A Desumanidade Humana: Novos Ensaios Sobre a Cegueira (por Eduardo Carli de Moraes)

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A Humanidade como Fraternidade permanece no horizonte das utopias. A cada passo em sua direção que damos, para relembrar um célebre dito de Galeano, a utopia dá dez passos para trás. Como se fugisse do abraço. Como senos quisesse forçar a ser camelos no deserto, em busca de oásis incerto, pelos séculos e milênios. Já são mais de 3 décadas desde que John Lennon imaginou, sentado ao piano branco, que não haveria mais céu nem inferno, apenas uma “brotherhood of man”. Mas ele, que só estava dizendo “dê uma chance à paz”, acabou assassinado.

Outro célebre pacifista, que peregrinou de pés descalços por toda a Índia, tentando ensinar a hindus, muçulmanos e sikhs a arte da convivência pacífica e do respeito à multilicidade e à diferença, dizia: “O olho-por-olho vai deixar o mundo todo cego.” A triste verdade é que a cegueira venceu: também Gandhi foi assassinado e seu ideal foi tripudiado pela catástrofe histórica da Partição Índia / Paquistão. Em 1947, o pior dos pesadelos gandhianos se tornou realidade quando estourou a guerra civil entre hindus e muçulmanos. O saldo trágico do conflito: mais de 1 milhão de mortos e mais de 7 milhões de refugiados.

Invocar uma canção de Lennon, um dito sábio de Gandhi, um convite à caminhada de Galeano: de que serve isso diante da desumanidade dos assassinos, diante do militarismo brucutu dos tiranos? Cantar sobre a beleza das flores e dos pássaros algum dia já impediu os tanques-de-guerra de marcharem sobre os jardins e de metralharem os sabiás? Clamar para que o valor da vida humana seja respeitado é o bastante para dissuadir os homens de uniforme, armados por seus Estados com licença-para-matar?

“A humanidade é desumana”, cantava Renato Russo, que encontrava razões para ser otimista no fato de “que o Sol não nasce pra todos (e só não sabe quem não quer)”. O Sol pode até ser o mesmo, mas é bem diferente vê-lo nascer de uma cobertura de luxo em Ipanema ou Miama, e vê-lo nascer em um campo de refugiados na Palestina.

Em Gaza, hoje o Sol ilumina uma pilha de cadáveres, uma multidão de estropiados, um oceano de lágrimas. Às vezes me pergunto se o Sol não tem vergonha de iluminar certas realidades que meus olhos consideram obscenas. Por que ele não protesta e se recusa a nascer? Suspeito que também o Sol seja desumano.

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JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

Enquanto as utopias de paz fogem para longe, enfiando-se no horizonte distante, cá estamos com as pernas enfiadas em poças de sangue. No rés-do-chão da realidade contemporânea, permanecemos cindidos em facções frequentemente fratricidas. Como não poderia deixar de ser, escrevo isso sob o impacto dos acontecimentos horrendos que tem se desenrolado nas últimas semanas na faixa de Gaza.

Há quem pense que há justificativas aceitáveis para a ofensiva de Israel contra os palestinos, mas não sinto senão nojo e desprezo por genocidas que procuram justificar o injustificável. O que dizem os carniceiros sionistas que participaram ativamente do massacre de bebês e crianças? Que isso se justifica pois toda criança palestina pode crescer e um dia tornar-se um terrorista afiliado ao Hamas? Tudo não passa de uma louvável e pia ação de prevenção ao terrorismo?

E como justificar a matança de moças, mulheres e senhoras, que não oferecem nenhum perigo militar ao estado de Israel? Também neste caso se trata de prevenir o terrorismo, já que toda fêmea palestina tem um ventre com potencial de parir futuros terroristas? E que justificativas para a destruição de escolas e hospitais, de universidades e usinas de eletricidade, de abrigos da ONU e de instituições humanitárias? Tudo não passa, é claro, de uma tentativa de enfraquecer a infra-estrutura de uma sociedade que abriga terroristas, não é isso?

Pensei em escrever um conto sobre um jovem estudante em Gaza, que dedicou toda a sua breve existência a uma tentativa de compreensão e solução da discórdia sangrenta que opõe árabes e judeus na região. Devorador de livros, em especial os de Edward Said e Ilan Pappe, este jovem estaria no interior da Universidade Islâmica, nutrindo-se com o saber de Maimônides e Averróis, quando o prédio da Universidade é bombardeado.

Uma parte do teto despenca e rasga sua testa. Os livros mancham-se de sangue e concreto. Ele abandona as ruínas da universidade e corre para casa, só para descobri-la também bombardeada, com toda a sua família dentro. Mortos estão seus 3 irmãos, todos com menos de 10 anos de idade; mortos seu pai (um médico), sua mãe (uma professora de história), e sua avó (que completaria 90 anos no próximo mês). Esmagado pela súbita tragédia, rasgado internamente pelo trauma, ele chora torrentes de lágrimas sobre os cadáveres de sua ex-família e as ruínas de seu frágil lar, agora só escombros.

Ele nunca havia simpatizado ou participado de nenhuma organização armada islâmica; sempre havia discordado do terrorismo inspirado na idéia de jihad (guerra santa). Agora, num ímpeto de indignação e raiva, toma nas mãos uma pedra, um pedaço da parede que outrora protegera sua família contra as intempéries.

Sua ira é tamanha – maior do que qualquer que ele jamais sentira – que ele não pensa antes de agir. Simplesmente precisa liberar um pouco da insuportável pressão psíquica, realizar algum tipo de catarse-pela-agressividade, e assim lança o pedregulho contra soldados israelenses protegidos dentro de um tanque.

Um dos soldados mira em sua cabeça com um rifle M-16 e estoura seus miolos.

Os mortos da família eram seis, agora são sete. Mas com uma diferença: os seis primeiros entrarão nas estatísticas como mortos entre os civis, meros “efeitos colaterais”; o sétimo será caracterizado como terrorista (a evidência: lançou um pedregulho!) e sua morte será, nas estatísticas de Israel, justificável, legítima, irreprochável.

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A ÁLGEBRA DA JUSTIÇA INFINITA

Assisto, via Al Jazeera, com um misto de indignação fervente e melancólica sensação de impotência, as reportagens realizadas em Gaza. Quanto mais assisto, mais concluo que o Estado de Israel perdeu todo o senso de proporção, toda a capacidade de distinguir entre alvos legítimos e ilegítimos. Partiu para a truculência ignorante mais desumana: aquela que mata à esmo, que “mata geral”, que mata todo um coletivo para puni-lo pelos atos de uma parcela deste coletivo.

