O Petróleo do Pré-Sal e as Hidrelétricas Amazônicas: Dois Projetos de Reportagem Abortados

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Durante as últimas semanas, mergulhei de cabeça nas pesquisas, analógicas e digitais, on e off line, sobre dois temas essenciais para o Brasil de hoje e para o planeta de amanhã. A Agência Pública de Jornalismo Investigativo e o Greenpeace estavam oferecendo microbolsas de R$5.000 para realização de grandes reportagens sobre os meandros e veredas da produção de energia em terra brasilis. Abaixo, compartilho as duas pautas que apresentei a eles na esperança de ser agraciado com uma das bolsas. Não fui um dos 4 selecionados, e eis-me aqui restituído à melancolia do desemprego; mas ao invés de engavetar esse material, escondendo-o nos armários do fracasso junto com milhares de outros papéis cuja brancura eu ousei profanar, preferi postar as pautas neste blog transparente e despoluído ( e que não vale um puto na bolsa de valores… ). Fica aí como uma espécie de monumento-em-escombros, dedicado a algo que eu planejei realizar mas que não terá verbas para deixar o mundo platônico das ideias inúteis  tão cedo… A serventia disso, acredito, é pouca mas não nula: com estes planos de reportagem, procurei compartilhar um pouco das informações mais estarrecedoras que andei descobrindo, e cuja relevância prossigo acreditando imensa. Agradeço ao companheiro Rodrigo Gomes Lobo, poeta-jornalista-antropólogo-e-muito-mais, que estava topando embarcar comigo nessa jornada em busca das verdades infames sobre o pré-sal e sobre as barragens hidrelétricas amazônicas. A vontade de expandir nossa amizade para abarcar uma parceria de trabalho prossegue viva e, oxalá, apenas adiada.

Eis aí o que não vai ser:

Fossil Fuel

 

 CONCURSO DE MICROBOLSAS – GREENPEACE & PÚBLICA

MUITO ALÉM DO DINHEIRO: OS CUSTOS SOCIOAMBIENTAIS DO PRÉ-SAL

* Resumo da proposta

Propomos investigar várias vozes que argumentam pelo fim da era dos combustíveis fósseis. Ofereceremos um quadro geral das controvérsias a respeito dos impactos socioambientais do projeto energético do pré-sal em nossa era de aquecimento global.

* Pré-Apuração. Explique o que você já apurou sobre a pauta e por que ela é relevante. Deve conter pesquisa inicial, contexto e relevância (Máximo 4 mil caracteres)

Nas profundezas do oceano, com 800km2 de extensão e 200km2 de largura, jaz a “província do pré-sal”. As reservas valem trilhões de dólares no mercado internacional e a produção atual já ultrapassa os 500 mil barris por dia (http://bit.ly/1sEkeu7). O relatório “Point of No Return” do Greenpeace, classifica-o entre os 14 maiores projetos de energia “suja” hoje em curso no planeta. Se todos esses mega-empreendimentos extrativistas e poluidores seguirem em frente, avalia-se que a média das temperaturas globais vai subir entre 4º e 6º C neste século.

Em entrevista concedida a Eliane Brum, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro criticou o status quo político no Brasil por sua incapacidade de enxergar o pré-sal no contexto do planeta – entendido como “a casa das espécies” (http://bit.ly/1vpFf0H). Segundo Viveiros, o pré-sal não é meramente uma oportunidade comercial para que o Brasil faça fortuna e acarretará efeitos socioambientais que vão muito além do dinheiro. Longe de ser algo de interesse local, o pré-sal é um problema para o planeta. Em tom similar, o deputado federal Chico Alencar sustenta que “cada vez mais somos tripulantes de uma nave comum ameaçada que é a Mãe-Terra.” (http://bit.ly/1tGGnIu)

Como alertam o IPCC e as Cúpulas do Clima da ONU, há alarmantes índices de CO2 já na atmosfera e as emissões prosseguem muito acima do recomendável. Há evidências empíricas da crise ecológica global em profusão: queda brutal da biodiversidade, derretimento das calotas polares, ascensão dos eventos de disrupção climática (como aqueles documentados em “Disruption”: http://bit.ly/1xhiXRk).

Estamos presenciando também crescentes mobilizações de ativistas e ONGs que militam em prol de um “futuro verde”, o que atingiu seu ápice na People’s Climate March 2014 (Mídia Ninja: http://bit.ly/1pIO4xl). Uma das principais demandas deste recente ecoativismo é o fim da hegemonia das corporações de petróleo, carvão e gás natural. As ruas bradaram um “chega!”, por exemplo, ao cartel das Sete Irmãs (http://bit.ly/1unDilz), aos crimes da Shell na Nigéria, aos derramamentos tóxicos cancerígenos da Texaco no Equador e da British Petroleum no Golfo do México. Afinal de contas, como aponta reportagem do The Guardian (http://bit.ly/1gCaHA0), 90 corporações (a imensa maioria delas do setor energético) são responsáveis por mais de 2/3 de todas as emissões de gases de efeito estufa.

