Sobre segurança e terror – por Giorgio Agamben

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II Ato Contra a Copa em São Paulo é cercado pela PM (23/02/2014)

Sobre segurança e terror
de Giorgio Agamben

Segurança é o princípio básico das políticas estatais desde o nascimento do estado moderno. Hobbes já a mencionava como o oposto do medo, que compele seres humanos a se juntarem na formação de uma sociedade. Mas o pensamento da segurança (1) não se desenvolve completamente até o século XVIII. Em uma conferência ainda não publicada, proferida no Collège de France em 1978, Michel Foucault mostrou como as práticas políticas e econômicas dos fisiocratas opõe a segurança à disciplina e à lei como instrumentos de governo.

Turgot e Quesnay, assim como os oficiais fisiocratas, não estavam primariamente preocupados com a prevenção da fome ou a regulação da produção, mas queriam permitir seu desenvolvimento para então governar e “assegurar” suas consequências. Enquanto o poder disciplinar isola e encerra territórios, medidas de segurança conduzem a uma abertura e à globalização; enquanto a lei tem por objetivo prevenir e ordenar, segurança quer intervir nos processos em curso para dirigi-los. Em suma, disciplina visa produzir ordem, segurança almeja governar a desordem. Como medidas de segurança só podem funcionar inseridas em um contexto de liberdade de tráfego, comércio e iniciativa individual, Foucault demonstrou que desenvolvimento da segurança e desenvolvimento do liberalismo coincidem.

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Setembro de 2001, Manhattan

Hoje estamos enfrentando desenvolvimentos extremos e muito perigosos no pensamento da segurança. No curso de uma gradual neutralização de políticas e do progressivo abandono das tarefas tradicionais do estado, a segurança se torna o princípio básico de atividade estatal. O que costumava ser um amontoado de várias medidas decisivas de administração pública até a primeira metade do século XX, agora se torna o único critério de legitimação política. O pensamento da segurança acarreta um risco essencial. Um estado que tem a segurança por sua única tarefa e fonte de legitimidade é um organismo frágil; pode sempre ser levado pelo terrorismo a tornar-se, ele próprio, terrorista.

Não deveríamos esquecer que a maior organização terrorista pós-guerra, a Organisation de l’Armèe Secréte (OAS), foi estabelecida por um general francês, que se considerava um patriota e estava convencido de que o terrorismo era a única resposta ao fenômeno de guerrilha na Algéria e na Indochina. Quando política, à maneira como era entendida pelos teóricos da “ciência policial” (Polizeiwissenschaft) no século XVIII, reduz-se à polícia, a diferença entre estado e terrorismo tende a desaparecer. No final, segurança e terrorismo podem formar um único sistema mortífero, no qual eles justificam e legitimam as ações um do outro.

O risco não é meramente o do desenvolvimento de uma cumplicidade clandestina de opositores, mas o de que a obsessão por segurança conduza a uma guerra civil mundial que tornaria impossível qualquer coexistência civil. Na nova situação criada pelo fim da forma clássica de guerra entre estados soberanos, percebe-se claramente que segurança encontra seu desfecho na globalização: isso implica a ideia de uma nova ordem planetária, que é, na verdade, a pior de todas as desordens. Mas há outra ameaça. Uma vez que requerem constante referência a um estado de exceção, medidas de segurança realizam uma crescente despolitização da sociedade. A longo prazo, elas são inconciliáveis com a democracia.

Nada é mais importante que uma revisão do conceito de segurança como princípio básico das políticas estatais. Políticos europeus e americanos finalmente têm levado em consideração as consequências catastróficas de um uso generalizado e acrítico dessa imagem de pensamento. Não que as democracias devam deixar de se defender: mas talvez tenha chegado o tempo de trabalhar no sentido de prevenção de desordens e catástrofes, não simplesmente no sentido de contê-las. Hoje em dia existem planos para todos os tipos de emergências (ecológicas, médicas, militares), mas não há políticas para preveni-las. Ao contrário, podemos dizer que as políticas secretamente são responsáveis pela produção de emergências. É dever das políticas democráticas impedir o desenvolvimento de condições que resultem em ódio, terror e destruição, e não se limitarem a controlá-los, quando se fazem presentes.