Mas matar crianças às centenas, e julgar que isso é um “efeito colateral” de uma ofensiva legítima contra o Hamas, parece-me o supra-sumo da cegueira desumana destes que Bob Dylan cognominou “Masters of War”. Escrevo para dizer que vejo através de suas máscaras.

Deixemos de balela. Se formos aos dicionários buscando a palavra mais adequada para descrever as ocorrências, com certeza esta não será “conflito”, mas sim “massacre”. O que Israel está praticando nestas últimas semanas não é uma campanha militar de auto-defesa legítima, é um genocídio. E eu diria que vai além do genocídio, porque os crimes do sionismo israelense vão além da destruição em massa de vidas; o que Israel está tentando fazer é transformar Gaza num Inferno terrestre, num território inabitável, ao destruir hospitais, escolas, universidades, usinas de eletricidade etc.

É como se o objetivo de Benjamin Netanyahu e sua trupe fosse não somente cometer um genocídio, mas depois impedir que água, comida, remédios, médicos, ajuda humanitária internacional, entrem em Gaza para aliviar os imensos danos causados pelos ataques. É como se Israel, depois da chuva de bombas, quisesse que os sobreviventes morressem de fome, de sede, no escuro, que agonizassem por semanas com suas feridas e queimaduras.

É o Guernica de Picasso, redivivo em território palestino. É um ato de extermínio do Outro, de aniquilação da infra-estrutura da sociedade do Outro. Não é só matar; é transformar a vida dos sobreviventes em algo tão insuportável, tão desumano, que eles enfim se decidam: ou vazam logo para longe, indo procurar refúgio em algum outro país do mundo árabe, ou então que se levantem em uma nova Intifada, ou juntem-se aos grupos armados, o que então daria uma justificativa extra para que Israel prossiga com o massacre.

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GUERRA AO TERROR OU TERRORISMO DE ESTADO?

Sob a máscara da Guerra ao Terror, o que Israel está praticando é terrorismo de Estado. Os quase 2 milhões de seres humanos que vivem em Gaza – em péssimas condições de existência, aliás – estão sendo tratadas pelo Estado de Israel como sub-humanas, como se fossem pragas e não pessoas. É um processo de desumanização que lembra aquele perpetrado contra os judeus pelo III Reich e que agora a teocracia sionista aplica aos palestinos.

A propaganda sionista e seus aliados ocidentais – EUA e Reino Unido entre eles – podem até ter o cinismo repugnante de justificar o injustificável. No entanto, as evidências concretas não deixam dúvidas: há uma imensa desproporção entre as forças em combate. A pilha de cadáveres palestinos sobe até o céu, enquanto a pilha de cadáveres israelenses mal bate no teto. É triste que haja pilhas de cadáveres dos dois lados, mas isto não nos deve cegar para a enormidade da discrepância entre o tamanho das pilhas.

Sei bem que isto não é um filme de Hollywood onde são facilmente discerníveis os bandidos e os mocinhos. Sei bem que toda análise que queira ser fiel aos fatos tem que evitar o perigo do maniqueísmo. O escritor israelense Amoz Os diz que o conflito Israel e Palestino é muitas vezes um choque entre “certo e certo”, ou entre “errado e errado” – pois ambos os lados do conflito tem demandas legítimas. Segundo ele, é uma situação que constitui uma tragédia grega muito mais do que um faroeste hollywoodiano.

Até concordo que o choque entre o Estado teocrático-sionista de Israel e os grupos islâmicos fundamentalistas como o Hamas possa ser descrito como um choque entre “errado e errado”. Uma questão importante, porém – e Amoz Os prefere não mencioná-la – é a desproporção da força militar. Israel tem um exército mega-mortífero e recebe centenas de milhões de dólares de seus aliados ocidentais, em especial os EUA; o Hamas pode até ter seus foguetes, mas seu poderio de destruição é minúsculo quando contrastado com as hecatombes que Israel é capaz de causar.

O argumento sionista, que me parece estar sendo abraçado pela maioria da sociedade civil em Israel, é o seguinte: “se o Hamas tivesse maior poderio militar, o que vocês acham que ocorreria? Se o Hamas tivesse em seu poder uma bomba atômica, Tel Aviv já teria se tornado a nova Hiroshima!” Isso é usar a paranóia como justificativa para o genocídio; é fazer uma previsão sobre o genocídio que o Hamas poderia vir a cometer, caso tivesse os meios, servir como pretexto para o genocídio que Israel está cometendo, em posse plena dos meios (e com o amém dos Estados Unidos da América).

Não subestimo o ódio do Hamas – e de outros grupos jihadistas – contra Israel. Também sei o quão repugnantes são muitas das doutrinas do Hamas – por exemplo o tratamento autoritário das mulheres, com a imposição patriarcal violenta das jihabs e burcas ou a pena de morte sem julgamento para as “adúlteras”. Há uma cena no “Palestina” de Joe Sacco que me parece emblemática do que está errado na visão-de-mundo tacanha, dogmática e moralista de muitos fundamentalistas islâmicos: uma mulher com os cabelos à mostra, dentro de seu carro, é apedrejada por uma gangue de fanáticos, que só descobrem que ela é uma cristã depois que o rosto da pobre mulher já está todo arrebentado e o sangue já jorrou pra todo lado.

Joe Sacco, Palestina

Joe Sacco, Palestina

Ser contra o Hamas, sua ideologia, seus métodos, seus atentados, não significa ser a favor da carniceria genocida do sionismo em sua luta contra o Hamas. Centenas de pessoas que foram assassinadas por Israel nestas campanhas de Julho e Agosto de 2014 não tem conexão alguma com o Hamas, com o terrorismo, com intifadas; considerá-las como meros “efeitos colaterais” de uma guerra santa e justa é uma abominação lógica, política, moral.

A propaganda sionista quer nos convencer de que Israel é uma pobre vítima dos foguetes do Hamas e que a ofensiva contra Gaza faz parte de um programa justo e legítimo de Defesa Contra o Terrorismo. Porém, a grande ironia dessa História é que as dores de parto do Estado de Israel estiveram repletas de atos de terrorismo perpetrados por grupos sionistas. Anos antes da fundação do Estado de Israel em 1948 – após a expulsão forçada de centenas de milhares de palestinos, chutados para fora do território em que haviam vivido por gerações – os sionistas utilizaram múltiplos atentados terroristas como método de “pressão política” para conquistar sua “Independência”. Por exemplo:

“O atentado do Hotel King David foi um ataque terrorista na cidade de Jerusalém, na então Palestina, ocorrido a 22 de Julho de 1946 , tendo como idealizadores uma organização sionista denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional) e como alvo as instalações do Hotel King David.