Julgamos relevante, através da realização deste projeto em parceria com a Pública e o Greenpeace, dar voz àqueles que, no Brasil, diante dos ecocídios, levantam-se em resistência organizada para constituir um movimento global em defesa da biosfera. Queremos materializar em uma grande reportagem (ricamente ilustrada) e em um documentário curta-metragem algumas das manifestações brasileiras desta efervescência global de ativismo, já analisada por Naomi Klein em seu livro This Changes Everything (http://bit.ly/VEOtIc).

Propomos investigar e comunicar ao leitor/espectador várias vozes que argumentam pelo fim da era dos combustíveis fósseis. Um painel de argumentos e opiniões colhidos entre ecosocialistas, antropólogos, climatologistas, midiativistas e militantes. Figuras como Alexandre Araújo Costa, que sustenta: “A exploração das últimas reservas fósseis (o que inclui o pré-sal brasileiro) é absolutamente incompatível com qualquer perspectiva mínima de manter o sistema climático sob limites precariamente seguros. (…) É preciso parar de crescer e desacelerar a locomotiva tresloucada do capital, arrancando a riqueza diretamente do punhado de bilionários que a controla.” (http://bit.ly/1qDQ0aK)

As perguntas norteadoras deste projeto podem ser: “Em que mundo irão viver as futuras gerações (inclusive as não-humanas) caso as reservas de petróleo hoje conhecidas, inclusive o pré-sal, sejam queimadas? Que tipo de amanhã estamos legando à Teia da Vida (para usar a célebre expressão de Chief Seattle: http://bit.ly/1v4hIEM)? Há mundo por vir?”

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Tapajos2

PAUTA 2:

OS HERÓIS ANÔNIMOS DA RESISTÊNCIA AMAZÔNICA CONTRA AS BARRAGENS

Resumo da proposta

Propomos dar voz aos povos indígenas e ribeirinhos afetados pelas usinas hidrelétricas na Amazônia, comunicando ao leitor as vivências subjetivas e posturas políticas dessa gente, com foco no ecoativismo popular e na solidariedade comunitária.

Pré-Apuração. Explique o que você já apurou sobre a pauta e por que ela é relevante * Deve conter pesquisa inicial, contexto e relevância (Máximo 4 mil caracteres)

Nos últimos anos, muita controvérsia envolveu os megaprojetos hidrelétricos brasileiros. Um relatório do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) aponta que “1 milhão de pessoas foram expulsas de suas terras devido a construção de barragens. Isto corresponde a 300 mil famílias. Dados do MAB apontam que a cada 100 famílias deslocadas, 70 não receberam nenhum tipo de indenização.” (http://bit.ly/1zRRdUa)

Belo Monte, a terceira maior barragem do mundo, atrás apenas de Itaipu e da chinesa Três Gargantas, é só a ponta-de-lança de um fenômeno mais amplo: a disseminação das hidrelétricas em rios como Xingu, Amazonas e Tapajós, em obras financiadas pelo PAC e celebradas pelo governo federal como templos do progresso. As 29 novas hidrelétricas na Amazônia, informa O Globo em 2012, “alagarão uma área de ao menos 9.375,55 km2, quase oito vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro.” (http://glo.bo/1xxbif6)

Atualmente, cerca de 80% da eletricidade brasileira é gerada em hidrelétricas (como esclarecido no vídeo “A Luz Que Vem Das Águas”, da série Linhas: http://bit.ly/1BfG01i). É raro que a imprensa corporativa conte a história das milhares de vidas que são afetadas por estes mega-empreendimentos, responsáveis por imensos fluxos de migração forçada, problemáticos reassentamentos e colapso de ecossistemas.

Nesta pauta aqui apresentada à Pública e ao Greenpeace, propomos investigar a condição existencial dos brasileiros afetados por barragens, que foram empurrados para fora de seus lares, em com destaque para aqueles que tornam-se ecoativistas ou líderes comunitários. Nossa reportagem buscará revelar a densidade psicológica das subjetividades condenadas a uma sina de “desenraizamento”, para usar um conceito de Simone Weil. Nossa intenção é também dar voz à resistência popular daqueles que, por terem sofrido danos, militam para barrar as barragens.

Nos últimos anos, irromperam inúmeras manifestações, protestos, ocupações e greves relacionadas à luta contra as barragens. Um dos episódios mais célebres desta saga ocorreu em 1989, quando os Kayapó, liderados pelo cacique Raoni, conseguiram frear os projetos hidrelétricos do governo Sarney. Duas décadas e meia depois, o ímpeto “conquistador” da Ditadura Militar (1964-1985) em suas relações com a Amazônia não foi inteiramente superado com a re-democratização e alguns pesquisadores, como Idelber Avelar e Viveiros de Castro, acusam o projeto “belo montista” de ser um entulho legado pela ditadura.

