:: um clássico latino-americano (leitura imprescindível!) ::


120 MILHÕES DE CRIANÇAS NO CENTRO DA TORMENTA

A divisão internacional do trabalho significa que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta. Passaram-se os séculos e a América Latina aprimorou suas funções. Ela já não é o reino das maravilhas em que a realidade superava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus da conquista, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como serviçal, continua existindo para satisfazer as necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, de cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que, consumindo-os, ganham muito mais do que ganha a América Latina ao produzi-los. (…) Quanto mais liberdade se concede aos negócios, mais cárceres precisam ser construídos para aqueles que padecem com os negócios.

Do descobrimento aos nossos dias, tudo sempre se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar foram sucessivamente determinados, do exterior, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. Para cada um se atribuiu uma função, sempre em benefício do desenvolvimento da metrópole estrangeira do momento, e se tornou infinita a cadeia de sucessivas dependências…

Para os que concebem a História como uma contenda, o atraso e a miséria da América Latina não são outra coisa senão o resultado de seu fracasso. Perdemos; outros ganharam. Mas aqueles que ganharam só puderam ganhar porque perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos. Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno. Potosí, Zacatecas e Ouro Preto caíram de ponta-cabeça da grimpa de esplendores dos metais preciosos no fundo buraco dos socavões vazios, e a ruína foi o destino do pampa chileno do salitre e da floresta amazônica da borracha; o nordeste açucareiro do Brasil, as matas argentinas de quebrachos ou certos povoados petrolíferos do lago de Maracaibo têm dolorosas razões para acreditar na mortalidade das fortunas que a natureza dá e o imperialismo toma.

(…) São secretas as matanças da miséria na América Latina. A cada ano, silenciosamente, sem estrépito algum, explodem três bombas de Hiroshima sobre esses povos que têm o costume de sofrer de boca calada. Essa violência sistemática, não aparente, mas real, vem aumentando: seus crimes não são noticiados pelos diários populares, mas pelas estatísticas da FAO. George W. Ball escreve na Life que a impunidade ainda é possível porque os pobres não podem desencadear a guerra mundial, mas o império se preocupa: incapaz de multiplicar os pães, faz o possível para suprimir os comensais.

“Combata a pobreza, mate um mendigo”, grafitou um mestre do humor negro num muro de La Paz. O que propõem os herdeiros de Malthus senão matar todos os futuros mendigos antes que nasçam? Robert McNamara, presidente do Banco Mundial que tinha sido presidente da Ford e Secretário da Defesa, afirma que a explosão demográfica constitui o maior obstáculo ao progresso da América Latina, e anuncia que o Banco Mundial, em seus empréstimos, dará preferência aos países que executarem planos de controle de natalidade. McNamara constata, com lástima, que o cérebro dos pobres pensa 25 por cento menos, e os tecnocratas do Banco Mundial (que já nasceram) fazem zumbir os computadores e geram intricados cálculos sobre as vantagens de não nascer. (…) Isto cumpre uma função bem definida: quer justificar a desigual destribuição de renda entre países e entre classes sociais, quer convencer os pobres de que a pobreza é a consequência dos filhos que não evitam e opor um dique ao avanço da fúria das massas em movimento e rebelião. (…) Na América Latina, é mais higiênico e eficaz matar guerrilheiros no útero do que nas montanhas ou nas ruas.

Diversas missões norte-americanas esterilizaram milhares de mulheres na Amazônia, embora seja esta a zona habitável mais deserta do planeta. Na maior parte dos países latino-americanos não sobra gente: falta. O Brasil tem 38 vezes menos habitantes por quilometro quadrado do que a Bélgica. O Paraguai, 49 vezes menos do que a Inglaterra; o Peru, 32 vezes menos do que o Japão. (…) O sistema se expressa numa linguagem surreal: propõe evitar os nascimentos nessas terras vazias, opina que faltam capitais em países onde os capitais estão sobrando e são desperdiçados, chama de “ajuda” a ortopedia deformante dos empréstimos e a drenagem de riquezas que os investimentos estrangeiros provocam, convoca os latifundiários para fazer a reforma agrária e a oligarquia para pôr em prática a justiça social.