O Hotel King David, um hotel de luxo de sete andares, situado a oeste da zona da Cidade Antiga de Jerusalém, sediava quase toda a administração do mandato da Palestina, atribuído pela Sociedade das Nações ao Reino Unido.

O ataque foi organizado por Menachem Begin, que mais tarde ocupou o cargo de primeiro-ministro de Israel por duas vezes. O ataque terrorista resultou na morte de 91 pessoas e ferimentos graves em outras 45 pessoas…” – Wikipédia

Os palestinos que hoje recorrem ao terrorismo para protestar contra as condições de vida desumanas, impostas por Israel nos campos-de-concentração a céu aberto para onde foram empurrados os refugiados, estes “terroristas” são pintados como demônios e devotos do deus errado; já os sionistas que recorreram ao terrorismo lá atrás são, é claro, heróis da pátria e devotos do deus certo…

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TRANSCENDER AS DUAS CEGUEIRAS

Se tivéssemos que escolher entre o fundamentalismo do Hamas e a teocracia sionista de Israel, estaríamos limitamos a uma escolha entre duas cegueiras. Gostaria de arriscar-me a propor aqui um caminho, difícil de ser trilhado, sem dúvida utópico, mas que me parece um dos poucos capazes de nos libertar destes infindáveis fratricídios.

Este caminho passa necessariamente por uma vitória contra o dogmatismo. Nietzsche dizia que “convicções são prisões”; quando a mente adere rigidamente a uma certa convicção, perde sua graça, sua leveza, seu dinamismo, solidifica-se em uma espécie de rigor mortis. A idéia de que judeus e árabes são incapazes de coexistência pacífica e frutífera não passa de um dogma, não de uma verdade absoluta. Trata-se de desalojar este dogma das mentes, dos comportamentos, das identidades.

Gosto muito de um pensamento de Montaigne, nos Ensaios, em que ele questiona as relações entre as identidades que assumimos e as condições em que nascemos: ele pergunta a um cristão francês, por exemplo, o que teria acontecido se ele tivesse nascido no Tibet ou na China. Em outras circunstâncias, não teria ele se tornado um budista, um taoísta, um confuciano? A idéia aqui, no fundo, é a seguinte: ninguém “é” cristão ou judeu ou muçulmano, como se já nascesse com isso nos genes, mas ao contrário “torna-se” cristão, judeu ou muçulmano pelo acaso de ter nascido em um certo meio, em uma certa família, ter sido educado e doutrinado em uma certa cultura.

No fundo, as pessoas aderem a uma certa identidade, vestem uma certa máscara, introjetam uma certa ideologia, e depois se esquecem de que, na origem, a doutrina religiosa ou política que transformaram em dogma é fruto de um condicionamento social, dependente de um tempo-espaço histórico específico. Este caminho para a convivência pacífica que tento pensar passa necessariamente por des-dogmatizar as identidades – ou seja, precisamos deixar de levar tão a sério as nossas identificações identitárias com religiões, raças, pátrias etc.

Como fazê-lo? Eis o ponto mais complicado, até porque algumas das possibilidades que eu sugeriria seriam desprezadas como absurdas e irrealizáveis. Uma das experiências mais destroçadoras de dogmas, uma das vivências mais libertárias em relação às jaulas das identidades rígidas, é sem dúvida a expansão de consciência possibilitada por agentes psicodélicos naturais (como o chá de ayahuasca) ou sintéticos (como o LSD).

Os dogmatismos e fundamentalismos, tanto dos sionistas quanto dos jihadistas, poderiam ser intensamente postos em nova perspectiva pelas capacidades descomunais do ácido lisérgico, por exemplo, de liberar-nos das crenças identitárias e abrir-nos para uma vivência visceralmente cosmopolita. “Namastê!” Vão querer me internar no hospício (ou me mandar pra delegacia…) por dizê-lo, mas direi-o do mesmo jeito: um dos problemas de nosso mundo é que está faltando psicodelia e está sobrando dogmatismo. Entenda-se: uso o termo “psicodelia” aqui como sinônimo de uma capacidade existencial de permitir que a psiquê se transforme, que a mente seja dinâmica, que os valores se modifiquem e evoluam, sem a rigidez cadavérica dos fanatismos de toda estirpe.

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Percebo muito bem que é preciso encontrar alguma solução realista – já que é demandar o impossível sugerir que árabes e judeus expandam sua consciência e libertem-se de suas obsessões identitárias e fanatismos religiosos. Já que despejar litros de LSD na sistema de entrega de água está fora de questão, teríamos que atingir por outros meios esta amplidão de visão e esta liberdade quanto às máscaras que a experiência psicodélica possibilita – por exemplo, com uma mega-campanha de educação para a laicidade, para a coexistência, para o amor à idéia de convivência no seio da multiplicidade e de enriquecimento mútuo na trans-individualidade. As identidades sólidas, a filiação dogmática a seitas e ideologias, a incapacidade de enxergar o que nos une ao invés do que nos separa, tudo isso precisaria ser transcendido para que fôssemos capazes de nos perceber como conviventes sob o mesmo sol, todos juntos no mesmo planeta, todos iluminados pela luz distante da mesma miríade infindável de estrelas.

Seria preciso que enxergássemos, para além de nossa cegueira habitual, já encrustada nas retinas e nos neurônios, que ninguém está condenado, do berço ao túmulo, a ser algo de fixo – judeu, muçulmano, cristão, budista, ou o que quer que seja. Que uma identidade não só pode, mas deve ser fluida, móvel, mutante. Que não há nada mais sábio do que mudar acompanhando a mudança do mundo. Que viver é deixar-se afetar e crescer pelas interações e contatos com os outros. Que coexistência é nossa condição ontológica, nossa necessária situação no mundo, e que aprender a conviver é aprender a viver.

Nosso apego a dogmas, nossa recusa em retirar da cara as máscaras, nosso neurótico vínculo a uma “persona”, faz-nos construir apartheids e muros, fronteiras e arames farpados. As diferenças são tidas como razão para massacres e genocídios, quando as mesmas diferenças poderiam ser vistas como estímulo para a convivência fecunda e mutuamente recompensadora. Bastaria, para isso, que nos víssemos como unidos por nossa humanidade comum, por nossa comum pertença à Terra, por nossa comum condição de cidadãos do cosmos.