No primeiro mandato de Dilma na presidência, houve a emergência de uma resistência multi-facetada a estes projetos faraônicos em eventos como o Xingu +23 e movimentos como Xingu Vivo Para Sempre e o supracitado MAB. Buscaremos entrevistar figuras significativas deste embate e que trazem escritas na carne as estórias de como lutam diariamente para defender rios, florestas e ecossistemas contra a devastação que costuma vir na esteira das hidrelétricas.

Julgamos relevante apresentar ao Brasil alguns de seus heróis anônimos do ecoativismo “grassroots” , ainda mais quando consideramos quanta coragem é necessária para este engajamento em um país que é campeão mundial em assassinatos de ativistas da ecologia, segundo o relatório da Global Witness (http://bit.ly/1u7rFOd). É preciso dar visibilidade e proteção às pessoas que denunciam o desmatamento da Amazônia e que militam contra os grandes projetos de barragens, para que seus direitos de expressão e seus modos de vida sejam respeitados, de modo a evitar novas tragédias como aquelas sofridas por Chico Mendes, Dorothy Stang, José Cláudio Ribeiro, entre outros.

Em suma, procuraremos dar voz aos brasileiros que resistem às barragens, revelando suas perspectivas sobre os rumos do país, de modo a questionar uma das ideologias hegemônicas no país: aquela que Arundathi Roy, em The Greater Common Good (http://bit.ly/113Sbhj), apelida ironicamente como “Local Pain for National Gain” (Dor Local Para Benefício Nacional).

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SIGA VIAGEM…

O DESEQUILÍBRIO É A NORMALIDADE: uma relembrança d’O Alienista de Machado de Assis

alienistaQue exista a palavra “loucura” no singular talvez seja uma doidice da linguagem. Pois no mundo das gentes, quer parecer-me, só há loucuras no plural, doiduras das mais várias e múltiplas, e quase sempre cada um de nós tem dentro si pelo menos uma meia dúzia. Quase ninguém é doido igual aos mentecaptos ilustres como Dom Quixote ou Rei Lear. As pessoas sempre dão um jeito de inventar uma loucura bastante singular e própria. O que não impede que os profissionais da área gastem as pontas de seus lápis e as tintas de suas canetas em intermináveis catalogações, classificações, rotulamentos. Dá para encher um dicionário (e já existem) só contendo termos como histeria, psicose, depressão, megalomania, sadomasoquismo e quê tais. Nem um dicionário esgota todas as potencialidades de diferenciação das mentecaptices humanas. Há as insânias de amor e as de ódio, há as de ganância e as de frugalidade, as de ascetismo e as de libertinagem. Há os que alucinam que são Napoleões e há aqueles que querem enfiar a cabeça na areia, como avestruzes pudorosos, de tanta vergonha de serem quem são… (Caro leitor, favor levar a sério as reticiências que acabo de antepor a vosso caminho, e pareis para pensar por três segundos, um para cada ponto, no tanto de gente doida que você já conheceu…).

Se tivesse escrito somente O Alienista, Machado de Assis já mereceria um lugar de destaque naquela seleta galeria de criadores dotados de alta perspicácia em matéria psicológica – como eram Stendhal e Dostoiévski, segundo a avaliação de Nietzsche (ele, que dizia ter aprendido psicologia sobretudo com os mestres da literatura). A novela tem algo de Fausto, o Doutor Simão Bacamarte sendo também um obcecado pela ciência, pela leitura, pelo saber alquímico capaz de curar os males d’alma… Mas em Machado não há tanto da soturnidade goethiana, já que o brasileiro faz por todas as páginas dúzias de cabriolas e molequices de deixar até um Mefistófeles sentindo-se careta.

Se fosse mais tenebrosa, a obra poderia até passar por um conto de Hoffman ou Edgar Allan Poe. Mas é leitura leve, aprazível, que convida a uma alegre apreciação das irracionalidades humanas, que passam em desfile nesta carnavalesca procissão de doidos, enquanto a narrativa vai desenrolando uma pergunta destinada a tornar-se pulga atrás da orelha do leitor: “se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (2007, pg. 59)

Simão Bacamarte, homem de ciência, de nobreza, nascido em berço d’ouro, servidor de Vossa Majestade em Lisboa, torna-se uma espécie de tirano em Itaguaí ao inaugurar seu hospício, A Casa Verde. Doutor Simão garante que não tem interesses capitalistas ao encerrar tanta gente na casa dos doidos, mas ele enriquece velozmente a ponto de poder mandar a esposa, Dona Evarista, para um passeio ao Rio de Janeiro, de onde ela retorna toda adornada de vestidos de seda e pedras preciosas.

Simão Bacamarte atravessa a obra sendo alguém que julga os outros sem antes ter parado para julgar a si mesmo. O alienista considera-se tão evidente e indubitavelmente são, já que está em plena posse do equilíbrio de suas faculdades mentais, que não questiona quase nunca se realmente é são o bastante para ter o direito de sair trancando gente adoidada no hospício. E o narrador nos garante: foi uma “coleta desenfreada” a que realizou Doutor Simão, agindo um pouco como se fosse o Poderoso Chefão de uma instituição pública que se assemelha à carrocinha que recolhe cães vira-latas – com a diferença de ser destinada aos humanos. Itaguaí apelida o doidódromo de Simão Bacamarte como “Bastilha” e o equivalente Itaguaiense da Revolução Francesa não tarda a estourar: é o levante dos Canjicas!

