C O N F L U Ê N C I A S – Festival de Artes Integradas. Uma produção A Casa de Vidro. [Site Oficial]

C O N F L U Ê N C I A S

  1. HORIZONTES EXPANDIDOS

Na definição adotada pela UNESCO (a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), CULTURA é “o conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos, que caracterizam uma sociedade ou um grupo social” e engloba “as artes, as letras, os modos de vida, os direitos fundamentais ao ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças.” (UNESCODeclaração da Cidade do México, 1982)

Se pensarmos no Brasil, país de dimensões gigantescas e imensa diversidade de manifestações culturais, podemos ter certeza: a multiplicidade polifônica de nossa cultura, absolutamente ímpar no cenário global, tem em sua diversidade seu maior valor, mérito e virtude. Como indicam Risério e Gil, no livro O Poético e o Político: 

“Brasil é um curto-circuito antropológico: uma aventura de etnias e culturas em rotação, em conflito e em mestiçagem permanente, dos tempos coloniais aos tempos televisuais, quando nos dispomos a investir do Oiapoque ao Chuí… Somos um país de muitas cores, nuanças e matizes. Não podemos falar em democracia brasileira sem uma consciência radical (no sentido etimológico da expressão) destas diversidades.” (RISÉRIO; GIL, 1994)

É com este conceito ampliado de cultura que temos a responsabilidade, o desafio e a promessa de trabalhar. O que nos exige pensar em uma cultura do respeito e do fomento à sociobiodiversidade, conceito que também norteia as práticas do Encontro de Culturas desde 2001.

Desejamos integrar artistas e público em festivais onde estejam presentes linguagens múltiplas e diversas interações transversais. Nosso intuito é contribuir para catalisar um movimento cultural que esteja sempre devotado às confluências e convergências, aos horizontes sempre expandidos, nunca ao apartheid ou ao conservadorismo paralítico.

Neste contexto, é muito significativa a lição de Rachel Gadelha, quando esta aponta que a gestão pública da Cultura durante os governos Lula e Dilma (2003 a 2016), em especial nos períodos em que Gilberto Gil e Juca Ferreira encabeçavam o Ministério da Cultura (MinC), ficou marcada por:

“Políticas públicas que passaram a ser elaboradas a partir de uma visão transversal, abordando suas interfaces com demais setores – Economia, Política, Turismo, Tecnologia e Comércio -, requerendo atores mais qualificados e com visão multidisciplinar.

(…) Essa perspectiva inédita possibilitou uma retomada do papel intervencionista do Estado e a reestruturação institucional do Ministério da Cultura (MinC), que criou secretarias e programas para atender as novas áreas culturais, por meio de processos de construção de políticas culturais mais democráticas. A cultura passou a ser percebida e publicizada como importante instrumento de inclusão social, cidadania e desenvolvimento. A ênfase saía do mercado – o que até então prevalecia na política cultural brasileira – para o social, com programas e ações direcionados a todos os cantos e recantos do Brasil.” (GADELHA, Raquel. Pg. 18 e 133)

2. A ARTE DO CONVÍVIO NA DIVERSIDADE

Jornal Diário da Manhã – “A ARTE DE CONFLUIR” – por Walacy Neto (24 de Setembro de 2017)

É neste contexto que pretende integrar-se o “Confluências: Festival de Artes Integradas”, que nasce com a proposta de contribuir para o intercâmbio intercultural, buscando reunir as tribos e propiciar encontros entre criadores e apreciadores das múltiplas vertentes artísticas.

Os eventos do festival visam congregar música, performances, poesia, artes visuais, dança, teatro, cinema, dentre outras expressões artísticas, convivendo e interfecundando-se no mesmo espaço. Artistas e público, em posições cambiáveis, podem assim conviver num território fluido de criação e experimentação.

“CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas”, 2a edição, ocorrido na Evoé Café Com Livros, em 26/02/2016, com as atrações: Luiza Camilo, Cocada Preta, Lua Plaza, Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros.

