“O BODE EXPIATÓRIO” (THE FIXER), um romance de Bernard Malamud, vencedor do Pulitzer Prize

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BERNARD MALAMUD
“O Bode Expiatório ou O Faz Tudo”
(The Fixer)
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Ensaio por
 Eduardo Carli de Moraes
apresentado como trabalho de conclusão de disciplina

ao Prof. Homero Santiago (FFLCH-USP)
na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
Film2The Fixer é considerado o magnum opus de Bernard Malamud (1914-1986), uma obra em que sua alquimia literária alçou-se à genialidade de artistas como Franz Kafka ou Albert Camus. O romance faturou os prestigiosos prêmios Pulitzer e National Book Award em 1967. Gerou também uma adaptação cinematográfica de peso, O Homem de Kiev (1968), filme dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Alan Bates (que foi indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação). O livro de Malamud foi publicado no Brasil com dois títulos diferentes, dependendo da edição: O Bode Expiatório ou O Faz-Tudo. A pungente narrativa do livro revela como o protagonista, Yakov Bok, vítima de um complô anti-semita, acaba injustamente condenado à prisão, onde aprende, a duras penas (no pain, no gain!) algumas amargas verdades sobre a existência – ao mesmo tempo que, mesmo detrás das grades e na companhia do pensamento de Spinoza, realiza uma jornada em busca do significado genuíno da Liberdade.
 Bernard Malamud foi um dos mais significativos autores norte-americanos de raízes judaicas no século 20, com uma importância equivalente à de Saul Bellow, Philip Roth ou Isaac Bashevis Singer. Mas também é possível situá-lo num quadro literário mais vasto: o crítico de literatura Alan Friedman comenta que Malamud é essencialmente um autor da tradição realista (apesar de frequentemente se utilizar de elementos góticos, fantásticos, grotescos e surreais). Em sua obra não se encontra muito pronunciada uma preocupação com inovações linguísticas ou com uma abordagem lúdica da escrita, como é o caso em importantes autores do século como James Joyce, William Faulkner, Virginia Woolf ou Guimarães Rosa. O livro tem muito mais o sabor de uma mistura do ambiente claustrofóbico e absurdista d’O Processo, de Franz Kafka, ou O Estrangeiro de Camus. É uma realização literária brilhante ao retratar um homem esmagado por quantidades cavalares de sofrimento injusto – Yakov Bok tem dimensões trágicas – mas que encontra a força para, mesmo no mais fundo do poço, rebelar-se.
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O Bode Expiatório é um romance se enquadra muito mais numa categoria que poderíamos chamar de “literatura realista de anti-herói”. Críticos enfatizam que ele se aproxima da abordagem naturalista celebrizada, por exemplo, por Émile Zola (Germinal), já que o naturalismo pode ser visto como uma radicalização do realismo, que costuma considerar os personagens como meros efeitos do ambiente e da hereditariedade. Pode-se também encontrar Malamud certos elementos do romance existencialista, principalmente o camusiano, como pode-se depreender do ambiente repleto de “absurdidade” da narrativa; os livros malamudianos “não são somente realistas, mas naturalistas quase ao ponto da miséria parecer pré-determinada”,  afirma Alan Friedman. A crítica literária debruçouse sobre a obra de Malamud com olhar cuidadoso, sendo que um corpo vasto de comentários e interpretações de seus livros foi se tornando disponível a partir dos anos 60, o que gerou, por exemplo, o livro Malamud and the Critics, organizado por Leslie Field.

Nas descrições que Malamud faz das prisões russas e dos sofrimentos que são impostos ao seu personagem, nota-se também uma grande influência de Dostoiévski, considerando-se que as imagem dos cárceres deve muito a cenários presentes em Crime e Castigo, Irmãos Karamazov e Memórias da Casa dos Mortos. Críticos destacam também que Malamud também é brilhante no sentido de não transformar esse romance num enredo detetivesco, à maneira de Agatha Christie ou Conan Doyle, já que de modo algum se transforma num livro em que a questão “quem é o verdadeiro assassino?” adquire qualquer importância. De modo que, como diz Friedberg, “o enredo whodunit nunca recebe permissão para obscurecer a trágica significação do julgamento”.

