fixo – judeu, muçulmano, cristão, budista, ou o que quer que seja. Que uma identidade não só pode, mas deve ser fluida, móvel, mutante. Que não há nada mais sábio do que mudar acompanhando a mudança do mundo. Que viver é deixar-se afetar e crescer pelas interações e contatos com os outros. Que coexistência é nossa condição ontológica, nossa necessária situação no mundo, e que aprender a conviver é aprender a viver.

Nosso apego a dogmas, nossa recusa em retirar da cara as máscaras, nosso neurótico vínculo a uma “persona”, faz-nos construir apartheids e muros, fronteiras e arames farpados. As diferenças são tidas como razão para massacres e genocídios, quando as mesmas diferenças poderiam ser vistas como estímulo para a convivência fecunda e mutuamente recompensadora. Bastaria, para isso, que nos víssemos como unidos por nossa humanidade comum, por nossa comum pertença à Terra, por nossa comum condição de cidadãos do cosmos.

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EPÍLOGO: UMA CANÇÃO DE AMOR A NOSSOS EUS MESTIÇOS

Não faz muito tempo que o escritor indiano Salman Rushdie, após a publicação de seu romance “Os Versículos Satânicos”, foi fulminado pela fatwa (pena de morte) decretada pelo aiatolá xiita do Irã, só podendo sobreviver por ter recebido guarida na Inglaterra. Rushdie defendeu-se das perseguições do regime de Khomeini com as seguintes palavras – sublimes – de seu livro “Pátrias Imaginárias”:

RushdieOs Versículos Satânicos celebra a hibridez, a impureza, a mistura, a transformação que provém de novas e inesperadas combinações de seres humanos, culturas, idéias, políticas, filmes, canções. Exulta com o cruzamento de raças e teme o absolutismo do Puro […] Certamente que não põe em causa os direitos das pessoas à sua fé, embora eu não tenha nenhuma. Discorda manifestamente das ortodoxias impostas de todos os tipos, da opinião que o mundo é muito claramente Isto e não Aquilo. Discorda do fim do debate, da disputa, da discordância. Discorda também do sectarismo comunalista hindu, do tipo de terrorismo sikh que faz explodir aviões, das fatuidades do criacionismo cristão, bem como das definições mais limitadas do Islã […] É uma canção de amor à nossos eus mestiços…”

Cantemos, pois, nossas canções de amor a nossos eus mestiços!

Eduardo Carli de Moraes
Toronto, Agosto de 2014

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4 pensamentos sobre “A Desumanidade Humana: Novos Ensaios Sobre a Cegueira (por Eduardo Carli de Moraes)

  1. Lindo, meus parabéns. Sou teu fã! kkkkkk

    Curtido por 1 pessoa

  2. […] É claro que temos lindos exemplos de comportamento pacifista, belamente expressado, nas figuras de um Mahatma Gandhi ou de um John Lennon. Boto fé que há muito neles a ser aplaudido e celebrado (e por que não teríamos nossos heróis […]

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  3. […] recentes, que parecem perpetuar entre nós as guerras fratricidas e que me parecem dar plena razão a Mahatma Gandhi quando disse: “olho por olho e acabaremos todos cegos!”, sinto-me assaltado por dúvidas e inquietações sobre o nosso futuro comum e sobre as barbáries […]

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