A Revolução Verde em Marcha… Reflexões sobre a Marcha da Maconha.

I. UM FAROL VERMELHO MANCHADO DE SANGUE

A luz verde marcha pelas cidades, desfila na frente de universidades e drogarias, de shoppings e prefeituras, de cara limpa e na maior paz, disseminando informação e consciência enquanto dança e canta ao som de Raul Seixas, O Rappa, Manu Chao, Planet Hemp… É o verde que desabrocha nos corações para peitar o farol vermelho todo manchado de sangue! Fervilhando pelas ruas, vão os dionisíacos maconheiros, vãos os lókis com dreadlocks, vão os neo-hippies que cultuam Jah ou Shiva, vão os apaixonados pela consciência expandida, demandando com uma mescla de revolta indignada e triunfante festa:

“Dilma Rousseff, legaliza o beck!”; ”Se a erva legalizar, olê-olê-olá… eu vou plantar!”; ”Fumo proibido: traficante agradecido!” – dentre outras pérolas do slogan genuinamente popular. Enquanto marcha o verde, a tensão está no ar, já que há forças inimigas espreitam (alguns os chamam, os fardados, de “braço armado da burguesia”). Eles, os P.M.s (também conhecidos como Paus-Mandados), com seus revólveres no coldre, seus cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo (dizem dela que seu efeito é meramente “moral”… ), saltam fácil sobre o corpo dos “desordeiros”, dos “inimigos da Lei e da Ordem”, dos “vândalos” e “bárbaros”.

Alegremente, sabendo que não vale a pena brigar com os carrancudos com a mesma soturna rigidez que eles demonstram, manda a trupe herbácea o aviso pros “hômi-de-farda”: “Ei, polícia, maconha é uma delícia!”. Eis um meio de dizer, através do humor e da provocação, que afinal de contas maconha não é nenhum bicho de sete cabeças – e pode até mesmo, se legalizada e tratada sem histeria, ser uma dispensadora de amplos benefícios, uma dádiva da Terra para nossas mentes… Pepe Mujica, aliás, já esparramou pelo Uruguai as sementes deste outro mundo possível.

Hoje em dia um movimento internacional vem colorindo de verde as ruas para escancarar o absurdo desperdício – de dinheiro público e de vidas humanas – acarretado pela Guerra às Drogas, em especial a estupidez descomunal da guerra empreendida contra a maconha, ou melhor, contra as pessoas que a plantam, a comercializam e a consomem. ”Adivinha, Doutor, quem tá de volta na praça?” A esquadrilha da fumaça! Mas não a fumaça de que gosta o capitalismo – a fumaça das indústrias que vomitam seus poluentes na atmosfera e das armas de guerra a lançar seus mísseis e a provocar seus incêndios mortíferos que queimam civis e crianças… – mas a fumaça que deixa a “mente ativa” e que, para usar a expressão do B Negão, “passa de mono pra estéreo a tua compreensão”…

a revolução verde

Avenida Consolação em Sampa tomada por cerca de 8 mil manifestantes

II. MARCHA DA MACONHA 2013 – GONZO REPORT

Em Goiânia, a Marcha Maconheira 2013 foi linda, excitante, barulhenta, diversificada… (Veja o vídeo) Pelo menos 2.000 pessoas estavam lá para o rolê que, saindo da Praça Universitária, atravessou a Rua 10 e encheu de verde a Praça Cívica iluminada por uma Lua cheíssima. A “causa” cannábica foi conectada com muitas outras: a feminista (hoje em dia bombando com a “Marcha das Vadias”…), a causa do Estado laico (hoje em dia ameaçadíssimo por Feliânus e Malafaias, dentre outros salafrários…), a causa anti-manicomial (hoje em dia na crista da onda com a instauração das “internações compulsórias para usuários de crack”…).

Além disso, os problemas locais não foram negligenciados e a Marcha da Maconha Goiânia 2013 pôde dar seu recado sobre muitos temas de relevância para o goiano: o aumento abusivo das tarifas do transporte público; as alterações no Plano Diretor que ameaçam destruir o meio ambiente em prol do grande trator do capital corporativo; o governo todo roído por vermes de Marconi Perillo, tucano cachoeirista que, no ano passado, quando reveladas as tramóias em que se meteu, viu a juventude sair às ruas em consideráveis marchas “Fora Marconi” – algumas delas com mais de 5 mil participantes…