Em seu prefácio ao livro, Jonathan Safran Foer escreve:

“The world” of the book is Kiev of 1911—this is between the 1905 revolution and the overthrow of Russia’s last Tsar—and the precarious political climate has created a culture of paranoia. Latent fears and hatreds have become explicit and aggressive. When a twelve-year-old Russian boy is found stabbed to death and drained of his blood, Yakov—a nonpracticing, unbelieving Jew—is accused of ritual murder. (Such accusations were not uncommon in the Christian milieu of the period.) As the charges against him grow and deform, Yakov becomes a Job-like figure in a Kafkaesque nightmare. And his predicament becomes a symbol—not only of the Jewish epic (which would make for a simple, good book), but of the world itself.

The world is the broken thing.”

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ANTI-SEMITISMOCapa4O Bode Expiatório, romance de 1968, conta a história de um judeu pobre chamado Iákov Bok, o faz-tudo, o pau-pra-toda-obra. A história acontece logo antes da eclosão da primeira grande guerra mundial (1914-1918), às vésperas da Revolução Bolchevique (1917), numa Rússia ainda sob o jugo do tzarismo Raputinesco, com o zeitgeist infestado pelo anti-semitismo, que manifestava-se em fortes ondas de violência contra a população judia nos chamados Pogroms.

Os Pogroms começaram um pouco antes do assassinato do Csar Alexandre II em 1881 e se disseminaram na Polônia oriental e na Ucrânia numa região denominada Galícia durante todo o governo de Alexandre III, seu sucessor, já com a conivência das autoridades. Cessaram, como tal, somente com a Revolução Bolchevique de 1917. Entretanto, serão retomados pelos nazistas. O maior alvo destes ataques eram as pequenas aldeias judias chamadas de Shtetl. Estas vilas foram marcadas pela pobreza da maior parte de sua população e por uma quase autarquia sócio-econômica. Se por um lado eram uma forma da população se defender, uns ajudando aos outros, lembrando os futuros Kibbutzim, era principalmente um meio de manterem suas tradições ao mesmo tempo que se oferecia ao czarismo a útil concentração da população judia em certas fatias do território imperial.A vida de Yakov Bok, mesmo antes de sua prisão, já é extremamente complicada pelo fator deste anti-semitismo extremo que vigorava na Rússia czarista daquela época. O discurso anti-semita é representado em vários momentos do livro, mas um dos mais virulentos é posto na boca do barqueiro com quem Yakov pega carona para chegar até Kiev. Este personagem expressa sem rodeios suas opiniões sobre os judeus e em seu discurso sintetiza perfeitamente algumas fortes supertições antisemitas, chegando a haver a manifestação explícita de um desejo de Extermínio Absoluto da Raça Judaica:

“Deus nos salve de todos os malditos judeus, esses parasitas narigudos, enganadores, sugadores de sangue e marcados por pústulas. Eles nos roubariam da luz do dia se pudessem. Eles contaminam a terra e o ar com o fedor de seus corpos e seus hálitos de alho, e a Rússica vai ser levada à morte pelas doenças que eles disseminam a menos que nós acabemos com eles. Um judeu é um demônio – é fato bem conhecido – e se você alguma vez arrancar sua bota fedorenta vai ver um casco dividido. (…) Dia após dia eles enchem de lixo nossa Terra Mãe e o único jeito de nos salvarmos é varrendo-os para fora. (…) Eu digo que a gente devia chamar nossos homens, armados com armas, facas, tridentes – qualquer coisa que mataria um judeu – (…) e entrar no gueto deles, o qual pode ser encontrado pelo fedor, expulsando-os de onde quer que eles estejam se escondendo – porões, sótãos, buracos de rato… -, esmagando seus miolos, esfaqueando suas vísceras de arenque, arrancando seus narizes ranhosos, sem nenhuma exceção feita para jovens ou velhos, porque se você poupá-los eles se reproduzem como ratos e então o serviço tem que ser feito tudo de novo…”

