:: a realidade é toda feita de pormenores ::

“Funes era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não só lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; aborrecia-o que o cão das 3:14 (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das 3:15 (visto de frente). Seu próprio rosto no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no todas as vezes. Menciona Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os tranquilos avanços da corrupção, das cáries, da fadiga. Notava os progressos da morte, da humidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente exato. Babilônia, Londres e Nova York sufocavam com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentiu o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Irineu, em seu pobre arrabalde sul-americano. Era-lhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo… (…) Suspeito, entretanto, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores…” (J. L. Borges. Ficções. || Ed. Globo || Trad. Carlos Nejar. pgs 112-113: Funes, O Memorioso)

 

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:: Le simple sentiment d’être en vie m’est une extase… ::

Emily Dickinson


CHRISTIAN BOBIN

La Dame Blanche

(Gallimard, 2007)

 

“Ses poèmes élèvent contre les marées montantes de la mort l’infranchissable muraille de la Beauté.” (p. 91)

 

O que me maravilha em Bobin é o quanto a poesia flui de sua boca com a facilidade com que um riacho desce um declive ou uma nuvem se derrama em garoa.

Não creio em gênios inatos nem em natural born killers: ninguém nasce poeta ou assassino; torna-se. Decerto. Mas há certos autores que nos dão a ilusão de serem poetas natos, e Bobin é um deles. A impressão que tenho ao lê-lo é que ele não precisa fazer força alguma para atingir a poesia: é como se ela fosse o sabor natural de sua voz, uma emanação espontânea de seu verbo. Como se escrever sem poetizar lhe fosse tão impossível quanto é para uma abelha não gerar mel ou um sol não aquecer os planetas em sua órbita.

Longe de meloso, porém, Bobin é sóbrio e sereno; sereno pois sóbrio. Ele não é intempestivo e exorbitante como um Lautréamont ou um Rimbaud, nem tem os requintes satânicos de um Baudelaire; ainda assim, é um mago da língua francesa dos mais mesmerizantes que já li.

Poeta da efemeridade de tudo, mas que acredita na eternidade do presente, Bobin é o autor de um dos mais belos pensamentos que já conheci, e um dos que mais consola da necessidade incontornável de um dia morrer: a melhor coisa que temos a fazer nesta vida, sugere docemente o poeta, é tornar a tarefa da morte muito fácil. “Que ela não tenha quase nada a levar, pois quase tudo já estará doado”. Poeta que se doa por inteiro, sem um pingo de avareza espiritual perceptível, mas que se esvazia de suas próprias belezas com a urgência melancólica com que alguém lança fora a água, aos baldes, que ameaça fazer naufragar seu barquinho…

“La mort dont nous ne savons rien posera sa main sur notre épaule dans le secret d’une chambre ou elle nous giflera dans la lumière du monde – c’est selon. Le mieux que nous puissions faire en attendant ce jour est de lui rendre sa tâche légère: qu’elle n’ait presque rien à prendre parce que nous aurions déjà presque tout donné.” (L’inesperée)

A despreocupação, para este poeta tão atento a tudo, pode ser uma virtude – e ele nos fala tranquilamente “deste paraíso infantil que nos abre a ausência de preocupações” (cet enfantin paradis que nous ouvre l’insouciance”, p. 28). E, sem temor de ser kitsch, prossegue se alegrando com a “derrota da neve e o empurrão vitorioso da primavera” (“défaite de la neige et la poussée victorieuse du printemps”, p.74)

Leva a sério a premissa de que a poesia deve ser “uma hemorragia de verdade no ventre da voz” (L’Inespérée). Mas fala mais perto do silêncio do que da verborragia. Fala não para que as palavras substituam às coisas, mas para que nos ajudem a enxergá-las, na mudeza em que existem, nuas e cruas.

Bobin tem a lucidez implacável dos melancólicos crônicos unida à radiância tranquila dos sábios.

