:: “nos sabemos de cor, rosto e relevos…” ::

Viena!


Desenvolturas

Nós nos queremos bem: ah que derrama,
que hemorragia de sentimentos!
Irmãos! Que almas transparentes temos!
O chão nos foge sob os pés, tão leve.
Podemos nos olhar pelos avessos
que é tudo luz. O bem que nos queremos
nos santifica até aos intestinos.
Que vísceras de vidro! Que evidência!
Meu pênis se eletriza – é uma travessão! Um hífen!
Um traço-de-união entre duas almas
tão juntas, tão aninhadinhas
uma na outra que dá gosto e enlevos.
Nos sabemos de cor, rosto e relevos.
Tudo nos dança: umas forforescências
embevecidas lambem nossos beiços
e um simples esplendor nos satisfaz!

RUBENS RODRIGUES TORRES FILHO [+]
O Vôo Circunflexo, 1981 [+]

Aproveito pra recomendar também outra obra bacanuda do mesmo autor,  “Ensaios de Filosofia Ilustrada”, pepita saborosa pra quem aprecia uma mescla de filosofia e poesia, reflexão e devaneio… No prefácio, Mestra Marilena diz belamente:

“Provocaria riso alguém que perguntasse por que há matemáticos ou engenheiros. Posto que há teoremas e viadutos, impossível seria não haver seus construtores. A serena evidência que os cerca irradia-se da existência irrecusável de seus objetos, ainda que o teorema seja indecidível e o viaduto intransitável. Pergunta-se, porém, com seriedade “por que filósofo?”. Por equívoco e perplexidade, responde Rubens Rodrigues Torres.

O nome “filósofo”, escreve o autor, longe de outorgar identidade ao seu portador – não podemos falar dessa personagem como quem diz sociólogo, psicólogo ou químico – singela e inquietantemente é apelo à lembrança de um duplo exílio. Filósofo designa-se pelo negativo, exilado tanto das ciências positivas quanto da Sophia. Entre a presunção (que pode fazer do sophos mero sofisma) e a modéstia (hoje parece haver apenas professores de filosofia), o exílio não exime e sim exige a busca.” — MARILENA CHAUÍ

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Ser pai de três bloguitos dá um trampo do danado.  Mas encaro de bom grado, feliz da vida de ter uma grande ninhada na blogosfera.  E tenho feito o possível pra manter a filharada toda bem alimentada. Em breve, pretendo criar um “Portal Depredando”, mais profissa e menos ilícito, ponto-com e tudo — mas sobre isto falo mais outro dia, quando a coisa for mais concreta. Por hora, quero convidar a meia-dúzia de hóspedes desta Casa de Vidro a darem um pulo no Depredando o Cinema, blog irmão d’Orelhão, onde venho me exercitando na crítica de cinema (ou “filosofagem viajandona em cima de filmes”) desde o começo do ano. Estes dias me debrucei sobre Into The Wild – Na Natureza Selvagem, filme queridíssimo pra mim, que narra a vida de Chris McCandless, vulgo Alexander Supertramp, rebelde-aventureiro-hippongo que embarcou numa jornada espiritual-filosófica-geográfica das mais inusitadas e comoventes. Pra mim, é o maior de todos os road movies (Easy Rider que me perdoe!) e dá pano pra muita manga filosófica… Colem lá, confiram e digam o que acharam! Abs.

:: As I Walked Out One Evening ::


As I Walked Out One Evening
by W. H. Auden


As I walked out one evening,
Walking down Bristol Street,
The crowds upon the pavement
Were fields of harvest wheat.

And down by the brimming river
I heard a lover sing
Under an arch of the railway:
‘Love has no ending.

‘I’ll love you, dear, I’ll love you
Till China and Africa meet,
And the river jumps over the mountain
And the salmon sing in the street,

‘I’ll love you till the ocean
Is folded and hung up to dry
And the seven stars go squawking
Like geese about the sky.

‘The years shall run like rabbits,
For in my arms I hold
The Flower of the Ages,
And the first love of the world.’

But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
‘O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.

‘In the burrows of the Nightmare
Where Justice naked is,
Time watches from the shadow
And coughs when you would kiss.

‘In headaches and in worry
Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or to-day.

‘Into many a green valley
Drifts the appalling snow;
Time breaks the threaded dances
And the diver’s brilliant bow.

‘O plunge your hands in water,
Plunge them in up to the wrist;
Stare, stare in the basin
And wonder what you’ve missed.

‘The glacier knocks in the cupboard,
The desert sighs in the bed,
And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead.

‘Where the beggars raffle the banknotes
And the Giant is enchanting to Jack,
And the Lily-white Boy is a Roarer,
And Jill goes down on her back.

‘O look, look in the mirror,
O look in your distress:
Life remains a blessing
Although you cannot bless.

‘O stand, stand at the window
As the tears scald and start;
You shall love your crooked neighbour
With your crooked heart.’

It was late, late in the evening,
The lovers they were gone;
The clocks had ceased their chiming,
And the deep river ran on.