Para contribuir com a experiência sensorial e estética do público presente, ofereceremos diversas opções de fruição artística: o cidadão pode optar por assistir uma mostra audiovisual, uma peça de teatro, uma exposição de pinturas ou fotografias, um show musical, uma performance de dança, um sarau de poesia etc. Confluências visa, assim, fortalecer a integração entre artistas de diversas áreas e ajudar na formação de um público que se interesse por várias linguagens de expressão.

Enfatizamos que daremos preferência, no processo de curadoria, aos artistas que não tem presença na mídia de massas, possuindo atuação em um mercado alternativo e vinculado a ramos econômicos minoritários, de economia criativa e digital. Desejamos oferecer um rico panorama da produção artística alternativa e autoral.

O Festival compreende a cultura em sentido ampliado, tal como proposto por Gilberto Gil e Juca Ferreira (cf. A Cultura Pela Palavra). Não podemos desvincular os agentes culturais de todo um contexto sócio-político em que desejamos colaborar com a emergência de uma sociedade mais acolhedora da multiplicidade, da diversidade, do colorido humano que lhe é intrínseco. “A pluralidade é a lei da Terra”, como disse a filósofa Hannah Arendt.

“O espírito que anima a cidadania e o cidadão, que mantém a chama da auto-estima viva e irradiante, para dentro e para além de nós mesmos, chama-se Cultura.” – GILBERTO GIL, Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal (Brasília, 20 de maio de 2003)

Neste sentido é que o Confluências, sem praticar nenhuma segregação em relação a gêneros musicais, tem predileção por dar voz àquelas que cotidianamente não possuem essa voz nos meios midiáticos hegemônicos.

Acreditamos na imensa importância do trabalho dos produtores ou gestores culturais, figuras muitas vezes sub-reconhecidas pois atuam no backstage, e não sobem ao palco. Segundo BARROS, este profissional “é uma espécie de roteador de informações alternativas e possibilidades dinâmicas de construção de cenários prováveis, mas também de cenários utópicos” (p. 26).

Confluências possui essa visada utópica: a vontade de instaurar, no espaço-tempo do festival, uma interatividade intensa entre agentes culturais especializados em diferentes linguagens expressivas. Para emprestar uma expressão de Antônio Risério, nosso horizonte é o padê e não o apartheid.

Não queremos reproduzir táticas de segregação no âmbito das artes, nem instituir hierarquias que viessem decretar que a música importa mais que o cinema, ou que a literatura é “alta cultura” enquanto o rap, o grafite e o breakdance (expressões da cultura hip hop) seria “cultura baixa”.

Outras iniciativas semelhantes à nossa vem marcando o cenário de festivais nos âmbito local, nacional e internacional. Em Goiânia, a noção de festival de artes integradas é abraçada pelo Juriti, festival competitivo que premia artistas em duas categorias: música e poesia encenada. Em âmbito nacional, o Psicodália (SC) envolve uma série de atrações culturais que transcendem os shows musicais.

Internacionalmente, eventos como o Festival da Candelária no Lago Titicaca (Puno, Peru), o Festival de Jazz de Montréal (Québec, Canadá) ou o Fiesta de la Confluencia de Neuquén (Patagônia, Argentina) também envolvem manifestações artísticas das mais variadas.

No caso deste último exemplo, o festival argentino Fiesta de la Confluencia, que compartilha conosco o nome de batismo, também tem afinidades com o nosso Confluências pela afirmação da importância crucial da cultura e dos patrimônios intangíveis para forjar as identidades e horizontes dos povos:

“La cultura es el alimento que nutre y mantiene vivos a los pueblos, fortaleciendo su identidad y forjando su propia historia. Las Fiestas Populares son el fiel reflejo de la cultura. El legado de los ancestros, las creencias y las tradiciones se viven y se sienten en cada celebración.

