CALDEIRÃO TUPINIQUIM #005

01) TOM ZÉ, “Tô”; 02) CARMEN MIRANDA, “E o Mundo Não se Acabou”; 03) CURUMIN, “Guerreiro”; 04)ELIZETH CARDOSO, “Eu Bebo Sim; 05) MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, “Cão Guia”; 06) OS MUTANTES, “Hey Boy”; 07) ULTRAJE A RIGOR, “Marylou” (Versão Carnaval); 08) RAUL SEIXAS, “Moleque Maravilhoso”; 09) SEU JORGE, “Onde Está o Samba”; 10) CLARA NUNES, “Obsessão”; 11) CÍCERO, “Tempo de Pipa”; 12) NÁ OZZETTI, “Baú de Guardados”.

VOLUMES ANTERIORES: QUATRO – TRÊS – DOIS – UM

Flutuando no Rio Sucuri (MS) – Diário de Bordo



deixe-me ir, preciso andar
vou por aí a procurar
sorrir pra não chorar…

cartola
“preciso me encontrar

* * * * *

O Oráculo de Delfos ostentava dois estandartes, protótipos antiqüíssimos dos slogans de auto-ajuda e dos biscoitinhos-da-sorte: “nada em demasia!” e “conhece-te a ti mesmo!”  A civilização grega aí desenhava sua tábua de valores onde a prudência, a temperança e a introspecção auto-descobrinte eram vistas como alguns dos melhores ingredientes da sabedoria, especiarias no caldo deleitoso do savoir-vivre.

Já o sambista-oráculo dos morros cariocas, Cartola, canta num velho samba sobre sua vontade de “se encontrar”, mas não concebe este encontro consigo como o efeito de um olhar para dentro de si, apolíneo e socrático, mas muito mais como uma abertura ao mundo: “quero ver o Sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar… eu quero nascer, quero viver!”

Privilégio de poetas e almas cantantes: procurar-se lá fora e encontrar-se ao se perder… Estranha vontade de criaturas devaneantes: nascer depois de já ter nascido (“nascer é muito comprido”, frisa Murilo Mendes…), encontrar-se indo lançar-se em riachos e sinfonias de pássaros… Que entendam aqueles que não tem medo de poetas e paradoxos!

“Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras.” (Manoel de Barros)

Flutuar no rio Sucuri é mais uma experiência heraclítica do que platônica: é uma lição concreta, ministrada silentemente pela natureza, sobre o velho dito de Heráclito – “tudo flui… não se entra duas vezes no mesmo rio.” Nós, humanos, costumeiramente tão arrogantes diante da natureza, podemos enfim abandonarmo-nos a ela como folhas ao vento, sentir sua potência imensamente maior que a nossa, conduzindo-nos rumo a sabe-se-lá-que-mar…

Pra que nadar, bater perna, gastar energia? Basta o abandono. As águas fazem todo o trabalho. A correnteza nos conduz como se fôssemos barquinhos de carne, boiantes em seu ventre líquido e móvel… Os peixes, que eu, em minha expectativa, imaginava mais abundantes, formando vastos cardumes de seres gregários em espantosas marchas subquáticas, escasseavam. O guia explicou que é época de reprodução e que muitos se escondem para a desova. Ainda assim, pude, peeping tom de um elemento alheio, espiar estas vidas tão lisas e fluidas em estado… VIVO! E não como um cadáver no prato, um defunto no açougue, um pedaço de carne imóvel no mercado. Como não ganhar ainda mais convicção no vegetarianismo depois de uma experiência dessas?

A horinha e pouco que passei arrastado pelo rio Sucuri, lutando pra me familiarizar com o snorkel e a máscara, pasmo com o ineditismo da experiência, valeram por algo semelhante a uma experiência mística atéia.
Registrei alguns tecos da realidade fluvial que deslizava por baixo de minha carcaça flutuante com a máquina fotográfica à prova d’água que aluguei na Agência Ar (35 reais por um dia inteiro de uso). Um pouco da “entrega” à experiência fica arrefecida pela preocupação com o registro; mas, por outro lado, a vontade de levar para casa souvenirs de uma vivência tão única é agradavelmente suprida.

