UMA VIAGEM COM MAIS NÁUFRAGOS DO QUE NAVEGANTES (por Edu Carli @ A Casa de Vidro)

Galeano

“O desenvolvimento é uma viagem
com mais náufragos do que navegantes.”

Eduardo Galeano,
Las Venas Abiertas de América Latina

No mesmo ano de 1492 em que os conquistadores espanhóis aportaram nas praias do chamado Novo Mundo, a Espanha expulsou 150 mil judeus de seu território e re-conquistou Granada, arrancando-a das garras dos muçulmanos. As Monarquias Absolutas da península ibérica, calcadas na dogmática católica – em especial aquela falaciosa ideologia hoje quase completamente enterrada em descrédito do “monarca por decreto divino” – estavam envolvidas nas turbulências de guerras religiosas sanguinolentas. Quem chegou às Américas em 1492 não foram alguns cristãos pacifistas e benevolentes, como logo descobririam as populações nativas. Os índios não tardaram a fazer uma péssima descoberta: os invasores provinham de civilizações européias cujas elites dirigentes sabiam ser extremamente violentas, intolerantes, dogmáticas e embevecidas por delírios de etno-superioridade. Relembrando aqueles tempos, Galeano escreve:

Galeano2“A Espanha adquiria realidade como nação erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar…” [Nota #1]

Em 1492, os milhões de habitantes deste continente que o invasor estrangeiro depois batizaria de América tiveram um encontro traumático: “descobriram que eram índios, que viviam na América, que estavam nus, que existia o pecado, que deviam obediência a um rei e a uma rainha de outro mundo e a um deus de outro céu, e que este deus havia inventado a culpa e a vestimenta, e havia ordenado que fosse queimado quem quer que adorasse o sol, a lua, a terra e a chuva que a molha…” (Galeano)

Bento 16Corte para maio de 2007. O Papa visita o Brasil e discursa na basílica de Aparecida (custo desta construção: 37 milhões de reais). Joseph Ratzinger, o Bento XVI, autoridade-mor da Cristandade no princípio do 21º século depois do nascimento do Nazareno, pontifica:

“A fé cristã encorajou a vida e a cultura desses povos indígenas durante mais de 5 séculos. O anúncio de Jesus e de seu Evangelho nunca supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem uma imposição de uma cultura estrangeira. O que significou a aceitação da fé cristã pelos povos da América Latina e do Caribe? Para eles, isso significou conhecer e aceitar o Cristo, esse Deus desconhecido que seus antepassados, sem perceber, buscavam em suas ricas tradições religiosas. O Cristo era o Salvador que eles desejavam silenciosamente.” [Nota #2]

Comparados, os discursos de Galeano e de Ratzinger são explicitamente contraditórios, antagônicos, irreconciliáveis. Não há como ambos possam estar certos simultaneamente – o que equivale a dizer que, destes dois, um deles mente. A história da Conquista que nos narra o autor d’As Veias Abertas Da América Latina é repleta de chacinas, pilhagens e horrores; nela houve sim, indubitavelmente, uma cultura forçada goela abaixo dos nativos através da violência das armas-de-fogo e das espadas afiadas. Já a história, higienizada pelo Papa (que demitiu-se, dando lugar ao Papa Chico), fabrica um conto-de-fadas: nele, a fé cristã foi “aceita” na América por aqueles que “desejavam silenciosamente” abraçar o Cristo, e segundo Bento XVI os europeus que aportaram no Novo Mundo agiram de modo humanitário e generoso ao presentear os pagãos com a imensa benesse de seu catolicismo.

Diante da lorota papal, Jean Ziegler comenta, em Ódio ao Ocidente: “Raramente uma mentira histórica foi proferida com tanto sangue-frio. […] A população total de astecas, incas e maias era de 70 a 90 milhões de pessoas quando os conquistadores chegaram. Entretanto, um século e meio depois, restavam apenas 3,5 milhões.” [Nota #3]

aztecas

A cidade de Potosí, na Bolívia, serve como um exemplo das ações dos predadores ibéricos e seu apetite voraz pelas riquezas alheias: Potosí, que fica a quase 4.000 metros de altitude, já foi uma das cidades mais populosas e ricas do mundo. No século XV e XVI, torna-se tamanho paradigma de território abençoado com vastas riquezas naturais que, no romance clássico de Cervantes, Dom Quixote utiliza em seus papos com Sancho Pança a expressão “vale um Potosí”. Os invasores estrangeiros extraíram, durante 3 séculos, cerca de 40.000 toneladas de prata de suas montanhas [nota #4].

As comunidades quíchua e aimará do Altiplano andino foram escravizadas, empurradas para as minas, coagidas por guardas armados ao labor pesado em circunstâncias adversas. Os desabamentos eram frequentes e muitos mitayos (os escravos mineiros) acabavam enterrados vivos nas profundezas da montanha de prata. Estima-se que 8 milhões de pessoas morreram em Potosí no processo de butim que os invasores europeus promoveram. Para justificar o genocídio, o teólogo espanhol Juan Ginés de Sepúlveda (1489-1573) explica: “Os indígenas merecem ser tratados dessa maneira porque seus pecados e idolatrias ofendem a Deus.” Em outras palavras: na teologia imperial, Deus é espanhol, ama o capitalismo e aplaude a escravização e a chacina.

Potosí é apenas um caso dentre muitos outros e poderíamos contar uma estória semelhante sobre as Minas Gerais, em especial Vila Rica, hoje Ouro Preto, que foi pilhada de todo o seu ouro, assim como Potosí foi assaltada de toda a sua prata. Ao invés de multiplicar exemplos de horrores que sucederam à Conquista da América, ouçamos esta reflexão mais geral de Karl Marx sobre as conexões entre o desenvolvimento do capitalismo industrial europeu e o empreendimento colonial, escravocrata e genocida:

Marx 1867

“O capital veio ao mundo suando sangue e lama por todos os poros. […] Em geral, a escravidão velada dos operários assalariados na Europa precisava, como pedestal, da escravatura notória no Novo Mundo. […] O tesouro capturado fora da Europa, diretamente por pilhagem, escravização, assassinato seguido de roubo, refluiu para a mãe pátria e transformou-se aí em capital.” [nota #5]