(…) Neste livro, que quer oferecer uma história da rapinagem e, ao mesmo tempo, mostrar como funcionam os mecanismos atuais da espoliação, aparecem os conquistadores nas caravelas e, ali perto, os tecnocratas nos jatos; Hernán Cortez e os fuzileiros navais; os corregedores do reino e as missões do Fundo Monetário Internacional; os dividendos dos traficantes de escravos e os lucros da General Motors. Também os heróis derrotados e as revoluções de nossos dias, as infâmias e as esperanças mortas e ressurectas: os sacrifícios fecundos.”

GALEANO. As Veias Abertas da América Latina. Ed. L&PM.
(Livro  na íntegra em PDF.)

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:: El Sentipensante Galeano ::

“A razão quando vive solitária… gera monstros. Sou um senti-pensante, alguém que intenta atar a emoção e a razão. (…) Conto histórias críticas mas celebrantes. (…) O que mais me fascina na condição humana é sua diversidade. (…) Tudo o que escrevo é na tentativa de recuperação das cores do arco-íris terrestre. Eu creio que o arco-íris terrestre tem muito mais fulgores e cores que o arco-íris celeste. Mas estamos cegos e não o vemos.”

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“O poeta Antônio Machado, em um verso inolvidável, disse: ‘agora qualquer néscio confunde valor e preço’. E este é um sistema em que todos nós temos um preço, e a partir dele se define nosso valor. Ou seja: é um sistema que mente, pois o valor não se mede pelo preço. As coisas mais valiosas podem ser gratuitas.”

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“A fome não é só fome de pão. Há também muita fome de abraço. Este é um mundo esfomeado de pão e abraço. E não seremos humanos, nem deveras democráticos, se não formos capazes de criar um mundo em que não haja fome nem de pão, nem de abraço.”

 EDUARDO GALEANO

:: aquel extraño rito ::

The Lovers, de Jan Saudek

“…abrazados como dos seres que quieren tragarse mutuamente, una vez más se realizó aquel extraño rito, cada vez más salvaje, más profundo y más desesperado. Arrastrada por el cuerpo, en medio del tumulto y de la consternación de la carne, el alma de Martín trataba de hacerse oír por el otro que estaba del otro lado del abismo. Pero ese intento de comunicácion, que finalizaría en gritos casi sin esperanza, empezaba ya desde el instante que precedía a la crisis: no sólo por las palabras que se decían sino también por las miradas y los gestos, por las caricias y hasta por los desgarramientos de sus manos y sus bocas. Y Martín trataba de llegar, de sentir, de entender a Alejandra tocando su cara, acariciando su pelo, besando sus orejas, su cuello, sus pechos, su vientre; como un perro que busca un tesoro escondido olfateando la misteriosa superficie, esa superficie llena de indicios… Y así como el perro, cuando siente de pronto más próximo el misterio buscado, empieza a cavar con febril y casi enloquecido fervor (ajeno ya al mundo exterior, alienado y demente, pensando y sintiendo en aquel único y poderoso misterio ahora tan cercano), así acometía el cuerpo de Alejandra, trataba de penetrar en ella hasta el fondo oscuro del doloroso enigma…” (SABATO. Sobre Héros y Tumbas. Cap. IX da Parte II)

(Um dos livros mais belos e impactantes que já li…)

:: Breaking the Spell (Daniel Dennett) ::


O filósofo e biólogo darwinista norte-americano Daniel Dennett, apesar da simpática barbona branca quase bíblica que adorna seu rosto sereno, é o exato oposto de um profeta: é um desmistificador. E de primeira grandeza. O pouco que conheço do pensamento e da “militância” de Dennett basta para que eu o considere uma das mentes que mais merecem ser ouvidas no atual panorama intelectual mundial (ouçamos também Zizek, Peter Singer, Comte-Sponville, Ernesto Sabato, Eduardo Galeano, o recém-falecido Saramago!). Pois prosseguimos necessitados de mentes lúcidas que procurem “desfazer os feitiços” causadores de catástrofe. Dennett é “lucidez em jato contínuo” que vem para questionar perigosas fantasias e preconceitos que mantem povos cativos de dogmas e rixas, cegueiras e guerras.