Eu descia o rio ciente (heracliticamente!) de que jamais entraria de novo no mesmo rio – se repetisse o passeio, eu já seria outro na segunda ocasião, enriquecido pela experiência ganha na primeira… – mas ao mesmo tempo a tecnologia me garantia que tudo aquilo que minhas retinas viam não estava peremptoriamente condenado à efemeridade de uma aparição fugaz. Trouxe comigo estilhaços, lembranças imagéticas, como que criando uma memória objetivada, fora de meu cérebro, inacessível às costumeiras podridões da carne…

No começo da tentativa de processo psicoterapêutico narrado pelo Anticristo, de Lars Von Trier, o maridão psicólogo interpretado por Willem Dafoe, após conduzir a esposa para uma cabana no meio da mata, enlutada com a trágica morte de seu primogênito, cria uma espécie de “experimento curativo”: ela deve pisar descalça na grama e caminhar nela, em meio a sei lá que formigas peçonhentas e minhocas asquerosas, vencendo assim alguma estranha fobia que ela parece ter contraído com o trauma de sua perda.

Em estado de stress pós-traumático, ainda incapaz de conviver com o sofrimento de ter-lhe sido arrancado seu bebê, a personagem de Charlotte Gainsbourg precisa reaprender o contato com o mundo concreto que tanto a feriu e do qual ela quis se desligar, tamanha a violência do golpe por ele infligido. Quanta neurose não se mistura às nossas noções habituais sobre a Natureza? Quanta cegueira psíquica é necessária para que frequentemos churrascarias sem nos lembrarmos dos matadouros, peixarias sem conectá-las com os genocídios animais que as possibilitam?

Talvez uma das heranças maiores destes dois milênios de cristianismo seja justamente uma certa tendência psicológica de considerar a Natureza como inimiga, como fonte do pecado, como antro de predadores, como lugar de doenças, como selvageria incontrolável, ou mesmo como algo que precisa ser inteiramente subjugado e domado pela soberania humana, já que o Homem é imaginado como filho predileto do Criador, feito à sua imagem e semelhança, o que daria imensos privilégios e direitos que nenhuma outra criatura animal ou vegetal teria…

Quando Platão inventou a idéia de que o corpo é apenas um invólucro desimportante protegendo uma alma imortal, criando as bases para a metafísica e a ética do cristianismo (religião que, segundo Nietzsche, não passa de “platonismo para o povo!”), assentou as bases para este grande mau-entendido sobre a Natureza que vive até hoje e nos habita em segredo – caso não tenhamos movimentado nossas forças críticas e nossa lucidez vigilante para fazer frente a ele. Parece-me perigoso e neurótico demais este desprezo do mundo típico do cristão ortodoxo, esta noção de que o “terreno” não tem valor perto dos deleites que os eleitos um dia poderão gozar nas campinas verdejantes do paraíso, onde corre lei e mel por rios de doçura e paz… Este ideal imaginário de futuro redentor, agindo retroativamente sobre o presente, faz com que o mundo concreto acabe sendo vilipendiado em nome de beatitudes imaginadas e ausentes…

O contrário de ser cristão é estar “em núpcias com o mundo”, para usar uma expressão de Albert Camus, que soube se fascinar e se mergulhar nas paisagens argelinas de Tipasa e Argel – que descreve com tanto lirismo e devoção em seu belo “Núpcias / O Verão” (livro de cabeceira!). Trata-se de restituir ao mundo sua inocência, conspurcada pelos dogmas que lançaram a culpa no mundo, que projetaram Satã da Natureza, que fizeram do ato de morder a maçã e sorver seu rico sumo… um crime punível pela eternidade afora!

Entregar-se à esta correnteza é, ao mesmo tempo, recusar o pecado original e morder o fruto, deleitar-se com seu sumo, deixar seu suco escorrer pelo corpo, sem neura de sujeira, sem paranóias punitivas, sem neuroses fóbicas. A natureza não é a inimiga; pode ser a aliada. Decerto que, se encontrássemos pelo percurso um jacaré ou uma jibóia, correríamos por nossas vidas: a Natureza também inclui a grotesquice escandalosa da Cadeia Alimentar; os peixões comem os peixinhos, as zebras são papadas pelos leões, os insetos são digeridos vivos pelas plantas carnívoras, os vírus invadem nossas células e nos põem em pane… Não adianta harmonizar e idealizar, como se a Natureza fosse puríssima harmonia. Mas também não se deve demonizá-la: ela também comporta a possibilidade do abraço, a vereda do deleite, a chance da contemplação eufórica, o transe místico da unificação temporária… A Natureza não está lá e nós aqui: estamos NELA; dela somos parte ao invés de dela estarmos apartados; ela nos carrega, barcos cósmicos na corrente…

Uma palavra que o sonho humano alimenta… musicada.

