:: Cassavetes! ::

Cassavetes é um dos cineastas que  eu mais curto e admiro.  Visceral, autêntico, turbulento, irrequieto, o cara ousou fazer um cinema autoral profundamente pessoal, na contra-corrente dos roliudianismos clichezentos. Seus trampos como ator também são bem responsa (o seu papel mais conhecido é como marido da Mia Farrow em O Bebê de Rosemary, do Roman Polanski), mas era no comando do leme que o Cassavetes deixava vir à tona todo o culhão e a catarse que o tornaram um dos grandes artistas da 7ª arte na 2ª metade do século passado. Capaz de arrancar de seus atores algumas das mais comoventes e perturbadoras representações de que me lembro, em especial de sua esposa (a deslumbrante Gena Rowlands), Cassavetes fez em 1974 um de seus mais adoráveis filmes, Uma Mulher Sob a Influência, já esmiuçado lá no Depredando o Cinema. Confiram!

“I’ve got a one-track-mind: all I’m interested in is Love.”
(John Cassavetes)

:: a poeira terrestre no calcanhar… ::


“O poeta é ao mesmo tempo feito de ameaça e de promessa. A inquietação que ele inspira aos opressores apazigua e consola os oprimidos. É a glória do poeta pôr um traveseiro ruim na cama de púrpura dos carrascos. É muitas vezes graças a ele que o tirano desperta dizendo: Dormi mal. Todas as escravidões, opressões, dores, infortúnios, aflições, todas as fomes e sedes têm direito ao poeta; ele tem um credor, o gênero humano. // Que o poeta esteja fora do homem por um lado, pelas asas, pelo vôo imenso, pela brusca desaparição nas profundezas, tudo bem, isso deve ser, mas com a condição de seu ressurgimento. Que ele parta, mas que retorne. Que tenha asas para o infinito, mas que tenha os pés no chão, e que depois de tê-lo visto voar, nós o vejamos andar. Que depois de tê-lo visto arcanjo, nós o reencontremos irmão. Que a estrela que está nesse olho verta uma lágrima, e que essa lágrima seja a lágrima humana. // Mostra-me teu pé, gênio, e vejamos se tens como eu no calcanhar a poeira terrestre…” [VICTOR HUGO]

:: Daniel Dennett explica o darwinismo… ::

Esta aí uma das mais hilárias (e sagazes) lições de darwinismo (e anti-criacionismo) que já tive o prazer de conhecer. O figuraça Daniel Dennett, com talento pra stand-up comedian e uma rara ousadia especulativa, sugere que  valores como “doce”, “sexy”, “engraçado” e “bonito” não possuem nada de absoluto ou independente do humano. São os nossos organismos, cada um deles fruto de eras de evolução (“to create a little flower is the labor of ages”, canta o poeta William Blake), que passaram a valorar de modo positivo ou negativo aquilo que favorece ou prejudica nossa sobrevivência e nossa capacidade de transmissão de genes. “Não há nada de intrinsecamente sexy nestas senhoritas”, explica Dennett diante de três boazudas de biquini, “e é ótimo que seja assim. Pois se não fosse, a Mãe Natureza teria um sério problema: como diabos os chimpanzés se reproduziriam?” É vero: alguém já ficou sabendo de um chimp tentando estuprar uma humana? É o que eu sempre digo: um macaco acha qualquer macaca muito mais gatinha que a Marilyn Monroe…

:: qu’elle n’ait presque rien à prendre parce que nous aurions déjà presque tout donné… (christian bobin) ::


“A sorte maior será a do autor que, na velhice, puder dizer que tudo o que nele eram pensamentos e sentimentos fecundantes, animadores, edificantes, esclarecedores, continua a viver em seus escritos, e que ele próprio já não representa senão a cinza, enquanto o fogo se salvou e em toda parte é levado adiante. (…) O pensador ou artista que guardou o melhor de si em suas obras sente uma alegria quase maldosa ao olhar seu corpo e seu espírito sendo alquebrados e destruídos pelo tempo, como se de um canto observasse um ladrão a arrombar seu cofre, sabendo que ele está vazio e que os tesouros estão salvos.” NIETZSCHE. Humano Demasiado Humano. #208 e #209.

Eu, que não tenho fé, nem sou muito chegado a otimistas esperanças, encontro conforto para a aflitiva consciência da mortalidade nesta simples mas luminosa idéia: algo pode ser salvo do nada com o providencial auxílio do Verbo. A escritura pode fazer às vezes do bote salva-vidas que arrasta à praia mais próxima o que conseguimos salvar do naufrágio. A morte seria mais tenebrosa se não houvéssemos inventado a linguagem: através dela, os tesouros podem ser salvos. Pois comunicados. Mensagens na garrafa lançadas às ondas sempre moventes do Tempo, destinadas a inimagináveis viagens e encontros. Inventamos um meio para que os mortos possam nos falar, e para que falemos com os vivos quando mortos estivermos.