Tradução: Arlandson Matheus Oliveira
(Leia em inglês)

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Manifestante na Espanha e as forças de “segurança”

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V Ato Contra a Copa em São Paulo, 14 de Abril de 2014

POST SCRIPTUM FOUCAULTIANO

foucault“O atestado de que a prisão fracassa em reduzir os crimes deve talvez ser substituído pela hipótese de que a prisão conseguiu muito bem produzir a delinqüência, tipo especificado, forma política ou economicamente menos perigosa — talvez até utilizável — de ilegalidade; produzir os delinqüentes, meio aparentemente marginalizado mas centralmente controlado; produzir o delinqüente como sujeito patologizado. O sucesso da prisão: nas lutas em torno da lei e das ilegalidades, especificar uma “delinqüência”. Vimos como o sistema carcerário substituiu o infrator pelo “delinqüente”. E afixou também sobre a prática jurídica todo um horizonte de conhecimento possível. Ora, esse processo de constituição da delinqüência-objeto se une à operação política que dissocia as ilegalidades e delas isola a delinqüência. A prisão é o elo desses dois mecanismos; permite-lhes se reforçarem perpetuamente um ao outro, objetivar a delinqüência por trás da infração, consolidar a delinqüência no movimento das ilegalidades. O sucesso é tal que, depois de um século e meio de “fracasso”, a prisão continua a existir, produzindo os mesmos efeitos e que se têm os maiores escrúpulos em derrubá-la.” – MICHEL FOUCAULT. Vigiar e punir – nascimento da prisão. Trad.: Raquel Ramalhete. 20a. ed. Petrópolis: Vozes, 1987. IV Parte: Prisão, II Capítulo: Ilegalidade e delinquência, pp. 230-231.

NOTA DO TRADUTOR

1) Na tradução pro alemão, do Achim Bahnen, lemos “Sicherheitsdenkens”, literalmente “thought of security”, pensamento da segurança. Acho o termo “dispositivo” mais adequado.

LEIA TAMBÉM

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“El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarías con el dedo…” (García Márquez)

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Gabriel García Márquez (1927-2014),
Prêmio Nobel de Literatura 1982

Um dos mestres da literatura latino-americana foi-se da carne para entrar na história, deixando um belo legado para os leitores de hoje e de amanhã: o colombiano “Gabo”, como era conhecido, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1982, era um sublime artista do verbo e um genioso contador de histórias (e também de estórias, já que se aventurou nas sendas do jornalismo e da não-ficção). Aproveitem para relembrar um dos mais célebres e clássicos livros de García Marquez, “Cem Anos De Solidão” (de 1967) – cujo ebook completo, a ser saboreado no espanhol em que foi escrito, disponibilizamos para download gratuito no link a seguir: http://bit.ly/1jaETSb (PDF, 2 MB). Descanse em paz, mestre!

Começa assim:

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. Macondo era entonces una aldea de veinte casas de barro y cañabrava construidas a la orilla de un río de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarías con el dedo. Todos los años, por el mes de marzo, una familia de gitanos desarrapados plantaba su carpa cerca de la aldea, y con un grande alboroto de pitos y timbales daban a conocer los nuevos inventos. Primero llevaron el imán. Un gitano corpulento, de barba montaraz y manos de gorrión, que se presentó con el nombre de Melquiades, hizo una truculenta demostración pública de lo que él mismo llamaba la octava maravilla de los sabios alquimistas de Macedonia. Fue de casa en casa arrastrando dos lingotes metálicos, y todo el mundo se espantó al ver que los calderos, las pailas, las tenazas y los anafes se caían de su sitio, y las maderas crujían por la desesperación de los clavos y los tornillos tratando de desenclavarse, y aun los objetos perdidos desde hacía mucho tiempo aparecían por donde más se les había buscado, y se arrastraban en desbandada turbulenta detrás de los fierros mágicos de Melquíades. «Las cosas, tienen vida propia -pregonaba el gitano con áspero acento-, todo es cuestión de despertarles el ánima.» José Arcadio Buendía, cuya desaforada imaginación iba siempre más lejos que el ingenio de la naturaleza, y aun más allá del milagro y la magia, pensó que era posible servirse de aquella invención inútil para desentrañar el oro de la tierra. Melquíades, que era un hombre honrado, le previno: «Para eso no sirve.» Pero José Arcadio Buendía no creía en aquel tiempo en la honradez de los gitanos, así que cambió su mulo y una partida de chivos por los dos lingotes imantados. Úrsula Iguarán, su mujer, que contaba con aquellos animales para ensanchar el desmedrado patrimonio doméstico, no consiguió disuadirlo. «Muy pronto ha de sobrarnos oro para empedrar la casa», replicó su marido. Durante varios meses se empeñó en demostrar el acierto de sus conjeturas. Exploró palmo a palmo la región, inclusive el fondo del río, arrastrando los dos lingotes de hierro y recitando en voz alta el conjuro de Melquíades. Lo único que logró desenterrar fue una armadura del siglo xv con todas sus partes soldadas por un cascote de óxido, cuyo interior tenía la resonancia hueca de un enorme calabazo lleno de piedras. Cuando José Arcadio Buendía y los cuatro hombres de su expedición lograron desarticular la armadura, encontraron dentro un esqueleto calcificado que llevaba colgado en el cuello un relicario de cobre con un rizo de mujer…”

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Leia os obituários de: New York TimesAlJazeera, NPRThe TelegraphThe GuardianFlavorwire, The New Yorker.

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GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Obra

  • 1955 – La hojarasca
  • 1961 – El coronel no tiene quien le escriba
  • 1962 – La mala hora
  • 1962 – Los funerales de la Mamá Grande
  • 1967 – Cien años de soledad
  • 1968 – Isabel viendo llover en Macondo
  • 1968 – La novela en América Latina: Diálogo (junto aMario Vargas Llosa)
  • 1970 – Relato de un náufrago
  • 1972 – La increíble y triste historia de la cándida Eréndira y de su abuela desalmada
  • 1972 – Ojos de perro azul
  • 1972 – Nabo, el negro que hizo esperar a los ángeles
  • 1973 – Cuando era feliz e indocumentado
  • 1974 – Chile, el golpe y los gringos
  • 1975 – El otoño del patriarca
  • 1975 – Todos los cuentos de Gabriel García Márquez: 1947-1972
  • 1976 – Crónicas y reportajes
  • 1977 – Operación Carlota
  • 1978 – Periodismo militante
  • 1978 – De viaje por los países socialistas
  • 1978 – La tigra
  • 1981 – Crónica de una muerte anunciada
  • 1981 – Obra periodística
  • 1981 – El verano feliz de la señora Forbes
  • 1981 – El rastro de tu sangre en la nieve
  • 1982 – El secuestro: Guión cinematográfico
  • 1982 – Viva Sandino
  • 1985 – El amor en los tiempos del cólera
  • 1986 – La aventura de Miguel Littín, clandestino en Chile
  • 1987 – Diatriba de amor contra un hombre sentado: monólogo en un acto
  • 1989 – El general en su laberinto
  • 1990 – Notas de prensa, 1961-1984
  • 1992 – Doce cuentos peregrinos
  • 1994 – Del amor y otros demonios
  • 1995 – Cómo se cuenta un cuento
  • 1995 – Me alquilo para soñar
  • 1996 – Noticia de un secuestro
  • 1996 – Por un país al alcance de los niños
  • 1998 – La bendita manía de contar
  • 1999 – Por la libre: obra periodística (1974-1995)
  • 2002 – Vivir para contarla
  • 2004 – Memoria de mis putas tristes
  • 2010 – Yo no vengo a decir un discurso

 

Gabriel-Garcia-Marquez-with-“One-Hundred-Years-of-Solitude”-on-his-headThe Nobel Prize of Literature lecture (1982) [excerpt]:

“Latin America neither wants, nor has any reason, to be a pawn without a will of its own; nor is it merely wishful thinking that its quest for independence and originality should become a Western aspiration. However, the navigational advances that have narrowed such distances between our Americas and Europe seem, conversely, to have accentuated our cultural remoteness. Why is the originality so readily granted us in literature so mistrustfully denied us in our difficult attempts at social change? Why think that the social justice sought by progressive Europeans for their own countries cannot also be a goal for Latin America, with different methods for dissimilar conditions? No: the immeasurable violence and pain of our history are the result of age-old inequities and untold bitterness, and not a conspiracy plotted three thousand leagues from our home. But many European leaders and thinkers have thought so, with the childishness of old-timers who have forgotten the fruitful excess of their youth as if it were impossible to find another destiny than to live at the mercy of the two great masters of the world. This, my friends, is the very scale of our solitude.

In spite of this, to oppression, plundering and abandonment, we respond with life. Neither floods nor plagues, famines nor cataclysms, nor even the eternal wars of century upon century, have been able to subdue the persistent advantage of life over death. An advantage that grows and quickens: every year, there are seventy-four million more births than deaths, a sufficient number of new lives to multiply, each year, the population of New York sevenfold. Most of these births occur in the countries of least resources – including, of course, those of Latin America. Conversely, the most prosperous countries have succeeded in accumulating powers of destruction such as to annihilate, a hundred times over, not only all the human beings that have existed to this day, but also the totality of all living beings that have ever drawn breath on this planet of misfortune.

On a day like today, my master William Faulkner said, “I decline to accept the end of man”. I would fall unworthy of standing in this place that was his, if I were not fully aware that the colossal tragedy he refused to recognize thirty-two years ago is now, for the first time since the beginning of humanity, nothing more than a simple scientific possibility. Faced with this awesome reality that must have seemed a mere utopia through all of human time, we, the inventors of tales, who will believe anything, feel entitled to believe that it is not yet too late to engage in the creation of the opposite utopia. A new and sweeping utopia of life, where no one will be able to decide for others how they die, where love will prove true and happiness be possible, and where the races condemned to one hundred years of solitude will have, at last and forever, a second opportunity on earth.”

Read the full Nobel Lecture

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Safatle: “helicópteros, jatos particulares e iates não pagam IPVA porque, no Brasil, os ricos definem as leis que protegerão seus rendimentos e desejos de ostentação…”

COMO NÃO PAGAR IPVA
por Vladimir Safatle

Todos os anos você precisa pagar o IPVA do seu carro. Como o nome diz, trata-se de um Imposto de Propriedade sobre Veículos Automotores. Bem, um veículo automotor é, pasmem vocês, “aquele dotado de motor próprio”.

Por exemplo, um carro de boi não pagará IPVA por não ter motor próprio: o motor é o boi, a saber, uma entidade ontologicamente a parte do aparato técnico de motricidade desenvolvido pelo saber humano. A bicicleta não pagará o imposto pela mesma razão, assim como o helicóptero do banqueiro, o jato particular do escroque e o iate do Naji Nahas.

“Assim como o helicóptero, o jato particular e o iate”? Sim. Você poderá procurar todos os meandros do saber jurídico, encontrar explicações surreais, como aquela que afirma que o atual IPVA substituiu a antiga TRU (Taxa Rodoviária Única), logo os veículos automotores que pagarão impostos são apenas aqueles colados no chão.

No entanto, a verdade é uma só: helicópteros, jatos particulares e iates não pagam IPVA porque, no Brasil, os ricos definem as leis que protegerão seus rendimentos e desejos de ostentação. Bem-vindo àquilo que economistas como o francês Thomas Piketty chamam de “capitalismo patrimonial”: um capitalismo construído para quem ganha mais continuar a ganhar mais, a não precisar devolver nada para a sociedade, enquanto quem ganha menos é continuamente espoliado e recebe cada vez menos serviços do Estado.

Se os 20 mil jatos particulares e os 2.000 helicópteros que voam livremente no Brasil pagassem IPVA, teríamos algo em torno de mais R$ 8 bilhões. Esse valor é o equivalente a, por exemplo, dois orçamentos da USP. Ou seja, se aqueles que têm mais capacidade de contribuição simplesmente pagassem para ter seu singelo helicóptero o mesmo que você paga para ter seu carro, poderíamos financiar mais duas universidades com 90 mil alunos estudando gratuitamente.

