…everything flows…

TUDO FLUI

 

Nunca se entra duas vezes no mesmo rio.

À Mestre Heráclito
e às águas que correm!

Sei lá eu quais são as leis da vida! É muito irrequieta, a danada: não pára quieta! Como compreenderia eu algo assim tão serelepe? Ela não se presta ao meu escrutínio tranquilo: criança peralta, não fica sentada, mas se remexe toda, não quer deixar-se estar quietinha debaixo de meus microscópios e lentes! Vida pulsante, que se transforma a cada milisegundo, que é mais correnteza que granito! Não a compreendo: sou arrastado por ela. É diferente.

Minha consciência também está em fluxo. Não me dou bem com conceitos ossificados em dogmas, com certezas que se pretendem eternas, com crenças que se desejam imutáveis… Só sei-me como ser móvel em meio à uma intensa mobilidade cósmica. Estamos todos flutuando no espaço, sobre o lombro de um planeta incapaz de reter sua marcha, arrastados por uma correnteza de movimentação gravitacional complexa que nem mesmo todas as vontades humanas juntas seriam capazes de modificar! Queiramos ou não, tudo flui. O Sol não perguntou nossa opinião para começar a brilhar. Nem a Terra pediu permissão humana para começar a girar. Resta saber: preferimos nadar contra a corrente ou a favor dela?

Que me entendam bem: longe de mim fazer apologia das ovelinhas obedientes! Abandonar-se à corrente… isto pode ser expediente de covardes, incapazes de viverem com as próprias pernas e pensarem com os próprios cérebros, que não sabem viver a não ser seguindo os ditames de outros, sendo mecânicas máquinas monótonas de seguir ordens de autoridades! Não se trata de ser ordeiro como quem respeita a linha indiana das convenções dogmáticas e dos costumes inquestionados. Falo de outra coisa.

Alguns talvez pensem: “este gosta de travestir de poesia seus pensamentos! Não sabe servi-los crus! Assá-os nas fornalhas literárias, adoça-os nas colméias das palavras, besunta de mel e segredos a superfície das águas, quiçá desejando que sejam tidas por profundas e hipnóticas, ao invés de desembuchar logo, sem delongas, a verdade nua-e-crua!”

Ora, ora! Pensam vocês que os poetas não dizem verdades? Que toda verdade anda por aí com genitálias à mostra?!? Que só existam verdades lógicas?!? Que não é possível a absurdidade ser um dos atributos das verdades? Há verdades que só se aceita que sejam ditas… caso elas sejam adornadas com belezas. Há verdades que tememos sejam amargas demais para nossos paladares e que, por isso, ou mantemos à nossa distância, ou exigimos que só sejam ditas… edulcoradas. Ou poetizadas. Semi-oculta por véus de beleza, para que seu amargor não nos fira demasiado. O médico, perante um doente afrescalhado, que reclama do amargor do remédio, que chega a recusar-se a consumir o bálsamo do limoeiro, às vezes precisa esparramar mel na taça onde o enfermo beberá esta sua convalescença difícil!

Amo a beleza e a verdade. Não sei qual delas amo mais: não quero precisar escolher uma em detrimento da outra. Mas sei por experiência o quanto algumas verdades podem ser repugnantes para nosso querido ego, e o quanto algumas belezas, às vezes, enganam.Querer uni-las – uma verdade bela, uma bela verdade… – é algo como um ímpeto que tenho. E perigoso. Uma semente de idealismo, que por vezes encontra em meu solo terreno fértil para um desabrochar vasto de flores e versos! Minha mente é capaz de borboleteios. Não sou assim tão sisudo que não consiga dar umas cabriolas com os miolos!

Mas mais que tudo amo o amor. Amo aquela que me possibilitou vivê-lo. Sinto-me grato, não como quem recebeu uma dádiva, mas como quem construiu junto uma história, forjou a dois um vínculo. O amor é a sabedoria inventada pela minha carne: através do amor, isto que sou procura alcançar seu máximo potencial existencial, sabendo muito bem que é bem mais difícil fazê-lo só do que… bem-acompanhado.

