Pangea

Pangea: na época em que os continentes curtiam um amassinho…

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Cecília: “não sou alegre nem triste: sou poeta”


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
CECÍLIA MEIRELES

flusser devaneia: “há vida em outros planetas? qual a unicidade da terra?”

“É moda ultimamente afirmar que a Terra não é um corpo excepcional dentre as esferas que perfazem a máquina celeste. Dada a enorme quantidade de bolas que giram por aí, deve haver pelo menos umas poucas muito semelhantes à Terra. Este é o argumento aparentemente razoável. Trata-se de uma nova forma de articular um problema antigo. Tem ou não nossa Terra uma posição central e única dentro do cosmos?

[…] Os astrônomos e os assim chamados ‘astrobiólogos’ estão empenhados em procura febril de uma segunda Terra. Suponhamos por um instante que a encontrem. Isto não seria o fim da briga [entre Ptolomeu e Copérnico]. Uma segunda Terra não seria, certamente, uma cópia fiel da nossa. Haveria diferenças consideráveis. E essas diferenças bastariam aos defensores de Ptolomeu para proclamar a unicidade de nossa terra.

Confesso, no entanto, que não creio na mínima possibilidade de uma tal descoberta. O contato com seres de outros ‘planetas’ é coisa da science fiction, e os marcianos que falam latim, e as plantas comedoras de gente de Betelgeuse… são coisas de Hollywood e de sanatórios para alienados.

[…] A procura por uma segunda Terra é produto do desespero e da sensação de isolamento. É a recusa de aceitar o fato brutal de que a vida se restringe não somente em tempo, mas também em espaço. Não queremos nos conformar com o caráter único da nossa Terra, e com o isolamento da vida que decorre desse caráter excepcional da Terra.

Consideremos a situação excepcional e única da nossa Terra no cosmos. Em primeiro lugar, é a Terra um corpo excepcionalmente moderado. Não arde em brasa incandescente. Não revolve no frio inimaginável do zero absoluto. Não consiste de matéria rigidamente compacta. Não flutua como gás rarefeito. Não gira violentamente em redor do seu eixo. Não é acompanhada por milhares de luas (pelo menos não o é ao escrevermos estas linhas). Não está isolada e perdida no espaço. Mas a quase totalidade dos corpos que conhecemos é radical num ou noutro sentido enumerado, exceção feita aos 2 ou 3 planetas em nossa imediata proximidade.

Mas em segundo lugar a Terra é excepcionalmente mutável. As suas nuvens se deslocam, as suas montanhas surgem e desaparecem, os seus continentes e seus mares viajam. A terra é um paradoxo: excepcionalmente moderada e excepcionalmente mutável. Ela representa, se comparada aos demais corpos celestes, um estágio de extrema instabilidade, um estágio fugaz e transitório entre dois extremos.

Como surgiu esse estágio precioso que deu origem à vida? As circunstâncias e as influências que possibilitaram esse estado de coisas são de tal complexidade, que imaginar que se repetiram ou repetirão não é sinal de imaginação, mas sinal de falta de conhecimento. Se uma única circunstância tivesse faltado, e se uma única influência tivesse falhado, a vida não teria surgido. Porque um único elo pode quebrar a cadeira precária dessa labilidade preciosa.

Por exemplo: a Terra tinha que ser planeta. Numa estrela são inimagináveis as condições terrestres. E planetas são raros. Mas como planeta, tinha que estar a uma distância exata de um astro de tamanho exato. Um pouco mais próxima deste astro, e seria um corpo em brasa como Vênus. Um pouco mais distante, e seria frígida como Marte. […] É preciso afirmar que a Terra é um corpo em tudo excepcional, e que a possibilidade de encontrar outro corpo assim é muito mais que improvável.”

VILÉM FLUSSER (1920-1991)
in: A História do Diabo (pgs. 42 a 44)
Editora Annablume

…everything flows…

TUDO FLUI

 

Nunca se entra duas vezes no mesmo rio.

À Mestre Heráclito
e às águas que correm!

Sei lá eu quais são as leis da vida! É muito irrequieta, a danada: não pára quieta! Como compreenderia eu algo assim tão serelepe? Ela não se presta ao meu escrutínio tranquilo: criança peralta, não fica sentada, mas se remexe toda, não quer deixar-se estar quietinha debaixo de meus microscópios e lentes! Vida pulsante, que se transforma a cada milisegundo, que é mais correnteza que granito! Não a compreendo: sou arrastado por ela. É diferente.