Esse é apenas um dentro vários exemplos de como o Brasil se organizou para ser um país onde ser rico é um ótimo negócio. Um país que, só em 2014, deverá ter mais 17 mil milionários e nenhum deles pagando aquilo que você paga. Porque, aqui, quanto mais você sobe (de preferência de jato ou helicóptero), mais você é protegido. Isso pode parecer uma explicação primária, mas muitas vezes o óbvio é o que há de mais difícil a enxergar.

Como disse, não um esquerdista de centro acadêmico, mas o megainvestidor norte-americano Warren Buffett: “Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo”.

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Leia também:

Vladimir

“É sintomático que a única resposta efetiva às demandas vindas das manifestações de Junho seja uma lei que visa transformar o uso de máscaras em crime contra a segurança nacional. Como nada foi feito a respeito das exigências de melhores serviços sociais, contra os gastos absurdos para a realização da Copa do Mundo, por democracia efetiva, melhor pedir para senadores do porte moral de Renan Calheiros (PMDB-AL) que aprovem uma lei antiterrorista. (…) A melhor maneira de lutar contra a violência é com a escuta. A surdez dos governos em relação às exigências de ação, visando criar as condições para uma qualidade de vida minimamente suportável nas grandes cidades, é a verdadeira causa da violência nas manifestações. Escutar significa, por exemplo, não prometer uma Assembleia Constituinte, depois uma reforma política e acabar por apresentar apenas o vazio…” [ARTIGO COMPLETO]

Páscoa Maconheira

Easter Sunday
Domingo de Páscoa em Toronto e milhares de maconheiros se reuniram no epicentro da metrópolis canadense, na rua Yonge com a Dundas, em prol da legalização. Na foto, a nuvem de fumaça não é sinal de poluição, mas sim o efeito de uns 1.000 baseados acesos simultaneamente (às 4:20, é claro!). O Canadá já regulamentou tanto a cannabis medicinal quanto o plantio industrial de cânhamo – e a intensa pres
são das ruas talvez faça com que se torne em breve o segundo país no mundo – após o Uruguai – a legalizar a marijuana completamente. Será que agora vai? 

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Saiba mais sobre o atual estado das coisas cannábicas no Canadá:

A edição mais recente da NOW Magazine de Toronto inclui um excelente dossiê sobre a situação atual da maconha no Canadá – que foi o primeiro país no mundo a legalizar a cannabis medicinal, em 2001, após a evidência inegável do benefício terapêutico da planta no tratamento da epilepsia.

“Although there are no federally regulated clinical trials involving medical marijuana, and Health Canada and the Canadian Medical Association don’t currently encourage doctors to prescribe the untested drug, CBD and medical marijuana have been used with success to treat epilepsy, autism, Parkinson’s disease, Crohn’s disease, lupus, fibromyalgia and a host of other disorders including Tourette syndrome. Talk to the mother of an epileptic child and you’ll understand that medical marijuana is a lifesaver.”  [http://bit.ly/1teHZN4]

Dia a dia, cresce o número de médicos canadenses que receitam cannabis medicinal para seus pacientes e clínicas especializadas estão nascendo em Toronto com amplas perspectivas de sucesso, como relata esta outra reportagem:

“Cannabidiol, or CBD, is one of the 60 active, naturally occurring ingredients in marijuana that have more medical uses than tetrahydrocannabinol (THC), the psychoactive ingredient that gets you high. CBD has demonstrated anti-seizure and pain management properties and seems to have neuro-protective qualities – meaning it reduces the rate of neuron loss over time. A 2012 Israeli study also showed promising outcomes when CBD was used to treat rheumatoid arthritis, colitis, liver inflammation, heart disease and diabetes.” [http://bit.ly/1eR3dMZ]

O Canadá também já legalizou o plantio industrial de cânhamo – o Hemp Farming – desde 1998 (consulte os detalhes no site oficial do governo federal para a Agricultura). Pesquisas revelam que 2/3 (dois terços) dos canadenses são favoráveis à legalização não só do cânhamo – que é utilizado para fabricação de roupas, alimentos, papel, bio-combustível, entre dúzias de outros usos… – mas também da maconha (apenas uma das maravilhas derivadas desta planta multi-uso e multi-benefícios que é o cânhamo).