Iakov Bok, depois de deixar seu shtelt, indo em busca de um futuro mais radioso em Kiev, tem que se adaptar às dificuldades do tempo: esconde sua identidade judia, assume um nome russo, arranja um emprego, e passa a frequentar um distrito proibido para judeus – não sobreviveria se não o fizesse. Certo dia, morre um menino russo, encontrado esfaqueado numa gruta próxima à olaria onde Iákov trabalha e dorme. O fato é atribuído à ação de judeus que teriam sangrado o menino até a morte por supostos motivos religiosos, para coletarem seu sangue e confeccionarem matzos, um pão sem fermento, afim de celebrarem a Páscoa judaica. Por mais absurdas que sejam as acusações, Iákov é acusado pelo assassinato e preso. Ele havia levantado algumas suspeitas, não de ter cometido o crime mas de ser judeu, ao ser visto anteriormente com um judeu ortodoxo à quem ele ajudou dando abrigo numa noite gelada. Ele sofre um processo iníquo e é torturado e humilhado na prisão enquanto aguarda a oficialização de sua acusação por mais de dois anos.

A descrição dos maus-tratos sofridos na cadeia, que se prolonga por centenas de páginas, vai comunicando ao leitor o estado de horror prolongado por que passa o personagem: as sopas que lhe servem vêm com ratos mortos boiando no caldo; um excesso de tempo é passado na solitária e sob o ataque constante das tentativas de envenenamento por parte dos carcereiros; os cobertores eram insuficientes para abrigrar contra a friaca de invernos rigoríssimos; entre muitas outras técnicas de tortura empregadas contra o prisioneiro….

Mas os tormentos físicos são pequenos frente aos tormentos psicológicos de Yakov Bok: A solidão completa, a ausência de amigos e de visitantes, o tédio mortal, o medo da tortura e da morte, a indefinição de seu destino, a espera interminável, a indignação cega, a incapacidade de compreender sua situação, levam-no ao seguinte estado de espírito eivado de confusão e absurdismo: “muita coisa tinha acontecido que não fazia o mínimo sentido”. Ele não consegue se perceber como alguém que esteja sendo justamente punido, é claro, mas como uma “vítima acidental”, um tremendo dum azarado. Diz o narrador – “Em uma noite sombria uma grossa rede negra tinha despencado sobre ele somente porque ele estava debaixo dela, e apesar dele correr em todas as direções ele não conseguia se desembaraçar de suas pegajosas amarras.”

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A HISTÓRIA REAL

Kulturgeschichte / Religionsgeschichte / Juden / 19. Jh.

Plundering the Judengasse (Jewish Street) in Frankfurt am Main on 22 August 1614

Plundering the Judengasse (Jewish Street) in Frankfurt am Main on 22 August 1614

Film4A história de Iakov Bok é na verdade a história de Mendel Beilis, judeu que foi perseguido pelo czarismo e julgado em Kiev em 1913 – um caso de grande repercussão na opinião pública e na imprensa do mundo todo na época. Malamud praticamente retoma os fatos da história tal qual aconteceu. Cria inspirado nestes elementos históricos factuais, transpostos para o livro de modo fidedigno. O produto literário final demonstra a “mão firme de um talentoso artesão”, como comenta o crítico Maurice Friedberg. A dificuldade na escrita de uma obra desta está, como comenta o mesmo crítico, em que certos eventos históricos “ofuscam com sua grandiosidade e seu horror qualquer coisa que uma imaginação artística poderia imaginar.”