Minha consciência também está em fluxo. Não me dou bem com conceitos ossificados em dogmas, com certezas que se pretendem eternas, com crenças que se desejam imutáveis… Só sei-me como ser móvel em meio à uma intensa mobilidade cósmica. Estamos todos flutuando no espaço, sobre o lombro de um planeta incapaz de reter sua marcha, arrastados por uma correnteza de movimentação gravitacional complexa que nem mesmo todas as vontades humanas juntas seriam capazes de modificar! Queiramos ou não, tudo flui. O Sol não perguntou nossa opinião para começar a brilhar. Nem a Terra pediu permissão humana para começar a girar. Resta saber: preferimos nadar contra a corrente ou a favor dela?

Que me entendam bem: longe de mim fazer apologia das ovelinhas obedientes! Abandonar-se à corrente… isto pode ser expediente de covardes, incapazes de viverem com as próprias pernas e pensarem com os próprios cérebros, que não sabem viver a não ser seguindo os ditames de outros, sendo mecânicas máquinas monótonas de seguir ordens de autoridades! Não se trata de ser ordeiro como quem respeita a linha indiana das convenções dogmáticas e dos costumes inquestionados. Falo de outra coisa.

Alguns talvez pensem: “este gosta de travestir de poesia seus pensamentos! Não sabe servi-los crus! Assá-os nas fornalhas literárias, adoça-os nas colméias das palavras, besunta de mel e segredos a superfície das águas, quiçá desejando que sejam tidas por profundas e hipnóticas, ao invés de desembuchar logo, sem delongas, a verdade nua-e-crua!”

Ora, ora! Pensam vocês que os poetas não dizem verdades? Que toda verdade anda por aí com genitálias à mostra?!? Que só existam verdades lógicas?!? Que não é possível a absurdidade ser um dos atributos das verdades? Há verdades que só se aceita que sejam ditas… caso elas sejam adornadas com belezas. Há verdades que tememos sejam amargas demais para nossos paladares e que, por isso, ou mantemos à nossa distância, ou exigimos que só sejam ditas… edulcoradas. Ou poetizadas. Semi-oculta por véus de beleza, para que seu amargor não nos fira demasiado. O médico, perante um doente afrescalhado, que reclama do amargor do remédio, que chega a recusar-se a consumir o bálsamo do limoeiro, às vezes precisa esparramar mel na taça onde o enfermo beberá esta sua convalescença difícil!

Amo a beleza e a verdade. Não sei qual delas amo mais: não quero precisar escolher uma em detrimento da outra. Mas sei por experiência o quanto algumas verdades podem ser repugnantes para nosso querido ego, e o quanto algumas belezas, às vezes, enganam.Querer uni-las – uma verdade bela, uma bela verdade… – é algo como um ímpeto que tenho. E perigoso. Uma semente de idealismo, que por vezes encontra em meu solo terreno fértil para um desabrochar vasto de flores e versos! Minha mente é capaz de borboleteios. Não sou assim tão sisudo que não consiga dar umas cabriolas com os miolos!

Mas mais que tudo amo o amor. Amo aquela que me possibilitou vivê-lo. Sinto-me grato, não como quem recebeu uma dádiva, mas como quem construiu junto uma história, forjou a dois um vínculo. O amor é a sabedoria inventada pela minha carne: através do amor, isto que sou procura alcançar seu máximo potencial existencial, sabendo muito bem que é bem mais difícil fazê-lo só do que… bem-acompanhado.

Amar é saber aceitar a companhia de alguém na jornada do viver e descobrir que esta companhia é benfeitora – ajuda, afaga, alegra, faz feliz. O outro junta suas forças conosco e sentimo-nos menos vãos, menos inúteis, menos injustificáveis mônadas de solidão!

O medo? Se o conheço! Não me gabo de ser o campeão da audácia. O futuro sempre me foi, sendo incógnita, algo de acabrunhante, de temível, de desconhecidamente ameaçador… Não sei quê sofrimentos e quê felicidades me reserva o futuro, e está aí a raiz da minha árvore de medos cujos galhos se entrecruzam nas avenidas de neurônios do meu córtex!… Há embutido em minha carne o afeto do medo: instinto de sobrevivência, estado-de-alerta de um mortal-em-perigo… Pois, Guimarães Rosa o sabe, “viver é perigoso”. E um dia… da vida a gente morre. Pra tudo tem jeito, menos pra isso.