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EPÍLOGO: UMA CANÇÃO DE AMOR A NOSSOS EUS MESTIÇOS

Não faz muito tempo que o escritor indiano Salman Rushdie, após a publicação de seu romance “Os Versículos Satânicos”, foi fulminado pela fatwa (pena de morte) decretada pelo aiatolá xiita do Irã, só podendo sobreviver por ter recebido guarida na Inglaterra. Rushdie defendeu-se das perseguições com as seguintes palavras de seu livro “Pátrias Imaginárias”:

RushdieOs Versículos Satânicos celebra a hibridez, a impureza, a mistura, a transformação que provém de novas e inesperadas combinações de seres humanos, culturas, idéias, políticas, filmes, canções. Exulta com o cruzamento de raças e teme o absolutismo do Puro […] Certamente que não põe em causa os direitos das pessoas à sua fé, embora eu não tenha nenhuma. Discorda manifestamente das ortodoxias impostas de todos os tipos, da opinião que o mundo é muito claramente Isto e não Aquilo. Discorda do fim do debate, da disputa, da discordância. Discorda também do sectarismo comunalista hindu, do tipo de terrorismo sikh que faz explodir aviões, das fatuidades do criacionismo cristão, bem como das definições mais limitadas do Islã […] É uma canção de amor à nossos eus mestiços…”

Eduardo Carli de Moraes
Toronto, Agosto de 2014

Shaking Hands with Other People’s Pain

Gaza, July 2014

Gaza, July 2014

“Nous n’avons pas toujours assez de force pour supporter les maux d’autrui.” 
LA ROCHEFOUCAULD (1613 – 1680)

Here’s the trouble with solidarity, altruism, compassion, brotherhood and other values we often pay lip service to, while practising them so shabbily: it isn’t always easy or pleasant to join in a common struggle with some human being or community who is suffering a terrible fate. As the French moralist said: “We don’t always have enough strenght to bear other people’s sufferings.” (La Rochefoucauld) Let’s not idealize human beings: egotistical as we so often are, we would rather turn a blind eye to other people’s pains and keep paying attention only to our tiny little selves. Human as I am, when confronted by events that would disturb my peace-of-mind, like these who are flooding the news during the last weeks, my first impulse is to run for cover in the comfort of blissful ignorance. Why should I care if the Israeli army is bombing Gaza to a heap of ruins? Why should I look at the photographs of dead babies, injured women, dismembered elderly? Why shouldn’t I be allowed to choose the easiest path and retreat from these horrible occurrences, refusing to acknowledge their existence? Am I to blame if I’d rather act like an ostrich that hides its head in the sand?

Voltaire (1694 – 1778) once said that “every one is guilty of all the good he did not do”. That sounds to me a much more courageous and demanding statement than the one quoted in the epigraph. La Rochefoucauld’s phrase sounds like someone who uses a personal weakness to justify his choice of indifference. Voltaire wants us to take responsability on our hands and act on behalf of others; doing nothing may be sometimes considered a criminal cumplicity to the perpetrators of oppresion or genocide. La Rochefoucauld’s comment, on the other hand, seems to excuse a behaviour of inaction and voluntary ignorance and lassitude, when we’re confronted with “les maux d’autrui”. Myself, I can’t help but feel some contempt for the attitude of those who don’t give a damn about other people’s miseries and care only about their private little matters. My heart fills with admiration by people like Arundhati Roy or Joe Sacco, Simone Weil or Che Guevara (to mention just a few), highly sensitive and creative persons, who devote their life-works to shaking hands with other people’s pain. And acting in order to diminish human grief in our Samsarian planet (good planets are hard to find). Empathy, methinks, is a praiseworthy virtue, and one of the best definitions of it I know of is by Ernesto ‘Che’ Guevara: “feeling anguish whenever someone was assassinated, no matter where it was in the world, and of feeling exultation whenever a new banner of liberty was raised somewhere else.”

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Such thoughs have been fermenting in my mind during insomnias and daytime anxieties, as the numbers of injured and dead keep getting higher and higher in Palestine. But let’s not take numbers too seriously and forget the real heartfelt human suffering that numbers tell us nothing about. Let’s not allow our minds become numb with an overdose of tragic numbers. Each number is to be perceived as flesh-and-blood, as sentience and conscience, as beating heart and thinking brain, torn apart by war.

From a safe distance, I follow the news and they tell me a lot about other people’s miseries – “gunshot injuries, broken bones, amputees” (Sacco, pg 30). I feel powerless as I witness this horrors brought to me by Youtube, Facebook, Twitter, and the Blogosphere. I feel impelled to do something, even though I know quite well how little difference I can make by sharing Al Jazeera videos, sending to my friends the photos of demonstrations, or writing a post in a tiny little corner of the World Wide Web. A bitter taste of powerlessness and despodency nails me down to the chair as I witness the Zionists’ latest massacres in Gaza. Then I remember Voltaire and he inspires me to decide: the fact that one person can’t do much isn’t a reason to do nothing. If only everyone did this tiny bit, perhaps it would add up to something powerful enough to bring down from their bloody pedestals all these Masters of War?…

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Sitting at home, far from refugee camps, I take a journey aboard Joe Sacco’s compelling graphic novel Palestine. Sacco takes me to see a re-presentation of what he himself has witnessed in Cairo, Jerusalem, Ramallah, Gaza etc. In Sacco’s pages, I see kids  throwing stones against tanks and getting shot at by soldiers armed with M-16s and other hi-tech rifles. My brain fills with some sort of psychic vomit when I picture such scenes. If I had been born in Gaza, if I was a Palestinian kid, wouldn’t I be the one throwing stones against the invading army? Wouldn’t I howl in rage against these grown men in uniform who only speak the language of violence? Which language would I learn to speak, in such an environment, if not the language of precocious rebellious stone-throwing? And if my best friend’s life had been taken away from this world by a bullet in the heart, wouldn’t I be angry enough to, a few years later, join a jihadist group and become a suicide-bomber on the road to glorious martyrdom?

gandhi_-_an_eye_for_an_eye_will_make_the_whole_world_blind_-_quote_large_poster__gn0097Unfortunately, there’s no end in sight for Intifadas, I fear, because no community will accept without resistance the sort of life conditions imposed by Israel in the occupied territories. Too many wounds have stirred too much rage, too much hunger for revenge, for any peace to be something reasonable to expect in the short term. Fuel keeps getting added to the fire of mutual hate. “An eye for an eye will make the whole world blind”, said the barefoot bald-headed pacifist Mahatmas Gandhi. But neither Zionists nor Jihadists seem to give a damn about Gandhi, especially when the wounds are fresh and the heart screams for vendetta.

I can’t begin to understand how and when all this mess began. I look back into the past, trying to get a grip of the historical roots of the conflict, but History looks like a mad circus of chaotic antagonism. It seems to me that Israel was born as a consequence of one the hugest tragedies of the 20th century – the Holocaust. The Nazi’s III Reich almost wiped-out the Jews from the face of the Earth, and when Hitler’s regime fell in 1945 it was mandatory to find the survivors a Safe Home,  in which they would be protected from ever having to be victims of such a mass-scale massacre. The “ideal” Israel would be a nation for the victims, for the survivors of that “Industry of Death”, to quote Steven Spielberg, which the Nazis set in motion in their collective psychosis of anti-semitism, racism, blind nationalism and totalitarianism.