Conhecemos casos na História de grandes escritores que colocam suas obras na defesa de um personagem público injustiçado – como fez por exemplo Émile Zola no caso Dreyfus. A peculiaridade do caso Beillis, no entanto, é que este “não estava sendo acusado como um indivíduo, e em seu caso não era um simples equívoco judiciário, ainda que trágico, o que estava em jogo” – como comenta Friedberg. Beilis era um mero peão num jogo de xadrez social muito mais vasto, era um destes que Bob Dylan retratou em seu folk “Only a Pawn In Their Game”. Era um homem “pessoalmente tão insignificante e sem cor a ponto de ser de nenhum valor para seus carcereiros e perseguidores exceto como um símbolo da Judeidade Russa – e foi esta que, com efeito, foi colocada sob julgamento como uma comunidade.” (pg 276).

Ou seja, não se trata de um caso da justiça cometendo um erro involuntário, mas sim de uma espécie de conspiração que procura transformar um caso de homicídio comum em um caso de homicídio com motivações religiosas – de modo que, se ficasse provado que Beillis de fato tinha assassinado o garoto cristão com motivos ritualísticos, para preparar os matzos de Páscoa, a culpa podia ser estendida aos judeus em geral.

Como comenta Maurice Friedberg, o caso Mendel Beilis acabou num impasse. “Apesar dele ter sido declarado inocente do crime, o tribunal não expressou nenhuma opinião sobre a possibilidade de que tal crime pudesse ter sido de fato cometido por algum judeu radical”, ou seja, a hipótese do homicídio ritual não foi descartada, mas somente este indivíduo específico foi isento de responsabilidade. “Também nada foi feito para punir aqueles que iniciaram uma histérica campanha contra Beillis antes de seu julgamento formal, e por inevitável extensão, contra os Judeus em geral.” Ou seja, a calúnia contra os Judeus não foi desfeita e as falsas acusações feitas contra eles permaneceram impunes. Com a chegada da Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e, posteriormente, o Holocausto tomando conta de uma Europa assombrada pelo fantasma do nazi-fascismo, esse caso Beillis caiu no ostracismo. A história só voltou à tona pelo esforço de 2 autores americanos judeus – o próprio Malamud e o historiador e jornalista Maurice Samuel, que escreveu Blood Acusation.

Friedberg diz que “apesar da experiência nazista do passado recente ter inevitavelmente diminuído o impacto da história de Beillis sobre o leitor moderno, não se pode dizer que esta acusação [de uso ritual de sangue cristão] foi irrevogavelmente desacreditada como um boato anti-semita completamente falso. (…) Ela continua a aparecer periodicamente em várias partes do globo, sempre servindo à mesma causa. (…) P. ex., um pouco depois da destruição do império Nazista, um grupo de judeus sobreviventes de campos de concentração foi massacrado pela polícia da Polônia na cidade de Kielce (em 1948).”

Robert Alter comenta que este caso Beillis foi na verdade “um cruel prenúncio das possibilidades do século 20” , uma das primeiras ocasiões em que o governo utilizou a “grande mentira”, através da qual uma poderosa burocracia subverte totalmente o senso moral de seus membros individuais. “O caso Beiliss é uma das primeiras ocasiões públicas notáveis neste século em que a ficção de Kafka de uma acusação arbitrária, de uma realidade governada por uma lógica inescrutavelmente insana e perversa, tornou-se fato histórico.”

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A QUESTÃO DE DEUS

Desde o começo do livro Yakov Bok é insistentemente flagelado, ferido, dilacerado e injustiçado feito um saco-de-pancadas humano. Poucos romances na história da literatura descrevem um martírio comparável a este em grau de sofrimento suportado e de horror injusto sofrido. Talvez por isso ele já nas primeiras páginas já apareça como um homem extremamente amargo e desconsolado. Ele se pergunta o que fez para ser tão amaldiçoado, mas não encontra em si nenhuma culpa que explique porque a vida o “espancou” tanto – sua “maldição” foi um fardo que caiu sobre um completo inocente (“Não quero que as pessoas sintam piedade de mim ou se perguntem o que fiz para ser tão amaldiçoado. Eu não fiz nada. Foi um “presente”. Sou inocente.” )