* * * * * *

Em La Dame Blanche, um banquete poético e uma aula magna de poesia, Bobin pinta um “retrato poético” de Emily Dickinson (1830-1886), poetisa que, como ele nos confia a certo momento, ele considera “a maior do século” (o XIX). A palavra “biografia” não se aplica ao livro, porém, que não pretende ser factual, documental ou fiel aos “fatos exteriores”. Como em tantos de seus livros, Bobin faz menos descrições do que pinturas. No écran branco da página ele lança suas palavras como quem pinta no cérebro do leitor um quadro fantasmático e impressionantemente vívido. Afinal de contas, o leitor fica na indecisão: quem será mais fascinante, o biógrafo ou a biografada?

Da figura da mãe de sua biografada, Bobin nos oferece não mais que pinceladas, bastante sumárias mas sempre impressionantes. A mãe de Emily Dickinson um dia encontrou seu filhinho caçula morto dentro de seu berço. Tempos depois, perdeu dois irmãos e seu pai. “Enfim, un ano antes do nascimento de Emily, ela enterra sua mãe”. Desgraça pouca é bobagem. Um a um, rasga-lhe a morte os vínculos e, segundo Bobin, esta mãe “engendra sua filha sob o sol maculado destes lutos” (p. 38):

“Ela é como estas almas tão infelizes que mais nada as perturba. Sua indiferença assemelha-se a uma sabedoria.” (p. 47). E a melancolia da mãe não deixaria de ser transmitida, como que por uma cordão umbilical invisível, para sua filha Emily. Com uma ironia doce, Bobin brinca que “jamais agradeceremos o suficiente às mães melancólicas”, já que “sai dos olhos delas uma noite tão imensa que seus filhos se maravilham com a mais minúscula frincha de luz” (p. 41). Sobre o impacto deste “abandono” sobre a jovem poetisa em flor, Bobin sabe encontrar a expressão exata:

“D’avoir reçu le noir baptême de l’abandon a rendu Emily invulnérable comme sont les morts. Qui a tout perdu peut tout sauver. (…) Plus tarde Emily confiera avec une angélique brutalité n’avoir jamais eu de mère et ‘supposer’ qu’une mère est ‘quelqu’un vers qui vous vous tournez quand une chose vous tourmente’…” (p. 19)

* * * * *

O ÍNFIMO É SEU REINO

Emily e seus irmãos, não podendo contar com o apoio emocional de uma mãe, devastada demais pelas dores da vida para ser capaz a consolar e apoiar alguém, mesmo que fossem seus próprios rebentos, dão-se as mãos e lançam-se na aventura de atravessar semi-sós o rio turbulento da vida. Mas desde cedo a pequena Emily tem clarividência quanto à impotência humana: “quelqu’un dont la seule présence vous empêche de mourir, cela n’existe pas” (p. 42). Ter parentes jamais impediu ninguém de morrer, nem de sofrer, e uma pessoa que fosse capaz de livrar-nos da necessidade incontornável de morrer, isso… simplesmente não existe.

“Emily sait quelque chose que les autres ne savent pas. Elle sait que nous n’aimerons jamais plus d’une poignée de personnes et que cette poignée peut à tout moment être dispersée, comme les aigrettes du pissenlit, par le souffle innocent de la mort. Elle sait aussi que l’écriture est l’ange de la résurrection.” (p. 73)

Aigrettes de Pissenlit

 

 

Emily Dickinson, desde a adolescência, gostava de recitar na escuridão do quarto os versos de sua xará, Emily Brönte, como que destinados a consolar alguém em luto prévio por sua morte futura: “Il n’y a aucune place pour la mort / aucun atome qu’elle puisse anéantir…” (p.12). Consolando-se neste pensamento de que “não há nenhum átomo que a morte possa nadificar”, descobrindo na fragilidade das coisas a força do “anjo da ressurreição” encarnado pela escritura, ela faz do ínfimo o seu reino. Contempla o cotidiano sub specie aeternitatis, ao modo spinozista. “L’infime est son royaume”, canta Bobin. “Elle contemple le ciel à travers le vitrail des ailes d’une libellule…” (p. 31).