O Alienista  retrata um amálgama perigoso entre a psiquiatria e o presídio: na novela, a autoridade em psicologia torna-se o executor de uma plano quase kafkiano de totalitarismo em que o encarceramento em massa não tarda a surgir como resultado. A ironia que Machado despeja sobre esta situação provêm da percepção do artista do quão insana seria uma sociedade onde há mais gente presa detrás de grades do que solta ao ar livre – e tudo em nome da preservação da sanidade e segurança públicas. Machado de Assis analisa com seu sagaz brilhantismo a figura do “cientista maluco”, no caso um doutor em psicologia que acredita fanaticamente que a austeridade, a impassibilidade, a imperturbabilidade, a condição de ser não-emocionável como uma estátua de mármore, é o supra-sumo das virtudes.

Bacamarte considera que normal é aquele que está com o cérebro equilibrado; porém, quanto mais conhece o ser humano, mais convence-se de algo diferente: quase todo mundo é um desequilibrado. Logo, aquele que, como Bacamarte, tem equilíbrio psíquico que não se perturba, esse aí é o maior dos anormais. O alienista descobre-se alienado. O déspota faz-se libertador daqueles que havia falsamente condenado à sina de anormalidade, e o sábio, de modo até um pouco socrático, diz algo semelhante a “só sei que nada sei”: louco devo ser eu, de tão equilibrado que sou!

O Alienista é também o retrato de uma sublevação social, com golpes de Estado e massacres, alianças e traições. A maníaca campanha de aprisionamento dos cidadãos de Itaguaí, posta em marcha por Simão Bacamarte e seus paus-mandados, desperta a resistência e a rebeldia popular. Em uma cena memorável, a sublevação dos Canjicas vai à câmara para demandar que o tirano Bacamarte cessasse de possuir tamanhos poderes de encarceramento. Uma turba desequilibrada e passional exige que o Doutor pare de encterrar vivos em cubículos todos aqueles que manifestam desequilíbrio emocional e furiosas tempestades psíquicas.

“A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião, e destruir a Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis, algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e em falta delas a câmara, pagavam o alienista…” (pg. 58)

Há quem acuse Machado de ser um pouco misantrópico, ou seja, de ser desses doidos que odeiam a humanidade, já que escreveu frases imorredouras como “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” (Memórias Póstumas de Brás Cubas) Mas O Alienista me deixa com outro sabor na boca que não é o da misantropia, mas muito mais de uma fascinação bem-humorada diante dos comportamentos e crenças humanos. Para Machado de Assis, o homem é um animal fundamentalmente irracional, e como escritor Machado vincula-se a uma longa genealogia – que inclui Luciano, Horácio, Chamfort, Voltaire… – daqueles que  proponho chamar de ironistas das irracionalidades.

Não é que gente não preste, é só que entre as gentes quase nunca se encontra alguém que não seja singularmente doido. Olhando de perto, ninguém é normal. Ou melhor, como logo descobre, em um insight quase epifânico, o Doutor Simão Bacamarte:  a loucura é quase universal, e quem não é louco portanto é o mais anormal dos anormais. A quase universalidade da loucura é o que Machado põe-se a examinar, com todas as ironias bem alertas, narrando-nos um causo que não tem poucas ocasiões que nos fazem rir às bandeiras despregadas. Aqui, quem se pretende são é tanto mais suspeito de ser louco por isso. E quem pretende ser louco pode ser que seja são. Machado embaralha as categorias rígidas a golpes de poesia e arruaça. Pois esse é um texto tão arruaceiro que pode-se dizer que prenuncia a estética punk em quase um século. Tem até 11 mortos e 45 feridos fornecendo o banho-de-sangue que é sempre necessário para uma obra-de-arte alçar-se aos ouropéis gozados por Macbeth, a Ilíada ou Os Miseráveis. Sangue em profusão jorra quando a rebelião dos Canjicas choca-se contra os dragões armados da legalidade; lendo esta cena, descobrimos que no Rio de Janeiro de Machado já haviam, guardadas as devidas proporções, um caldeirão de hostilidade e loucuras sempre às beiras de degringolar em chacina.

O gênio de Machado de Assis aparece como que concentrado em O Alienista, uma narrativa que nos conduz por uma montanha-russa de ideias estéticas, éticas, políticas, psicológicas, sócio-econômicas: por exemplo, a noção de que aqueles que se distinguem por suas perfeições morais são também um pouco malucos, já que desviantes da norma. O normal é ser moralmente imperfeito, cheio de vícios vários, arrastado por paixões desequilibrantes diversas, de tal modo que Simão Bacamarte, a certo ponto, escolhe curar aqueles “cruelmente afligidos de moderação e equidade” para “restituí-los ao perfeito desequilíbrio das faculdades” (pg. 78).