Em sua aurora, portanto, o capitalismo europeu nutriu-se de holocaustos coloniais, praticou a escravização em massa, sugou suas gordas mais-valias da exploração brutal do trabalho forçado, com as bênçãos de papas e reis. O que se seguiu à Conquista da América, aquilo de que ainda somos infelizmente contemporâneos, é uma história-ainda-presente de genocídio e etnocídio, entrelaçados e amalgamados. Não foi Hitler quem inventou a limpeza étnica. Os índios conheceram-na bem a partir de 1492 e talvez não haja absurdo algum em chamar a coisa por seu devido nome: holocausto. Em Arqueologia da Violência, Pierre Clastres explana o que entende pela palavra “etnocídio” e no que esta se distingue de “genocídio”: “O etnocídio é a supressão das diferenças culturais julgadas inferiores e más; é a aplicação de um projeto de redução do outro ao mesmo…”  Ouçamos mais longamente à argumentação de Clastres:

Archeologie_de_la_violence“Quem são os praticantes do etnocídio? Em primeiro lugar, aparecem na América do Sul, mas também em muitas outras regiões, os missionários. Propagadores militantes da fé cristã, eles se esforçam por substituir as crenças bárbaras dos pagãos pela religião do Ocidente. A atitude evangelizadora implica duas certezas: primeiro, que a diferença – o paganismo – é inaceitável e deve ser recusada; a seguir, que o mal dessa má diferença pode ser atenuado ou mesmo abolido. É nisto que a atitude etnocida é sobretudo otimista: o Outro, mau no ponto de partida, é suposto perfectível, reconhecem-lhe os meios de se alçar, por identificação, à perfeição que o cristianismo representa.

O etnocídio é praticado para o bem do selvagem. O discurso leigo não diz outra coisa quando enuncia, por exemplo, a doutrina oficial do governo brasileiro quanto à política indigenista: “Nossos índios, proclamam os responsáveis, são seres humanos como os outros. Mas a vida selvagem que levam nas florestas os condena à miséria e à infelicidade. É nosso dever ajudá-los a libertar-se da servidão. Eles têm o direito de se elevar à dignidade de cidadãos brasileiros, a fim de participar plenamente do desenvolvimento da sociedade nacional e de usufruir de seus benefícios”. A espiritualidade do etnocídio é a ética do humanismo.

Denomina-se etnocentrismo a vocação para avaliar as diferenças pelo padrão da sua própria cultura. O Ocidente seria etnocida porque é etnocentrista, porque se pensa e quer ser a civilização. […] O etnocídio é a supressão das diferenças culturais julgadas inferiores e más; é a aplicação de um projeto de redução do outro ao mesmo. O índio amazônico suprimido como outro e reduzido ao mesmo como cidadão brasileiro. Em outras palavras, o etnocídio resulta na dissolução do múltiplo em Um.” [nota #6]

Ora, a Conquista da América foi um projeto genocida e etnocida, posto em prática por potências imperiais européias que chegaram aqui embevecidas com sua intolerância, embrutecidas por sua presunção de superioridade.

No filme espanhol Até A Chuva (También La Lluvia), de Iciar Bollain, temos a oportunidade de refletir sobre imperialismo e colonização em um contexto visceralmente contemporâneo: estamos na Bolívia do começo do século, às vésperas da eclosão da Guerra da Água de Cochabamba.

Gael Garcia Bernal encarna um dos espanhóis da equipe de produção do filme-dentro-do-filme, um desses blockbusters que pretendem fornecer um retrato épico e heróico da História. Pagam uma merreca para que os bolivianos participem como figurantes das filmagens e pretendem ordenar os rumos da película como se fossem ainda os poderosos chefões de outrora. Só que as ebulições do presente suplantam o retrato sereno do passado: a equipe cinematográfica que queria apenas realizar um filme sobre os tempos de Colombo acaba envolvida pelo turbilhão da imensa revolta popular que seguiu-se à decisão, tomada pelo conluio governamental-corporativo, de privatizar a água na Bolívia.

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O título do filme – Até a Chuva – refere-se a algo que até parece mentira, invenção satírica, paranóia de Bolívarista: a privatização de todas as formas de água, inclusive a da chuva. Ocorreu de fato: os bolivianos não só tiveram que engolir um aumento de 300% nas tarifas da água, após o cerceamento corporativo do commons; os bolivianos tiveram roubado até mesmo seu direito à chuva. Em nossa era dita “neoliberal” (mas que talvez merecesse o nome “neocolonial”), a América Latina ainda batalha contra os gigantes do capitalismo global que aqui desejam faturar seus imensos lucros ao preço de nossa imensa miséria: na Bolívia, o acordo entre as mega-corporações transnacionais e o Estado elitista que as servia de joelhos, na era pré-Evo Morales, fez com que este direito humano básico, esta necessidade elementar para a sobrevivência física de qualquer ser humano, fosse transformado, também ele, em mercadoria e pretexto para o lucro.

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Fotos extraídas do artigo de Franck Poupeau, “La guerre de l’ eau – Cochabamba, Bolivie, 1999-2001″ (Pg. 133 do seguinte livro, disponível em PDF: http://agone.org/lyber_pdf/lyber_401.pdf)

 Assim que a privatização da água foi imposta pelo governo e efetivada pelas corporações, o que ocorreu foi que as empresas capitalistas

“aumentaram massivamente o preço da água potável e centenas de milhares de famílias viram-se na impossibilidade de pagar a conta. Elas tiveram que se abastecer nos riachos poluídos, nos poços envenenados pelo arsênico. As mortes infantis pela ‘diarreia sangrenta’ aumentaram potencialmente. Manifestações públicas começaram a explodir. Durante os confrontos com a polícia, dezenas de pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas, entre elas muitas mulheres e crianças. Mas os bolivianos não se dobraram. O movimento se espalhou por todo o país. No dia 17 de outubro de 2003, cercados no palácio Quemado por uma multidão enfurecida de mais de 200 mil manifestantes, o presidente Lozada e seus comparsas mais próximos decidiram fugir do país. Destino: Miami.” [nota #7]

Até a Chuva tem entre seus méritos maiores o retrato destes eventos cruciais na história latino-americana recente; a excelência do filme está no modo como ele procura compreender o presente sempre vinculado ao passado histórico, estabelecendo paralelos eloquentes entre as atitudes de Cristóvão Colombo e seus asseclas, outrora, e dos novos conquistadores do capitalismo globalizado: ambos decretam-se os donos e os possuidores de recursos naturais, aos quais pretendem ter direito por terem sido escolhidos por Deus-Pai ou pelo Deus-Progresso (este último, diga-se de passagem, como nos lembrou a epígrafe Galeaneana deste texto, “é uma viagem com mais náufragos que navegantes…”).

