Um peregrino cheio de espanto… Novo blog na área!

Toronto

toronto1 HD

Royal Art Museum

Caros leitores, o rio sempre-corrente da vida segue carregando minha barcola a peregrinar por novas paragens: por cerca de um ano, estarei às margens do Lago Ontário, em Toronto, encarando pela primeira vez uma experiência “na gringa”. Sair das tórridas temperaturas de Goiânia, onde é verão o ano inteiro, e chegar na friaca congelante do inverno canadense foi uma vivência um tanto chocante, a princípio, quase um ritual de perder o cabaço: meu organismo, acostumado às bermudas, às camisetas e às havaianas, viu-se na necessidade de aderir a um vestuário de eskimó para encarar as nevascas. Os cinco minutos de caminhada até o ponto de ônibus, em dias de clima mais hostil, transformam-se em uma epopéia: com o vento jogando neve na sua cara, e os pés deslizando sobre as crostas de gelo que se formam sobre as calçadas (já tomei um ou dois capotes…), este percurso até o busão me faz lembrar dos versos de Amarante: “pra nós dois sair de casa já é se aventurar”.

Na época do Natal, a fúria dos elementos se manifestou com toda a sua força, derrubando muitas árvores, causando estragos no sistema de eletricidade, com prejuízos estimados em mais de 100 milhões de dólares canadenses. Nos jornais do dia 25 de Dezembro, estava lá estampado em letras garrafais: “DARK CHRISTMAS”. Isso pois cerca de 300.000 torontonitas estavam sem luz em suas casas devido aos efeitos da snowstorm. E estar sem luz não é mole não: curtir uma ceia de Natal à luz de velas pode até parece romântico, mas sem eletricidade não tem aquecimento, e aí o bicho pega! O prefeito Rob Ford, que é igualzinho a uma versão adulta do Eric Cartman (do South Park), provavelmente estava fumando crack em sua mansão enquanto a população passava por estes maus bocados, e depois declarou: “A Mãe Natureza atingiu a nossa cidade com muita força” – mas o que há de “maternal” numa natureza dessas?

Esta nova fase me instigou a tirar da cartola um novo blog, o Awestruck Wanderer (algo como “Peregrino Cheio de Espanto”). Ao batizá-lo assim, quis agregar a noção de nomadismo existencial, algo de heraclitiano/nietzschiano, àquilo que se considera o afeto de onde nasce a filosofia – o espanto. Espanto-me, logo penso. Este novo ninho na blogosfera tem como principal intento  servir como portfólio para que eu tente descolar algum trampo na imprensa canadense. Pretendo postar ali minhas produções na língua de Shakespeare, já que esta temporada canadense está servindo para que eu tire um pouco da ferrugem do meu inglês e tente avançar no domínio do idioma.

As bibliotecas públicas de Toronto estão sendo uma mão-na-roda pra isso, aliás. Elas estão por toda parte, em cerca de 50 diferentes locações, e disponibilizam material multi-mídia (ou seja: não só livros, mas também DVDs e CDs). Os prazos para devolução são ótimos: 3 semanas para livros e CDs, 1 semana para DVDs. Tudo gratuito. E cada usuário pode retirar até 50 itens. O website oficial da Toronto Public Library oferece um ótimo serviço de buscas e permite reservas e renovações de modo bem simples e acessível. A cidade merece uma salva de palmas por permitir ao cidadão este acesso amplo à cultura! Tenho devorado alguns ótimos livros sem ter que gastar um puto, e a gratidão é grande a este serviço público realmente admirável.

A companhia dos mestres da literatura em língua inglesa tem sido excitante – Paul Auster, Nathaniel Hawthorne, John Steinbeck, Walt Whitman, dentre outros, têm sido lidos com muito gosto por aqui, e lá na minha nova goma na blogosfera já começaram a aparecer os primeiros artigos sobre isso, que agora convido os frequentadores desta Casa de Vidro a visitarem a seu bel prazer: reflexões sobre a Trilogia de Nova York de Auster, o The Blithedale Romance de Hawthorne, o documentário Os Estados Unidos Contra John Lennon, a comédia-cult O Grande Lebowski dos irmãos Coen, além de uma entrevista exclusiva, realizada algumas anos atrás, com a adorável cantora/compositora/pianista Casey Dienel. O blog também tem como intenção reunir belas citações que eu for coletando, sempre em inglês; já estão no ar alguns poemas de Lawrence Ferlinghetti, alguns excertos do Zen de Robert M. Pirsig e algumas sábias palavras de John Steinbeck.Em breve postarei por lá mais material original, escrito por minha pena: contos, poemas e diários que planejo escrevinhar durante este ano em Toronto. Voilà, pois, alguns dos scribblings deste peregrino cheio de espanto:

[http://www.awestruckwanderer.wordpress.com]

“Drink from this flask to put some warmth in our chest…”

01) Doctor Monroe
02) Everything
03) Baby James
04) Cabin Fever
05) Frankie and Annette
06) The Coffee Beanery
07) Old Man
08) Stationary
09) Tundra
10) All Or Nothing
11) The La La Song

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

8 pensamentos sobre “Um peregrino cheio de espanto… Novo blog na área!

  1. Mas a experiência tá bem contada uma barbaridade. Mantenha o blog. E o casaco.

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  2. cabedino disse:

    Republicou isso em Ala dos fumantese comentado:
    Leiam e tenham uma ideia do funcionamento de uma biblioteca de verdade. Para nós brasileiros que estamos acostumados a bibliotecas, mas que na verdade são “arquivos de papel velho”, é uma tentação.

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  3. Michele Viviane Vasconcelos disse:

    Fiz uma viagem junto contigo agora! De Goiânia para o Canadá! Que loucura. O “Espanto-me logo penso” ou o “Peregrino cheio de espanto” me definiram ao final do texto. Percebo que é uma pessoa muito culta e com certeza já está alçando vôos bem maiores. Entendi que é tudo novo para você e vibrei ao imaginar a sensação. Mas, apesar de ter ouvido milhões de vezes a música Helpless e adorar o Neil Young, meu lugar é ao sol quentinho aqui do Brasil ou de qualquer outro lugar acima de 20ºC. Um caloroso abraço peregrino corajoso e espantado. Seu espanto logo passa, mas, desejo que seja sempre uma aventura.
    Continuo acompanhando aqui da telinha.

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    • Olá, Michele! Obrigado por ter embarcado nessa viagem comigo, de Goiânia ao Canadá, nas asas do avião gratuito da palavra… espero escrever algumas “trips” mais durante este período em que estarei morando aqui na pátria do Neil Young, e você está convidada para retornar sempre que quiser a este casebre na “blogosfera”! A Casa de Vidro está morando provisoriamente na friaca canadense, mas logo logo já pousa de volta nas quenturas goianas… Valeu por acompanhar! E nos vemos por aí (agora já estamos amigados no Face, certo?). See ya.

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      • Michele Viviane Vasconcelos disse:

        Friaca Canadense… a Casa de Vidro virou Iglú rs Certo, agora estamos amigados no Face. Até logo peregrino espantado!

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      • Haha! É isso, a Casa de Vidro agora é um iglú! Mas sempre com a fogueira acesa e a portinhola aberta pra receber qualquer peregrino ou peregrina que procure “shelter from the storm”, como canta o Dylan… Até mais, Viviane! Volte sempre.

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