Uma vida inteira devotada à ciência, à pesquisa do comportamento, para que o Alienista chegasse à este conclusão (bem-louca!): “se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que  aquele equilíbrio fosse ininterrupto.” (pg. 72) Esta aí Machado de Assis, decerto um dos maiores escritores da história da América Latina também por causa de sua genial loucura, sintetizado em uma pílula: depois de passar uma vida a analisar o ser humano, o que de mais certo podemos dizer é que nada é mais normal que o desequilíbrio e a irracionalidade, e que todo sábio é tão desviante da norma que periga ser rotulado de doido pela turba insana dos normais…

Eduardo Carli de Moraes, 20/11/2014

Todas as citações: 50 Contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

Mix: coelho de Dürer com versos de Whitman (experimente este drink!)

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ALBRECHT DÜRER (1471-1528)  ‘A Young Hare’ – 1502 (watercolor and gouache)

“Eu penso que poderia volver e viver com animais,

tão plácidos e autocontidos,

Eu paro e me ponho a observá-los longamente.

Eles não se exaurem e gemem sobre a sua condição,

Eles não se deitam despertos no escuro

E choram pelos seus pecados,

Eles não me deixam nauseado discutindo

O seu dever perante Deus,

Nenhum deles é insatisfeito,

Nenhum enlouquecido pela mania de possuir coisas,

Nenhum se ajoelha para o outro,

Nem para os que viveram há milhares de anos,

Nenhum deles é respeitável ou infeliz em todo o mundo.”

WALT WHITMAN. Folhas de Relva.

The Earth Woman (by Arundhati Roy, in “The God Of Small Things”)

Accion-Ecologica-logo

THE EARTH WOMAN
Arundhati Roy (1961 – )

1“We belong nowhere”, Chako said. “We sail unanchored on troubled seas. We may never be allowed ashore. Our sorrows will never be sad enough. Our joys never happy enough. Our dreams never big enough. Our lives never important enough. To matter.”

Then, to give the twins Estha and Rahel a sense of Historical Perspective, he told them about the Earth Woman. He made them imagine that the earth – 4600 million years old – was a 46-year-old woman. It had taken the whole of the Earth Woman’s life for the earth to become what it was. For the oceans to part. For the mountains to rise. The Earth Woman was 11 years old, Chacko said, when the first single-celled organisms appeared. The first animals, creatures like worms and jellyfish, appeared only when she was 40. She was over 45 – just 8 months ago – when dinosaurs roamed the earth.

“The whole of human civilization as we know it”, Chacko told the twins, “began only 2 hours ago in the Earth Woman’s life.”

It was an awe-inspiring and humbling thought, Chacko said, that the whole of contemporary history, the World War, the War of Dreams, the Man on the Moon, science, literature, philosophy, the pursuit of knowledge – was no more than a blink of the Earth Woman’s eye.

“And we, my dears, everything we are and ever will be are just a twinkle in her eye…”

 ARUNDHATI ROY, The God Of Small Things (1997).

Harper Perennial.
Winner of the Booker Prize 1998.

O escritor no interior da ampulheta do tempo

ampulheta

por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com

Uma ampliação da consciência das interconexões que constituem o tecido da realidade parece-me um caminho recompensador para qualquer dentre nós que sente-se como um peregrino buscador de sabedoria. É claro que, como Zaratustra não tardou a descobrir (assim como seu criador, Nietzsche), também há muita solidão e incompreensão na estrada daquele que tenta ficar sábio. Ao seu redor ele tromba com muita frequência com a tolice, a estupidez, a trivialidade, para não falar na perfídia e na crueldade – sabedoria é não pagar na mesma moeda, e responder com razão à desrazão, com doçura à bruteza, com amizade à hostilidade, com fraternidade ao sectarismo, e por aí vai.

Às vezes é mais fácil encontrar sábios entre os mortos do que entre os vivos – muitos “seekers”, para lembrar a canção fodástica do The Who, acabam preferindo a leitura à conversação e preferem a biblioteca ao bar. Eu penso que nada impede aprender sabedoria tanto em bares quanto em bibliotecas – em papos e livros, em filmes e discos, em peças-de-teatro e em palhaçadas – quem é aprendiz aprende até com a sarjeta (todos estamos nela, dizia Oscar Wilde, mas alguns olham para as estrelas ao invés de manter o focinho no vômito…). Gosto da idéia de Simone Weil sobre a atenção, esta virtude subestimada e subpraticada, sem a qual não tem jeito de ficar sábio: prestar atenção, às sinfonias do Schubert e aos pássaros que cantam lá fora,  aos filmes do Bergman e aos cardumes que nadam nos oceanos, aos sonetos de Shakespeare e às palavras de amor que às vezes brotam de lábios humanos como suculentas e nutritivas frutas.