Contando com mais uma atuação brilhante de Gael Garcia Bernal (que iluminou-nos e cativou-nos sobre a história latino americana também em filmes como No de Pablo Larraín e Diários de Motocicleta de Walter Salles), Até a Chuva é um dos melhores filmes a explorar a complexidade de nossa história recente, sendo dotado de uma vibe próxima à dos clássicos de cineastas como Gillo Pontecorvo (A Batalha de Argel, Quemada!) e Roland Joffé (A Missão, Os Gritos do Silêncio). É um filme que ajuda-nos a compreender as novas revoluções bolivaristas do continente sob a perspectiva daqueles que conquistaram, em especial na Bolívia e na Venezuela, algumas das mais significativas vitórias do movimento dito “altermundialista” nas últimas décadas.

Evo Morales, presidente da Bolívia (de 2006 até hoje)

Evo Morales, presidente da Bolívia (de 2006 até hoje)

O filme permite-nos entender o processo que conduziu a Bolívia a livrar-se do jugo de corporações (como a Bechtel e a Suez) e presidentes (como Lozada ou Banzer) que eram fanáticos praticantes da política “Privatização de Tudo” . Contestados e destronados, estes representantes do neo-imperialismo sofreram um revés com a eleição de Evo Morales em 2006, o primeiro presidente de raízes indígenas a ser eleito democraticamente na América Latina. Pachamama renasceu das cinzas. E com ela as centelhas de esperança.

Se as ocorrências em Cochabamba são tão relevantes para nosso presente e nosso futuro, acredito que é porque não escaparemos a um porvir onde os antagonismos e conflitos relacionados com a água vão se exacerbar e intensificar. A pior seca da história de São Paulo, por exemplo, já inspira alguns dos melhores analistas políticos brasileiros, como Guilherme Boulos (militante do MTST), a perguntar/provocar: “há quinze anos, na Bolívia, atitudes semelhantes às adotadas agora por Geraldo Alckmin provocaram levante popular. É isso que governador deseja produzir?” [nota #8] 

Escrevendo no calor da hora, em novembro de 2000, Arundhati Roy reflete sobre a Batalha de Cochabamba como um símbolo de como opera atualmente o capitalismo oniprivatizante e como este é contestado por insurreições grassroots; em seu artigo Power Politics: The Reincarnation of Rumpelstiltskin, a escritora e ativista indiana escreve:

Arundhati Roy, escritora e ativista indiana, autora do romance

Arundhati Roy, escritora e ativista indiana, autora do romance “O Deus das Pequenas Coisas”

“What happens when you ‘privatise’ something as essential to human survival as water? What happens when you commodify water and say that only those who can come up with the cash to pay the ‘market price’ can have it? In 1999, the government of Bolivia privatised the public water supply system in the city of Cochacomba, and signed a 40-year lease with Bechtel, a giant US engineering firm.The first thing Bechtel did was to triple the price of water. Hundreds of thousands of people simply couldn’t afford it any more. Citizens came out on the streets to protest. A transport strike brought the entire city to a standstill. Hugo Banzer, the former Bolivian dictator (now the President) ordered the police to fire at the crowds. Six people were killed, 175 injured and two children blinded. The protest continued because people had no options—what’s the option to thirst? In April 2000, Banzer declared Martial Law. The protest continued. Eventually Bechtel was forced to flee its offices. Now it’s trying to extort a $12-million exit payment from the Bolivian government…” [nota #9]

Vale relembrar que a Bolívia do começo dos anos 1990 já havia dado sinais claros de que, naquelas terras de onde surrupiaram-se toneladas de prata de Potosí, naquelas terra onde o médico-gerrilheiro Che Guevara foi assassinado, a rebelião não dormia nem estava morta. Em 1992, por ocasião dos 500 anos do início da Conquista da América, iria acontecer em La Paz uma “suntuosa festa de aniversário” organizada pelas autoridades branquelas, com desfile militar, cerimônias diplomáticas, convidados vindos da Europa, coms Te Deums e améns destinados a celebrar a ideologia de uma colonizadores europeus, humanitários e filantrópicos, que fizeram o favor de nos trazer a verdadeira civilização – lorota que o imperialismo deseja inscrever como dogma em nossos livros, monumentos, consciências.

O espírito de resistência e insurgência, esse ímpeto revoltado à la Tupac Amaru, renasceu para mostrar que “nunca, durante esses últimos cinco séculos, a brasa se apagou debaixo das cinzas”, como escreve Jean Ziegler. Emergindo dos indígenas, que constituem mais de metade da população do país, nasceu um protesto colossal: “Várias centenas de milhares de aimarás, quíchuas, moxos e guaranís (…) vaiaram Cristóvão Colombo, derrubaram as tribunas de honra e ocuparam a capital durante quatro dias. Na manhã do quinto dia, pacificamente, voltaram para suas comunidades no Altiplano…” [nota #10]

Eis aí, pois, na Bolívia, algumas inspiradoras estórias de desobediência civil contestatória e mobilização transformadora. Thoreau e Gandhi aplaudiriam Cochabamba? Relembrar isto tudo, aprofundar os estudos sobre estes episódios, serve para a tarefa essencial de pôr em questão a história oficial e escrever em seu lugar uma história mais múltipla, que abrigue a voz e as lutas daqueles que podem até ser considerados por alguns como sendo parte de nosso passado. Em Até a Chuva, o político pontifica que, “se deixarmos, esses índios vão nos levar de volta à Idade da Pedra”. Ora, aqueles que alguns julgam como sobreviventes do passado talvez sejam, na verdade, os guias essenciais para nosso futuro.  Se um outro mundo é possível e necessário, é preciso lembrar que uma outra história também é possível e necessária, como Walter Benjamin sugeria em 1940, nas Teses Sobre o Conceito de História, em que ele aponta: “em cada época é preciso arrancar a tradição ao conformismo que quer apoderar-se dela” e “despertar no passado as centelhas da esperança” [nota #11].