A NOW destaca ainda a ascensão da percepção social de que as atuais políticas de Guerra às Drogas, em especial o proibicionismo anti-cannábico, é profundamente racista:

“Arrest patterns tend to follow racial lines. The 1995 Commission on Systemic Racism in the Ontario Criminal Justice System identified a continued pattern of racism in drug enforcement, with blacks 27 times more likely to end up in jail awaiting trial on drug charges than whites.”  [http://bit.ly/1i080ev]

A legalização causaria vasta economia de gastos com a repressão e o encarceramento, além de ganhos econômicos para o Estado, em impostos, previstos em 2 bilhões de dólares anuais. “If Canada legalized it, the annual estimated revenue from taxing marijuana would be somewhere around $2 billion. And that’s not counting savings from enforcement.” [http://bit.ly/1i080ev]

Devidamente taxada por impostos, esta movimentação econômica cannábica poderia ser revertida com imenso benefício para áreas como saúde, educação e cultura. A vitória sobre o mercado negro do tráfico através da regulação deste mercado aparece cada vez mais aos canadenses não só como a medida mais sensata, mas também como ótimo do ponto de vista econômico e como um dos meios concretos para financiar um certo Welfare State.

A NOW também dissipa muitos dos temores nascidos da ignorância e reitera o que a ciência já comprovou: não existe nenhuma morte por overdose de maconha registrada na história da humanidade. “It’s nearly impossible to overdose on weed. You’d have to smoke 800 joints in, like, 15 minutes.” E sem medo da apologia, a matéria ainda afirma que a inteligência sai ganhando com o consumo sensato do THC: “Weed makes you smarter. Cannabinoids in pot increase the rate of nerve cell formation in the hippocampus, the part of brain associated with memory and learning, by a staggering 40 per cent.”


Leia: 42 fatos sobre a maconha no Canadá
[http://bit.ly/1i080ev]

Já no que diz respeito à ECOLOGIA e à atual crise planetária causada pelo aquecimento global, uma das poucas esperanças da humanidade é o cânhamo, sugere o jornalista investigativo Doug Fine. Em entrevista brilhante à NOW, ele destaca que a biomassa gerada pelo hemp é uma alternativa viável aos combustíveis fósseis. Além disso, é uma planta que resiste bem a climas secos e possui capacidades de reabilitação do solo:

Doug Fine: – “Hemp is an annual plant whose foot-long taproot helps stabilize soil and provides a vital ecosystem for microflora and fauna. Colorado’s first commercial hemp farmer, Ryan Loflin, comes from an experienced farm family. He told me hemp uses half the water his wheat crop did. Imagine the implications for drought-ravaged parts of the world like sub-Saharan Africa.” [http://bit.ly/1i6GPdg] A mesma entrevista revela: “five times more – that’s the amount of climate-cooking CO2 hemp absorbs compared to trees, according to Agriculture Canada.”

No dia 3 de Maio, sábado, a Marcha Mundial da Maconha acontece em Toronto e estarei lá filmando e cobrindo; pelo menos 5.000 pessoas são esperadas para o evento que pressionará as autoridades pela legalização e regulamentação.

São milênios de uso, décadas de proibição.

E o proibicionismo – a julgar peloes recentes avanços no Uruguai, no Colorado, em Washington… – está rapidamente caindo aos pedaços e se desintegrando.

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O documentário “O Sindicato – O Negócio Por Trás do Barato” [http://youtu.be/0YWaCTjX94U] prossegue sendo um dos melhores, mais informativos e bem argumentados dentre os filmes já feitos sobre o tema – altamente recomendado para quem quer conhecer mais sobre a situação da maconha no cenário sócio-político canadense (e norte-americano em geral, já que 80% da mega-produção de British Columbia é exportada para os EUA):

Lars Von Trier: Gênio ou Fraude? (por Linda Badley)

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“Lars Von Trier – genius or fraud?” – asks a May 2009 Guardian Arts Diary poll. Its subject is arguably world cinema’s most confrontational and polarizing figure, and the results: 60.3% genius, 39,7% fraud.

