Relembrando Maio de 1968 com Carlos Fuentes

Goksin Sipahioglu
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“Vocês são as guerrilhas contra a morte climatizada
que querem nos vender com o nome de futuro.”

JULIO CORTÁZAR

Não há como esquecer as efervescências deste ano histórico que foi 1968: na França, estouram a memorável rebelião estudantil de Maio e a gigantesca greve operária (mais de 10 milhões de trabalhadores cruzam os braços); em Praga, a Primavera tcheca é esmagada pelos tanques soviéticos (é o stalinismo estraçalhando os socialismos que não seguem os ditames de Moscou…); no México, às vésperas das Olimpíadas, as manifestações populares são massacradas pelo Estado e deixam centenas de mortos; no Brasil, começa a fase mais linha-dura do regime militar, com a promulgação do AI-5, os exílios, as torturas, os horrores nos porões do DOPS – e a necessidade, para a esquerda, de aderir à guerrilha armada e aos sequestros de embaixadores…

Em um livro magistral, Carlos Fuentes (1928-2012) relembra alguns destes episódios: “Em 68 – Paris, Praga e México” é uma obra crucial para entender tanto aqueles tempos… quanto os nossos (Ed. Rocco, R$25,00). Lê-lo só consolidou minha convicção de que recuperar a memória dos levantes, das demandas, dos confrontos, das experimentações e dos sonhos do Maio de 1968 francês, dos levantes mexicanos e tchecos, da resistência latino-americana à ditadura militar, permanece algo essencial – não só como conhecimento histórico, mas como um saber-prático que pode nos ajudar a fecundar o presente, único modo de colher os frutos de um outro mundo possível.

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DEBAIXO DO ASFALTO HÁ A TERRA….

Mai68affiche-1O que às vezes me consola, quando caminho nas calçadas cinzas das cidades que são selvas de pedra, em meio ao CO2 que peidam os escapamentos e as fábricas, é saber que debaixo do asfalto ainda existe intacta a terra. E que intacta está também sua potência de ser ventre maternal para futuras sementes. Em Paris, onde não há praia, os manifestantes de Maio de 1968 tinham como um de seus slogans, bradado nas passeatas, pixado nos muros da Sorbonne, escrito em seus poemas: “Debaixo dos paralelepípedos estão as praias.”

Naquele época, como ocorre ainda hoje, as manifestações sofreram dura repressão policial por parte das “brutais CRS (Companhias Republicanas de Segurança, a tropa de elite da polícia francesa), que avançam contra a fumaça e as chamas e as árvores caídas, lançando gases letais, batendo indiscriminadamente em pedestres, jornalistas e paroquianos de cinemas e cafés, lançando granadas plásticas em direção às janelas abertas…” (Fuentes, Em 68, p. 24).

Se no Brasil de 2013 celebrizou-se o uso do vinagre como antídoto contra o gás lacrimogêneo, naquela época os revoltosos franceses tinham seu equivalente: lenços “empapados com suco de limão e bicarbonato untado sobre as pálpebras”. Muitos não fugiam ao confronto com os flics (os tiras) e o famoso pavé parisiense (o calçamento com paralelepípedos) “foi a primeira arma de contra-ataque dos estudantes brutalizados pela polícia: arma, como disse Jean Paul Sartre, não da violência, mas da contraviolência de centenas de milhares de estudantes que jamais fizeram outra coisa senão defender-se. Só houve violência quando a polícia a iniciou. Manifestação sem polícia era manifestação pacífica.” (Fuentes: p. 26).

Um dos estudantes que participou do Maio de 68 em Paris depois explicaria que, se os paralelepípedos voaram contra a polícia, foi porque “se tornaram nosso meio de comunicação em massa. Saímos às ruas porque não temos outra maneira de nos fazer escutar em uma sociedade onde os mass media foram monopolizados e domesticados. Contra a abundância das comunicações inúteis, enviamos a mensagem imprescindível de nossas pedras e palavras.” (Fuentes: p. 29)

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LEMBRANÇAS DE MAIO DE 68 – POR CARLOS FUENTES

aff01“A primeira coisa que se precisa compreender sobre a revolução de maio na França: que é uma insurreição, não contra um governo determinado, mas sim contra o futuro determinado pela prática da sociedade industrial contemporânea, e (….) protagonizada pela juventude de uma nação desenvolvida. E esses jovens dizem que a abundância não basta, que se trata de uma abundância mentirosa.