But an old and un-answered question I’ve got is this: why should the Palestinians pay for the crimes of the Nazis? If Germany, infected by anti-semitic ideologies and imperialism, went on a killing frenzy against the Hebrews, why weren’t the Germans obliged, as the main perpetrators of the Holocaust, to offer some just compensation? Why shouldn’t Germany be made to concede, let’s say, one third of their territory for a Jewish State? Yeah: I see perfectly well that this solution wouldn’t work out. These neighbours, I suspect, wouldn’t live peacefully side-by-side with such monstruous memories of past bloody deeds haunting their coexistence. Despite the fact that Holy Jerusalem is considered a conditio sine que non by Jews: there’s no Israel without it.

Reading about these matters, I also discover, in the works of Joe Sacco and Arundhati Roy, that the plan to create a Jewish state in Palestine pre-dates the II World War. In 1917, the English minister of Foreign Relations, Lord Balfour, signs a Declaration in which the British Empire makes a commitment to create a nation for the Jews in Palestine – a place which, according to a deceitful Zionist slogan, was a “land with no people for a people with no land”. Which, of course, is bollocks. Big time bullshit. At least 700.000 Arabs were living then in this land which the Zionists’s cynicism claimed to be a desert – and promised to them by God himself. But, as Bob Dylan sang in the 60s, “you don’t count the dead when God’s on your side”.

Sacco1 Sacco2 What awes me is also how yesterday’s victims can metamorphose into today’s oppressors. How was it possible that the people who survived the Nazi Holocaust became perpetrators of a new “Palestinian Holocaust”? What Israel is doing in Gaza – bombing schools, hospitals, UN-shelters; killing hundreds of babies, children, women, elderly, civilians… – isn’t this reducing a whole community to a status of Subhumanity? People in Gaza know today how it felt for Jews in Auschwitz to be treated as less-than-human and devoid-of-basic-rights.

One could argue that Jewish experience in Europe was far from sweet and didn’t teach them much about gentleness between different cultures and nations. Pogroms, persecutions, concentration camps, gas chambers – these were some of the tragic cards the Jews were dealt throughout their wandering existence of chronic sufferers. In 1948, when they declared “Independence” and Israel was born, maybe they dreamt of Peace, finally? Anyway, if they did, the Dream has been shattered over and over again, for decades. There was never any peace. Israel is born into war and the nation’s first events, the first steps of this new-born child, have been tough as hell. Israel’s first breath was still sailing in the wind and the country was already dealing with the 1948 invasion from the Arab’s armies. After the defeat of the III Reich – who was supposed to last for a 1.000 years, according to the Nazi’s megalomania, but crumbled apart after 12 years – the Jews wouldn’t be allowed no peaceful retreat into well-deserved tranquility. They still felt endangered, they still feared annihilation, there were still enemies to fight. If they didn’t defend themselves, they feared that the Arabs would drown them all in the Sea.

Sacco3 I would argue that fear and violence often go hand-in-hand: a frightened animal is much more likely to attack than a tranquil, unafraid one. The human animal is also capable of bursting into terrible violence when he’s terribly afraid. When I look back at History’s madness, I see the Jews, after the II World War, trembling with fear and shocked with trauma. They had lost 6 or 7 million to the Nazi’s machinery of mass murder. And yet their survival instinct, their conatus (to speak in Spinozean language), was surely alive and kicking. To survive this tragedy they would need some radical means to establish themselves in some sort of safe spot. They would a massive Police State; one of Earth’s strongest armies; why not some atomic bombs? The U.S. would provide the means for Israel to become a military power whose self-confidence would be boosted by the  possession of weapons of mass destruction. Israel, then, was born like a Bunker State, warmed to the teeth, with one of the world’s most rigid and paranoid Defense Mecanisms of any nation on Earth.

But did they really believe they would build a safe haven in Israel after kicking out almost a million people from their homes in 1948? I’m sorry for my language: I’m quite aware that kicking out is not quite the right word. They did much more than kick out – they burned entire villages, they massacred entire populations, they created a huge mass of refugees, pushed very ungently, at gun point, into Gaza and the West Bank. Israel’s masterminds certainly don’t like this comparison, but this is how it feels to me: just like the Nazis deported the Jews from their homes and pushed them into the trains headed for the concentration camps, the Jews kicked out the Palestinians from their homes and pushed them into Palestine’s open-air concentration camps. Now it’s July 2014 and the world is asking in horror: is Israel applying the Final Solution? Is there anywhere or anyone in Gaza that isn’t a target?

gaza

In the occupied territories, most of what we take for granted as civilization’s basic gifts to citizens simply don’t exist – right now, as you’re reading this, more than 1 million people in Gaza have no access to proper drinking water. Almost no one has access to electricity – especially after the only power plant in Gaza was bombed to ashes in July 29. In Joe Sacco’s book, I discover that, in the Palestinian schools, it’s forbidden by the Israelis to teach history or geography with any book that mentions Palestine – it’s not supposed to exist in the textbooks. Israel would like to erase it from the maps. Is Israel trying to accomplish in fact the lie that has been written in textbooks, that is, “Palestinians don’t exist”?

In a clinic, Joe Sacco meets two doctors who reveal that they see “a lot of respiratory illnesses from bad ventilation and overcrowding, problems related to political and social conditions” (p. 48). Life in Gaza and the West Bank can be quite cruel, unealthy, insecure, always threatned to end precociously. But the web of everyday violence is woven by acts of cruelty not only to people, but also to their means of existence. Joe Sacco draws, for example, a heartbreaking scene with decapitated olive trees, cut off by the Israelis, and then gives voice to the Palestinians’ suffering:

Joe Sacco2

“The olive tree is our main source of living… We use the oild for our food and we buy our clothes with the oil we sell… Here we have nothing else but the trees… The Israelis don’t give people from our village permits to work in Israel… The Israelis know that an olive tree is the same as our sons… It needs many years to grow, six or seven years for a strong tree… Two years ago the israelis cut down 17 of my trees… my father planted those trees… Some of them were 100 years old… They obliged me to cut the trees myself. The soldiers brought me a chainsaw and watched… I was crying… I felt I was killing my son when I cut them down.” (Sacco, pg. 62)