Debaixo de uma Lua cheia que não conhece nenhuma lei humana, que segue em sua órbita em total desprezo por quaisquer ditames, A.I.s ou dogmas que humanos tentem lhe impor, Goiânia marchou em prol de leis mais sábias. E marchou de cabeça erguida, com muita gente já convicta de que a vitória não tarda e que não há Lei neste mundo que vá impedir esta erva de prosseguir brotando por mil recantos deste planeta…Contra o machismo que estupra e mata, contra os pastores fanáticos que só sabem condenar os “comportamentos desviantes”, contra os militares broncos que querem resolver tudo no tiro, contra os vendedores de drogas bem mais perigosas do que a erva, e que se interessam mais por seu lucro do que pela saúde de um povo… Contra esses, marchamos! Em prol de um mundo mais verde, com menos motosserras e hiper-mercados, onde cada um tenha o direito de consumir – não as geringonças e quinquilharias que o capitalismo põe no mercado… – mas aquilo que cada um sente lhe ajudar a melhor “vislumbrar o infinito” e melhor perceber-se como parte do todo, capaz de conexão e soma.

A Marcha da Maconha convida jovialmente os proibicionistas, os repressores radicais que desejam “exterminar” estes viciosos sem-vergonhas e moralmente corruptos que são os maconheiros: em lugar de tanta bala, tanta cadeia e tanta repressão, porque não pensar em leis mais sábias? Aliás, é suspeita antiga minha que a grande maioria dos proibicionistas nunca fumou um beck, ou ao menos não tragou, o que merece uma paráfrase da excelente idéia de Terence McKenna (originalmente sobre o LSD): “A maconha é uma substância capaz de produzir efeitos psicóticos e paranóicos intensos naqueles que não a utilizaram.”

Afinal, seriam da mesma opinião os senhores proibicionistas se tivessem de fato experimentado e pesquisado concretamente os efeitos da substância? Não seria mais interessante, ao invés da perseguição belicista, uma atitude mais curiosa e inquiritiva, ou seja, fazer pesquisas científicas sérias, com pesquisadores e intelectuais bem pagos, sobre os potenciais benéficos e possíveis perigos desta planta? Por que não deixar os psicólogos, os antropólogos, os filósofos, os juristas, opinarem sobre a melhor maneira de lidar politicamente com uma erva tão amplamente utilizada e tão entusiasticamente aclamada por seus usuários? Por que não dar uma chance para um novo ciclo vegetal iniciar sua jornada legal sobre solo brasileiro, e por que não considerar a hipótese de que ele possa ser um dos pilares de uma sociedade menos nefasta, opressora e hierarquizada do que aquelas que se ergueram sobre o açúcar, o café e a pecuária?

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III. A PLANTA DO FUTURO

O cânhamo, muito provavelmente, é a autêntica “planta do futuro”: e quem não acordar pra isso vai ficar sendo parte do passado. O vasto leque de utilidades do cânhamo – que pode ser usado para fazer papel, roupa, combustível, remédio… – é sinal do quanto a estupidez do proibicionismo está nos privando de uma planta prodigiosamente benéfica em muitos domínios além da expansão da consciência e da “recreação” psicodélica. Quando a Era do Petróleo acabar (deste século não passa…), talvez a revolução verde agora em marcha torne-se não somente altamente desejável, mas absolutamente necessária. O tempo dirá!

O Tempo, afinal de contas, já é velho conhecido e comparsa do cânhamo: eis uma planta que atravessou os milênios, não só sobrevivendo muito bem a todas as intempéries e desmatamentos, como também prestando múltiplos serviços aos humanos. O cânhamo está profundamente enraizado no passado humano, tendo participado ativamente da Invenção da Imprensa de Gutemberg e das Grandes Navegações pelas quais os europeus invadiram e pilharam a América; foi coadjuvante da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (que foi escrita em papel de cânhamo1), tendo sido cultivado em imensas fazendas por yankees de bufunfa grossa, chegando a ser um dos produtos agrícolas mais importantes do país, pau-a-pau com o milho e o algodão; sem falar que remédios derivados do cânhamo já foram onipresentes nas farmácias, sendo usados até pela Rainha da Inglaterra para minorar os efeitos de suas cólicas menstruais…

Além disso, mundo afora, e mais particularmente no Oriente, o cânhamo foi sacralizado por muitas culturas, consagrado em evangelhos, poemas e canções, tendo sido muito provavelmente um dos elementos importantes para a emergência histórica de vários cultos e religiões xamânicas, hinduístas, budistas, rastafaris, umbandísticas…

São milênios de usufruto e apenas décadas de repressão. Sagrada em muitas civilizações, a cannabis foi parte importante da nossa história, marcando ramos diversos da condição humana: a religião e o misticismo (ela é sagrada para os hindus da Índia, por exemplo, que em sua mitologia transformaram a maconha numa dádiva feita pelo deus Shiva à humanidade…); a criação artística e filosófica (quantas obras e quantas descobertas não foram auxiliadas pelas alterações de consciência desencadeadas pelo THC no cérebro humano?); a farmacologia e a medicina (a cannabis consta entre os remédios mais antigos e mais eficazes que o homo sapiens descobriu no imensamente bio-diverso reino da phýsis…).