Sabedoria é também saber ouvir os outros, vivos ou mortos, atentando às palavras que escrevem e às palavras que falam, mas também à língua muda, e tão expressiva, da expressão facial e dos trejeitos corporais: às vezes, em silêncio, basta atentar nos olhos de alguém e sabe-se mais do que se poderia após a troca de muitas palavras – o afeto “tá na cara”. Tenho concebido a sabedoria como esforço de ampliação de limites, de busca por melhoria na aposta de que somos perpetuamente perfectíveis e nunca perfeitos. Rompendo a gaiola da verbalidade, percebemos que há muito de expressável que está para além da escrita – que também comunicam, e como, abraços, sorrisos, melodias, batuques, cores, mímicas. Não há escassez de linguagens a aprender e treinar nesta vida que pode ser vista como campo-de-experimentação onde nós, que vivemos em teia, ontologicamente conectados, superemos a falácia ilusória da separação, percebendo-nos cada um e todos como “parte de nós”, para citar um dos achados poéticos do álbum do Diego de Moraes e o Sindicato. Viver até corre o risco de ter sentido se a gente corre atrás de adquirir os meios de expressão que construam pontes e permitam somatórias de forças: aí o túmulo engole a nossa carne, mas não vivemos em vão pois em algo melhoramos o mundo comum, a Hannah Arendtiana “esfera pública”.

Ultimamente, tenho me sentido movido e influenciado principalmente por autores-ativistas, que li com voracidade e imensos proveitos: penso principalmente em Naomi Klein, Raj Patel e Arundhati Roy. Os três são figuras públicas de impacto, ultra-requisitados para palestras e depoimentos a documentários, muito alertas aos acontecimentos contemporâneos, cultos e conhecedores da História, desejosos de fazer uma diferença para melhor e contribuir para um outro mundo possível: para citar o célebre discurso de Arundhati Roy em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial 2003: “another world is not only possible, she’s on her way On a quiet day, I can hear her breathing.” Lendo autores assim, já tão queridos pra mim, como Klein, Patel e Roy, sinto-me preenchido com um grau mínimo de esperança que impede meu naufrágio no iceberg do desespero supremo – como se neles a alternativa sã aos rumos ecocidas e genocidas do capitalismo global já respirasse e nos ensinasse um rumo – mais sábio, decerto, mas difícil. Pois ninguém disse que é fácil.

Ler um romance como The God Of Small Things (O Deus Das Pequenas Coisas) foi para mim um deleite indizível, um banquete verbal delicioso, mas também é sofrido, para alguém com sonhos de um dia vir a escrever algo que preste, testemunhar a senhorita Roy em toda sua genialidade e graça, esmagando auto-estimas de escritores quem piores do que ela e que jamais conseguiriam tecer uma tapeçaria narrativa tão brilhante. Foi, no entanto, inspirador ao extremo: preencheu-me com os mistérios da Índia, com os fascínios pela linguagem, com as indignações fecundas, e posso dizer que sem dúvida nunca mais serei a mesma pessoa que fui antes de devorar, na sequência, todos os livros dela – e aqueles de “não-ficção” são líveis com um grau de prazer equivalente ao que sentimos com os mais gostosos dos poetas (Manoelzin de Barros, Alberto Caeiro, Mário Quintana…).

Peguei-me perguntando-me o que é que torna tão raro um talento literário como este que se manifesta no Deus Das Pequenas Coisas. No meu caso, sinto que ainda há muito chão pela frente até que eu atinja tais poderes de expressão. Percebo que existe dentro de mim uma aporrinhante censura interna, ativa mesmo quando escrevo para mim mesmo, em um caderninho que pretendo conservar secreto  e engavetado. Há confissões que não faríamos em um texto a ser tornado público; mas há também confissões que é difícil de articular até mesmo na solidão de um texto privado. Senti muitas vezes que eu me utilizava da escrita como uma escola de autenticidade, como experimento de sinceridade, como treino na arte de ser verídico. Isso só exacerbou minha suspeita de que somos em geral bem pouco inclinados a admitir toda a verdade sobre nós mesmos (supondo que a conheçamos, o que é supor demais); somos cheios de máscaras e poses; queremos aparecer bem na foto e preferimos a maquiagem ao nu-e-cru.

Call Me Burroughs

Um texto também funciona como uma espécie de selfie em que procuramos excluir da percepção do Outro – o leitor – aquilo que consideramos um chulé psíquico, um cabelo desgranhado na nossa constituição moral ou estética, um sentimento cancerígeno, um desejo feio feito pústula. O escritor “seleciona-se” e silencia muito de si – tudo aquilo que considera que iria chocar, desagradar ou gerar chacota nos leitores. Um pouco do charme punk das obras de Céline ou William S. Burroughs é que eles não estão a fim de mentirem que são melhor do que são, não tem pudores de vomitarem no papel suas nóias, seus ódios, seus vícios, seus pensamentos secretos mais inconfessáveis. Sem dúvida, por mais que me desagrade o anti-semitismo célineano ou uma certa glamourização da junkidade em Burroughs, lê-los representou para mim experiência libertária. Aprendi que havia uma escrita que queria revelar os lados sujos e sanguinolentos de nossa existência cheia de som, fúria e hostilidades – que recusavam-se ao kitsch, descrito por Milan Kundera como aquela tendência de varrer a sujeira para baixo do tapete. 