This personal wound may seem tiny, but we need only to multiply it to get a picture of the collective wound inflicted by 120.000 trees up-rooted by the Israelis during the first four years of the Intifada.  Besides the massive bulldozing of trees, Palestian homes were also demolished in great numbers: 1.250 of them were brought down to the ground during the same four first years of the Intifada; in the same period, no less than 90.000 Palestians were arrested and put behind Israeli barbed wire, watched by soldiers with their fingers on the trigger (Sacco, pgs. 69 and 81). All those who dared rise up against Israel were crowded into prisons, put into cages, treated not so differently than the Nazis did with the inmates of Dachau or Auschwitz. One man interviewed by Sacco remember the time he was arrested in an overcrowded tent, “a sort of hell”, “3×4 meters with 21 persons”, in which “the ventilation was very bad, just a coin-sized hole in the door for injecting gas in case of a riot.” (Sacco, pg. 84)

Eduardo Carli de Moraes @ Awestruck Wanderer
Toronto, July 2014

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(TO BE CONTINUED IN ANOTHER POST…)

Recommended reading & viewing:

“Palestina” de Joe Sacco: um marco na história do Jornalismo Gráfico (Baixe completo em PDF de alta qualidade)

palestine-covers

JOE SACCO (1960 – ), “Palestine”
Prefácio de Edward W. Said (1935-2003)
Download da Graphic novel (PDF, 127 mb,  english):
http://bit.ly/1tnS0sX (via Library Genesis: http://bit.ly/1zZuNPB)

COMPATILHAR NO FACEBOOK OU NO TUMBLR

A landmark of journalism and the art form of comics. Based on several months of research and an extended visit to the West Bank and Gaza Strip in the early 1990s, this is a major work of political and historical nonfiction. Prior to “Safe Area Gorazde: The War In Eastern Bosnia 1992-1995″ — Joe Sacco’s breakthrough novel of graphic journalism — the acclaimed author was best known for “Palestine”, a two-volume graphic novel that won an American Book Award in 1996. In order to accomplish it, Joe Sacco conducted over 100 interviews with Palestinians and Jews. “Palestine” was the first major comics work of political and historical nonfiction by Sacco, whose name has since become synonymous with this graphic form of New Journalism. “Palestine” has been favorably compared to Art Spiegelman’s Pulitzer Prize-winning “Maus” for its ability to brilliantly navigate such socially and politically sensitive subject matter within the confines of the comic book medium. Sacco has often been called the first comic book journalist, and he is certainly the best. This edition of Palestine also features an introduction from renowned author, critic, and historian Edward Said (“Peace and Its Discontents” and “The Question of Palestine”), one of the world’s most respected authorities on the Middle Eastern conflict.

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You might also enjoy:

Edward Said

EDWARD W. SAID - The Question of Palestine
(Vintage, 1980, 265 pgs)
DOWNLOAD E-BOOK  (via libgen.org)

Médico sem Fronteiras fala sobre a situação em Gaza

Priso
Jonathan Whittall, humanitarian advisor for Doctors Without Borders/ Médecins Sans Frontières (MSF):

“An entire population is trapped in what is essentially an open-air prison. They can’t leave and only the most limited supplies – essential for basic survival – are allowed to enter. The population of the prison have elected representatives and organised social services. Some of the prisoners have organised into armed groups and resist their indefinite detention by firing rockets over the prison wall. However, the prison guards are the ones who have the capacity to launch large scale and highly destructive attacks on the open-air prison.”

Source: The Independent

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You might also enjoy;

“You can bomb the world to pieces but you can’t bomb it into peace.” Michael Franti

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“Since his days as a member of the Beatnigs while in his early twenties, Michael Franti grew from an angry young hip-hopper with a political, socially conscious bent (the Disposable Heroes of Hiphoprisy,Spearhead) to a man who channeled his seriousness, social unease, and desire for change and merged them with his love for music, particularly old-school R&B, soul, and hip-hop. What he left behind in brash, make-some-noise aesthetic, he gained in compassion. And through his use of his own raw power — charisma, sex appeal, sense of social injustice — he carried out in his music a community-generated passion in much the same way as Gil Scott-Heron or Marvin Gaye.” Keep on reading the artist’s biography at AMG All Music Guide

Download 4 albums by Michael Franti & Spearhead

Feuerbach e a Cerejeira – Uma Parábola Marxista

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“In total contrast to German philosophy, which descends from heaven to earth, we here ascend from earth to heaven.” KARL MARX (1846)

Walking down the streets of a big city, are we aware that we are like fishes swimming in an ocean of History? Do we realize that tall buildings, concrete roads and old churches, just to mention a few items of the urban landscape, have been erected by human labour throughout the centuries?

One of the advantages of wandering around with the brain fueled by Marxist ideas is a certain transformation of perception in which History ceases to be something buried in books and museums. History is alive and kicking: while I drift through the metropolis, I bump on it everywhere.

This awareness may be much more intense in a visit to what’s properly called an “historical city” like Québec, founded in 1608, whose  CitadelleChâteau Frontênac and monuments to European conquerors (such as Jacques Cartier and Samuel Champlain), gives one the strong impression of past-still-present. Generations ago, humans who are no longer among the living, built this awesome castle on the top of the hill, facing from the height the Saint Lawrence River below, and now those who are among the living – myself included – can’t help but notice how the Québec of nowadays is actually a product of History. It’s History incarnate.

That’s how I’m coming to understand better what Karl Marx meant by his doctrine of Historical Materialism: the material world isn’t simply a world of “natural” objects; the material world is nature transformed by human endeavour; it’s the result of the productive activities of mankind, what necessarily includes the labour of bygone generations.

One of the commonest antithesis in the history of philosophy opposes Materialism to Idealism. To even attempt to describe this controversy, in all its subtleties and historical developments, is a Herculean job that I feel unable to cope with (this task would take a much larger knowledge of the history of philosophy than I presently have). My intention in the present scribbling is merely to share some Marxist ideas which, it seems to me, enlighten the matter of Historical Materialism quite vividly. It’s well known that Karl Marx’s philosophy is accurately described as a “Materialist Conception of History”. Its inception and development seems to be one of the endeavours to which Marx and his comrade Engels devoted theirs lives to accomplish.