Trier takes risks no other filmmaker would conceive of (…) and willfully devastates audiences. Scandinavia’s foremost auteur since Ingmar Bergman, the Danish director is “the unabashed prince of the European avant-garde” (IndieWIRE). Challenging conventional limitations and imposing his own rules (changing them with each film), he restlessly reinvents the language of cinema.

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Personally he is as challenging as his films. After having written some of the most compelling heroines in recent cinema and elicited stunning, career-topping performances from Emily Watson, Björk, Nicole Kidman, and Charlotte Gainsbourg (photo), he is reputed to be a misogynist who bullies actresses and abuses his female characters in cinematic reinstatements of depleted sexist clichés.

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Actress and singer Charlotte Gainsbourg, who acted in Lars Von Trier’s films “Antichrist” and “Nymphomaniac”

He is notorious at Cannes for his provocations and insults, as in 1991, when he thanked “the midget” (Jury President Roman Polanski) for awarding his film Europa third, rather than first, prize. Some years later, at Cannes, in a scene worthy of Michael Moore, he called U.S. President George W. Bush an “idiot” and an “asshole”, lending vituperation to the already divisive Manderlay (2005), his film about an Alabama plantation practising slavery into the 1930s…

Coming from a small country infiltrated by America’s media-driven cultural imperialism, he has found it not merely his right or duty to make films about the United States but impossible to do otherwise. Despite that, Von Trier is known for his celebrated refusal or inability (he has a fear of flying) to set foot in the United States…

A similar effrontery had provided the catalyst for Dogme 95, the Danish collective and global movement that took on Hollywood in the 1990s and continues to be well served by the punk impertinence of the Dogme logo: a large, staring eye that flickers from the rear end of a bulldog (or is it a pig?).

Dogme shows where the provocateur and auteur come together. Claiming a new democracy in which (in the manifesto’s words) “anybody can make films”, Trier and the Dogme “brothers” market out a space for independent filmmaking beyond the global mass entertainment industry. Although he rarely leaves Denmark, he has cultivated a European and uniquely global cinema. Making his first films in English, he quickly found a niche in the international festival circuit. He drew inspiration from a wide swath – from the genius of Andrei Tarkovsky to movements such as Italian neorealism and the international New Waves of the 1960s-1970s, to American auteurs Stanley Kubrick and David Lynch…

1867LARS CAIXA 3DTrier’s long-term affinity with German culture – from expressionism and New German cinema to the writings of Karl Marx, Franz Kafka, and Friedrich Nietzsche – extends to equal passions for Wagnerian opera and anti-Wagnerian (Brechtian) theater… In spite of his flaunted internationalism, Trier has become the standard-bearer for Nordic cinema. Like Bergman and Carl Th. Dreyer, whose visions transcended nationality, he has exploited Scandinavian “imaginary” – bleak landscapes, Lutheran austerity and self-denial, the explosive release of repressed emotions – to project it elsewhere. He has similarly appropriated the Northern European Kammerspiel (chamber play) that Henrik Ibsen and August Strindberg had condensed into a charged medium. 

Reincarnating Dreyer’s martyrs (The Passion of Joan of Arc, 1928; Ordet, 1955) and the anguished female performances of Bergman’s films for the present era, he has invented a form of psycho-drama that traumatizes audiences while challenging them to respond to cinema in new ways.