Amar é saber aceitar a companhia de alguém na jornada do viver e descobrir que esta companhia é benfeitora – ajuda, afaga, alegra, faz feliz. O outro junta suas forças conosco e sentimo-nos menos vãos, menos inúteis, menos injustificáveis mônadas de solidão!

O medo? Se o conheço! Não me gabo de ser o campeão da audácia. O futuro sempre me foi, sendo incógnita, algo de acabrunhante, de temível, de desconhecidamente ameaçador… Não sei quê sofrimentos e quê felicidades me reserva o futuro, e está aí a raiz da minha árvore de medos cujos galhos se entrecruzam nas avenidas de neurônios do meu córtex!… Há embutido em minha carne o afeto do medo: instinto de sobrevivência, estado-de-alerta de um mortal-em-perigo… Pois, Guimarães Rosa o sabe, “viver é perigoso”. E um dia… da vida a gente morre. Pra tudo tem jeito, menos pra isso.

Sou um mortal consciente de sê-lo e enxergo muito fantasma nascendo deste medo da morte. Daí, deste medo tão humano de um dia acabar-se, jorram mitos, religiões, poemas! Fecunda angústia humana! Flores que crescem de feridas! Mel que sai de pústulas, abscessos e cicatrizes! Quando uma parte do cérebro chega à conclusão de que nosso destino individual inelutável é o envelhecimento e a morte, outra parte do cérebro se revolta contra pensamento tão desconcertante e cria um contraponto, uma ficção reconfortante, uma crença luminosa, um happy end imposto, do presente, ao fim da história!…

A imaginação medica os males infligidos pela realidade até que o cérebro, intoxicado com as ficções terapêuticas ministradas com a doçura das fábulas, transforma-nos em inteligências diabéticas, viciadas em açúcar, que abrem o berreiro e choram feito crianças sempre que ouvem algo de que não gostam! Que me perdoem os laivos de raiva, mas… ô gente afrescalhada! Tem neste mundo muito queixume que não merece ser gemido, muito reclamão que tá xiando de barriga cheia! E tem muita gente idolatrando a cruz. Fazendo cara feia para a vida. Culpando, condenando, moralizando, descendo a lenha. Não digo que não haja muita lenha que merece sim ser descida! Mas descer à lenha em tudo, e nada mais, também… dá licença! Não vale a pena derrubar árvores se a lenha só for servir de cacete!

Hoje sofro menos de solidão e contento-me pelo acerto que foi ter suposto, tempos atrás, quando os horrores da solitude eram bem mais intensos, que o amor seria a única saída. Não foi aposta ruim, de fato, apesar dos amargumes suportados nesta longa estrada onde ainda caminho. Há quem aposte neste número nas roletas da vida e depois, desiludido e desenganado, saia por aí a denegrir esta senda que tantos trilharam pisando em poças de lágrimas! Eu não sou destes que denigre a escolha que fazem tantos de enxergar no amor uma das únicas chaves para conhecer as bem-aventuraças da vida terrestre.

A questão é: o que é este amor que tantos de nós amamos? Não temos opiniões diferentíssimas sobre o dito cujo? Não chamamos pelo mesmo nome os estados e condições mais antípodas? E não acreditamos nas coisas mais disparatadas e sonhamos as beatitudes mais astrônicas sob o influxo deste demônio? Ele entorpece a razão ou sofistica a sensibilidade? Ele é ilusionista e enganador, ou abre os olhos para que acordem para a verdade? É dádiva dos céus, ou criação dos terráqueos? Choveu das mãos de Deus, ou nasceu da árvore da vida, aquela que tem suas raízes profundamente enfurnadas na Terra?

São questões que me interessam, me fascinam e me intrigam sobremaneira. Escrevo também por isso. Para compartilhar estes mistérios que me assombram, juntar forças na decifração desses enigmas… Quem subir ao meu bote, que não suba querendo ser mero passageiro! Pegue um remo e naveguemos mais fortes!

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

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