* * * * *

O ÊXTASE DE ESTAR VIVO

O poeta, sugere Bobin, é aquele dotado de uma extra-ordinária consciência da vida, de estar vivo, do quão misterioso é viver… A poesia não é somente um modo de brincar com as palavras, de montar e desmontar os tijolinhos deste grande parque de diversões do Verbo… a poesia é um modo de estar-no-mundo. Emily Dickinson, a “santa do banal”, reclusa detrás de seus véus e vestidos brancos, sustentava que “o simples sentimento de estar viva é-me um êxtase…”. Poesia em estado puro: mais vivida do que escrita.

“À la naissance quelque chose est donné à chaque nouveau-né. Cette chose n’est rien. Elle n’a pas de forme, pas de nom, aucun prestige. Elle est notre seul bien. On l’entrevoit par éclair. ‘Le simple sentiment d’être en vie m’est une extase’ (Emily Dickinson). Cette fleur blanche du rien qui par instants s’ouvre dans le couer rouge, c’est la fleur commune des saints. Elle ne fane jamais. Etre saint c’est être vivant. Etre vivant c’est être soi, seul dans genre.” (p. 53)

Idiossincrática, peculiar e estranha foi a vida, extremamente reclusa e discreta, que levou Emily Dickinson. Os psiquiatras de hoje a tascariam o rótulo de alguma psicopatologia como “sociopatia” ou “agorafobia”, mas Bobin, outro autor que vive recluso em sua cabana na floresta, sabe da estupidez de tentar descrever um destino tão único com um predicado geral. Como já havia demonstrado em outros livros — como Louise Amour ou La Femme à Femir — Bobin demonstra em La Dame Blanche que adora centrar sua atenção sobre as vidas “tímidas, lentas e silenciosas”, como a de Emily Dickinson, que só raramente se deparam com “a ocasião inesperada de engrandecer através do amor a luminosa dor de viver” (“l’occasion inespérée d’agrandir par un amour la lumineuse douleur de vivre”, p. 95). Fascina-se com estas vidas, como as de Kafka (que mandou que queimassem todos os seus livros) ou Rimbaud (que escreveu quase tudo que o fez um dos maiores poetas da história da França antes dos 20 anos, para depois “sumir no mundo”), criaturas que parecem ter uma necessidade vital da escritura mesclada com um intenso desejo de “fazerem-se esquecer”:

“À la même époque òu elle revêt sa robe blanche, Rimbaud, avec la négligence furieuse de la jeunesse, abandonne son livre féerique dans la cave d’un imprimeur ef fuit vers l’Orient hébété. Sous le soleil clouté d’Arabie et dans la chambre interdite d’Amherst, les deux ascétiques amants de la beauté travaillent à se faire oublier.” (p. 97)

Emily Dickinson é uma “alma que se sente exilada no mundo”, sugere Bobin, e cuja voz é precipitada, sem fôlego, como o canto de um “anjo asmático” que gagueja sua “boa nova” persuadida de que não será compreendida.

“La voix d’Emily – celle qui sort du sarcophage doré d’un poème au moment de l’ouverture – est une voix précipitée, comme de quelqu’un qui accout vers nous de si loin qu’il arrive hors d’haleine. Beaucoup de tirets et de condensations: la voix d’un ange asthmatique, ou celle d’une petite fille porteuse d’une nouvelle si incroyable que tous les mots se bousculent dans sa bouche, tant elle est persuadée que nous ne l’entendrons pas.” (p. 81)

Fechando-se em seu ermitério por um quarto-de-século, Emily comunicava-se mais através das flores e dos poemas do que das carícias e dos sorrisos. Esclarecedora anedota que nos conta Bobin:

“Quand de vieilles dames du quartier l’appellent dans son jardin pour la saluer, elle leur fait porter, toujours sur un plateau d’argent, une fleur ou un poème à sa place. Une fleur ou un poème car chacun de ces ambassadeurs, l’un par sa nostalgie de la lumière, l’autre par sa science du bref et du vif, représent parfaitement cette âme em exil.” (p. 80)

É que nem sempre tem-se a sorte de encontrar dentre o círculo de conhecidos aqueles que partilham conosco a mesma visão de mundo: busca difícil, muitas vezes frustrada, mas recompensadora como um êxtase ao ser conquistada… É o que Bobin tão bem sabe expressar:

“Il n’y a pas de plus grande joie que de connaître quelqu’un qui voit le même monde que nous. C’est comme apprende que l’on n’était pas fou. (…) Rencontrer quelqu’un, le rencontrer vraiment – et non simplement bavarder comme si personne ne devait mourir un jour -, est une chose infiniment rare. La substance inaltérable de l’amour est l’intelligence partagée de la vie.”