Iakov Bok, amargo e desiludido depois de tanto sofrimento experimentado, não consegue entender porque há tanto sofrimento e tanta miséria no shtetl (e no mundo em geral) se Deus é bom. Se ele existe, qual sua utilidade? “Ele não nos vê e não se importa conosco” – conclui Iakov, decidido a abandonar sua tradições judaicas e tornar-se um livre-pensador. Por isso, nos curiosos diálogos que ele tem com seu amigo, que tenta mantê-lo no “bom caminho” da religião, Yakov é sempre um poço profundo de azedume e de sarcasmo sagaz. Dizem-lhe: “Pelo menos Deus está conosco” e ele retruca: “Ele está conosco até que os cossacos venham galopando, aí ele está em outro lugar…”.Dizem-lhe que ele não deve ler os “livros errados” e que deve se manter fiel às Escrituras e ele retruca: “Não existem livros errados. O que é errado é o medo deles.”.

Suplicam-lhe: “não esqueça seu Deus!” E Yakov, num trecho impregando de revolta contra o Criador, manda: “Quem esquece quem? O que eu ganho dele a não ser uma pancada na cabeça e um jato de mijo na cara? Então o que há para ser venerado Nele? (…) Nós vivemos num mundo onde o relógio bate rápido enquanto ele está em sua montanha intemporal fitando o espaço. Ele não nos vê e Ele não se importa. É hoje que quero meu pedaço de pão, não no Paraíso.” Na prisão, Yakov entra em uma discussão no mesmo tom: Shmuel diz-lhe: “Não culpe Deus pela miséria”, e Yakov replica: “Eu o culpo por não existir. Ou, se ele existe, ele está na Lua ou nas estrelas, mas não aqui. (…) Não posso ouvir a voz de Deus e nunca pude. (…) Tudo que eu jamais disse a ele, Ele nunca me respondeu. Silêncio é o que eu agora dou em troco.”

Baruch Spinoza retratado por Franz Wulfhagen,  1664

Baruch Spinoza retratado por Franz Wulfhagen, 1664

Esta concepção de Deus que Yakov Bok acaba por formar acaba por se assemelhar à de Spinoza, filósofo que, tanto em sua concepção de Deus, quanto em suas conclusões éticas, afastou-se da tradição judaico-cristã, a ponto de ser considerado herético o bastante para ser excomungado. Por um lado, Spinoza não concebe Deus como uma divindade transcendente, interventora, “separada” do mundo que conhecemos, conduzindo-o “de cima” como um rei, um cosmocrata, como normalmente é visto o Deus nas religiões monoteístas. Seu Deus confunde-se com a Natureza, razão esta que levou-lhe a ser chamado de panteísta ou mesmo ateísta por muitos.