Mundo afora, este último aspecto – o potencial benéfico ou terapêutico da maconha – ganha progressiva credibilidade e comprovação científica. E em muitos países os benefícios da cannabis medicinal já podem ser usufruídos por milhões de pessoas que sofrem de AIDS, câncer, depressão, glaucoma ou dúzias de outras condições sobre as quais a maconha age de modo benéfico, por exemplo minorando os efeitos adversos da quimioterapia ou reabrindo um apetite de leão (vulgo “larica”) naqueles fragilizados pela doença. Estados norte-americanos de peso, como Califórnia e Washington, e países inteiros, como a Holanda e o Uruguai sob a presidência de Mujica, já deram este passo à frente.

Quanto ao uso dito “recreativo”, a maconha é a substância ilícita mais usada no planeta, a mais popular e a mais universal, e não cessa de espantar a bizarra situação histórica em que nos encontramos: apesar dos milhões de mortos, nas últimas décadas, por causa do cigarro e do álcool, estas substâncias são de comércio legal e protegidas por mega-corporações e governos a elas favoráveis, enquanto que a maconha, que jamais na história registrada causou uma única morte por overdose, prossegue ilegal – seu usuário criminalizado, seu plantio proscrito, sua comercialização reprimida, seus comerciantes encarcerados…

A Guerra às Drogas não chegou nem perto de exterminar as substâncias alteradoras da percepção, mas conseguiu exterminar… pessoas: nos campos de batalha do Rio de Janeiro e de Bogotá, de Lima e da Cidade do México, os corpos sem vida de traficantes e policiais não cessam de cair. E não há de cessar tão cedo a sanguinolência e violência nos clashes entre as Cidades de Deus e os Caveirões da s Tropas-de-Elite caso a política proibicionista hoje em vigor prossiga. Com o proibicionismo, caminhamos para a catástrofe: penitenciárias super-lotadas, com condições de vida abomináveis, onde centenas de milhares de pessoas são trancafiadas não para qualquer tipo de “reeducação moral”, mas sim para serem apresentadas a uma das facetas mais sórdidas e fascistas deste Sistema. Com a continuação da política proibicionista, o Brasil pode esperar novos Carandirus, novas Candelárias, novos escândalos para manchar nossa imagem e nossa história com seu sangue jorrante…

E pra falar no dialeto “economiquês” tão apreciado pelos políticos que nos impõe o proibicionismo, eis um fato simples: é absurdo querer guerrear contra produtos cuja demanda, por parte da população, é gigante. Quando há uma demanda tão vasta, é óbvio que haverá uma oferta para supri-la. No excelente filme The Union – O Negócio Por Trás do Barato, o espectador conhece o gigantismo deste mercado e o quão irrealizável é o projeto de alguns proibicionistas radicais de aniquilá-lo por inteiro. Em outros termos: em um país como o nosso, onde pelo menos umas 5 milhões de pessoas (chutando muito baixo!) desejam consumir maconha, é absolutamente ridículo pretender extinguir este mercado a força de bala e de cadeia.A demanda das massas pela maconha não cessou durante as décadas de brutalidade policial e ferocidade carcerária, mas, pelo contrário, só tendeu a se fortalecer e se disseminar.

Imaginem um governo que tentasse banir de seu território o comércio de café, e que para isso lançasse na cadeia todas as pessoas que fossem pegas em flagrante delito de traficar café. Em breve não haveria mais lugar algum para novos presos. É o que dá quando se proíbe e criminaliza um comportamento amplamente disseminado, a despeito das leis, e quando se quer criminalizar algo que as pessoas continuarão comprando de qualquer jeito, mesmo que tenham que recorrer ao mercado clandestino.A Lei Seca americana, que quis proibir o álcool, foi um retumbante fracasso que gerou como subprodutos um mercado negro enorme e a proliferação de Al Capones e violências sanguinolentas mil. A História mostra a ineficácia de um sistema que lança na cadeia as pessoas quando estão comercializando produtos que elas desejam intensamente “consumir” e cujos benefícios desejam gozar. O proibicionismo está fadado ao fracasso recorrente pois ele se choca contra a vontade de milhões. E uma vontade coletiva, aliás, cada dia mais tenaz e organizada, cada dia mais triunfante e de cabeça erguida, cada dia reivindicando mais alto, nas ruas, um outro mundo possível. E onde haja mais luz verde!