Christian Bobin chega a dizer que o melhor que temos a fazer nesta vida é vivê-la na perspectiva de que ela nos será tomada, que nos foi apenas emprestada por precário tempo (morte certa, hora incerta…). Tratar de auxiliar a morte em seu serviço ao tornarmo-nos leves e despojados como quem sabe que “deste mundo nada se leva”. A sabedoria estaria numa abertura d’alma que entrega ao outro aquilo que os avaros do espírito tentam reter na prisão condenada de si mesmos, no navio indo a pique do corpo, cegos pela falsa noção de que a vida seja uma posse. Que a ceifadora não tenha quase nada a nos tomar, diz Bobin, pois tudo já estará entregue, passado adiante, tornado público, compartilhado com a comunidade dos vivos. Os que ficam e os que ainda estão por nascer.

Talvez alguns considerem trivial o consolo de que a vida pode ser efêmera mas suas obras perduráveis. Já eu, considero este o único horizonte realista de “imortalidade”. Shakespeare ainda está entre nós, apesar de seu crânio já estar mais corroído que aquele de Yorick e não restar um só neurônio daqueles que produziram tantas genialidades. O gênio esvazia seus cofres de seus tesouros e os deposita em praça pública antes que o bandido-piromaníaco-ceifador chegue para reduzir tudo a cinza e esquecimento…

Suspeito, pois, que belas produções humanas são genuínos filhos da angústia… Mortais que se afligem com a certeza de sua iminente desaparição tentando fixar em alguma forma perene aquilo que sentem ser efêmero e precário… Talvez não haja melhor escritura do que aquela de alguém que, sentindo seu barquinho encher-se de água e começar a afundar, consagra ao papel, com a urgência angustiosa dos naufragantes, aquilo que julga poder ser útil para a jornada dos que ficam sobre as ondas. Há beleza quando se é capaz desta pequena caridade, feita de despossuimento, de transfusão, de passagem de sopro de vida… Todo tesouro guardado apodrece. E todo tesouro genuíno é um tesouro compartilhado. Guardar é perder. Dar é ganhar.

“Happiness is only true when shared.” (Into The Wild)

“E que importa restar em cinzas, se a chama foi bela e alta?” (Quintana)

Naufraguemos com os cofres vazios!

:: provérbios do capeta ::

Eva morde o fruto do pecado... representação de William Blake.

Volta e meia trombo por aí, nos textos de grandes mentes filosóficas e artísticas do século 20, com citações, alusões e digressões envolvendo William Blake (1757-1827), poeta-místico-pintor-vidente com fama-de-doido e admiradores de alto-quilate (Borges entre eles) que escreveu um dos monumentos poéticos mais inebriantes que conheço: O Matrimônio do Céu e do Inferno. Tudo indica que suas “viagens” ainda são atualíssimas e que a poesia, afinal de contas, é o mais excelente dos psicodélicos legalizados. Aldous Huxley mencionava Blake com frequência quando tentava descrever suas experiências sob o efeito da mescalina, citando em várias ocasiões o verso blakeano que diz: “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito”. McLuhan, guru da Aldeia Global, era outro dos que adorava citar enigmáticas idéias de Blake para sugerir que o grande artista prepara a humanidade para mudanças de percepção e consciência sofridas com o impacto das novas tecnologias e novos psicotrópicos. Sabe-se também que Jim Morrison batizou o The Doors influenciado pelo livro de Huxley que explora as ligações entre consumo de substâncias expansoras da consciência e a obtenção da Iluminação nirvanística: The Doors Of Perception.

Abaixo, compartilho 10 dos meus “provérbios infernais” prediletos. Sintéticos, provocativos, sábios, enigmáticos… Confiram, deleitem-se e reflitam!

 

The road of excess leads to the palace of wisdom. 

Drive your cart and your plow over the bones of the dead.

Eternity is in love with the productions of time. 

The hours of folly are measur’d by the clock, but of wisdom: no clock can measure.

Excess of sorrow laughs. Excess of joy weeps.

The tygers of wrath are wiser than the horses of instruction.

He who desires but acts not, breeds pestilence.

Expect poison from the standing water.
The busy bee has no time for sorrow.
The bird a nest, the spider a web, man friendship.