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”

(Cecilia Meireles, 1901-1964)

01) Jimi Hendrix; 02) John Lennon; 03) Neil Young; 04) Richie Havens; 05) Bob Marley; 06) Ben Harper; 07) Funkadelic; 08) MC5; 09) The DT’s; 10) Rage Against the Machine; 11) Charles Mingus; 12) Nina Simone.

O Selvagem e o Relógio


O SELVAGEM E O RELÓGIO

(Uma exposição de angústias)

“Quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence
Que não tem o bastante.

LEGIÃO URBANA
“Índios”

Era uma vez um índio que nunca havia visto um relógio. Um dia, suas terras são invadidas por conquistadores. Estes, no futuro chamarão esta data de “Dia do Descobrimento”. Eles, os estrangeiros que entram em terra alheia, “descobrindo-a” para colonizá-la, descem de suas caravelas suntuosas carregando cruzes, pólvora, relógios.

 O índio jamais viu nada disso em sua frente e não entende o que há de tão “sagrado” numa cruz, nem com que finalidades aquelas criaturas estrangeiras pretendem usar a pólvora, nem como diabos se faz um relógio. Seria este “selvagem” impulsionado, como sugerem tantos defensores da Teoria do Design Inteligente, a julgar que é obra divina tudo aquilo diante do quê ele se espanta (pois antes desconhecia)? Há de concluir o índio que o relógio é obra do deus dos invasores e que, diante de tal potência tão apta a realizar maravilhas e prodígios, nada resta senão aquiescer e cair de joelhos?…

Não: não acho que baste mostrar ao selvagem um relógio para que ele vire a casaca pro outro time e se apresse a trocar sua nudez desinibida por uma batina. Não é tão fácil assim vencer uma alma “pagã” para o cristianismo, recuperar uma ovelha desgarrada que está “extraviada” longe de Cristo… O índio não se deixa catequisar tão fácil por esta doutrina estranha, autoritária, invasora, que deseja impor seu império à força. Talvez pressinta que há algo de terrificante numa civilização que, cultuando uma cruz, cultua um símbolo da morte, um instrumento de execução, uma ferramenta assassina. Richard Dawkins percebeu bem: o equivalente moderno do hábito sacralizado na Cristandade de usar um crucifixo sobre o peito seria algo como… andar por aí com uma cadeira elétrica em miniatura ornando o peito. E vocês acham que índio têm toda essa vontade de se submeter a potências negadoras da natureza e adoradoras da morte? E vocês acham que índio se impressiona tanto assim com relógios?!?

 Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.” Eis o diagnóstico de Renato Russo. Concordo que uma parte das respostas está por aí: no espelho, no umbigolismo, no egocentrismo. Narcisos inventores de doutrinas inventaram a história de que nós, narcisos, somos o cume absoluto da criação, os predilelos supremos de deus, as únicas criaturas que PRESTAM neste globo inteiro! Ó polegar opositor! Ó tele-encéfalo altamente desenvolvido! Minhoca, barata, porco: tudo bicho escroto. Mas o homem, ah não! O Homem é a Glória da Criação! Feitos à imagem e semelhança de um divino deus, belíssimo e bom! Já boi, frango, peixe: são tudo uns bichos “porcaria” que nem tem alma… “Nem tem alma!”



Narciso inventa-se uma alma e fica se achando muitíssimo importante no esquema geral das coisas. Fica de ego inchado. Ele é, nada mais, nada menos, que o filho predileto da divindade única e toda-poderosa e, se agir direitinho, como manda a cartilha (quero dizer, a Bíblia…), o Papai-do-Céu lhe irá destinar um imenso parque-de-diversões celeste, repleto de infinitas delícias.

Em breve, gostando mais e mais dessa ideia, apegando-se a ela com afinco mais e mais ardoroso, ele chegará um dia a achar muitíssimo conveniente possuir uma alma imortal que ele nega a outros animais (e mesmo a outros humanos!). Ele quer triunfar sobre a morte que cai sobre as bestas, proclamar a si mesmo como a única exceção universal, e pensa tê-lo feito de fato quando imagina seu desejo realizado, quando escreve livros que lhe garantem que a promessa será cumprida!

E é assim que surgem na História humana estes fenômenos tão estranhos e bizarros: que uma religião que prega a fraternidade, como o cristianismo, possa conduzir tantas mentes a romper as relações fraternas com o mundo natural que tantos dos ditos “selvagens” praticam de modo tão espontâneo, fácil e exemplar. Ao invés de se perguntar “o que poderíamos nós aprender com eles?”, o homem que desceu das caravelas com suas bíblias e escopetas, querendo expandir o império de distantes reis europeus, só quis saber de forçar seus dogmas a outros – e a quem se recusasse… o calabouço, o chicote, o fuzil!