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“A música triunfa sobre a confusão babilônica das línguas…” (Rüdiger Safranski)

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“…a música pode ser vista como uma força que triunfa sobre a confusão babilônica das línguas. A ideia ligada a isso – de que a música estaria mais próxima do ser do que qualquer outro produto da nossa consciência – é muito antiga. Ela está na base dos ensinamentos órficos e pitagóricos. Guiou Kepler quando ele calculou a órbita dos planetas. A música era considerada a linguagem do cosmo… e em Schopenhauer ela aparece como expressão imediata do desejo do mundo. 

Quem se senta no metrô ou faz cooper num parque usando fones de ouvido vive em dois mundos. Ele viaja ou corre apolineamente, enquanto ouve dionisiacamente. A música sociabilizou a transcendência e a tornou um esporte de massas. As discotecas e salas de concerto são as catedrais atuais. Uma parte significativa da humanidade entre 13 e 30 anos vive hoje nos espaços dionisíacos do rock e da música pop que são fora da linguagem e anteriores à lógica. As correntes musicais não conhecem fronteiras… A música forma novas comunidades e transporta para um outro estado. Ela abre as portas para uma nova existência. O espaço audível consegue isolar o indivíduo e fazer com que o mundo exterior desapareça, e mesmo assim a música, num outro nível, faz com que aqueles que escutam se agrupem. Eles podem ser mônadas sem janelas, mas não mais estão sozinhos quando ouvem a mesma coisa. A música, numa camada da consciência que antigamente era chamada de ‘mística’, torna possível uma consciência social profunda.

Percebe-se em Nietzsche toda a indignação de uma pessoa que deseja ver a arte, especialmente a música, no coração do mundo; de alguém que encontra seu verdadeiro ser ‘sob o encanto da arte’ e que por isso luta contra a postura segundo a qual a arte é uma coisa secundária…Essa indignação em relação aos burgueses violadores do templo da arte – Nietzsche os chama de ‘filisteus’ – é também um tema constante dos autores românticos. (…) O sentimento dionisíaco é visto por Nietzsche como um poder vital mítico… uma espécie de união ébria com a substância do mundo… Na concepção de autores como Schlegel e Nietzsche, energias dionisíacas atuam na arte; elas não estão direcionadas para um além brilhante, e sim para o claro-escuro do processo vital, grandioso e dinâmico…”

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RÜDIGER SAFRANSKI

Filósofo e historiador da arte

Nascido em Berlim, 1945

Biógrafo de Nietzsche, Heidegger e Schopenhauer

Trecho extraído de “Romantismo: Uma Questão Alemã”

(Ed. Estação Liberdade. Trad. Rita Rios. 2010. Pgs. 260-161 e 257-258.)


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“PAIS E FILHOS”, de Ivan Turguêniev [1818-1883] (Ed. Cosac & Naify, 2ª Edição, 2011, 361 pgs)

 

“O lugarzinho estreito que ocupo é tão minúsculo em comparação com o espaço onde eu não estou e onde as coisas não me dizem respeito; e a parcela de tempo que me foi dada para viver é tão ínfima ao lado da eternidade, onde não estive e nunca estarei… Mas neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha, também ele quer alguma coisa… Mas que vergonha! Que disparate!” – BAZÁROV (pg. 195)

pais e filhos

Pais e Filhos vem ao mundo numa época em que “uma Rússia morria e outra Rússia nascia” – como diz a matéria da revista Bravo!. O fim da servidão, em 1861, foi um histórico divisor de águas; no mesmo ano, é criado o movimento Terra e Liberdade, “a primeira de uma série de organizações políticas secretas empenhadas em ações violentas contra autoridades e instituições oficiais” (como relata Figueiredo no prefácio da obra). Iniciava-se uma era turbulenta, repleta de atentados violentos contra o ancien régime, que culminaria, em 1881, com o assassinato do tsar Alexandre II. 