Bolívia: imensos protestos contra a privatização da água tomam conta das ruas de Cochabamba em 1992

Na Bolívia, imensos protestos contra a privatização da água tomaram conta das ruas de Cochabamba em 2000.

E.C.M. 
Goiânia, Dez 2014

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. GALEANO, EduardoAs Veias Abertas da América Latina. Capítulo: Febro do Ouro, Febre da Prata. Sub-capítulo: O signo da cruz nas empunhaduras das espadas. Trad. Sergico Faraco. Ed. L&PM. 2010. Pg. 30.

2. Le Monde, 15 de maio de 2007

3. ZIEGLER, Jean. Ódio ao Ocidente. Ed. Cortez, 2008, p. 188.

4. HAMILTONEarl J.  American Treasure and the Price Revolution in Spain, 1501-1650. Massachusetts, 1934.

5. MARX, KarlOeuvres Complètes, editadas por M. Rubel. Vol. II: Le Capital, tomo I, seção VIII. Paris: Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade.

6. CLASTRES, PierreArqueologia da Violência – Pesquisas de Antropologia Política. Ed. Cosac & Naify, 2004.

7. ZIEGLER. Op cit [nota#3]2011, p. 208.

8. BOULOS, Guilherme. São Paulo Rumo A Uma Guerra da Água?. Leia o artigo completo no Outras Palavras.

9. ROY, ArundhatiPower Politics: The Reincarnation of Rumpelstiltskin. Leia o artigo completo na Outlook India, 27 de Novembro de 2000.

10. ZIEGLER. Op cit. P. 206-207.

11. BENJAMIN, Walter. Sexta Tese Sobre o Conceito de História. In: Obras Escolhidas I – Magia e Técnica, Arte e Política. Ed. Brasiliense, pg. 225.

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Veja também:

Abuella Grillo (2009)

[Vídeo] Theodore Roszak (1933-2011), “The Cult of Information” (27 min)

Roszak science-quotes-32-728

Wikipedia: Theodore Roszak

PROGRAMA DE INDIE (1ª EDIÇÃO) Cool_Letânea Musical!

PROGRAMA DE INDIE (1ª EDIÇÃO)
Cool_Letânea Musical!

Alternativas sônicas aos tradicionalismos dogmáticos. Independências ruidosamente manifestadas. Conexões entre Velvet Underground e Tame Impala. Weezer e Talkin’ Heads dançando juntos suas coreografias nerd. Melodias lúdicas e lindamente entregues por Super Furry Animals e rios fluidos de melancolia bela com o Okkervil River. A coleta também convoca gritantes riot girls (das Sleaters ao Ex Hex) pra conviver com indiegenas brazucas (de Graveola a Apanhador Só). Dê play e transmita por teu espaço arredor estas marés de sons que submergem a chatura da normalidade… Evoé e boa viagem!

P.S. – Dia desses a Fósforo Cultural e a Evoé Café com Livros fizeram um novo incêndio na cultura goianiense com o “Programa de Indie”, 1ª edição, com show de Components e discotecagens finas de Gummy Juicerman, Bruna Mendez e Túlio Metropolis GO. Evento duca! Inspirado pela ideia – muito bem batizada pelo Camilo Rodovalho – do “Programa de Indie” goiano (será que vira tradição?), aí vai a primeira de (quem sabe) uma série de mixtapes que congregam alguns dos meus “pet sounds”, que tão sempre rolando aqui nos alto-falantes e fones-de-ouvido…

Enfim, que venham novos…
PROGRAMA DE INDIE!

[Click play no player acima para ouvir:]

MÚSICAS:

01) WEEZER, “The Good Life”
02) TAME IMPALA, “Mind Mischief”
03) JANELLE MONÁE, “Tightrope”
04) THE VELVET UNDERGROUND, “Cool It Down”
05) TALKING HEADS, “Life During Wartime”
06) SUPER FURRY ANIMALS, “If You Don’t Me To Destroy You”
07) THEM CROOKED VULTURES, “Elephants”
08) EX HEX, “Beast”
09) OKKERVIL RIVER, “You Can’t Hold The Hand of a Rock and Roll Man”
10) SLEATER-KINNEY, “Ballad of a Ladyman”
11) GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO, “Canina Intuição”
12) APANHADOR SÓ, “Vila do Meio Dia”
13) TRANSMISSOR, “Só se For Domingo”

NIETZSCHE: “SOBRE VERDADE E MENTIRA NO SENTIDO EXTRA-MORAL” (1873) [TEXTO COMPLETO / DOWNLOAD E-BOOK]

NietzscheNietzsche. Sobre verdade e mentira. Hedra, 2008, 94 pgs. Trad. de Fernando de Moraes Barros.

DOWNLOAD EBOOK

VERDADE E MENTIRA NO SENTIDO EXTRAMORAL

1

“No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer. Esta é a fábula que se poderia inventar, sem com isso chegar a iluminar suficientemente o aspecto lamentável, frágil e fugidio, o aspecto vão e arbitrário dessa exceção que constitui o intelecto humano no seio da natureza. Eternidades passaram sem que ele existisse; e se ele desaparecesse novamente, nada se teria passado; pois não há para tal intelecto uma missão que ultrapasse o quadro de uma vida humana. Ao contrário, ele é humano e somente seu possuidor e criador o trata com tanta paixão, como se ele fosse o eixo em torno do qual girasse o mundo.Se pudéssemos entender a mosca, perceberíamos que ela navega no ar animada por essa mesma paixão e sentindo em si que voar é o centro do mundo.