:: 2011… I Cheer Ya! ::



“Dans le bleu de cette beauté vous devinez le noir òu elle s’abîmera bientôt, et vous trouvez dans cette vie conjugale du bleu et du noir l’unique leçon de choses qui vous convienne, la preuve d’une excellence de cette vie òu tous nous est donné à chaque instant, le bleu avec le noir, la force avec la blessure. La seule tristesse qui se rencontre dans cette vie vient de notre incapacité à la recevoir sans l’assombrir par le sentiment que quelque chose en elle nous est dû: rien ne nous est dû dans cette vie, pas même l’innocence d’un ciel bleu. Le grand art est l’art de remercier pour l’abondance à chaque instant donnée.” —- CHRISTIAN BOBIN. L’Inesperée


2011 começa. Todo ano é novo, e este não vai fugir à regra. Mas alguns anos são mais novos que os outros, e este promete ser destes: ano novidadeiro, cheio dos ineditismos, e espero que benignos e risonhos, em sua maioria, ainda que eu viva já de sobre-aviso contra os temporais da melancolia… Já trago no coldre o guarda-chuvinha e a certeza consoladora de que todo aguaceiro passa. Uma das maiores vantagens de ter atravessado tormentas é saber que elas são tão efêmeras quanto as bonanças, e que isso é uma boa nova – ou ao menos assim me parece. A efemeridade de tudo não é razão para prantearmos sem fim que nada dure. É também uma excelente razão para não nos angustiarmos muito com nossas angústias, nem reclamarmos muito de nossas dores, já que cedo ou tarde, sem grilo, elas se mandam. Inda mais rápido se vão quando estamos em boa companhia, como é o caso neste ano que me alvorece muito luminoso neste quesito…

Planos, projetos, promessas, fi-los poucos. Não sou supersticioso de achar que virada de ano vira tudo. Não acredito que o reveillon seja milagreiro: o planeta prossegue em seus rodopios ao redor do Sol, pelo salão de dança imenso do espaço, sem que nada nas proximidades pareça dar a mínima para a vida humana. Em alguns milhões de anos-luz de nossa vizinhança galáctica, não parece haver consciência que nos testemunhe, divindade que nos observe e vigie, companhia extra-terráquea que nos visite e contacte… O que acabamos tendo é este pouco e este tudo: uns aos outros.

Nós, aqui, criaturinhas misteriosas e desnorteadas bebaixo do silêncio das estrelas — elas que jamais me sorriram, ainda que eu com frequência sorria observando-as, em minha miudeza, à distância, por vezes tentando me enganar que me dão de suas piscadelas… Mas não: não espero graças dos céus, mas também não desespero de achar muita graça nesta vida sub-lunar, a única que conheço e que amo. Que outros sonhem com o céu, estão em seu direito. Eu só posso viver sobre o lombo de um planeta, e enxergar no céu apenas os gases da atmosfera, e além deles o célebre “silence éternel” de que Pascal tanto se queixa. Não, não posso crer que a vida seja obra divina, mas isto não a impede de ser fascinantemente bizarra em sua corredeira perpétua, na novidade absoluta de cada um de seus segundos… É verdade que o cosmos ao redor não parece dar uma merreca para o fato de vivermos ou morrermos, mas isto não impede nós, os vivos, de estarmos em assombro absoluto diante da imensidão de tudo.

O ano entrou, e como já me é de praxe, não rezei para deuses ou anjos em quê não acredito, nem pedi dos céus graças que sei que ele não choverá, de graça, sobre minha sortuda carcaça. Aprendi a contar somente com o humano, e não vejo outra solução, nem outra delícia, que esta. Não quero depender da sorte e jamais faço aquela fézinha na loteria. Prefiro viver desesperançado do que viver trôpego, tropicando nos fiascos de minhas fantasias. Pois viver de esperança é tropicar em frustração, vida afora, só no tombo e no capote. Prefiro o pé no chão sóbrio de quem dá um passo por vez, sem avoação ou correria, sem estrela-guia senão a ânsia de amor e sabedoria.

