Os Relâmpagos da Fatalidade: Reflexões Sobre o Trágico a Partir de Nietzsche & Shakespeare

“Ofélia” – John Everett Millais (1828-1896)

Caros leitores desta goma vítrea,

Segue abaixo um artigo que escrevi na tentativa de ilustrar as reflexões nietzschianas sobre a Tragédia com o auxílio das desgraceiras geniais presentes na obra shakespeareana. Eis um estudo dedicado a todos os inocentes que não escaparam que lhes caísse na cabeça um raio; a todos os que morreram em terremotos e tsunamis; a todas as vítimas de tiranias, e que nada fizeram para merecer uma existência desgraçada… É uma reflexão sobre todo o sofrimento, neste mundo, que não se explica por uma culpa prévia nem é justificável por qualquer raciocínio razoável. Chestóv me convenceu de que o trágico só está nos livros pois faz parte da vida e é parte integrante da história. Este trabalho foi apresentado na XIX Semana de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás), em maio de 2012, na mesa sobre Estética/Filosofia da Arte, e deve muito ao inspirador curso sobre o trágico do Prof. Adriano Correia. Para ler com mais facilidade, sugiro dar um pulo lá no Scribd.

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A Libertação da Pluralidade: Nietzsche por Gianni Vattimo

“Nietzsche é um pensador decisivo para o nosso presente
e ainda repleto de futuro.”

Gianni Vattimo
,
Diálogo Com Nietzsche
 (Ed. Martins Fontes, 2010)

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INEXAURÍVEL MINA DE DINAMIETZCHE

 A radicalidade, a iconoclastia e a rebeldia do pensamento de Nietzsche talvez expliquem seu status de perpétuo outsider da Civilização Ocidental: ele prossegue uma figura maldita, sempre reprimida e reduzida ao silêncio pelos defensores da religião e da moral, mas cuja obra poderosa e inquietante resiste e persiste, inspirando todos aqueles que concordam com este sinistro diagnóstico: “o homem como existiu até agora tem em si todos os defeitos e as neuroses de um cachorro envelhecido na corrente” (Vattimo: 2010, pg. 236). Se Nietzsche ainda está tão vivo e prossegue “repleto de futuro”, como diz Vattimo, é pois existe nele um apelo intenso à libertação e muitas pistas que indicam o caminho para ela.

 “A totalidade desse pensamento”, aponta Vattimo, “entra em choque com nossos modos de pensar mais arraigados, questionando-os violentamente” (pg. 50) O que explica a impressionante repercussão do pensamento de Nietzsche, que ecoou por todo o século 20 e prossegue seu trabalho de dinamite em nosso jovem século 21, além do talento literário exorbitante de Nietzsche como escritor, talvez seja a imensa força libertária desta filosofia. Ela seduz todos os que querem romper as cadeias psíquicas, quebrar os feitiços da submissão, libertar-se de mistificações mentirosas, despertar de todas as farsas culturais, ideológicas, religiosas ou políticas que foram e continuam sendo inculcadas nos humanos rebanhos.

 Foi ele, Nietzsche, quem “exercitou mais do que qualquer outro pensador moderno a desmitificação” (p. 64), alega Vattimo, apontando que há, neste sentido, uma afinidade entre o nietzschianismo e “duas linhas de pensamento de nossa época: o marxismo e a psicanálise”. “O que aproxima esses fenômenos, para além das muitas diferenças, é a vontade desmitificante que os domina.” (p. 112)

 Mas Vattimo adiciona uma ressalva importante: Nietzsche não somente quer expor as mentiras mitificadoras, mostrando “a verdadeira face que se esconde atrás de sua máscara” (pg. 64). Acreditar em uma Verdade que se esconderia por detrás das mitificações: eis algo que Nietzsche problematiza, questiona e põe em dúvida. A ponto de Vattimo dizer que “o mito que Nietzsche mais intensamente se dedicou a destruir é precisamente a crença na verdade.” (p. 115) Para compreender o que isso quer dizer, creio que é preciso relembrar da batalha feroz que Nietzsche empreende contra seu inimigo maior: a filosofia socrática/platônica e o cristianismo que nela baseou-se (este não passaria, vocês se lembram bem, de “platonismo para o povo”).