Foi assim que a religião que se vende como “fraterna” decidiu convencer seu séquito de fiéis de que índio e negro, como os bois e as minhocas, não tem alma. Os relógios que desceram das caravelas junto com os espelhos e a pólvora calculariam os tempos das jornadas que fariam os navios negreiros, lotados de homens acorrentados e tratados como bestas-sem-alma. Os relógios calculariam também o valor das riquezas que seriam daqui arrancadas, a demora exigida para as caravelas singrarem o Oceano, levando à Europa toda a prata de Potosí, todo o ouro de Vila Rica!

Nós, latino-americanos, não devemos nos esquecer das Veias Abertas da América Latina! Felizmente não tivemos nenhuma experiência histórica sobre fenômenos que nos parecem tão distantes e estranhos quanto as Cruzadas e as Inquisições. Aprendemos o pouco que sabemos sobre o assunto em livros um tanto maçantes, e cuja leitura os padres não nos recomendam. O que nós, aqui na América Latina, pudemos vivenciar, que nossos ancestrais diretos tiveram que encarar na pele, foi o ímpeto imperialista da civilização cristã e protestante européia – que conseguiu não somente impor-se, como também praticar o maior roubo de riquezas da história conhecida das civilizaçãos, e com a utilização dos métodos mais torpes e enojantes, incluindo a escravidão e o genocídio.

À Narciso às vezes agrada muitíssimo a ideia de que ele é capaz de possuir todas as verdades e que um único livro, que ele nem suspeita ter sido escrito por narcisos como ele, contêm tudo o que se precise saber, respostas finais e soluções definitivas para tudo na vida.

O maior perigo do monoteísmo, por isso, me parece ser o seu potencial de tornar o sujeito arrogante, cheio de empáfia, julgando-se absolutamente certo em suas convicções inalabáveis e disposto a degolar os que pensam diferente. O potencial altamente destrutivo do monoteísmo está nesta sua aversão à diversidade que lhe é inerente. Um fiel monoteísta acredita que todo mundo, sem exceções, deve se prostrar diante do mesmo deus. Que deva haver o mesmo culto para 7 bilhões de criaturas. Sonhar que é possível uma tal “unificação” entre os povos, algo que tudo na História nos diz que é absolutamente sem precedentes, me parece mais uma fantasia lunática do que um projeto político realista.

A civilização que inventou o relógio chegou diante dos homens do novo continente com a arrogância autoritária de quem se julga superior. Narciso tinha se convencido que, por ele ter sabido inventar relógios e espelhos, ele tinha direito ao império sobre o resto do mundo natural. E até hoje muito cristão que se julga um excelentíssimo sujeito vai sem um pingo de culpa ao açougue e à churrascaria, plenamente convencido de que bicho não vale tanto quanto um bom cristão e que pode ser tranquilamente tratado como um amontoado de carne sem sentimentos e que os matadouros fazem muito bem em degolar aos milhares.

E até hoje muito sujeito que se considera “santo” e que vai à Igreja todos os domingos apóia que caiam as bombas sobre o Iraque, o Afeganistão e o Irã – afinal de contas, quem crê numa divindade tão falsa como Alá merece mesmo o destino de uma Gomorra ou uma Sodoma. E até hoje muito sujeito que diz professar o cristianismo e ser “pró-vida” espalha por aí que usar camisinha é um pecado e que a AIDS é uma punição divina contra a festa da diversidade sexual e do “permissivismo” – agravando com isso epidemias mortíferas que causam um grau de sofrimento inimaginalvemente grande, impedindo que sejam adotadas medidas racionais e lúcidas contras os males que afligem a humanidade.

Quem espera ajuda dos céus tende a fazer pouco na Terra além de cair de joelhos e rezar, ou pegar em cruzes e pregar, ou agarrar-se em livros supostamente sagrados para tentar convencer toda a humanidade a NÃO LER NADA além dele, o Único Livro Que Presta!