O mundo industrial moderno também se levanta sobre a morte e a exploração dos homens marginais do mundo infra-industrial. A morte: quando uma sociedade de excedente industrial como a norte-americana deve assegurar sua saúde transformando a ‘perda financeira’ em uma chuva de bombas de napalm e fósforo (ad majorem gloria Dow Chemical Co.) sobre a população indefesa de uma pequena nação rural. Não é por acaso que a Guerra do Vietnã tenha sido o grande catalisador da revolução da juventude ocidental.

Enquanto o mundo industrial se satura de riquezas inúteis, o mundo subdesenvolvido carece do que é básico. Lembro-me destas palavras de um estudante com quem conversei numa comunidade universitária italiana especialmente lúcida: ‘Em que se distingue do fascismo uma sociedade que é incapaz de distribuir sua enorme riqueza acumulada entre os países famintos da Ásia, África e América Latina? Cada capitalista europeu e norte-americano não pratica um extermínio em massa comparável ao dos nazistas? Estamos continuando, por outros meios, a luta de Zapata e Guevara, de Camilo Torres e Frantz Fannon. Lutamos contra o mesmo mundo da opressão centralizada.’

Em Maio de 1968, em Paris, nos muros da Sorbonne, lia-se em um cartaz: ‘A revolução que vai colocar em dúvida não só a sociedade capitalista, mas também a sociedade industrial. A sociedade de consumo deve morrer uma morte violenta. A sociedade alienada deve desaparecer da história. Estamos inventando um mundo novo e original. A imaginação tomou o poder.’

São os filhos de Marx e de Rimbaud: é preciso transformar o mundo, é preciso mudar a vida. As estátuas de Pasteur e de Pascal na Sorbonne ostentam cachecóis vermelhos no pescoço e seguram bandeiras negras entre os braços. Victor Hugo, velho sensualista, parece atingir um prazer lendário e secular com essa maravilhosa moça morena que hoje se senta em seus joelhos de pedra. Diante deste cenário, discursa Jean-Paul Sartre para milhares de estudantes:

– O que está em vias de se formar é uma nova concepção da sociedade baseada na democracia plena, uma aliança do socialismo e da liberdade. Porque socialismo e liberdade são inseparáveis.

Neste mês, 10 milhões de trabalhadores entram em greve na França. (…) Os pesquisadores científicos criam comitês democráticos visando à autogestão e à eliminação de todo trabalho que, direta ou indiretamente, possa ser utilizado para fins bélicos ou repressivos. Enfermeiros e médicos estabelecem a co-gestão nos hospitais por meio de comitês destinados a renovar um sentido democrático. Até mesmo os estudantes de teologia da Universidade de Paris declaram:

– A instituição eclesiástica, tendo em vista seu lugar privilegiado nas sociedades ocidentais, contribui, com seus silêncios, com suas tomadas de posição obrigatoriamente conciliatórias, com sua prédica de paz onde não há paz, para a manutenção do status quo. A teologia só faz prolongar as contradições internas do sistema capitalista. Isso compreendemos definitivamente nas barricadas. Tomar o partido dos oprimidos significa hoje entrar deliberadamente e sem reservas no processo revolucionário. (…) Deus não é conservador! Por que os cristãos não hão de exercer violência contra um sistema capitalista que pratica a violência endêmica no mundo subdesenvolvido? É possível conceber, atualmente, a caridade sem luta?

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Pelas ruas, há grupos de adolescentes que invadem o Odéon pedindo uma educação sexual dinâmica e adequada e reclamam o direito ao orgasmo. Um dos manifestantes argumenta que o Maio de 68 foi uma explosão de espontaneidade: ‘Opusemos uma linguagem nova e radical à linguagem mumificada do poder, do Parlamento, das eleições e das formações políticas tradicionais. Tanto o poder quanto a oposição demonstraram seu anacronismo e sua ineficácia nessa situação. O processo eleitoral é coisa deles; não nos afeta nem afeta a revolução, que prossegue sua marcha por caminhos inéditos, difíceis e definitivamente alheios às formalidades burguesas’. Outro dos jovens manifestantes parisienses declarou:

– Já votei nas barricadas pelo socialismo revolucionário. Minha cédula foi um paralelepípedo.”

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Adquira este livro de Carlos Fuentes, “Em 68 – Paris, Praga e México” (Ed. Rocco, R$25,00): http://bit.ly/1986lgL.

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PARIS: MAIO DE 68
Coleção Baderna da Ed. Conrad
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SIGA VIAGEM:


A documentary by Seymour Drescher, Professor in the Department of History at the University of Pittsburgh, former student of George Mosse, and author of Abolition: A History of Slavery and Antislavery. The film looks at the student and worker upheaval in France in May, 1968.


Prague Spring ’68 – Sofia Summer (2008) – a documentary by Nayo Titzin

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3 pensamentos sobre “Relembrando Maio de 1968 com Carlos Fuentes

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