Também andei matutando que os textos podem ser diferenciados, distinguidos, a partir do seu endereçamento: para quem se escreve, e em que “tom-de-voz”? Há quem escreva como quem fala do alto de uma torre de marfim, pontificando da cátedra ou do púlpito; há quem escreva como quem acabou de encontrar um amigo na fila da padaria e quer só “jogar conversa fora”; há quem escreva para lidar com a ameaça da loucura, para pôr ordem no caos interior, realizar pela linguagem alguma catártica terapia; e a panóplia de múltiplas escritas poderia seguir sendo enumerada sem fim em vista. Um texto pode ser mercadoria ou pode recusar-se a ser monetarizado; pode ser um convite ou um tabefe; talvez convoque à ação (como um panfleto anarquista) ou seduza à preguiça (como um anúncio de poltrona); entre os efeitos que podem ser gerados por um texto também reina grande diversidade – inclusive há a chance, terrível, do texto sem efeito. Inútil. Aquele que a ninguém toca e a nada muda. Que é engolido pelo esquecimento, apagado pelas imensas borrachas do tempo. Que leitor algum julga digno de lembrança. E às vezes não é garantido que basta a gente se esforçar para conseguir criar algo digno de sobreviva na posteridade: tem muito texto que os vermes engolem inteiro.

De todo modo, acho que ainda vale ouvir a dica de Newton, que só foi quem foi pois subiu nos ombros de gigantes. Ninguém vê longe sem auxílio – de gênios e poetas, de músicas e filmes, de papos e porres, de telescópios e microscópios. Às vezes, bem raramente, um mortal consegue, depois de muito escalar os corpos dos gigantes para observar mais longe lá das alturas, atingir aquela sabedoria que eu evoquei no primeiro parágrafo deste texto aqui… que lanço agora como um pergaminho de bits, numa cybergarrafa, ao oceano da Internet. A que destinos o levarão as marés das vias informativas digitais? De todo modo, não sei existir senão no ímpeto de buscar sabedoria comunicável – e fico replenificado de vida e esperança quando encontro palavras preciosas como estas próximas, que só não grafitei nas paredes do meu quarto pois moro de aluguel e também porque já estão pixadas nas paredes do coração:

“If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers because they know that the forests, the mountains and the rivers protect them. The first step towards reimagining a world gone terribly wrong would be to stop the annihilation of those who have a different imagination—an imagination that is outside of capitalism as well as communism. An imagination which has an altogether different understanding of what constitutes happiness and fulfillment. To gain this philosophical space, it is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past, but who may really be the guides to our future.” —Arundhati Roy

Sabedoria é isso.

RoyLeia também: In Praise of Arundhati Roy’s “The God Of Small Things”

Gaia e o Antropoceno: Viveiros de Castro, D. Danowski, Isabelle Stengers, Dipesh Chakrabarty e Bruno Latour

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Se Gaia também é um mundo vivo e plural, (…) não se trata porém de um mundo harmonioso e equilibrado, e muito menos dependente, para sua persistência, da exclusão da humanidade, como se esta fosse um invasor extraterrestre chegado para estragar um idílio pastoril. (…) Gaia é antes de mais nada feita de história, ela é história materializada, uma sequência contingente e tumultuária de eventos… Na concepção de Bruno Latour, é menos a história humana que vem se fundir inesperadamente com a geohistória, mas sim a Terra-Gaia que se torna historicizada, narrativizada como história humana – compartilhando com esta, aliás, e a ressalva é essencial, a ausência de qualquer intervenção de uma Providência. Resta saber quem é o demos de Gaia, o povo que se sente reunido e convocado por esta entidade, e quem é seu inimigo.”

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO & DÉBORAH DANOWSKI, Há Mundo Por Vir? Ensaio Sobre Os Medos E Os Fins (2014, Editora Cultura e Barbárie, p. 120. Compre aqui.)

Tô devorando por aqui o instigante “Há Mundo Por Vir? Ensaio Sobre os Medos e os Fins”, de Eduardo Viveiros De Castro & Deborah Danowski, e coletando altas dicas de livros que eu desconhecia e que já entraram para a lista das ‪#‎LeiturasFuturas‬, a começar por este “O Mundo Sem Nós” de Alan Weisman, “a penetrating, page-turning tour of a post-human Earth…”:

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ALAN WEISMAN, “The World Without Us”
(2007, 340 pgs)

DOWNLOAD E-BOOK (PDF):
http://libgen.org/book/index.php?md5=129A059BDD7D4798C8725BB2EA35C76B

In The World Without Us, Alan Weisman offers an utterly original approach to questions of humanity’s impact on the planet: he asks us to envision our Earth, without us. In this far-reaching narrative, Weisman explains how our massive infrastructure would collapse and finally vanish without human presence; which everyday items may become immortalized as fossils; how copper pipes and wiring would be crushed into mere seams of reddish rock; why some of our earliest buildings might be the last architecture left; and how plastic, bronze sculpture, radio waves, and some man-made molecules may be our most lasting gifts to the universe.