Eu, como amante dos livros, como alguém que se delicia com as orgias que realiza em seu cérebro entre os mais diversos autores, que goza com a combinação sem preconceitos de poetas e músicos, dançarinos e palhaços, romancistas e pensadores, me sinto ofendido por essa gente que prega que só devemos ler um livro. Acho isso um crime contra a cultura humana do passado, que em sua imensa riqueza e diversidade merece ser apropriada o máximo que pudermos. Limitar o nosso horizonte a um único documento, quando as bibliotecas e as locadoras e os sites estão tão repletos de um conteúdo tão fascinantemente diversificado e colorido me parece a mesma coisa que vestir em si mesmo um cabresto. Prender a si mesmo numa jaula. Impedir o próprio cérebro de enxergar mais longe.

No fundo, escrevo este texto sob o impacto do filme Xingu, de Cao Hamburguer, da reação a ele manifestada pela Eliane Blum na Revista Época e por alguns vídeos de YouTube que mostram as tensões sociais em Belo Monte. Sinto uma inquietação vaga diante deste plano faraônico do Brasil de construir uma das maiores hidrelétricas do planeta. Se falei tanto de Narciso, foi por essa inquietação de que possamos estar sofrendo com a doença que um dia foi aquela de nossos invasores europeus e que hoje é a cegueira dos Estados Unidos da América. É arrogância que sobe às nossas cabecinhas narcísicas à ideia de que deixamos a Inglaterra na poeira e somos agora uma das 5 maiores economias do mundo? Não estará o governo federal sendo autoritário em sua imposição de um desenvolvimento econômico que aquelas regiões não solicitaram e que muitos indígenas consideram lesativa à terra e aos ecossistemas?


As questões espinhosas da Eliane Brum ressoam, sem resposta:

“…por que permitimos, pela omissão da maioria, que a faraônica obra de Belo Monte – aqui, agora – destrua uma das maiores riquezas culturais e biológicas do planeta? Por que, em um governo dito popular, se reedita o autoritarismo para impor um elefante branco da democracia, com a nossa cumplicidade? […]

O efeito da Transamazônica, apenas sobre uma única etnia indígena, foi um genocídio de mais de 500 seres humanos. E a Transamazônica até hoje é uma picada intrafegável boa parte do ano, apelidada por onde passa de “Transamargura”. As obras de Belo Monte começaram – sem o cumprimento das condicionantes ambientais – e o estrago já é visível.”

Eu, que não conheço a Amazônia, que só acompanho de longe esses problemas, ainda assim me sinto como que “empurrado” a tentar expressar angústias sobre esse assunto. Tenho medo desse “desenvolvimentismo” que me soa tão… anos 50. A Transamazônica e Belo Monte servem mesmo para “integrar o Brasil”, ou querem mesmo é abrir rotas vantajosas de comércio e possibilidade de enriquecimento infindo para muitas empresas? Precisamos tanto assim de alumínio (que, segundo o Fernando Meirelles, é o deus em glória de quem a hidrelética está sendo construída)? A Amazônia, o pulmão do mundo, peça essencial para sustentar o clima da Terra, para nos livrar de catástrofes naturais hecatômbicas que a insustentabilidade do capitalismo selvagem está nos legando, pode ser tratada, mais uma vez, como um elemento num jogo de capitais ao invés de um ecossistema vivo contendo uma das mais vastas biodiversidades do Universo conhecido? O que o futuro nos reserva: shopping centers pipocando nas margens do Xingu e índios sonhando em vestir tênis Nike e comer no McDonalds?

A minha suspeita é a de que o Brasil possa estar vivendo uma espécie de “imperialismo interno”, em que um modelo de desenvolvimento um tanto tecnocrático e cientificista está sendo imposto a civilizações que, ainda que estejam dentro de nosso território, possuem outros valores, outros estilos-de-vida, outros horizontes. Quiçá possamos, com os horizontes deles, abrindo-nos a eles, ampliar os nossos! Estou convicto de que, se cada bom cristão resolvesse experimentar a Ayahuasca um dia, ao invés de ficar só na hóstia, podia mudar seus parâmetros sobre a “superioridade” da civilização cristã sobre as outras, sobre o “resto”. Quiçá um dia aprendamos a lidar com o diferente num espírito de aprendizado mútuo e não de dominação prepotente. E quiçá um dia os dogmáticos e os fanáticos, os narcisos que se comprazem em crer no que lhes deixa mais contentes, os que só conseguem enxergar um livro e têm os horizontes fechados para todo o resto, possam perceber que relógios não valem muito para aqueles que sabem sentir-se, no presente, como se estivessem na eternidade. E que livros são pouca coisa para aquele que sabe, com as portas da percepção escancaradas, beber com seus sentidos o universo, em grandes goladas, lendo maravilhado o Grande Livro da Natureza!

“To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.”

WILLIAM BLAKE,
O SELVAGEM