 Por causa de seu rompimento radical com a tradição platônica-cristã, Nietzsche não acredita mais na contraposição ou no contraste entre um Mundo Sensível (que é tido como meramente aparente, ilusório, insubstancial…) e um Mundo Verdadeiro (onde residiriam as “coisas em si”, as ideias eternas, tudo aquilo que goza da imortalidade negada aos fenômenos…).

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CRISTIANISMO: UMA FORMA DE NIILISMO

Se Nietzsche tanto critica a “decadência” da humanidade, é pois está sempre imbuído de uma intensa nostalgia pela Grécia gloriosa dos pré-socráticos, dos trágicos, dos líricos. A Civilização Cristã, em comparação com a Grécia, parece-lhe medíocre, doente, neurótica. Eis uma longuíssima ladeira abaixo, portanto, esta que estivemos descendo por uns 2.000 mil anos, à sombra da cruz e seguindo ovelhisticamente o cajado ascético dos pastores!

“Decadência, para Nietzsche, é a ciência que se desenvolve a partir do racionalismo socrático, e que se harmoniza perfeitamente com a moral cristã, para a qual o mundo real com que temos de lidar todos os dias é apenas provisório e aparente (como eram as coisas sensíveis para Platão, apenas imagens das ideias eternas), e tem sua autêntica verdade no mundo do além, prometido aos fiéis após a morte. A decadência da civilização europeia é um efeito da atitude ascética imposta tanto pelo racionalismo socrático-platônico quanto pelo cristianismo…” (304)

Nietzsche é ao mesmo tempo inimigo do niilismo e do cristianismo. Não é à toa: o cristianismo é justamente uma das formas do niilismo, uma doutrina que desvaloriza o mundo real, que calunia a natureza, que lança o valor para um “outro mundo” de conto-de-fadas. Vattimo: “Cristianismo, moral e metafísica são os componentes essenciais do niilismo; e eles são dominados pelo instinto da vingança.” (p. 35) Como aprende-se na Genealogia da Moral, o cristianismo é uma religião nascida do ressentimento dos escravos que, pisoteados pelo Império Romano, inventaram em sua impotência uma doutrina que lhes garante a vitória sobre os opressores. Estes oprimidos e desvalidos que, na origem, inventam e disseminam o cristianismo, ao mesmo tempo “criam uma tábua de imperativos em que dominam as virtudes do rebanho e da passividade.” (p. 37) Blessed are the meek. O nietzschianismo em uma pílula: “Os falsos caminhos que o homem do passado tomou para elevar-se acima de si mesmo são todos fundados na oposição de um mundo eterno ao mundo do devir. (…) Mas a fé na transcendência impede uma plena reconciliação com o mundo como ele é.” (p. 317)

 A morte de Deus, ou a perda da fé, não equivale a uma perda real: perde-se um fantasma, mas ganha-se com isso um aumento da responsabilidade humana. Deixar de crer em Deus, portanto, é uma libertação para a plena tomada do leme da barcola da vida em nossas próprias mãos:toda responsabilidade recai sobre nós. A morte de Deus, que Zaratustra anuncia, não é outra coisa que o fim das garantias de que o homem da metafísica tradicional se rodeara para se livrar da responsabilidade plena por seus atos. O homem novo que Nietzsche projeta e para o qual quer preparar o caminho com seu pensamento é o homem capaz de assumir plenamente suas próprias responsabilidades.” (p. 69)

 Compreende-se melhor, pois, que Nietzsche tenha tentado demolir também a crença na Verdade, ou seja, numa Verdade que está em Outro Mundo, ou em Deus, ou que fosse algum fundamento metafísico para os valores. Sobre este assunto, Vattimo explica:

 “O sujeito pensante que sai em busca dos ‘verdadeiros’ fundamentos dos valores em que se baseia nossa civilização, e em geral de tudo o que de humano e de digno existe no mundo, descobre ao final que até mesmo seu impulso para a verdade, sua fé na existência de uma verdade como fundo estável e certo, é ainda, por sua vez, mentira, produto cultural, meio para prolongar a grande festa teatral da existência. (…) A crítica da ideologia realizada apenas do ponto de vista da busca de uma verdade mais fundamental para apoiar os pés sempre levou, até agora, à reconstituição de castas mais ou menos sacerdotais: comitês centrais, sociedades de psicanalistas ‘autorizados’, mestres de vida e gurus de todos os tipos.” (p. 278-280)

 NIETZSCHE NÃO É SÓ DINAMITE…

 Qualquer um que se aventure a ler Nietzsche a fundo logo percebe: este iconoclasta e desmitificador, que dizia filosofar a golpes de martelo e ser menos um homem do que uma banana de dinamite, não é somente um destruidor. Ele não quer reduzir tudo a escombros e nada mais: “a desmitificação é um aspecto vinculado necessariamente à criação de novos mitos” (66). A ambição de Nietzsche não é somente lançar por terra e reduzir a pó a mitologia judaico-cristã, mas sugerir ideais alternativos, estilos-de-vida que ele julga mais dignos do futuro da humanidade do que a ancestral adoração do Crucificado. Por que não adoraríamos Dionísio ao invés de Cristo?

 Na obra de Nietzsche, portanto, mesclam-se as diatribes de um misantropo, que dá vazão a todo o seu fel e amargor contra seus medíocres contemporâneos, e as profecias poéticas de um messias de tempos novos. Diz Zaratustra (II: “Da Redenção”): “O presente e o passado aqui embaixo, meus amigos, me são insuportáveis, e eu não seria capaz de viver se não fosse um adivinho do que está por vir.” Em outro momento (III: “Do Grande Anelo”): “quem conhece como tu a volúpia das coisas por vir? Despojei-te da obediência, das genuflexões, das senilidades…”. Resta perguntar se não é possível estar de joelhos diante do futuro, obediente ao ideal dos amanhãs cantantes, e se o porvir glorioso não faz às vezes de um ópio substitutivo para aqueles que descriram dos ópios comuns…

 O Übbermensch – Super-Homem ou Além-do-Homem – é este mito novo que Nietzsche sugere como substituto para o antigo. Vattimo recomenda que convêm “não exorcizar sua carga subversiva reduzindo-o à proporção de um mito literário” (172): mais que um mero personagem literário ou ficção poética, o Além-do-Homem nietzschiano é uma sugestão de uma nova via para a humanidade:

“o super-homem de Nietzsche deve ser entendido como o anúncio de uma humanidade essencialmente diferente daquela que conhecemos e vivemos até agora; o super-homem é o homem capaz de não experimentar mais o valor como objeto separado, encarnando-o, ao contrário, totalmente na própria existência. (…) A esse enfoque se ligam outros temas interpretativos, como o da recuperação do homem total contra a fragmentação (e a divisão do trabalho), que mais diretamente sublinham a proximidade do super-homem nietzschiano com o projeto revolucionário marxista” (p. 166).

Aí se encontra uma das originalidades maiores da leitura de Vattimo: ele discorda veementemente de todas as apropriações nazi-fascistas da obra de Nietzsche e, como bom comunistão, chama Nietzsche para o time dos pensadores revolucionários, com os quais o proletariado teria muito a aprender em sua jornada rumo à libertação. Na opinião de Vattimo, encontra-se em Nietzsche “um projeto humano alternativo que, por ser mais atento às dimensões individuais, psicológicas e pulsionais da existência, pode oferecer ao movimento revolucionário do proletariado indicações válidas para a busca dos conteúdos morais alternativos que ele, por razões históricas e pelas próprias condições de exploração e de opressão, não foi capaz de elaborar.” (173)