Nada há de tão desprezível e de tão insignificante na natureza que não transborde como um odre ao menor sopro dessa força do conhecer, e assim como todo carregador quer também ter o seu admirador, o homem mais arrogante, o filósofo, imagina ter também os olhos do universo focalizados, como um telescópio, sobre suas obras e seus pensamentos. É admirável que o intelecto seja responsável por esta situação, ele a quem todavia não foi dado senão servir precisamente como auxiliar dos seres mais desfavorecidos, mais vulneráveis e mais efêmeros, a fim de mantê-los na vida pelo espaço de um minuto de existência da qual eles teriam todo o direito de fugir, tão rapidamente como o filho de Lessing, não fosse esta ajuda recebida. Este orgulho ligado ao conhecimento e à percepção, névoa que cega o olhar e os sentidos do homem, engana-os sobre o valor da existência, exatamente quando vem acompanhada da avaliação mais lisonjeira possível com relação ao conhecimento. O seu efeito mais comum é a ilusão; mas seus efeitos mais particulares implicam também qualquer coisa da mesma ordem. O intelecto, enquanto meio de conservação do indivíduo, desenvolve o essencial de suas forças na dissimulação, pois esta é o meio de conservação dos indivíduos mais fracos e menos robustos, na medida em que lhe é impossível enfrentar uma luta pela existência munidos de chifres ou das poderosas mandíbulas dos animais carnívoros.

É no homem que esta arte da dissimulação atinge o seu ponto culminante: a ilusão, a lisonja, a mentira e o engano, a calúnia, a ostentação, o fato de desviar a vida por um brilho emprestado e de usar máscaras, o véu da convenção, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo, em suma, o gracejo perpétuo que em todo lugar goza unicamente com o amor da vaidade, são nele a tal ponto a regra e a lei, que quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento, nos homens, de um instinto de verdade honesto e puro.

Eles estão profundamente mergulhados nas ilusões e nos sonhos, seu olhar somente desliza sobre a superfície das coisas e vê apenas as formas, sua percepção não leva de maneira nenhuma à verdade, mas se limita a receber as excitações e a andar como que às cegas no dorso das coisas. Além disso, durante a vida toda, o homem se deixa enganar à noite pelos sonhos, sem que jamais o seu sentido moral procure impedi-lo disso, embora deva haver homens que, por força da vontade, tiveram sucesso em se livrar do ronco.

Mas o que sabe o homem, na verdade, de si mesmo? E ainda, seria ele sequer capaz de se perceber a si próprio, totalmente de boa-fé, como se estivesse exposto numa vitrine iluminada? A natureza não lhe dissimula a maior parte das coisas, mesmo no que concerne a seu próprio corpo, a fim de mantê-lo prisioneiro de uma consciência soberba e enganadora, afastado das tortuosidades dos intestinos, afastado do curso precipitado do sangue nas veias e do complexo jogo de vibrações das fibras? Ela atirou fora a chave; e infeliz da curiosidade fatal que chegar um dia a entrever por uma fresta o que há fora desta cela que é a consciência e aquilo sobre o que ela está assentada, e descobrir então que o homem repousa, a despeito da sua ignorância, sobre um fundo impiedoso, ávido, insaciável e mortífero, agarrado a seus sonhos assim como ao dorso de um tigre. Nessas condições, haveria no mundo um lugar de onde pudesse surgir o instinto de verdade?

No estado de natureza, na medida em que o indivíduo quer conservar-se diante dos outros indivíduos, ele não utiliza sua inteligência o mais das vezes senão com fins de dissimulação. Mas, na medida em que o homem, ao mesmo tempo por necessidade e por tédio, quer viver em sociedade e no rebanho, necessário lhe é concluir a paz e, de acordo com este tratado, fazer de modo tal que pelo menos o aspecto mais brutal do bellum omnium contra omnes desapareça do seu mundo. Ora, este tratado de paz fornece algo como um primeiro passo em vista de tal enigmático instinto de verdade. De fato, aquilo que daqui em diante deve ser a verdade é então fixado, quer dizer, é descoberta uma designação uniformemente válida e obrigatória das coisas, e a legislação da linguagem vai agora fornecer também as primeiras leis da verdade, pois, nesta ocasião e pela primeira vez, aparece uma oposição entre verdade e mentira.

O mentiroso utiliza as designações pertinentes, as palavras, para fazer parecer real o que é irreal; ele diz por exemplo: eu sou rico, ainda que, para qualificar sua condição, fosse justamente a palavra pobre a designação mais correta. Ele mede as convenções estabelecidas, operando substituições arbitrárias ou mesmo invertendo os nomes. Se age assim de maneira interessada e demasiadamente prejudicial, a sociedade não lhe dará mais crédito e, por causa disso, o excluirá. Nesse caso, os homens fogem menos da mentira do que do prejuízo provocado por uma mentira. Fundamentalmente, não detestam tanto as ilusões, mas as conseqüências deploráveis e nefastas de certos tipos de ilusão. É apenas nesse sentido restrito que o homem quer a verdade. Deseja os resultados favoráveis da verdade, aqueles que conservam a vida; mas é indiferente diante do conhecimento puro e sem conseqüência, e é mesmo hostil para com as verdades que podem ser prejudiciais e destrutivas.

Mas, por outro lado, o que são as convenções da linguagem? São produtos eventuais do conhecimento e do sentido da verdade? Coincidem as coisas e suas designações? É a linguagem a expressão adequada de toda e qualquer realidade? Somente graças à sua capacidade de esquecimento é que o homem pode chegar a imaginar que possui uma verdade no grau que nós queremos justamente indicar. Se ele recusa contentar-se com uma verdade na forma de tautologia, quer dizer, como cascas vazias, ele tomará eternamente ilusões por verdades.

O que é uma palavra? A transposição sonora de uma excitação nervosa. Mas, concluir a partir de uma excitação nervosa uma causa primeira exterior a nós, isso é já até onde chega uma aplicação falsa e injustificável do princípio da razão. Se a verdade tivesse sido o único fator determinante na gênese da linguagem e se o ponto de vista da certeza o fosse quanto às designações, como teríamos então o direito de dizer, por exemplo, que esta pedra é dura, como se conhecêssemos o sentido de duro de outro modo que não fosse apenas uma excitação totalmente subjetiva? Classificamos as coisas segundo os gêneros, designamos l’arbre como masculino e a planta como feminino: que transposições arbitrárias! A que ponto estamos afastados do cânone da certeza!

Falamos de uma serpente: a designação alcança somente o fato de se contorcer, o que poderia convir igualmente ao verme. Que delimitações arbitrárias, que parcialidade é preferir ora uma ora outra propriedade de uma coisa! As diferentes línguas, quando comparadas, mostram que as palavras nunca alcançam a verdade, nem uma expressão adequada; se fosse assim, não haveria efetivamente um número tão grande de línguas. A coisa em si [como sendo precisamente a verdade pura e sem conseqüência], enquanto objeto para aquele que cria uma linguagem, permanece totalmente incompreensível e absolutamente indigna de seus esforços. Esta designa somente as relações entre os homens e as coisas e para exprimi-las ela pede o auxílio das metáforas mais audaciosas.