“A polêmica que se seguiu à publicação de Pais e Filhos foi a maior de que se tem notícia na literatura russa”, relata o tradutor Rubens Figueiredo, que verteu o livro para o português direto do russo. “O termo ‘niilista’, usado por Turguêniev para definir seu herói Bazárov, popularizou-se instantaneamente e, como que de propósito, uma sucessão de incêndios criminosos de cunho sabidamente político agitou São Petersburgo. Quando Turguêniev, vindo da Europa, onde sempre passava a maior parte do ano, chegou à capital, ouviu na rua a acusação de um homem indignado: ‘Olhe só o que os seus niilistas estão fazendo: estão pondo São Petersburgo em chamas!’ Turguêniev, homem de índole pacífica e cordial, fora apanhado no meio de um turbilhão…”.

A leitura do romance torna evidente que seu autor não está elogiando, endossando ou recomendando as atitudes niilizadoras de seu protagonista; em outras palavras, Turguêniev está longe de ser ele mesmo um niilista e nada seria mais equívoco do que imputar ao autor uma visão-de-mundo idêntica a de seu personagem. Neste livro, dedicado à memória de Biélinski, elogiado por Herzen e Dostoiévski, Turguêniev  “manifesta contínuo esforço de imparcialidade” (pg. 8) e sua postura fica “longe de qualquer pendor panfletário ou mesmo polêmico” (pg. 14), afirma com propriedade o Rubens Figueiredo. Se Pais e Filhos gerou um bafáfá danado, parece-me que foi a despeito das intenções do artista, que jamais quis inspirar radicais violentos a pôr a Rússia “em chamas” – de modo similar a Goethe, que tampouco desejou, com seu Werther, desencadear na Alemanha uma série de suicídios.

Como Figueiredo destaca com acerto, “a singularidade e a audácia do livro consistiram em investigar, em termos literários, um quadro social novo e potencialmente explosivo no exato instante em que nascia… Turguêniev tinha de caminhar enquanto o solo se deslocava rapidamente sob seus pés.” (pg. 8) A matéria da Bravo! também enfatiza que “o efeito do romance foi o de uma cortina que se abre e deita luz sobre uma cena a desenvolver-se na penumbra.” Esta realidade penumbrosa, ainda inexplorada na literatura até então, este monstro nascente, não é outro senão diagnosticado também por Nietzsche, que foi contemporâneo da eclosão de incendiárias manifestações da niilina russa. 

Segundo Nietzsche, a Europa do século XIX foi invadida por um “hóspede sinistro”: o niilismo. No âmbito da filosofia nietzschiana, este termo se refere àqueles que negam todo valor à existência (a própria, a dos outros e a do mundo), que são incapazes de afirmar a realidade terrena e amar o destino. Para Nietzsche, são niilistas tanto os crentes em um Deus único e transcendente, que concluem de sua fé que devem negar o pecaminoso e corrupto mundo da carne e dos sentidos, quanto aqueles que, como Schopenhauer e os budistas, convidam à negação da vontade ou à extirpação do desejo, baseados na ideia de que o querer é a fonte de todo o sofrer. Contra a disseminação epidêmica destas doutrinas impregnadas de niilina, Nietzsche pôs em ação todo seu ardor intelectual e poder criativo, tendo se tornado talvez o maior dos mestres para aqueles que desejam superar o niilismo, vê-lo abaixo de si…

O livro de Turguêniev celebrizou-se como a primeira obra literária a protagonizar um auto-declarado “niilista”, o médico e estudioso das ciência naturais Bazárov. Na primeira ocorrência do termo no romance, o “niilista” é descrito por Arkádi, o camarada e companheiro de peripécias de Bazárov, como alguém que “considera tudo de um ponto de vista crítico” (pg. 48). Mas nem todo cri-cri é um niilista, claro: muitos críticos são afirmadores de mundivisões, valores e mitos distintos daqueles que se empenham em criticar (o próprio Nietzsche é um excelente exemplo!). Na sequência, Arkádi adiciona outros traços ao retrato de seu amigo: “O niilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.” (pg. 48)

Definição interessante, mas que também caberia a um anarquista ou um punk. E, ao contrário do que julga o senso-comum, estes não são necessariamente niilistas: anarquistas como Kropotkin ou Emma Goldman podem negar com veemência a autoridade do Estado, criticar com insolência o sistema capitalista, criticar severamente a apropriação privada dos frutos do trabalho das massas, mas por outro lado afirmam com ardor valores de solidariedade, fraternidade e igualitarismo, engajam-se na construção de um mundo liberto de autoridades espúrias, exploradoras e parasitas.  “Niilista” e “anarquista”, pois, não são termos sinônimos. Além do mais, a definição de Arkádi, citada no parágrafo anterior, também conviria perfeitamente à figura do cético ou do cínico, aqueles que recusam qualquer tipo de sacralidade dos dogmas e doutrinas, que rejeitam todos os argumentos de autoridade… A essência do “niilismo bazároviano” deve ser buscado mais fundo, pois.

