Diógenes, O Cão Celestial >>> por Emil Cioran (1911-95)

Não se pode saber o que um homem deve perder por ter a coragem de desafiar todas as convenções, não se pode saber o que Diógenes perdeu por tornar-se o homem que se permitiu tudo, que traduziu em atos seus pensamentos mais íntimos com uma insolência sobrenatural como o faria um deus do conhecimento, simultaneamente libidinoso e puro. Ninguém foi mais franco; caso-limite de sinceridade e lucidez, ao mesmo tempo que exemplo do que poderíamos ser se a educação e a hipocrisia não refreassem nossos desejos e nossos gestos.

“Um dia um homem o fez entrar em uma casa ricamente mobiliada e disse-lhe: ‘Principalmente não cuspa no chão’. Diógenes, que tinha vontade de cuspir, jogou-lhe o cuspe na cara, gritando-lhe que era o único lugar sujo que havia encontrado para poder fazê-lo.” (Diógenes Laércio)

Quem, depois de haver sido recebido por um rico, não lamentou não dispor de oceanos de saliva para derramá-los sobre todos os proprietários da terra? E quem não tornou a engolir seu cuspezinho por medo de lançá-lo na cara de um ladrão respeitado e barrigudo? Somos todos ridiculamente prudentes e tímidos…

Diógenes, o homem que enfrentou Alexandre e Platão, que se masturbava em praça pública (“Quem dera que bastasse também esfregar a barriga para não ter mais fome!”), o homem do célebre tonel e da famosa lanterna, e que em sua juventude foi falsificador de moeda (há dignidade mais bela para um cínico?), que experiência teve de seus semelhantes? O homem foi o único tema de sua reflexão e de seu desprezo. Sem sofrer as falsificações de nenhuma moral nem de nenhuma metafísica, dedicou-se a desnudá-lo para nos mostrá-lo mais despojado e mais abominável do que o fizeram as comédias e os apocalipses.

“Sócrates enlouquecido”, chamava-o Platão. “Sócrates sincero”, é assim que devia tê-lo chamado. Sócrates renunciando ao Bem, às fórmulas e à Cidade, transformado, enfim, unicamente em psicólogo. Mas Sócrates – mesmo sublime – ainda é convencional; permanece sendo mestre, modelo edificante. Só Diógenes não propõe nada; o fundo de sua atitude – e a essência do cinismo – está determinado por um horror testicular do ridículo de ser homem.

O pensador que reflete sem ilusão sobre a realidade humana, se quer permanecer no interior do mundo, e elimina a mística como escapatória, chega a uma visão na qual se misturam a sabedoria, a amargura e a farsa; e, se escolhe a praça pública como espaço de sua solidão, emprega sua verve zombando de seus ‘semelhantes’ ou exibindo seu nojo, nojo que hoje, com o cristianismo e a polícia, já não poderíamos nos permitir. Dois mil anos de sermões e de códigos edulcoraram nosso fel… Aliás, em um mundo tão apressado, quem se deteria para responder a nossas insolências ou para deleitar-se com nossos latidos?

Que o maior conhecedor dos humanos tenha sido apelidado de cão prova que em nenhuma época o homem teve a coragem de aceitar sua verdadeira imagem e que sempre reprovou as verdades sem reservas. Diógenes suprimiu nele a pose. Que monstro aos olhos dos outros! Para ter um lugar honrado na filosofia, é preciso respeitar o jogo das ideais e excitar-se com falsos problemas. Já ele, Diógenes, que só possuía um alforje, o menos proprietário dos mendigos, foi um verdadeiro santo da chacota.”

Emil Cioran – “Breviário de Decomposição” (Ed. Rocco, pg. 193-194)
Cioran nasceu em 1911, na Romênia, formando-se em Filosofia pela Universidade de Bucareste. Em 1937, mudou-se para a França, onde escreveu a maior parte de sua obra. Morreu em 1995, em Paris. Sobre seu “projeto filosófico”, Cioran diz o seguinte: “queria semear a Dúvida até nas entranhas do globo, impregnar com ela toda a matéria, fazê-la reinar onde o espírito jamais penetrou e, antes de alcançar a medula dos seres vivos, sacudir a quietude das pedras, introduzir nelas a insegurança e os defeitos do coração. Arquiteto, teria construído um templo à Ruína; predicador, revelado a farsa da oração; rei, hasteado a bandeira da rebelião. Eu teria estimulado em toda parte a infidelidade a si mesmo, impedindo multidões de corromperem-se no podredouro das certezas…”

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

6 pensamentos sobre “Diógenes, O Cão Celestial >>> por Emil Cioran (1911-95)

  1. dani ela disse:

    A esta altura o homem nao se despe mais, o temor eh se ver de frente, que pode causar grande terror.

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  2. Mariela disse:

    Sou fã de vosso blog! A cada artigo uma surpresa, uma verdadeira caixinha !
    Sente-se que é feito com carinho.
    Adorei conhecer o cão celestial !

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  3. acasadevidro disse:

    Valeu, Daniela e Mariela!

    Bacana saber que passearam por aqui e curtiram as provocações de Cioran e Diógenes… Espero continuar trazendo caixinhas de surpresas interessantes pra vcs… Voltem sempre!

    Eduardo Carli

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