E por falar em amor… (Marina Colasanti)

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“Pertencemos à geração do descartável, desinventamos o duradouro. À navalha, que durava a vida inteira, preferimos o barbeador que se utiliza só um par de vezes e se joga fora. Trocamos o bom e sóbrio tecido que usaríamos durante anos, pela alucinante cor da moda que durará apenas uma estação. (…) Resistência e boa qualidade tornaram-se palavras sem sentido, o máximo que admitimos é obsolescência planejada. Esse “descartismo” contaminou os sentimentos. Sem, entretando, mudá-los por completo.

Hoje, quando me apaixono, penso que se acredito no grande amor e se faço sonhos de eternidade sou uma romântica ridícula. Pior que isso, sou uma pessoa incapaz de viver a realidade, de enfrentar a precariedade das relações humanas, de “elaborar as perdas”… Enfim, sou alguém próxima da inadequação, que sem muito esforço poderia ser chamada de neurótica.

Mas se me apaixono e não acredito na possibilidade do grande amor, se já começo pensando no fim, sei que sou uma cínica, uma superficial. Pior que isso, sou uma pessoa incapaz de viver as grandes emoções em toda a sua grandeza, de acreditar na força redentora dos sentimentos, de aceitar o desafio da entrega. Enfim, sou alguém próxima da inadequação, que sem muito esforço poderia ser chamada de neurótica.

Incapaz de resolver a divisão a contento, fico com as duas possibilidades, amo eternamente preparando minha alma para a despedida, e bato no peito culpada por amar de todo, culpada por não amar de todo.”

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“As pequenas emoções não nos interessam, saíram da moda. As médias emoções pouco nos interessam, não têm apelo. É impossível vender uma marca de cigarro com um slogan como “Fume X, o cigarro das pequenas emoções”, ou encher um navio para “um cruzeiro medianamente emocionante”. As emoções, hoje, ou são gigantescas, altamente excitantes, ou não são nada. Estão aí as drogas, os decibéis ensurdecedores, o sexo explícito, a iluminação psicodélica, os filmes de horror e de violência. O resto é perfumaria.”

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“O amor não é uma emoção agressiva. Mas a paixão é. O amor é pleno, apaziguante. A paixão é cheia de suspense, enervante. Quando amo fico macia, receptiva. Em estado de paixão fico tensa, exigente. A paixão – com o ódio que vem no seu rastro – é uma super-emoção, é a olimpíada da alma, o grande show. É, enfim, a emoção perfeita para o clima de constante superação que a sociedade de consumo estabeleceu.”

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“…durante séculos, tentamos descorporificar o amor. Amarramos ao corpo a âncora do pecado, e o lançamos bem ao largo da respeitabilidade. Bonito era o trovador medieval cantar o casto amor à sua dama, bonito era Dante amar Beatriz sem jamais tê-la tocado. Mas Lancelot, que se apaixona fisicamente, que trai os ideais do amor cortês ao possuir a mulher de outro, não conseguirá achar o Graal, e cem vezes será humilhado ao vagar na procura. O que acontece aos Abelardos e às Heloísas que cantam os prazeres da carne é bem conhecido, o castigo para quem ama com o corpo sendo a mortificação do próprio corpo.

Dessa divisão custamos a nos libertar. É verdade que hoje um amor como o de Dante não seria considerado um caso poético, mas um caso clínico. Se antes amar uma mulher implicava ‘respeitar-lhe’ o corpo, atualmente o respeito que se devem os amantes é o respeito – e a satisfação – dos próprios desejos. O amor já não existe sem o sexo. Em compensação, ninguém se surpreende de os corpos se relacionarem entre si, tendo deixado o sentimentos em outros escaninhos. Associamos o amor, mas generalizamos a dissociação do sexo.”

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“O amor do outro viabiliza o nosso amor por nós mesmos. Esta é a razão pela qual nos é difícil viver plenamente felizes se estamos conscientemente escondendo do amado os nossos defeitos. Não é o medo de que ele possa vir a nos descobrir e a nos desamar. Esse medo existe, mas é acalmado pela certeza de que podemos controlar os seus passos, nas tentativas em que tenta ampliar seu conhecimento de nós. O que nos impede a felicidade é que, como demonstra o fato de escondê-los, esses defeitos nos parecem abomináveis, suficientes para que ninguém nos ame, suficientes, sobretudo, para que não nos amemos. E sem amar a nós mesmos não há felicidade possível.

Quantas e quantas vezes, presos neste tipo de armadilha, acabamos criando uma situação-limite para obrigar o outro a nos desmascarar e, eventualmente, nos salvar. Assim, embora aparentemente felizes, armamos um sério desencontro, geramos um terremoto na relação, capaz de deixar bem à mostra aqueles defeitos que antes atuavam escondidos. Capaz, sobretudo, de obrigar o outro a nos conhecer realmente, e a estabelecer uma nova escolha que nos inclua como somos, ou nos exclua de todo.

(…) Com defeitos ou qualidades, o conhecimento é a única arma de que dispomos para enfrentar a grande viagem do amor, com esperança de sucesso. É a nossa bússola.”

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“Certamente, o amor não é fácil. E durante um certo tempo até pensamos poder viver razoavelmente sem ele. Percebemos porém que ao cortar a árvore para evitar o incômodo das folhas que caem, perdemos a sombra e os frutos, perdemos o doce farfalhar. E então estamos recomeçando a plantar.”


MARINA COLASANTI
E Por Falar em Amor…

(Editora Rocco, RJ, 1985)

Sobre www.acasadevidro.com

Plugando consciências no amplificador. Professor de Filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Documentarista independente.

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