Essa ruptura com os cânones religiosos acaba tendo o efeito complementar da completa derrubada da idéia de um Paraíso no além, alcançável nesta vida através de certos atos que agradariam à divindade julgadora e justiceira que o monoteísmo concebe. A caída dessa concepção religiosa, que via na resignação, narenúncia aos prazeres sensíveis e no sofrimento aceito como um bem (que somaria pontos para a conquista do Céu) faz com que Spinoza volte seu olhar para a vida presente, que é tudo que há. Seria um engano pensar que a eternidade, como sugere o cristianismo, abrirá suas portas ao homem somente no momento da morte – e somente para aqueles que o merecerem. A eternidade já está aqui – é o próprio presente, que não cessa nunca de ser presente, eternamente presente.Yakov Bok também rompe com a tradição monoteísta e deixa de acreditar num Deus pessoal, transcendente, interventor, sentimental, compassivo, justiceiro, que se preocuparia com os destinos humanos e tentaria auxiliar suas criaturas em momentos de apuros.
Em todo o romance, mesmo nos momentos de sofrimento mais extremo, nunca vemos o personagem se render à oração – ele, no máximo, recita frangalhos de salmos bíblicos, mas nunca com a mínima esperança de estar sensibilizando as dinvindades. O Deus de Yakov Bov é um Deus indiferente. Como diz Spinoza na Ética V, “Deus não tem amor nem ódio por ninguém”. É isso que Yakov descobre a duras penas.Por isso, o personagem chega a uma compreensão do Spinoza bastante adequada, mesmo sem ter tido uma educação formal /erudita no spinozismo (ele não tem muita tendência ao “intelectualismo”, aliás: diz por exemplo – “Se eu tenho alguma filosofia, é que a vida poderia ser melhor do que é.”). Yakov Bok em seus “flashes de percepção” da filosofia de Spinoza, que explica se utilizando de fórmulas bem pessoais e ditas em linguagem popular como: “Deus e a natureza são uma e a mesma coisa”; “a Natureza inventou a si mesma e também ao homem”; “Ou Deus é uma invenção nossa, ou é uma força na Natureza mas não na História. Uma força não é um pai”; “a mente do homem é parte de Deus”; “este Deus, apesar de preencher mais espaço, tem menos a fazer”; “a liberdade está em seu pensamento – é como se o homem voasse acima de sua própria cabeça nas asas da razão… você se une ao universo e esquece suas preocupações…”; “a vida é a vida e não tem sentido chutá-la para o túmulo…”.
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A QUESTÃO DO PRECONCEITO E DA SUPERSTIÇÃO

Yakov é um personagem que representa um livre-pensador, livre dos preconceitos e superstições que Spinoza tanto criticou, mas que se vê rodeado por um “clima cultural” profundamente marcado pela superstição, especialmente aquela que se refere aos judeus, tidos como extremamente temíveis, perigosos e sanguinários. No romance, há o discruso de um padre que sintetiza bem a quê extremos de preconceito se chegava na tentativa de acusar (falsamente) os judeus de crimes de assassinato ritual. Este padre se dirige assim aos cristãos em um inflamado discurso:

“Minhas queridas crianças, se as entranhas da terra se abrissem para revelar a população de homens mortos desde o começo do mundo, vocês ficariam pasmas de ver quantas crianças cristãs inocentes foram torturadas até a morte por judeus quem odeiam Cristo. Através dos tempos, como descrito nos livros sagrados deles, a voz do sangue semítico os dirige a dessacralizações e horrores impronunciáveis – por exemplo, o Talmud, que compara o sangue à água e ao leite, e prega o ódio aos gentios, que são caracterizados como sendo não-humanos, nada mais que animais… Consequentemente houve uma multidão de crianças inocentes massacradas, cujas lágrimas não comoveram seus assassinos a serem misericordiosos… O assassinato ritual pretende re-encenar a crucificação de nosso Senhor. (…) Diz-se que o homicídio de um gentio – qualquer um – acelera a vinda do tão aguardado Messias deles, Elijah, para quem eles etrenamente deixam a porta aberta mas que nunca aceitou o convite para entrar e se sentar no trono vazio. Desde a destruição do Templo deles em Jerusalém não existiram mais altares de sacrifício para animais nas sinagogas, e então o sacrifício de gentios, em particular crianças inocentes, é aceito como um substituto adequado. (…) No passado registrado, o Judeu utilizou o sangue cristão de muitas maneiras. O sangue foi utilizado em rituais de bruxaria e magia negra, e para poções do amor e envenenamento de poços d’água, fabricação de um veneno mortal que espalhou a praga de uma nação para a próxima – uma mistura de sangue cristão de uma vítima assassinada, a urina judia deles, as cabeças de serpentes venenosas, e até mesmo uma hóstia roubada e mutilada – o corpo sangrando do Cristo ele mesmo. (…) Naquele tempo eles consideravam nosso sangue como a mais efetiva terapêutica para a cura de suas doenças. Eles o utilizaram, de acordo com os velhos livros de medicina deles, para curar mulheres depois do trabalho de parto, parar hemorragias, curar a cegueira infantil e aliviar as feridas da circuncisão…”