Transpor uma excitação nervosa numa imagem! Primeira metáfora. A imagem por sua vez é transformada num som! Segunda metáfora. A cada vez, um salto completo de uma esfera para outra completamente diferente e nova. Imaginemos um homem que seja totalmente surdo e que jamais tenha percebido o som e a música: da mesma maneira que ele sem dúvida se espanta com as figuras acústicas de Chladni feitas de areia e descobre sua causa na vibração das cordas, jurará então por esta descoberta que não poderá ignorar daí por diante o que os homens chamam de som, assim como ocorre com todos nós no que concerne à linguagem.

Acreditamos possuir algum saber sobre as coisas propriamente, quando falamos de árvores, cores, neve e flores, mas não temos entretanto aí mais do que metáforas das coisas, as quais não correspondem absolutamente às entidades originais. Assim como o som enquanto figura de areia, também o x enigmático da coisa em si é primeiramente captada como excitação nervosa, depois como imagem, afinal como som articulado. A gênese da linguagem não segue em todos os casos uma via lógica, e o conjunto de materiais que é por conseguinte aquilo sobre o que e com a ajuda de quem o homem da verdade, o pesquisador, o filósofo, trabalha e constrói, se não provém de Sírius, jamais provém em todo caso da essência das coisas.

Pensemos ainda uma vez, particularmente, na formação dos conceitos: toda palavra se torna imediatamente conceito, não na medida em que ela tem necessariamente de dar de algum modo a idéia da experiência original única e absolutamente singular a que deve o seu surgimento, mas quando lhe é necessário aplicar-se simultaneamente a um sem-número de casos mais ou menos semelhantes, ou seja, a casos que jamais são idênticos estritamente falando, portanto a casos totalmente diferentes.

Todo conceito surge da postulação da identidade do não-idêntico. Assim como é evidente que uma folha não é nunca completamente idêntica à outra, é também bastante evidente que o conceito de folha foi formado a partir do abandono arbitrário destas características particulares e do esquecimento daquilo que diferencia um objeto de outro. O conceito faz nascer a idéia de que haveria na natureza, independentemente das folhas particulares, algo como a folha, algo como uma forma primordial, segundo a qual todas as folhas teriam sido tecidas, desenhadas, cortadas, coloridas, pregueadas, pintadas, mas por mãos tão inábeis que nenhum exemplar teria saído tão adequado ou fiel, de modo a ser uma cópia em conformidade com o original.

Dizemos de um homem que ele é honesto; perguntamos a nós mesmos porque ele agiu hoje tão honestamente. Respondemos geralmente que foi por causa da sua honestidade. Honestidade! Isto significa novamente dizer que a folha é a causa das folhas. Não sabemos mesmo absolutamente nada de uma qualidade essencial chamada honestidade, no entanto conhecemos inumeráveis ações individualizadas e por conseguinte dessemelhantes, mas que postulamos como idênticas ao deixarmos de lado o que as torna diferentes; assim, designamos as ações honestas a partir das quais afinal formulamos uma qualitas occulta com o termo: a honestidade.

A omissão do particular e do real nos dá o conceito, assim como nos dá a forma, contrariamente ao que revela a natureza, que não conhece formas ou conceitos e portanto nenhum gênero, mas somente um x para nós inacessível e indefinível. Pois a oposição que introduzimos entre o indivíduo e a espécie é também antropomórfica e não provém da essência das coisas, mesmo quando ousamos dizer que esta oposição não corresponde à essência das coisas; pois isto seria de fato uma afirmação dogmática e, enquanto tal, tão indemonstrável quanto a afirmação contrária.

O que é portanto a verdade? Uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos; em resumo, uma soma de relações humanas que foram realçadas, transpostas e ornamentadas pela poesia e pela retórica e que, depois de um longo uso, pareceram estáveis, canônicas e obrigatórias aos olhos de um povo: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que são, metáforas gastas que perderam a sua força sensível, moeda que perdeu sua efígie e que não é considerada mais como tal, mas apenas como metal…”

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O EPICURISMO E SUA CURA QUÁDRUPLA (Tetrapharmakos)

Bosch - Jardim das delícias terrenas

H. Bosch – Jardim das delícias terrenas

EPICURO – É POSSÍVEL OBTER PRAZER
Por Rafael Trindade, A Razão Inadequada

Epicuro é um raio de sol que atravessa toda uma nuvem espessa de superstição, medo e insegurança. Sua filosofia não se perde no meio do longo caminho que leva da tristeza do ignorante à sabedoria do filósofo. “É possível obter prazer” é o quarto e último remédio de seu tetrapharmakon, prova de que os filósofos podem ser felizes e realistas ao mesmo tempo.

Depois de neutralizar a cólera dos deuses (veja aqui), zombar da morte (veja aqui) e mostrar a possibilidade de suportar a dor (veja aqui), Epicuro nos mostra o caminho final: a possibilidade de obter prazer. Mas o que é o prazer?

Epicuro faz a distinção em três tipo: naturais necessários, naturais não necessários e não naturais não necessários. Claro, tudo é natureza, mas esta separação nos ajuda a entender que alguns prazeres vêm do corpo, nascem de nossa própria existência e outros são frutos de ilusões e nos são empurrados garganta abaixo.