Las Fiestas Populares neuquinas constituyen un patrimonio intangible invaluable: la música, la danza, la cocina y la artesanía regional, fluyen como en torrente acrisolado entre lo originario y lo contemporáneo y nos transportan hacia lo más profundo de los pueblos y hacia el alma misma de cada habitante.” (Via Neuquén Es Tu Destino)

Em nosso horizonte, os valores que nos norteiam fortemente são a inclusão social; reconhecimento e afirmação da pluralidade identitária e étnica; combate e reparação a práticas discriminatórias e racistas; incentivo a práticas sustentáveis, com a escolha de medidas de reciclagem, agroecologia e amplas opções para adeptos do veganismo e vegetarianismo, além de plena acessibilidade para pessoas com necessidades especiais.

Dentro do festival, propomos também uma série de oficinas, rodas de conversa, palcos abertos. Além disso, uma equipe de cobertura audiovisual estará durante todo o evento gravando entrevistas com a platéia para gerar material para documentários.

Confluências não se encerra nunca, segue fluindo. Cada edição é uma stepping stone para a próxima, num fluxo ininterrupto, numa caravana sem fim da criatividade humana em processo de auto-produção, auto-poiésis.

No entanto, para que essa frutífera integração entre as artes, esta convergência de múltiplas linguagens e este convívio na diversidade possa se dar, é essencial o reconhecimento mais intenso e pleno do trabalho deste profissional ainda subrepresentado, subremunerado e invisibilidade – o produtor cultural. Como ensina Claudino Ferreira, a figura do produtor cultural, também conhecido como gestor cultural ou intermediário, é crucial:

“Estes agentes desempenham um papel duplamente vital no circuito cultural: agilizam a ligação entre criadores e públicos, ao mesmo tempo em que concorrem para os processos de construção e consagração das carreiras e das obras dos criadores.

A este duplo papel poder-se-á acrescentar um terceiro, que aparentemente se manifesta de forma particularmente intensa nos mundos da arte e da cultura mais mercantilizados e industrializados: o de interferirem substantivamente no processo e nos conteúdos da criação e da produção cultural.

(…) O alargamento e a complexificação dos circuitos por onde transitam as artes e as diversas formas de cultura e o seu permanente entrecruzamento com outros circuitos de ação tornam, na verdade, o papel dos intermediários mais cruciais do que nunca e merecedor de uma atenção sociológica mais abrangente, já que é da sua ação que dependem, em larga medida, a natureza e os efeitos desses entrecruzamentos.” (FERREIRA, 2002, p. 4 e 6)

ASSISTA AO DOCUMENTÁRIO DO CONFLUÊNCIAS:

BIBLIOGRAFIA

BARROS, José Martins. Mercado de Trabalho em mutação: gestão cultural e formação profissional. In: I Seminário Internacional de Gestão Cultural, 4 a 7 de novembro de 2008. Belo Horizonte, Duo, 2008.

GADELHA, RachelProdução Cultural. Armazém Cultural, Fortaleza / CE, 2015.

FERREIRA, ClaudinoIntermediação Cultural e Grandes Eventos. Coimbra, 2002.

GIL, Gilberto; FERREIRA, JucaCultura Pela Palavra. Versal, Rio de Janeiro / RJ, 2013.

RISÉRIO, Antonio; GIL; GilbertoO Poético e o Político. Ed. Paz e Terra, pg 34 a 39

UNESCODeclaração da Cidade do México, 1982.

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CONFLUÊNCIAS – Confira o que já rolou nas 5 edições prévias do evento:

1ª EDIÇÃO – Arte ReXistente >>> https://wp.me/pNVMz-3t6
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2ª EDIÇÃO – Bloco das Bacantes >>> https://wp.me/pNVMz-3Bi
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3ª EDIÇÃO – https://wp.me/pNVMz-3Gx
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4ª EDIÇÃOhttps://wp.me/pNVMz-3Rz / COLETÂNEA: https://wp.me/pNVMz-3S4
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5ª EDIÇÃO – https://wp.me/pNVMz-42B
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VÍDEOS:

KESLEY

ADRIEL VINÍCIUS E VITOR HUGO LEMES

O CAMINHO DO CERRADO

CHÁ DE GIM

DIEGO MASCATE

DISTOPPIA

COCADA CORAL

CAMILO

MORGANA

MANOEL, URI, SIQUEIRA