Em uma das cenas mais notáveis do romance, Bazárov dialoga com Ana e lhe confessa ser completamente desprovido de “sentido artístico” (“de fato não existe em mim tal coisa…”). Diante de fotografias de paisagens suíças, ele permanece afetivamente indiferente, incapaz de enxergar qualquer beleza. “Essas paisagens poderiam me interessar do ponto de vista geológico, por exemplo, do ponto de vista da formação das montanhas…” (pg. 133). Esta frieza é uma marca do caráter de Bazárov, que não tem um pingo de gosto pela poesia, pela música ou pela contemplação da Natureza: tudo isso não parece encontrar eco em sua sensibilidade, como se esta estivesse congelada por uma nevasca. O próprio Turguêniev dirá, em suas Reminiscências, que partilha muitas das ideias de seu personagem, que admira em sua criatura o fato de Bazárov ser “soberanamente alheio a tudo que é trivial, vulgar e falso”, mas que não compartilha com ele este vigoroso desdém pela arte e pela beleza.

 Isto se manifesta de modo explícito nas relações humanas de Bazárov, que age quase sempre com rudeza, insolência, falta de gentileza. Ele é  arredio a todo tipo de sentimentalismo e sempre deseja de se livrar do “registro afetivo” sempre que este se manifesta. Ao contrário de um anarquista ou de um punk, por exemplo, Bazárov é um sujeito que não se vincula, que não se une, que permanece ilhado numa solidão anti-social obstinada. O leitor o acompanha em sua marcha niilizadora em que ele aniquila, uma após outras, todas as oportunidades de consumar amores e de amizades.

O romance de Turguêniev, pois, tem acentos trágicos: não descreve um homem afetuoso, bem-sucedido, triunfante, mas alguém que tem a vida desgraçada por seu comportamento sempre niilizador das opiniões e comportamentos do meio social que o rodeia. Ele não suporta nem os mujiques nem os “senhores feudais”; não tem respeito algum seja pelo tsar, seja pelo povo, seja por si mesmo. É bem verdade que esta disposição de espírito misantrópica acaba gerando, vez ou outra, comentários irônicos mordazes que lembram a língua ferina e impiedosa de autores como Heine, Chamfort ou Sade. Mas se vez ou outra Bazárov aparece aos olhos do leitor como espirituoso e inteligente, esta simpatia dificilmente se mantêm nos momentos em que ele que se torna mais bélico – como na cena do duelo de pistolas contra seu desafeto Pável… – ou quando ele se mostra incapaz de tratar uma mulher linda e interessante (como Ana) com o devido carinho e amorosidade.

Vejam, por exemplo, o que ele diz à Ana em um dos primeiros diálogos dos dois:

“- Garanto à senhora que estudar as personalidades individualmente não vale a pena. Todas as pessoas se parecem no corpo e também na alma; todos temos cérebro, baço, coração, pulmões, tudo igualmente constituído; assim também as chamadas qualidades morais são exatamente iguais em todos: pequenas alterações nada significam. Basta um exemplar humano para julgar todos os demais. Pessoas são como árvores na floresta; botânico algum se daria ao trabalho de estudar cada bétula isoladamente…” (pg. 134)

Terrível equívoco, diante de uma mulher com quem o amor é possível, promulgar orgulhosamente, do alto de um púlpito, este discurso niilizador da diferença, que reduz o outro a ser igual a qualquer um! Não surpreenderá a nenhum leitor, pois, que a vida amorosa de Bazárov seja tão insatisfatória: ele explicitamente não valoriza o amor (ele não chega ,es,p a xingar o “romantismo” por não ser nada além de “espalhar açúcar sobre as coisas”?). De modo que fecha as portas a todas as possibilidades de vínculos jubilativos e alegradores da existência. “Bazárov era um grande apreciador das mulheres e da beleza feminina”, escreve Turguêniev, “mas considerava o amor, no sentido ideal ou, conforme ele dizia, romântico, um disparate, uma insensatez imperdoável… ‘Se uma mulher lhe agrada’, dizia ele, ‘tente tirar algum proveito; se não for possível, bem, não importa, dê as costas para ela e pé na estrada: o mundo é grande’…” (pg. 146).