  • Naturais necessários: sem eles, a harmonia de nosso corpo se desfaz. Os desejos naturais e necessários permitem que o corpo continue afirmando-se na existência. Nós não os desejamos porque são bons, eles são bons porque os desejamos. Água, para não morrer de sede; comida para não morrer de fome; calor; para não morrer de frio.
  • Naturais não necessários: são prazeres, mas não necessários no sentido em que excedem a simples manutenção da existência. Mais do que conservar-se a vida quer o prazer de viver, e ela pode obter isso através da natureza. Faz-se aqui a passagem da existência para uma estética da existência. Mais do que apenas comer, é possível criar a culinária, arte de cozinhar. Mais do que ver, e ouvir, é possível pintar e fazer música, arte das cores e dos sons.
  • Não naturais e não necessários: entramos no terreno das ilusões e da superstição. Aqui nascem os deuses e os demônios. Desejos não naturais e não necessários são aqueles que se descolam cada vez mais da terra e atingem reinos que não existem. Dinheiro, nosso novo deus, fama, glória, santidade. Curtidas no facebook, por que não? Estes objetos são vazios, alienam, nos impedem de atingir uma vida natural e de prazeres. Enfim, causam mais aflição que prazer, o dispêndio de energia para obtê-los não vale o que nos trazem em retorno. Copos sempre meio vazios, estas ilusões são a cenoura na frente do burro, elas conduzem a humanidade em sua longa marcha irracional…

Não precisamos temer os deuses nem a morte, é possível suportar a dor e mais, é possível obter prazer. Como? Para criar estas quatro lições, Epicuro só teve que tomar uma atitude simples, ouvir seu corpo, fazê-lo pensar, obrigá-lo a tomar certas posições em relação a certos problemas. Quando meu corpo está vivo, eu não estou morto, então não preciso me preocupar. Quando sinto dor, posso suportá-la e usá-la para melhor agir no mundo. Quando escuto o que meu corpo tem a dizer, aprendo a selecionar os melhores prazeres. A única felicidade maior que ouvir as lições de Epicuro é segui-las.

EPICURO – DO BOM USO DA DOR
Por Rafael Trindade, A Razão Inadequada

Quando Epicuro diz que é possível suportar a dor, cai em um realismo no qual poucos conduziram-se. Sim, há dor, ela existe no mundo, está para além da teodiceia, os deuses indolentes não estão preocupados com nosso grau de sofrimento. O que fazer com a dor? Antes de mais nada, vemos uma proposição negativa: não é possível negá-la, segundo: é possível suportá-la.

Não há pecado original, não há complexo de Édipo, não há más energias dos astros… simplesmente o mundo é feito de prazeres e dores; e para viver nele, é preciso saber procurar o prazer e evitar a dor. Epicuro submete a dor à sabedoria do tetrapharmakon, negá-la seria inútil, então procura entendê-la para melhor lidar com ela.

A dor é um desarranjo atômico, ela indica que algo está fora do lugar, há uma desarmonia no corpo, simplesmente algo está errado. É preciso entender que a dor é um sinal do corpo para que tome uma atitude, aja. “Tire a mão do fogo“, diz a dor, “Não coma mais isso“, diz o desconforto, “Não relacione-se mais com ele“, diz a tristeza. O sábio não rejeita a dor, ele a recebe de braços abertos, mas atento, precavido, preparado para ouvir seu recado e lidar com os encargos que a dor exige.

Deixamos finalmente o terreno neurótico do certo e do errado, do bem e do mal, e atingimos uma planície filosófica, povoada de, como diz Espinosa, bons e maus encontros. Epicuro não julga nem condena, ele mede os afetos, ele os coloca à sua disposição.

Submeter a dor, sujeitá-la à filosofia, fazer dela uma parte da sabedoria. “Aquilo que não me mata, me torna mais forte” disse Nietzsche, imbuído do espírito epicurista em Crepúsculo dos Ídolos. Este remédio me leva a ter uma relação ética com a dor, como lidar com ela? Em vez de carregar a minha dor como fardo, será que posso utilizá-la como ferramenta? Grandes pensamentos nascem da dor, sua superação é um momento grandioso.

Suportar a dor, não negá-la, não ignorá-la, não jogar para debaixo do tapete, não se utilizar apenas de narcóticos e entorpecentes. Encarar a dor, enfrentá-la, tratá-la com respeito. O sábio Epicuro, em sua busca do prazer, reservou um lugar para a dor, talvez por isso seu tetrapharmakon seja tão eficaz.

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Road to Epic

 The Tetrapharmakos – An Ancient Cure for Modern Problems

November 17th, 2014 by

When it comes to philosophy, I tend to gravitate toward the practical side. While I’m certainly interested in a lot of the more abstract areas it’s the parts of philosophy that I can apply to my life right now in order to improve it that I prefer to focus on.

To that end one piece of the Epicurean school that I think has added a lot to my daily life, or at least my attitudes toward it, is the Tetrapharmakos. Even though it was originally created in the 2nd or 3rd century BCE, the ideas it puts forth are just as applicable today.

What’s the Tetrapharmakos?

The Tetrapharmakos originally referred to a certain combination of ‘medicines’ (wax, pitch, tallow, and resin – not something I’d recommend trying) common in ancient Greek pharmacology. The word means ‘four part drug / cure’ in Greek, and Epicurus took that name for his philosophical version considering it to be a four part cure for healing a person’s emotional maladies instead of their physical ones.

Epicurus’s Tetrapharmakos consists of these four (slightly paraphrased) points:

  1. Don’t fear gods.
  2. Don’t fear death.
  3. Truly good things are easy to get.
  4. Truly bad things don’t last.

Let’s go through these points and take a look at how they’re still applicable today.

Don’t Fear Gods

In Epicurus’s time there was a societal division between Greeks who saw the gods as being literal beings that concerned themselves with the affairs of mortals and those (like Epicurus) who considered the gods to be more abstract concepts describing a state of bliss completely unconcerned with the affairs of humans. His essential argument was that gods are by definition perfect, and a perfect being isn’t going to care if you sacrificed a goat in its temple this week or not.

As noted in my personal philosophy I remain unconvinced there are any gods, or anything supernatural for that matter, in existence. I also remain unconvinced I (or anyone/anything else) has a soul, spirit, or whatever ill-defined word you want to use for that concept.

Why is this important? While it doesn’t always, belief in gods can cause a lot of harm. Furthermore the fear of gods specifically, and the fear of punishment by those gods after death can cause enough psychological harm in people that there are specific organizations out there to help people recover from that damage.

Epicurus believed one of the biggest obstacles to happiness was anxiety, and fear of gods and eternal punishment is a huge source of anxiety in people. Here in the U.S. where Christianity is most prevalent fear of punishment in Hell, both of the individual and their loved ones, can cause real stress. When you realize there’s absolutely no evidence that any of those things are real and that they probably don’t exist, it makes it easy to let go of that fear. It also helps set up the next point.