2011 começa com minha vida de roupa mudada, em novo domicílio, rodeada por um outro cenário, iluminada como nunca dantes pelo doce acalanto de uma presença amada. Cotidiana benesse que há de tornar o declive dos dias mais suaves. Hei de deslizar pela vida de modo menos travado, mais líquido, fluindo melhor, como só conseguem os desencouraçados, os que só navegam tendo amor no horizonte… E não o pavor das ondas que submergem. O que eu gostaria, barquinho da minha vida, de frágeis tábuas boiando efêmeras sobre os revoltos mares do tempo, é um pouco de navegar suave, de nuvens claras, de angústias poucas. Smooth sailing. Quero curtir a viagem enquanto ela se desenrola ao invés de chorar por antecipação ao antever minha barcola, destroçada pelos vendaçais da morte, indo atracar aos destroços na praia do esquecimento… Quero viagem solar, sem que me assolem pensamentos sombrios nem pressentimentos funéreos. Que o sol que brilha nos olhos dela seja o que me agasalha, e que o sorriso nos meus olhos diante do beleza dela também a agasalhe, enquanto atravessamos juntos, remos unidos, forças somadas, as insondáveis correntezas do futuro…

My love: like a bridge over troubled waters I will lay me down…

 


:: Italian For Dummies II (ou Considero Valore…) ::

Erri de Luca, poeta italiano

Valore

Considero valore ogni forma di vita, la neve, la fragola, la mosca.
Considero valore il regno minerale, l’assemblea delle stelle.
Considero valore il vino finché dura il pasto,un sorriso involontario,
la stanchezza di chi non si è risparmiato, due vecchi che si amano.
Considero valore quello che domani non varrà più niente e quello
che oggi vale ancora poco.
Considero valore tutte le ferite.
Considero valore risparmiare acqua, riparare un paio di scarpe,
tacere in tempo, accorrere a un grido, chiedere permesso prima di sedersi,
provare gratitudine senza ricordare di che.
Considero valore sapere in una stanza dov’è il nord,
qual è il nome del vento che sta asciugando il bucato.
Considero valore il viaggio del vagabondo, la clausura della monaca,
la pazienza del condannato, qualunque colpa sia.
Considero valore l’uso del verbo amare e l’ipotesi che esista un creatore.
Molti di questi valori non ho conosciuto.

(Erri De Luca, Opera sull’acqua e altre poesie, Einaudi, 2002)

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1399814

http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=244501

 

:: “O Inimigo”, Charles Baudelaire (versão trilíngue) ::

L’Ennemi

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu’il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l’eau creuse des trous grands comme des tombeaux.

Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?

— Ô douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie!

— Charles Baudelaire

The Enemy

My youth has been nothing but a tenebrous storm,
Pierced now and then by rays of brilliant sunshine;
Thunder and rain have wrought so much havoc
That very few ripe fruits remain in my garden.

I have already reached the autumn of the mind,
And I must set to work with the spade and the rake
To gather back the inundated soil
In which the rain digs holes as big as graves.

And who knows whether the new flowers I dream of
Will find in this earth washed bare like the strand,
The mystic aliment that would give them vigor?

Alas! Alas! Time eats away our lives,
And the hidden Enemy who gnaws at our hearts
Grows by drawing strength from the blood we lose!

— William Aggeler, The Flowers of Evil (Fresno, CA: Academy Library Guild, 1954)

O INIMIGO

A juventude não foi mais que um temporal,
Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
As chuvas e os trovões causaram dano tal
Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.

Eis que alcancei o outono de meu pensamento,
E agora o ancinho e a pá se fazem necessários
Para outra vez compor o solo lamacento,
Onde profundas covas se abrem como ossários

E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia
Hão de achar nessa gleba aguada como praia
O místico alimento que as fará vigorosas?

Ó dor! Ó dor! O tempo faz da vida uma carniça,
E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas
No sangue que perdemos se enraíza e viça!

(aqui.)