Breaking The Spell – A Religião Como Fenômeno Natural é o nome de uma das principais obras de Dennett, publicado lá fora em 2006 e recentemente traduzida para o português e lançada pela Ed. Globo). A teoria da evolução de Darwin, que Dennet apelidou em outra de suas obras de Darwin’s Dangerous Idea, é exposta com uma ênfase em seu fator “subversivo“, como algo irreconciliável com os dogmas religiosos. Pode parecer óbvio e batido constatar que não há acordo ou reconciliação possível entre A Evolução das Espécies, de um lado, e a Bíblia e o Alcorão, de outro. Mas a bizarra e teimosa “persistência” quase “viral” das religiões neste século 21, que decepcionaria tremendamente Voltaire e Nietzsche, se  hoje vivessem, é uma razão mais para estarmos convictos de que o darwinismo continua precisando, sim, de inteligentes e sábios advogados. Dennett é um deles.

:: Freud e a transitoriedade ::


SOBRE A TRANSITORIEDADE

“Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.

Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, de modo que, em relação à duração de nossas vida, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda a vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhe estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos de libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, e até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.

Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.

Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso para muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.”

(Sigmund Freud. Obras Completas Volume 14, ed. Imago.)

freud e a religião

:: A esperança é a mãe do pessimismo ::

“…los pesimistas se reclutan entre los ex esperanzados, puesto que para tener una visión negra del mundo hay que haber creído antes en él y en sus posibilidades. Y todavía resulta más curioso y paradojal que los pesimistas, una vez que resultaron desilusionados, no son constantes y sistemáticamente desesperanzados, sino que, en cierto modo, parecen dispuestos a renovar su esperanza a cada instante, aunque lo disimulen debajo de su negra envoltura de amargados universales, en virtud de una suerte de pudor metafísico; como si ele pesimismo, para mantenerse fuerte y siempre vigoroso, necesitase de vez en cuando un nuevo impulso producido por una nueva y brutal desilusión.” (Sobre héroes y tumbas, pg. 27, Editora La Nácion)

Lindo trecho do Sabato, longevo romancista porteño que completa 100 aninhos em 2011.

Ainda estou lendo (deliciado) Sobre Heróis e Tumbas, mas fiz questão de postar esta instigante reflexão que faz o vovô Ernesto sobre aquele terrível “mal da humanidade” que restou no fundo da Caixa de Pandora depois que todos os outros males já tinham batido asas e infestado este mundo caotizado por Zeus.

Não sei se André Comte-Sponville conhece Sobre Heróis e Tumbas, mas este trecho sobre a esperança tem tudo a ver com as ousadas idéias que o filósofo francês expõe no Tratado do Desespero e da Beatitude (que considero, sem medo do exagero, um dos melhores livros de filosofia da segunda metade do século XX).

Não só a esperança e o temor são gêmeos siameses, sempre coexistindo no desafortunado peito do esperançado-temente, como as primaveris esperanças, quando destroçadas pelos desencantos, são a raiz de todo pessimismo.

O esperançado-desiludido (e que esperançado não é constantemente golpeado por frustrações mil?) sempre acaba por amaldiçoar a realidade por não ter se mostrado como ele o desejava, ou como imaginava e fantasiava que deveria ser. Sem perceber que é sua demanda (seu exigir o impossível) o que causa a sua desgraça.

O pessimista é um otimista desiludido, e um otimista é só um potencial pessimista que ainda não foi desenganado.

Escolher entre um e outro? Que nada! O remédio amargo mas tonificante que receita Sponville é rejeitar de vez toda a esperança (tudo aquilo que desejamos sem poder, sem saber e sem gozar) e aquiescer diante de uma realidade que não é nem amaldiçoada nem louvada por inteiro, mas reconhecida por aquilo que é, independente do que desejaríamos que fosse. Nem pessimismo nem otimismo: realismo e  lucidez.