Isso mostra, num discurso extremamente denso e concentrado, o grau de acusações falsas e superstições absurdas que estava no “ar dos tempos” e fazia com que Kiev fosse, como descreve um personagem, “uma cidade medieval cheia de superstição selvagem e misticismo” e que sempre foi o “coração do reacionarismo russo.” Spinoza, no TTP, comentava que “não há nada mais eficaz do que a superstição para governar a multidão.” – e a Kiev de The Fixer é um ambiente social que comprova essa tese.

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A QUESTÃO DA LIBERDADE E DO DESPERTAR POLÍTICO
CapaYakov Bok chega a uma concepção de Deus que é semelhante à concepção de Deus de Spinoza e, desse modo, não pode mais conceber que a solução para a sua situação crítica poderia vir “de cima”, já que a hipótese de uma divindade interventora e que se sensibiliza com os destinos humanos havia sido descartada. Ao mesmo tempo que Yakov atinge esse “ateísmo”, percebe-se também como uma figura histórica de relevância, uma personagem pública que faz parte de uma quadro social mais vasto. Por isso todo o processo de prisão e martírio de Yakov acaba conduzindo a um certo “despertar político”.Durante todo o livro, vemos a evolução ética do personagem Iakov. O devir político de Iakov é uma mudança que se torna necessária. Num de seus delírios na prisão se vê falando novamente com Bibikov e lhe diz: “Algo em mim se transformou. Não sou mais o mesmo homem que era. Agora tenho menos medo e mais ódio.”Conforme ele vai tomando consciência que ser judeu é sua condição no mundo e que portanto ele tem sua posição na cena histórica, Iakov vai conquistando mesmo no cárcere um viés de liberdade.Yakov, que no começo do romance é um “zé-ninguém”, que não parece ter grandes preocupações na vida além de escapar de seu vilarejo para tentar começar uma vida nova em Kiev, não tendo a mínima inclinação ou atração para a vida política, acaba descobrindo, no fim do romance, que de modo algum poderia se considerar uma pessoa politicamente “neutra”. Uma de suas mais essenciais descobertas na prisão é a de que “não existe homem apolítico, e muito menos quando você é um judeu”. Por efeito desse “despertar” político, Yakov, no fim do romance, transformou-se praticamente num revolucionário, que tem fantasias de assassinar o czar e que está certo de que existe muito mais coisas erradas na Rússia do que o anti-semitismo.
Yakov sente, quando acorrentado e torturado no cárcere, que ele não conseguia, pelos meros poderes da Razão, libertar-se. Sua conclusão parece ser de que sem o mínimo de liberdade física e de proteção por parte do Estado, não é possível atingir a salvação pela Razão e pelo conhecimento da Natureza que Spinoza sugeria.No TTP, Spinoza comenta: “Dos fundamentos do Estado resulta com toda evidência que o seu fim último não é dominar nem subjugar os homens pelo medo e submetê-los a um direito alheio; é, pelo contrário, libertar o indivíduo do medo a fim de que ele viva, tanto quanto possível, em segurança, isto é, a fim de que mantenha da melhor maneira, sem prejuízo para si ou para os outros, o seu direito natural a existir e a agir. O fim do Estado, repito, não é fazer os homens passar de seres racionais a bestas ou autômatos: é fazer com que a sua mente e o seu corpo exerçam em segurança as respectivas funções, que eles possam usar livremente a razão e que não se digladiem por ódio, cólera ou insídia, nem se manifestem intolerantes uns para com os outros. O verdadeiro fim do Estado é, portanto, a liberdade.”