The World Without Us reveals how, just days after humans disappear, floods in New York’s subways would start eroding the city’s foundations, and how, as the world’s cities crumble, asphalt jungles would give way to real ones. It describes the distinct ways that organic and chemically treated farms would revert to wild, how billions more birds would flourish, and how cockroaches in unheated cities would perish without us. Drawing on the expertise of engineers, atmospheric scientists, art conservators, zoologists, oil refiners, marine biologists, astrophysicists, religious leaders from rabbis to the Dali Lama, and paleontologists — who describe a prehuman world inhabited by megafauna like giant sloths that stood taller than mammoths—Weisman illustrates what the planet might be like today, if not for us.

From places already devoid of humans (a last fragment of primeval European forest; the Korean DMZ; Chernobyl), Weisman reveals Earth’s tremendous capacity for self-healing. As he shows which human devastations are indelible, and which examples of our highest art and culture would endure longest, Weisman’s narrative ultimately drives toward a radical but persuasive solution that needn’t depend on our demise. It is narrative nonfiction at its finest, and in posing an irresistible concept with both gravity and a highly readable touch, it looks deeply at our effects on the planet in a way that no other book has.”

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Este, de Isabelle Stengers:

Isabelle Stengers

Isabelle Stengers, “Au temps des catastrophes : Résister à la barbarie qui vient”
(2009, 198 pgs.)

Download e-book:
http://libgen.org/get.php?md5=0DD24B5CBA0666F03219339D5F6FBC78

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E, é claro, Latour:

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GAIA IN THE ANTHROPOCENE
By Bruno Latour

“Geologists are beginning to use the term ANTHROPOCENE to designate the era of Earth’s history that extends from the scientific and industrial revolutions to the present day. These geologists see humanity as a force of the same amplitude as volcanoes or even plate tectonics. It is now before GAIA that we are summoned to appear: Gaia, the odd, doubly composite figure made up of science and mythology, used by certain specialists to designate the Earth that surrounds us and that we surround, the truly global Globe that threatens us even as we threaten it.

If I wanted to dramatize – perhaps overdramatize – the ambiance of my investigative project, I would say that it seeks to register the aftershocks of the MODERNIZATION FRONT just as the confrontation with Gaia appears imminent.

At all events, we shall not cure the Moderns of their attachment to their cherished theme, the modernization front, if we do not offer them an alternate narrative… After all, the Moderns have cities who are often quite beautiful; they are city-dwellers, citizens, they call themselves (and are sometimes called) “civilized”.

Why would we not have the right to propose to them a form of habitation that is more comfortable and convenient and that takes into account both their past and their future – a more sustainable habitat, in a way? Why would they not be at ease there? Why would they wander in the permanent utopia that has for so long made them beings without hearth or home – and has driven them for that very reason to inflict fire and bloodshed on the planet?

After all these years of wandering in the desert, do they have hope of reaching not the Promised Land but Earth itself, quite simply, the only one they have, at once underfoot and all around them, the aptly named Gaia?”

BRUNO LATOUR.
“An Inquiry into Modes of Existence: An Anthropology of the Moderns”
Harvard University Press, 2013. Translated by Catherine Porter.
Download e-book at Library Genesis.
Join: http://www.modesofexistence.org

 

Adam and Eve (Art by Alex Grey)

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You might also enjoy:

The Affects of Capitalism (full lecture)
(If you wanna skip the intro, Latour actually starts speaking at 12 min and 45 seconds.)

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Veja também:

PALESTRA COM DIPESH CHAKRABARTY

“Anthropocene means that collectively, human beings, thanks to their profligate use of fossil fuels, now act with the power of a geophysical force…” – Dipesh Chakrabarty, Dept. of History, University of Chicago

“History on an Expanded Canvas – The Anthropocene’s Invitation”
Lecture, 2013. 1h01min.

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“Our fossil fuel deposits, a 100.000.000 years old, could be gone in a few centuries, leaving climate impact that will last for hundred of millenia.” Dave Archer
http://en.wikipedia.org/wiki/David_Archer_(scientist)

“Fate of fossil fuel CO2 in geologic time”:
https://www2.bc.edu/jeremy-shakun/Archer,%202005,%20JGR.pdf

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“DISRUPTION”, o filme que acompanha a PEOPLE’S CLIMATE MARCH
Leia também, na Mídia Ninja, “Não Há Planeta B”

JAMES HANSEN: Why I must speak out about climate change (TED TALK) #EfeitoEstufa #AquecimentoGlobal #MudançasClimáticas

White House Effect

Top climate scientist James Hansen tells the story of his involvement in the science of and debate over global climate change. In doing so he outlines the overwhelming evidence that change is happening and why that makes him deeply worried about the future.