:: poeminha à la caeiro ::

Mirò

:: O VALOR DO PASSO ::

“Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exatamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.” — ALBERTO CAEIRO


Caminho por beiras-de-mar descalço,
deixando as línguas das marés
beijarem meus pés.

Despreocupado com as pegadas
que assim que imprimo sobre a terra,
as águas apagam…

Não vou para que me sigam.

Caminho de curioso, de olhos pasmos.
Que a trilha dê em nada, em abismo, em mata fechada,
não me estraga em nada a minha jornada.

Vou, não para chegar, mas para ir.

E não temo retornar sobre meus passos:
serão, na volta, passos novos,
diferentes dos da vinda.

E também o mar, o Sol, meus pés,
já não serão os mesmos:
cada instante brilha de ineditismo.

O valor do passo não está no rastro.

Está no passo.

* * * * *

Quanta poesia já nasceu de passos vagabundos!
E pesquisem quantos carteiros são poetas: não sei de nenhum.
(A não ser os que são carteiros das próprias cartas de amor.)
É que seus passos são demasiado ordeiros:
passos de carneiro, os de carteiro, e não de poeta…

Andar à toa, no esmo das internas marés, é fecundo.

Não é preciso ir a lugar algum.
O que é preciso é se estar onde se está.

Presente à presença:
prestrando testemunho.
Ainda que seja mudo.
Olhos em espanto.

Melhor do que fitar horizontes
Com olhar de insaciável desejo
É saber amar cada um dos mares
Que vão sendo singrados e transpostos.

Pois talvez a felicidade não consista
Em atingir-se o hoje fora-de-alcance
Mas no alegrar-se de alma inteira
Com o ter alcançado o que hoje tem-se.

O valor do passo não está no rastro.

Está no passo.

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

3 pensamentos sobre “:: poeminha à la caeiro ::

  1. Rodrigo disse:

    Cacete, Eduardo!
    Muito bom: mestre Caeiro estaria contente…

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  2. […] de partida, ao invés de fazê-lo progredir numa trilha que conduza a algum lugar. Não estava pensando como poeta… Depois pensei no quão absurdo é o fato do próprio Planeta Terra estar dançando pelo […]

    Curtir

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