O MUNDO DO ALÉM-DO-HOMEM É O MUNDO DA PLURALIDADE LIBERTA

Não parece despropositado nem absurdo à Vattimo falar em uma sabedoria nietzschiana. “Imaginamos espontaneamente o sábio como um velho, que no rosto encovado e nas rugas, no olhar distante e no discurso lento e solene, mostra os sinais de muitas experiências que o modificaram, ensinando-lhe, quase sempre por meio do sofrimento dos fracassos e do esforço das realizações, o verdadeiro sentido da vida. O velho lema da tragédia grega, aprende sofrendo, parece indelevelmente impresso na imagem comum da sabedoria.” (228)

 Será que o fato de Nietzsche ter morrido relativamente jovem, ou seja, de não ter atingido esta “idade das rugas” de que fala Vattimo, é o que basta para que recusemos a ele, sem mais reflexão, a qualificação de sábio? Tendo vivido uma existência profundamente sofredora, e tendo se dedicado tão visceralmente a meditar sobre a vida no próprio epicentro do furacão, não será Nietzsche um dos exemplos supremos, na filosofia dos últimos séculos, deste homem trágico que aprende sofrendo? Não é nesta direção que vai também a interessantíssima análise de Nietzsche que empreende Léon Chestov?

 Vattimo parece defender ao menos a possibilidade de que haja sabedoria em Nietzsche, contra aqueles críticos que fazem do “enlouquecimento de Nietzsche um sinal da justa punição que espera quem deseja ir muito acima, além do bem e do mal, e pretende superar os limites humanos em nome do ideal do super-homem.” (229) Ou seja: o naufrágio na loucura não prova que Nietzsche fosse insensato, mas denota que, além das causas propriamente fisiológicas que o atacaram, havia nele uma “radical impossibilidade de pertencer ao mundo a que pertencemos.” (p. 51)

 Onde estaria, pois, esta “sabedoria” que Vattimo (e tantos outros leitores e intérpretes!) julgam encontrar em profusão na obra nietzschiana? Sabe-se dos veementes protestos de Nietzsche contra o que ele chamava de “resignacionismo”, uma das razões que teve para romper com seu mestre de juventude, Schopenhauer. O ideal de Nietzsche, pois, não poderia estar na mera adaptação resignada e fatalista ao mundo. Como diz Vattimo, “o super-homem é aquele que institui com o mundo uma relação que não é o puro e simples reconhecimento da realidade como ela é, e tampouco uma ação moral referente apenas ao sujeito, mas uma verdadeira relação de recriação do próprio mundo, redimido do acaso e da brutalidade do evento numa criação poética em que vigora uma nova necessidade.” (11)

 O ideal de vida nietzschiano, portanto, varre para longe aquilo que foi entronado como virtude pela tradição judaico-cristã, e mesmo por filósofos como Platão e Schopenhauer: a ascese ascética e a resignação fatalista. “No lugar da ascese, entra um temperamento bom, uma alma segura, branda e no fundo alegre, que não tem nada do tom de resmungo e teimosia – essas características notórias e desagradáveis de cães e homens velhos que ficaram muito tempo acorrentados.” (271)

 Como um dos mais importantes filósofos a terem empreendido uma vasta e radical “crítica da cultura”, Nietzsche nos legou um trabalho sobre tudo aquilo que “marca profundamente a psicologia individual do homem moderno. Uma das características do homem contemporâneo em que Nietzsche mais insiste é a incapacidade de sair do imediato, de desejar em relação com o eterno, a restrição do desejo à esfera egoísta dos pequenos interesses… Perdida a fé em uma ordem providencial e imerso no fluxo irrefreável das coisas, o homem vive sua vida psíquica segundo um tempo que musicalmente seria possível definir como prestíssimo…”

 Estamos em território familiar: o homem individualista, consumista, mesquinho, faminto de prazeres imediatos, que não conhece seu passado e não se preocupa com seu futuro, “tipo” de que nossas metrópoles ocidentais estão repletas, é justamente o “homem” que precisa ser superado: ir além dele já é caminhar sobre este fio sobre o abismo que conduz ao Além-do-Homem. Vattimo sabe, como Nietzsche também sabia, que as civilizações são mutantes, que a roda da História não pára e que não há nada de mais insensato do que apostar que o futuro será idêntico ao presente. Estamos numa época de acelerada mutação e mudança. E Nietzsche, filósofo autenticamente heraclitiano, é um guia essencial para nós que descemos a correnteza destes tempos.