It’s worth remembering that the so-called “Young Marx” was already deeply interested in philosophical Materialism, so much so that Marx’s 1841 Doctorate was a thesis about the philosophies of nature of two of the most important Greek materialists, Democritus and Epicurus. It’s also well known that Marx, despite having been deeply influenced by Hegel, was far from being an orthodox disciple who would preach the Hegelian gospel like a conditioned parrot. Marx’s sharp powers of criticism and scorn were also directed against  “The German Ideology”, guilty of an idealism  that’s incarnate in the tradition of Kant, Fichte and Hegel. In Robert C. Tucker’s Philosophy and Myth in Karl Marx (Cambridge University Press, 1961), we can find some help in understanding the “materialist-idealist antithesis”:

428500“The idealist starts from the ‘heaven’ of theory and attempts to descend to the ‘earth’ of practice. He proceeds from man’s ‘sacred history’ or thought-process in the effort to comprehend the historical process as a whole. The materialist, on the other hand, begins with the ‘real life-process’ or ‘practical developmental process of man’. He takes his stand on ‘earth’ and adopts man’s ‘profane history’ as the starting point for theory. Abandoning the vain effort to descend from heaven to earth, he rises from earth to heaven. He treats the sacred history as a mental reflex of the profane one, the history of mental production as an epiphenom of the history of material production. His underlying principle is that ‘Life is not determined by consciousness, but consciousness by life.’ Marx defends it on the ground that man cannot think, and cannot live at all, without producing the material means of life. Here is the doctrine of economic base and ideological superstructure, better known in Marx’s later formulation in the preface to his Critique of Political Economy: ‘The mode of production in material life determines the general character of the social, political and spiritual processes of life. It is not the consciousness of men that determines their existence, but, on the contrary, their social existence determines their consciousness.” (TUCKER, p. 179)

Materialism, after all, doesn’t deny the existence of ideas and ideals, of phantasies and imaginations, of all those contents that can be said to pertain to the life of the mind, to subjective space or to the psychological realm. It’s undeniable, for example, that religious ideas do exist, but not as abolute or objetive truths, but as concepts produced by the human brain. The idealist, usually infected by theological ideologies, confuses a creature of his own brain with something that exists outside himself – a critique expounded in detail by Feuerbach’s highly influential The Essence of Christianity (1841).

Historical materialism aims to understand the world around without supposing for it a divine origin or an ideal which serves as its foundation. Rather, historical materialism aims to describe the sensuous external world – that which our senses have access to – as a “materialization of all past productive activity of the human race. The sensuous world around man is a nature produced by history, or in Marx’s words ‘an historical product, the result of the activity of a whole succession of generations. He criticizes all past doctrines of materialism for the failure to grasp the external material objects as materializations of human activity.” (TUCKER, op cit, p. 182)

We’re like fishes swimming in a sea of History, but also fishes who are born into a certain stage of the process of Nature’s transformation by human labour. Each one of us has a consciousness, or an “ego”, which can only be understood as something necessarily determined and conditioned by its situation in a certain historical epoch, in a particular web of social circumstances.

Even when we presume to be witnessing Nature in its purity, we may actually be witnessing Culture and History. This is one of the cleverest criticisms Marx shoots against Feuerbach: when facing a cherry tree, Feuerbach believed it to be a sensuous object from the natural realm, but he failed to grasp that “the cherry tree was transplanted to Europe by commerce only a few centuries ago, and solely by virtue of this historical fact is it given to Feuerbach’s senses.” (TUCKER, op cit, p. 182)

Eduardo Carli de Moraes
Toronto, Julho de 2014

Biblioteca Anarquista – Baixe dúzias de e-books gratuitos

kronos anarchy

Google Drive - Torrent - Lista de Obras

Camaradas! Já está disponível em nossa página de e-books uma coleção com dezenas de obras de pensadores anarquistas (muitos deles continuam sendo perseguidos pela polícia décadas ou séculos depois de mortos!). Obrigado, Arquivo Kronos! Confiram este banquete de e-books:

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Livros disponíveis para download:

ACKELSBERG, M. Free women of Spain – anarchism and the struggle for the emancipation of women
ADDOR, C. Um homem vale um homem – memória, história e anarquismo em Edgar Rodrigues
ALVES, M. Natureza e anarquia – Proudhon e Kropotkin
ALVES, M. O elogio da anarquia em ‘O que é a propriedade’ de Proudhon
ANDRADE, C. Blásfemos e sonhadores ideologia, utopia e sociabilidades nas campanhas anarquistas em a lanterna (1909-1916)

AVELINO, N. Anarquismos e governamentalidade[doutorado]
AVELINO, N. Estudos anarquistas e teoria política – entre Proudhon e Foucault
AVELINO, N. Governamentalidade e anarqueologia em Foucault
AVELINO, N. Malatesta – revolta e ética anarquista
AVELINO, N. Poder e governo em Proudhon e Foucault
AVELINO, N. Revolta, ética e subjetividade anarquista

BAKUNIN, M. A ilusão do sufrágio universal
BAKUNIN, M. A reação na Alemanha
BAKUNIN, M. Bakunin por Bakunin
BAKUNIN, M. Carta a Alexandre Herzen
BAKUNIN, M. Critica y accion [espanhol]
BAKUNIN, M. Dios y el estado – notas sobre rousseau [espanhol]
BAKUNIN, M. El principio del estado [espanhol]
BAKUNIN, M. Estatismo y anarquía [espanhol]
BAKUNIN, M. La mujer, el matrimonio y la família
BAKUNIN, M. La política del consejo
BAKUNIN, M. O conceito de liberdade
BAKUNIN, M. O sistema capitalista
BAKUNIN, M. O socialismo libertário

BERKMAN, Alexander. Kronstadt (em espanhol)
BERNERI, M. L. Viaje a través de la utopia
BEY, Hakim. TAZ (Zona Autonoma Temporaria)
BONOMO, A. O anarquismo em São Paulo [mestrado]
BOOKCHIN, M. Compilación de escritos

CABRAL, M. Teatro anarquista, futebol e propaganda
CAMPOS, C. O sonhar libertário – movimento operário nos anos de 1917 a 1920
CAPPELLETTI, A. La Ideologia Anarquista
CASTRO, R. A cisão no anarquismo argentino – as perspectivas

CHOMSKY, N. Apuntes sobre anarquismo
CHOMSKY, N. Fabricando consenso – el control de los medios massivos de comunicacion
CHOMSKY, N. O lucro ou as pessoas
CHOMSKY, N. Os caminhos do poder

COGGIOLA, O. A primeira internacional e a comuna de Paris

COLOMBO, E. Anarquia e anarquismo
COLOMBO, Eduardo. Anarquismo ante la crisis de las ideologías [espanhol]
COLOMBO, Eduardo. La vontad del pueblo – democracia y anarquía [espanhol]
COLOMBO, Eduardo. L’espace politique de l’anarchie [francês]

COLSON, D. Nietzsche e o anarquismo
COLSON, D. O anarquismo hoje

CORNÉLIUS, G. O Bakuninismo – um estudo sobre o coletivismo [monografia]

CORRÊA, F. Anarquismo, poder, classe e transformação social
CORRÊA, F. Elementos para uma teoria libertária do poder
CORRÊA, F. O sentido do termo “anarquia”
CORRÊA, F. Poder e participação
CORRÊA, F. Rediscutindo o anarquismo [mestrado]