Don’t Fear Death

It’s part of the human condition to fear death. It’s probably one of the most ever-present and strongest anxieties of all for most people. Obviously for Epicurus, this was a problem since he considered fear and anxiety the biggest obstacle to finding happiness.

Epicurus’s position was that there’s no reason to worry so much about death because when we’re alive death isn’t here yet, and when death comes we no longer exist to experience it. To put it another way reminiscent of something Mark Twain would say centuries later, there can be no ‘unpleasantness’ to non-existence because you have to exist to experience something unpleasant. In the same way that you have no experience of anything before birth, you’ll have no experience of anything after death.

Being dead will be just like the state you were in during the billions of years that came before your birth – non-experiencing non-existence.

We’ve already established that there’s no evidence for any kind of afterlife or existence past death, no punishment or eternal torment to worry about, so there’s nothing there to be worried about.

Why is this important? Being in a state of constant worry about what’s going to happen to you after death can cause all the same kinds of crippling anxiety as the belief in gods we talked about above can. It’s an ever-present, background fear in a lot of people and that directly detracts from their happiness and quality of life. Letting go of this fear makes it easier to be happy.

Does that mean you should be reckless or want to die? Absolutely not. There is definitely harm in death in most cases, even if it’s not to you directly (missed opportunity to do good, emotional or financial harm caused to friends and family, etc.), so seeking death is still generally a bad thing. It just means that there’s no reason to live in constant fear of it. Don’t let the fear of something that is inevitable and not unpleasant in the long term ruin your life and cause actualunpleasantness now.

Truly Good Things Are Easy to Get

Mimicking (and possibly influenced by, though I’m unsure of any evidence supporting it) some of the ideas of Buddhism put forth between the 6th and 4th centuries BCE Epicurus asserted that excessive desires led to more harm than good. By extension of this he claimed the things that are truly ‘good’, those things that will truly make a person happy, are all easy to acquire regardless of your situation.

In general, I agree with this idea. As long as a person keeps their desires in check it’s relatively easy to fulfill the range of Maslow’s hierarchy of needs. Basic shelter, safety, companionship, and self-expression can all be had for relatively little effort by a majority of people.

I will put in a caveat here though that in modern times (and likely even back then, but Epicurus may not have been aware enough of it) situational and economic disparity can make it harder for people to get even the basics they need. I recognize having been born a white male in a middle class family there are certain things I’m susceptible to taking for granted. Accounting for that, there’s still things to gain from this idea.

The first is that your most basic needs, things like food and shelter, are technicallyeasy to get. Now some might take this the wrong way and think the point is that even if you’re living in a cardboard box under a bridge you should be happy with it. I don’t see it that way. To me it’s a dual reminder both to not stress out over the fear of losing material things and to always hold a yardstick to the things I really desire to make sure they’re really important.

Some things are genuinely worth putting a lot of effort into, but it’s easy to stress out over meaningless things unintentionally. Reminding yourself that most truly good things are easy to get also helps encourage you to find peace with what youdo have even if it’s less than what you’re striving for.

Truly Bad Things Don’t Last

This too shall pass.

In general, seriously terrible things tend to be acute whereas the chronic bad is often milder by comparison. This, Epicurus suggested, meant that you shouldn’t fear terrible things happening because they’ll always pass. On the inverse, things that don’t show signs of passing for a long time are likely things which you can find the strength to bear.

Don’t misunderstand this to think Epicurus was suggesting everything gets better in what would likely be the modern sense of the idea. Sometimes the end to that terrible suffering is death. Again, with no afterlife though there’s no need to worry about additional suffering after death – just impartial non-existence. That’s probably not the most comforting thing to everyone, but personally whenever something bad happens it’s always a comfort to me knowing that it won’t last. Recognizing that in a (relatively) short span of time you and everything and everyone you’ve known will be gone makes it easy to let go, and once you let go and stop being bothered by things they tend to get easier to handle.

These four principles probably aren’t going to solve every philosophical or existential problem you’re going to struggle with in your lifetime. Hell, it might not solve any of them, but I know I’ve found a lot of good in them when applied to my attitudes toward life in general. I encourage you to take whatever’s useful and don’t worry about the rest.

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TETRA PHARMAKON

TETRAPHARMAKOS
Cura Quádrupla

The “Four-part” cure (Gr.: tetrapharmakos), of Epicurus was most probably a bare-bones mnemonic guide to the core tenets of Epicurean philosophy. It has been found engraved, inscribed, or embossed on a variety of artifacts from Greece and, more abundantly, Rome and its empire.
Don’t fear god (aphobon o theos)
Don’t worry about death (anypopton o thanatos)
What is good is easy to get (and kai tagathon men eyktêton)
What is terrible is easy to endure (to de deinon eyekkarterêton)

(Inwood and Gerson 1994|tr.)
(Philodemus, PHerc. 1005, 4.9-14)

AS RUAS E A DEMOCRACIA – Uma interpretação das Revoltas de Junho de 2013 com o filósofo Marcos Nobre [VÍDEO COMPLETO + 2 EBOOKS]

MarcosNObre3AS RUAS E A DEMOCRACIA
com o filósofo Marcos Nobre (52 min)

Este programa faz parte do projeto “Ruas em Movimento” – uma parceria do instituto CPFL, Unesp e Observatório da imprensa – e traz a entrevista com o filósofo Marcos Nobre, autor dos livros “Imobilismo em Movimento” e o ebook “Choque de Democracia: Razões da Revolta”. Ao levar milhões de cidadãos a ocuparem as ruas brasileiras, Junho de 2013 tornou-se um novo marco na história do país, um sinal de uma nova etapa da democracia no brasil. Um novo sujeito político entrou em cena, um sujeito que se movimenta e se articula, a despeito da blindagem do governo e do monopólio da mídia tradicional, mostrando uma nova forma de viver a democracia. Para Marcos Nobre, a insatisfação generalizada contra as imperfeições da democracia brasileira que ficou escancarada nas revoltas de junho mostram que é necessário uma reforma política para poder atender a estas demandas.

Marcos Nobre

“CHOQUE DE DEMOCRACIA” – DOWNLOAD EBOOK

MarcosNobre2

“IMOBILISMO EM MOVIMENTO” – DOWNLOAD EBOOK