 “A vida não tem mais a estabilidade que tinha nas sociedades de desenvolvimento lento que deixamos para trás. O caso extremo das novas possibilidades que a pesquisa recente abriu para a manipulação genética, que nos coloca diante do inusitado desafio de uma modificação dos “códigos” da vida, talvez seja apenas o exemplo mais emblemático da nova condição com que nossa arte de viver tem de lidar.” (p. 229)

 Vattimo refere-se a um processo de “efetiva pluralização dos mundos” decorrente do “fim do colonialismo” e do “encontro de culturas” (234). Se Nietzsche é um pensador ainda com tanto futuro, é também pois ele nos auxilia, em plena era da globalização e da Aldeia Global, a encontrar uma sabedoria no próprio seio do multi-culturalismo. “Trata-se de um ideal de vida e de sabedoria que acaba por indicar como meta do aperfeiçoamento moral um sujeito ‘plural’ capaz de viver a própria interpretação do mundo sem necessidade de acreditar que ela seja ‘verdadeira’ no sentido metafísico da palavra, no sentido de alicerçar-se em um fundamento certo e inabalável.” (p. 235)

 O “super-homem” seria, comenta Vattimo, dotado de uma “abertura fundamental para a pluralidade das interpretações” (238) e portanto estaria nos antípodas do “fundamentalista” dogmático:

 “O fundamento último que sempre justificou os mais impiedosos fanatismos da história da violência humana não é substituído pela vontade de um eu assumido como último e indiscutível absoluto”, aponta Vattimo, involuntariamente pontuando o abismo que separa Nietzsche, por exemplo, do Marquês de Sade – este, que alça as arbitrariedades do eu ao status de um absoluto tirânico. Para Nietzsche, o ideal seria um “eu que é um centro de hospitalidade e de escuta de vozes múltiplas, um mutável arco-íris de símbolos e chamados que está tão mais próximo do ideal quanto menos se deixa encerrar em uma forma dada de uma vez por todas.” (p. 239)

[por Eduardo Carli, Goiânia, Agosto ’12]

“…uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos…” (MARX & ENGELS, “Manifesto Comunista”)

ALAIN BADIOU
“A Hipótese Comunista”

Ed. Boitempo
Trad. Mariana Echalar

O que é decisivo, em 1º lugar, é manter a hipótese histórica de um mundo livre da lei do lucro e do interesse privado. Enquanto estivermos sujeitos, na ordem das representações intelectuais, à convicção de que não podemos acabar com isso, que essa é a lei do mundo, nenhuma política de emancipação será possível. (…) É exatamente isso que o mundo exige de nós hoje: aceitar a corrupção generalizada dos espíritos, sob o jugo da mercadoria e do dinheiro. Contra isso, a principal virtude política hoje é a coragem. Devemos ter convicção de que ter uma grande ideia não é nem ridículo nem criminoso. […] Hoje, pessoas demais acreditam que viver para elas mesmas, para seus próprios interesses, é inelutável. Devemos ter a coragem de nos distinguir dessas pessoas. (pg. 39-41)

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A crise planetária das finanças, tal como apresentada, parece um desses filmes porcarias inventados pela fábrica de sucessos pré-moldados que hoje se chama “cinema”. (…) Em toda parte, o mesmo incêndio nos mesmos bancos… tudo desmorona, tudo vai desmoronar… Mas ainda há uma esperança: na frente do palco, assustados e consternados como num filme catástrofe, o pequeno esquadrão de poderosos, os bombeiros do incêndio monetário, injetam no Buraco Central milhares de milhões. Mais tarde, todos se perguntarão (isso é para futuras novelas) de onde saiu todo esse dinheiro, já que, ao menor pedido dos pobres, eles reviram os bolsos e respondem há anos que não têm um tostão furado.