Como se surpreender com o desenlace infeliz da relação entre Bazárov e Ana? Nosso niilista, ao negar qualquer valor a si mesmo, ao tripudiar sobre a auto-estima como se fosse seu dever tratar a si mesmo como um trapo, parece acarretar em sua vida o afastamento dos outros, que descobrem logo que serão pouco ou nada valorizados por alguém que não se valoriza. “Não vale a pena sentir saudades das pessoas, de um modo geral, e de mim, menos ainda…” (pg. 150) – declara Bazárov a Ana.

Os momentos mais comoventes do romance, segundo o meu gosto, são estes em que Turguêniev narra o modo como este vínculo amoroso fracassa. Ana não consegue evitar a sensação de que Bazaróv “a conhece pouco, apesar de crer que todas as pessoas se parecem e que não vale a pena estudá-las individualmente” (pg. 152). Aliás, não seria um sintoma da falta de conhecimento real dos outros esta crença bazaróviana que desdenha das particularidades e que não enxerga ninguém como único? Destaco um diálogo magistral de Ana e Bazárov onde ela força uma conversação sobre o tema da felicidade, sobre a qual nosso niilista conhece tão pouco:

“- Falávamos sobre a felicidade…. Diga-me por que, mesmo quando experimentamos um prazer, por exemplo, com uma música, com uma noite agradável, com uma conversa entre pessoas simpáticas, por que tudo isso parece antes uma alusão a alguma felicidade ilimitada, que existe não se sabe onde, do que uma felicidade real, ou seja, aquela que nós mesmos desfrutamos? Por que é assim? Ou, quem sabe, o senhor não sente nada de parecido?

– A senhora – respondeu-lhe Bazárov – conhece o provérbio: ‘Lugar bom é onde não estamos’…” (pg. 160)

Como seu próprio título já anuncia, Pais e Filhos é também um livro em que Turguêniev explora o tema do conflito entre as gerações. Escrito numa época (entre 1860 e 1862) em que a Rússia começava a se sublevar contra a tirania ancestral do tsarismo, em que a servidão dos camponeses começava a ser questionada e novas formações sociais emergiam, nota-se uma diferença radical entre pais e filhos – explorada no romance através da relação entre o filho Bazárov e seus ímpetos niilistas, de um lado, e seus velhos pais, devotos e tradicionalistas, de outro.

Apesar de dedicar-se ao estudo das ciências naturais e ser praticante da medicina, Bazárov é um sujeito baudelaireano que sofre terrivelmente com o spleen, tédio de viver, a sensaboria de estar-no-mundo e sentir-se insignificante no espaço e no tempo. Sua fala citada na epígrafe é um dos exemplo deste estado de espírito. A certo momento, confessa a seu amigo Arkádi: “Meus pais vivem atarefados e não se incomodam com a própria nulidade, não sentem esse mau cheiro… enquanto eu… sinto apenas enfado e raiva.” (pg. 196)

Bazárov visita raramente seus pais, e quando vai vê-los não permanece por muito tempo; além do mais, quando visita-os, exige que seja respeitada sua “reserva afetiva”: que não lhe incomodem com mimos e carinhos excessivos, que tenha o direito de permanecer só!  Seu pai assim descreve seu rebento: “É inimigo de qualquer expansão de afeto; muitos até o condenam por essa dureza do seu caráter e veem nisso um sinal de orgulho ou de insensibilidade; mas não se pode medir pessoas como ele com o metro comum, não é verdade? Outro, em seu lugar, não deixaria de tirar dos pais todo o dinheiro que pudesse; mas, de nós, acredite-me, ele nunca tomou um copeque além do necessário…” (p. 192).

De fato, Bazárov também é um homem de vida frugal, que não aprecia o luxo, inimigo de uma sociedade hierarquizada e rachada em castas. Uma frase me parece sintetizar bem a personalidade de Bazárov: “ele não gostava dessa pontualidade cadenciada e um pouco solene na vida diária; ‘como rodar sobre trilhos’, sentenciava ele; lacaios de libré e mordomos cerimoniosos insultavam o seu sentimento democrático…” (pg. 144). Ele não pode suportar a vida bem-regrada dos pais, que lhe enche de tédio, mas ao mesmo tempo não consegue se desvincular de fato de seu meio social de origem: uma estranha atração faz com que ele retorne ao seio familiar como um bumerangue. 