His interest in theater goes back to his youth, and his films are theatrical in several senses: stylized, emotionally intense, and provocative. His features have invoked 20th century theatrical initiatives clustered under the heading of the performative: especially Antonin Artaud’s Theatre of Cruelty, Allen Kaprow’s “happenings”, and Guy Debord’s situationism, which reformulated Marxist-Brechtian aesthetics for the age of the “spectacle” in which power, concentrated in the media image, turns individuals into passive consumers.  In 1952, Debord called for an art that would “create situations rather than reproduce already existing ones” and through the performance of “lived experience” disrupt an expose the spectacle. In 1996, Trier similarly explained his view of cinema-as-provocation: “A provocation’s purpose is to get people to think. If you subject people to a provocation, you allow them the possibility of their own interpretation” (Tranceformer). (…) The films bear witness, make proclamations, issue commands, pose questions, provoke responses… Thus his films have had an impact on their surrounding contexts, affecting audiences, producing controversies, and changing the aesthetic, cultural, and political climate of the late 1990s an the 2000s.” 


By Linda Badley.

“Making The Waves: Cinema As Performance”.

University of Illinois Press. 2010.

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DOWNLOAD  “Nymphomaniac I & II” (3.6 GB / 3.1 GB) [torrent inside the ZIP]

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You might also enjoy:

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Thomas Vinterberg is the co-creator, together with Lars Von Trier, of Dogme 95. Linda Badley remembers that Dogme 95  “required abstinence from Hollywood-style high tech cosmetics, calling for an oppositional movement with its own doctrine and ten-rule “Vow of Chastity”. Coming up with the infamous rules was “easy”, claims Vinterberg: “We asked ourselves what we most hated about film today, and then we drew up a list banning it all. The idea was to put a mirror in front of the movie industry and say we can do it another way as well.”

Post reblogado do Awestruck Wanderer

O Mito de Prometeu: poema de Goethe, pintura de Rubens, música de Schubert e Hugo Wolf


Prometheus (1774)
 Wolfgang von Goethe (1749-1832)

Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!

* * * * *

Hide your heavens, Zeus,
in cloudy vapours
and practise your stroke, like a boy
beheading thistles,
on oaktrees and mountain summits;
still you must leave me
my steady earth,
and my hut, not built by you,
and my hearth,
whose warm glow
you envy me.

I know nothing more pitiful
under the sun than you Gods!
You feed your splendour
pathetically
on expensive sacrifices
and the breath of prayers
and would starve, were not
children and beggars
fools full of hope.

When I was a child,
not knowing out from in,
I turned my bewildered gaze
to the sun, as if there might be above it
an ear to hear my sorrow,
a heart like mine
to have mercy on the afflicted.

Who helped me
against the overweening Titans?
Who rescued me from death,
from slavery?
Was it not you, my holy glowing heart,
who did it all?
and young and good, deceived,
glowed thanks for rescue
to the slumberer in the heavens?

I, worship you? What for?
Did you ever relieve
the ache of the heavy-laden?
Did you ever wipe away
the tears of the terror-stricken?
Was I not hammered into the shape of Man
by almighty Time
and eternal Destiny,
my masters, and yours?

No doubt you supposed
I should hate life,
flee to the desert,
because not every
blossom of dream became fruit?

Here I sit, make men
on my own pattern,
a breed to resemble me,
to suffer pain, to weep,
to feel pleasure and joy,
and, like me,
to pay you no attention!

 

* * * * *

Wolfgang von Goethe (1749-1832)
English translation by D.M. Black
Modern Poetry in Translation
New Series, No. 16 (2000)
ORIGINAL EM ALEMÃO

 

Prometheus depicted in a sculpture by Nicolas-Sébastien Adam, 1762 (Louvre)

Prometheus depicted in a sculpture by Nicolas-Sébastien Adam, 1762 (Louvre)

Music by Hugo Wolf (1889):

Music by Franz Schubert (1819):

* * * * *

Poetas já publicados no projeto paralelo (em inglês) Awestruck Wanderer:

NIETZSCHE – A Graphic Novel (Texto: Michel Onfray; Arte: M. Le Roy) – DOWNLOAD PDF (em espanhol)

nietzsche-se-creer-liberte_52360_1765

NIETZSCHE – SE CRÉER LIBERTÉ
Graphic novel com texto de Michel Onfray e arte de Maximilien Le Roy.
Faça o download gratuito do e-book (traduzido para o espanhol):
http://uploaded.net/file/663tkjpd/Sfrd19952ni.rar
(118 MB – Em formato CBR – Software para ler)

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