“SALVAR OS BANCOS!” – esse nobre brado humanista e democrático brota de todos os peitos políticos e midiáticos. Números astronômicos – “1.400 bilhões de euros…” – são injetados por governos para resgatar os banqueiros. Os espectadores desse show, a multidão atordoada que, vagamente preocupada, compreendendo pouca coisa, totalmente desconectada de qualquer engajamento ativo nessas circunstâncias, entende como uma algazarra distante o grito dos bancos em situação desesperada. Vê passar os números astronômicos e obscuros, e mecanicamente os compara a seus próprios recursos – ou, no caso de parte considerável da humanidade, à pura e simples falta de recursos que é o fundo amargo e corajoso de sua vida.

O capitalismo financeiro é – desde sempre, o que nesse caso quer dizer cinco séculos – uma peça constitutiva, central, do capitalismo em geral. (…) O capitalismo é apenas banditismo, irracional em sua essência e devastador em seu devir. Sempre nos fez pagar umas poucas décadas de prosperidade ferozmente desigualitária com crises em que quantidades astronômicas de dinheiro desaparecem, com expedições punitivas sangrentas em todas as zonas que ele considera estratégicas ou ameaçadoras e com guerras mundiais com que ele refaz as energias.

Ainda ousam nos gabar um sistema que remete a organização da vida coletiva às pulsões mais baixas, à ganância, à rivalidade, ao egoísmo mecânico? Querem que elogiemos uma “democracia” em que os dirigentes são impunemente os empregados da apropriação financeira privada que surpreenderiam até mesmo Marx, que há 160 anos já chamava os governos de “fundos de poder do capital”? Querem a todo custo que o cidadão comum “compreenda” que é impossível tapar o buraco da Previdência, mas que eles devem tapar o buraco dos bancos sem contar os bilhões?

De onde vem toda essa fantasmagoria financeira? Simplesmente do fato de que venderam à força, acenando com créditos milagrosos, casas encantadoras a pessoas que não tinham absolutamente nenhum recurso para comprá-las. Em seguida, venderam promessas de reembolso a essas mesmas pessoas… Bastou que o mercado imobiliário mudasse, e os credores querendo mais, os compradores conseguissem cada vez menos pagar suas dívidas. À primeira vista, o jogo empatou: o especulador perdeu a aposta e os compradores perderam suas casas, das quais foram gentilmente expulsos. Contudo, como sempre, o real desse empate está do lado do coletivo, da vida do dia a dia: tudo procede do fato de que existem milhões de pessoas cujo salário, ou ausência de salário, faz com que elas não tenham mais onde morar. A essência real da crise financeira é uma crise de moradia. E aqueles que não tem mais onde morar não são os banqueiros… ( pg. 57-58)

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É preciso derrubar o velho veredito que diz que chegamos ao “fim das ideologias”. Ao espetáculo pernicioso do capitalismo, opomos o real dos povos. A razão para a emancipação da humanidade não perdeu sua força. A palavra “comunismo”, que durante muito tempo deu nome a essa força, foi aviltada e prostituída. Mas hoje seu desaparecimento serve apenas aos detentores da ordem, aos atores febris do filme catástrofe. Vamos ressuscitá-la em sua nova clareza. Que é também sua antiga virtude, quando Marx diz que o comunismo é a ruptura, “do modo mais radical, com as ideais tradicionais” e faz surgir “uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos” (MARX & ENGELS, Manifesto Comunista, Boitempo, 1999, p. 57 e 59)

O comunismo: uma promessa de emancipação universal que se sustenta em três séculos de filosofia crítica, internacionalista e laica, empenha os recursos da ciência e mobiliza, em pleno coração das metrópoles industriais, tanto o entusiasmo dos operários quanto o dos intelectuais.

Aliás, os genocídios e matanças coloniais, os milhões de mortos das guerras civis e mundiais pelos quais nosso Ocidente forjou seu poder, não poderiam muito bem desqualificar os regimes parlamentares da Europa e da América, eles, que só vaticinam contra o totalitarismo acocorados sobre montanhas de vítimas? (pg. 8)

Alain Badiou (1937 – ), filósofo, dramaturgo e novelista francês. Saiba mais na Wikipedia