Incapaz de apreciar uma vida bem-regrada, com um cotidiano fixo de ações previamente mapeadas, ele deseja lançar-se “para fora dos trilhos” da comodidade e do conforto… “O lado elegante da vida me é inacessível”, confessa à Ana. Mas o curioso é que também este desejo permanece irrealizado e, longe de aventurar-se em peripécias quixotescas ou embarcar em viagens cheias de perigo, Bazárov aferra-se a estes meios sociais que considera tediosos e banais: grande parte do romance narra o modo pouquíssimo aventureiro com que Bazárov, acompanhado por seu escudeiro Arcádin, fica pulando de casa em casa, em visitas aos parentes (os seus e os de seu amigo).

Além do mais, não consegue se libertar de um ideário viril em que crê que “o homem deve ser feroz”, de modo que considera a companhia feminina como um rebaixamento ou uma fraqueza. Além disso, não há nenhum tipo de engajamento político do personagem no romance: Bazárov é um niilista isolacionista, que não luta por nenhum mundo melhor, nem mesmo através das bombas e atentados destinados a “limpar o terreno”. O que torna surpreende os efeitos imputados ao livro de ter influenciado os incendiários terroristas de São Peterbursgo!

Bazárov é de fato um personagem memorável: fechamos o livro com a sensação de que conhecemos uma pessoa que não iremos esquecer mais, apesar de seus equívocos, fraquezas, desventuras. Ele não é um modelo de conduta, um paradigma de virtude, nada se assemelha a um herói ou a um santo; é humano, demasiado humano, e sua vida é narrada por Turguêniev sem idealizações, com a inclusão de seus infortúnios e tragédias.

 Ademais, para os estudiosos de Nietzsche, esta não deixa de ser uma experiência estética altamente válida, não só por oferecer um exemplo literário de niilista encarnado, mas também para mostrar que o niilismo não é uno: há vários modos de ser niilista, sendo Bazárov um tipo particular de existência niilizadora. O que Bazárov nega, sobretudo, além de uma sociedade revoltante e de autoridades indignas de respeito, é a possibilidade humana de vínculo e de transformação. A impressão indelével que me fica é a de que Bazárov só é um niilista consumado pois é um descrente no amor.

A leitura do romance de Turguêniev foi iluminadora, pois, para refletir mais a fundo sobre este tema tão importante para a filosofia dos últimos séculos, em especial no âmbito do nietzschianismo, do niilismo. Decerto que, em Nietzsche, há um vínculo entre niilismo e metafísica – o que Turguêniev não explora. Compreendo o niilismo, segundo Nietzsche, como uma orgia de negação que acomete os espíritos que se desiludem das miragens metafísicas: quando se perde a crença em Deus, ou na bondade da Natureza, ou no final feliz da História, e ainda não se encontrou nenhum substituto para estes ídolos caídos, o sujeito tende a mergulhar numa náusea existencial de completa negatividade.

Os valores metafísicos, as verdades absolutas, os finais-felizes redentores, tudo isso, quando se esboroa no universo interior, quando deixa de ser crível, gera este estado afetivo niilizador em que o sujeito, nostálgico do absoluto, não consegue suportar a relatividade do real, a efemeridade da vida, os antagonismos que povoam a Terra. Para Nietzsche, ademais, o próprio pensamento religioso ou metafísico possui um elemento profundamente niilista na medida em que postula uma dimensão transcendente, morada do Bem e da Verdade, o que acarreta a depreciação da imanência. Em termos mais simples: niilista é aquele que não dá valor nenhum ao aqui-agora (a imanência…) pois só consegue valorizar o alhures (a transcendência).

Depois de aniquilada a crença numa transcendência redentora (Paraíso, Reino de Deus, Imortalidade da Alma, Utopia Realizada…), resta ao homem um novo desafio: o de aprender a amar o real. O niilista é aquele que se mostra incapaz deste amor fati; é o homem que insiste em recusar valor ao que existe; aquele que, diante de tudo, diz “tanto faz” e “tudo dá no mesmo…”. Descrente de tudo, cultuador da indiferença, com fixação mórbida por Tânatos, incapaz de ação criadora, transformadora e colaborativa, congela seus afetos e sua criatividade, sua capacidade de vínculo e sua aptidão para o êxtase, prostrando-se em devoção preguiçosa no altar do Nada.

Como antídotos à esse sinistro hóspede, a obra de Nietzsche fornece muitas sugestões: remeto brevemente à figura de Zaratustra, o anti-niilista por excelência, discípulo de Dionísio, dançarino ornado com sua coroa de flores, santificador do riso, mais sátiro que santo, que está nas antípodas do niilismo. Ou seja, Zaratustra é alguém em quem o poder afirmativo atingiu tal ardor que a existência é jubilosamente celebrada, com tudo o que ela inclui de problemático e terrível, com um “sim!” veemente e incondicional.

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