Sou um mortal consciente de sê-lo e enxergo muito fantasma nascendo deste medo da morte. Daí, deste medo tão humano de um dia acabar-se, jorram mitos, religiões, poemas! Fecunda angústia humana! Flores que crescem de feridas! Mel que sai de pústulas, abscessos e cicatrizes! Quando uma parte do cérebro chega à conclusão de que nosso destino individual inelutável é o envelhecimento e a morte, outra parte do cérebro se revolta contra pensamento tão desconcertante e cria um contraponto, uma ficção reconfortante, uma crença luminosa, um happy end imposto, do presente, ao fim da história!…

A imaginação medica os males infligidos pela realidade até que o cérebro, intoxicado com as ficções terapêuticas ministradas com a doçura das fábulas, transforma-nos em inteligências diabéticas, viciadas em açúcar, que abrem o berreiro e choram feito crianças sempre que ouvem algo de que não gostam! Que me perdoem os laivos de raiva, mas… ô gente afrescalhada! Tem neste mundo muito queixume que não merece ser gemido, muito reclamão que tá xiando de barriga cheia! E tem muita gente idolatrando a cruz. Fazendo cara feia para a vida. Culpando, condenando, moralizando, descendo a lenha. Não digo que não haja muita lenha que merece sim ser descida! Mas descer à lenha em tudo, e nada mais, também… dá licença! Não vale a pena derrubar árvores se a lenha só for servir de cacete!

Hoje sofro menos de solidão e contento-me pelo acerto que foi ter suposto, tempos atrás, quando os horrores da solitude eram bem mais intensos, que o amor seria a única saída. Não foi aposta ruim, de fato, apesar dos amargumes suportados nesta longa estrada onde ainda caminho. Há quem aposte neste número nas roletas da vida e depois, desiludido e desenganado, saia por aí a denegrir esta senda que tantos trilharam pisando em poças de lágrimas! Eu não sou destes que denigre a escolha que fazem tantos de enxergar no amor uma das únicas chaves para conhecer as bem-aventuraças da vida terrestre.

A questão é: o que é este amor que tantos de nós amamos? Não temos opiniões diferentíssimas sobre o dito cujo? Não chamamos pelo mesmo nome os estados e condições mais antípodas? E não acreditamos nas coisas mais disparatadas e sonhamos as beatitudes mais astrônicas sob o influxo deste demônio? Ele entorpece a razão ou sofistica a sensibilidade? Ele é ilusionista e enganador, ou abre os olhos para que acordem para a verdade? É dádiva dos céus, ou criação dos terráqueos? Choveu das mãos de Deus, ou nasceu da árvore da vida, aquela que tem suas raízes profundamente enfurnadas na Terra?

São questões que me interessam, me fascinam e me intrigam sobremaneira. Escrevo também por isso. Para compartilhar estes mistérios que me assombram, juntar forças na decifração desses enigmas… Quem subir ao meu bote, que não suba querendo ser mero passageiro! Pegue um remo e naveguemos mais fortes!

“…sem ajuda de nenhum deus, a humanidade inventa ela mesma os meios de sua ascensão…”

“Talvez pudéssemos dizer que a idéia de progresso está em antagonismo com a idéia religiosa e que, se uma foi por muito tempo sufocada, é porque a outra foi por muito tempo dominante.

Acreditar no progresso é acreditar na inferioridade do passado em relação ao futuro… A maior parte das religiões, ao contrário, coloca na origem das coisas uma onipotência que molda o mundo e o homem à sua imagem: fica difícil compreender então um mundo que, desde a sua origem e saindo das mãos do criador, fosse imperfeito e mau; parece que, para procurar o bem, é necessário voltar-se, antes, para o princípio das coisas, para a época em que o mundo era, de certa forma, mais divino, sendo mais jovem. Remontar aos primeiros tempos é aproximar-se de Deus. Toda religião é assim obrigada a explicar o mal que se encontra no mundo por uma decadência, em vez de explicar o bem que nele se encontra por um progresso… Toda religião tende, assim, a se tornar adoração do passado. (….) É a doutrina da queda, oposta à do progresso.

Ao contrário, uma vez afastada a religião, não se pode conceber teoria do mundo que não tenha por princípio ou por consequência a crença numa evolução, num progresso lento no tempo… A partir do momento em que o homem não recebe das mãos de um Deus criador sua civilização já pronta, ele mesmo tem de fazê-la com o tempo… Assim, toda teoria não religiosa do mundo supõe como corolário e como confirmação uma história dos progressos do homem… A idéia de progresso vem se opor à de criação.”

JEAN-MARIE GUYAU (1854 — 1888),
filósofo e poeta francês.

in: La Morale d’Épicure. Paris, 1878, pp. 154-157.

Comentário deste trecho, por André Comte-Sponville: “…por conseguinte, opor-se à religião será defender a idéia do progresso contra a da decadência. É o que fazem Demócrito, Epicuro e Lucrécio. (…) Opondo-se à teoria religiosa da queda, o pensamento epicuriano inaugura assim um pensamento materialista da história em que, sem ajuda de nenhum deus, sem modelo transcendente, a humanidade inventa ela mesma os meios de sua ascensão.”

(in: O Mito de Ícaro, Volume I, Tratado do Desespero e da Beatitude – Pg. 182 – Trad. Eduardo Brandão – Ed. Martins Fontes).