COSTA, C. T. O que é anarquismo
CUBERO, Jaime. O movimento anarquista no Brasil – entrevista da Revista Utopia

DUARTE, R. A imagem rebelde – a trajetória libertária de Avelino Fóscolo

FABBRI, L. Carácter ético del anarquismo
FABRI, L. O caráter ético do anarquismo
FLORESTA, L. A gênese do pensamento pedagógico anarquista
FOSCOLO, A. O semeador
FREIRE, R; BRITO, F. Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano

GALLO, S. Anarquismo e educação – os desafios para uma pedagogia anarquista hoje
GALLO, S. Escola pública numa perspectiva anarquista
GALLO, S. O paradigma anarquista em educação
GATTAI, Z. Anarquistas graças a deus

GOLDMAN, Emma. Dois anos na Rússia
GOLDMAN, Emma. O Indivíduo a Sociedade e o Estado, e Outros

GONÇALVES, C. Homem regenerado Brasil reformado [TCC]
GORDON, U. Anarchism and political theory [inglês]
GRAEBER, D. The new anarchists [inglês]

GUÉRIN, D. El anarquismo
GUÉRIN, D. Marxismo e anarquismo

GUIMARAES, Adonile. Anarquismo e ação-direta como estratégia [mestrado]

HAMON, A. Psicología del socialista-anarquista
HART, J.M. Anarquismo e la clase obrera no México
HOROWITZ, I. Los anarquistas – la teoria

KROPOTKIN, P. A Conquista do Pão
KROPOTKIN, P. Ajuda Mutua um fator de evolução
KROPOTKIN, P. Anarquismo (enciclopédia britânica)
KROPOTKIN, P. As prisões
KROPOTKIN, P. O assalariado
KROPOTKIN, P. O Princípio Anarquista e outros ensaios

LANDAUER, G. Revolution and other writings [inglês]
LEAL, C. Pensiero e dinamite – anarquismo e repressão em SP nos anos 1890
LEHNING, A. Marxismo y anarquismo en la revolucion rusa
LEUENROTH, E. Anarquismo – roteiro da libertação social
LEVAL, G. Espagne libertaire [francês]
LOPREATO, C. O espírito da leis – anarquismo e repressão política no Brasil
LOPREATO, C. O espírito da revolta – a greve geral anarquista de 1917

MACKAY, J.H. The anarquists

MALATESTA, E. Amor y anarquia.pdf
MALATESTA, E. Anarquismo e Anarquia
MALATESTA, E. Entre campesinos
MALATESTA, E. Escritos revolucionários
MALATESTA, E. Pensamiento y accion revolucionários
MALATESTA, E. Um pouco de teoria
MALATESTA; MERLINO. Elecciones y anarquismo

MATEUS, J. G. Liberdade em Mikhail Bakunin
MATEUS, J. G. O sindicalismo revolucionário como estratégias nos congressos
MELLA, R. El socialismo anarquista
MENDES, S. As mulheres anarquistas na cidade de São Paulo, 1889-1930
MIRANDA, J. Recuso-me! ditos e escritos de Maria Lacerda de Moura

MONTEIRO, Fabrício. O materialismo histórico de Bakunin
MONTEIRO, Fabrício. O materialismo no debate Feuerbach, Stirner e Marx
MONTEIRO, Fabrício. Significações do ‘eu’ niilista [mestrado]

NETTLAU, M. Anarchism Communist or Individualist –Both
NETTLAU, M. História da anarquia
NETTLAU, M. La anarquia a traves de los tiempos

PASSETTI, E. Poder e anarquia
PAZ, A. Durruti y la revolución
PENNA, M. Socialistas libertários e lutas sociais no RJ
POMINI, Igor. Revolução espanhola [mestrado]

PROUDHON, P-J. A filosofia da miséria
PROUDHON, P-J. A guerra e a paz
PROUDHON, P-J. Do princípio federativo
PROUDHON, P-J. Filosofia Da Miséria (Tomo II)
PROUDHON, P-J. General Idea Of Revolution In The 19th Cent
PROUDHON, P-J. Idéia Geral Da Revolução No Século Dezenove
PROUDHON, P-J. O Que é a Propriedade?
PROUDHON, P-J. Sociedade Sem Autoridade

PUENTE, I. Comunismo libertário

RAGO, M. O anarquismo e a história
READ, H. A filosofia do anarquismo
READ, H. Al diabo con la cultura
READ, H. Anarquia y orden
READ, H. Arte poesia y anarquismo

RÉCLUS, E. La anarquía y la iglesia

ROCKER, R. Anarco sindicalismo – teoria y pratica [espanhol]
ROCKER, R. Artistas y rebeldes
ROCKER, R. As idéias absolutistas no socialismo
ROCKER, R. La tragédie de l’Espagne [francês]
ROCKER, R. Porque sou anarquista
ROCKER, R. The nation and the light of modern race theories [inglês]

RODRIGUES, E. Pequena história da imprensa social no Brasil
ROMANI, C. Oresti Ristori – uma aventura anarquista [mestrado]

SAMIS, A. Bolchevismo e anarquismo
SAMIS, A. Matizes do sentido
SAMIS, A. Neno Vasco e os grupos anarquistas em Brasil e Portugal
SAMIS, A. Sindicalismo e anarquismo no Brasil
SAMIS, A. Uma terra sem amos – federalismo na comuna de Paris

SANTOS, Kauan. Ação e militância anarquista nas manifestações operárias de 1917
SCHMIDT, M; WALT, V. Apresentando a Chama Negra
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SILVA, Wanderlei. ‘Anarquia no Reino Unido’ – proposta anarquista em V de Vingança [TCC]
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THOREAU, H. Walden ou a vida nos bosques

TOLSTOI, L. Cristianismo e anarquismo
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TUCKER, Benjamin. Individual liberty

VACCARO, S. Anarquismo e ontologia
VASCO, Neno. A greve dos inquilinos
VASCO, Neno. Georgicas – ao trabalhador rural
VIANA, Rafael. Anarquismo – uma breve genealogia história

WALTER, N. O que é Anarquismo
WOODCOCK, G. historia das ideias e movimentos anarquistas

ZERZAN, J. O futuro primitivo.

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BONUS TRACK

Marshall

PETER MARSHALL
Demanding the Impossible – A History of Anarchism.
Download: http://bit.ly/1s1dsB9

Inclui análise de pensadores anarquistas clássicos: Godwin, Proudhon, Stirner, Bakunin, Kropotkin, Reclus, Malatesta, Tólstoi, Gandhi, Emma Goldman etc.