Deste modo, pode-se ver o romance como um longo e doloroso percurso que conduz um personagem simplório e auto-centrado a se transformar em algo que se assemelha a um “símbolo ético”, como sugere Robert Alter. Isso porque Yakov Bok, ao se libertar dos preconceitos finalistas e religiosos, ao deixar de esperar auxílio dos céus, ao despertar para a dimensão política de seu destino, toma em suas próprias mãos as rédeas de sua vida. O sofrimento que ele suportou por toda a vida, e que parecia absurdo, injustificável, imerecido, adquire para ele uma espécie de sentido – que não é um sentido religioso, como seria se ele acreditasse que sua dor seria recompensada com uma eternidade de delícias no Paraíso. Friedman comenta que“Ele não é um herói trágico clássico, cujo sofrimento é magnífico por causa de sua grandeza de caráter e pela altura da qual ele cai; pelo contrário, ele é um pobre zé-ninguém que se distingue apenas pela miséria e por seu senso de vitimização. Mas porque ele os abraça, e porque, rejeitando um Deus que parece obcecado com a perpetuação da injustiça, ele encontra algo em si mesmo e em sua vida para afirmar, e se torna um paradigma de um novo tipo de herói (…) que triunfa porque ele persevera.”Afinal de contas, ele, ao contrário do crente judaico-cristão, que insiste em ver no sofrimento um sentido sobrenatural (seja como uma punição divina, seja como algo que tem sua razão de ser num esquema maior…), chega à conclusão: “A única coisa que o sofrimento me ensinou é a inutilidade do sofrimento”. Mas, ao mesmo tempo, ele percebe que está numa situação em que o sofrimento é inevitável – e então conclui: “se eu devo sofrer, que seja por algo”.De repente, iluminado por seu despertar político, seu sofrimento ganha a possibilidade de deixar de ser absurdo e se tornar significativo. No fim do percurso, afinal, Yakov parece alcançar um degrau ético superior àquele em que estava no começo do romance, como prova quando se recusa ao suicídio e a uma falsa confissão ou acusação. Quase como um herói existencialista, ele parte da noção de um mundo absurdo, onde o sofrimento é injustificável e Deus é indiferente, e depois escala degraus éticos até a adoção de uma postura de revolta, de luta e de sofrimento posto a serviço de algo maior. Como conclui Friedman: “Yakov, mesmo com sua alienação inicial e seu agnosticismo contínuo, consegue enfim conquistar o direito de sofrer pelos outros, e começa a reconhecer que ele é responsável por todo o seu povo, aquela nação de tão prolongados sofrimentos”.
Por isso o romance de Malamud, muito mais do que somente transposição para a literatura de um evento histórico (e um dos mais emblemáticos da decadência do czarismo russo e da iminente eclosão de Revolução de 1917), pode ser visto como uma obra de poder universal e atemporal. Como em Kafka, mostra-se um ser humano esmagado por poderes superiores que ele não consegue compreender nem aceitar; mas, como em Camus, sua situação inicial de sofrimento absurdo e gratuito vai adquirindo novos contornos conforme ele desperta para a ação política e para a revolta existencial. De mera vítima torturada e apática, ele se ergue, no fim das contas, como um símbolo ético que carrega numa mão uma bandeira quase marxista/revolucionária (“É hoje que quero meu Pão, não no Paraíso!”), e noutra um emblema existencialista, onde ostenta a prova viva do que significa passar “do absurdo à revolta”.

“A GUERRA DO COMEÇO DO MUNDO” (POR ELIANE BRUM)

1A GUERRA DO COMEÇO DO MUNDO

Uma reportagem de Eliane Brum, com fotografia de Lilo Clareto. Originalmente publicada em 2001.

“Roraima e o mundo abriram a semana passada com a notícia de mais um suposto sangrento conflito entre muitos que já ocorreram no barril de pólvora chamado município de Uiramutã, localizado no coração da polemizada reserva indígena Raposa-Serra do Sol. A história recente mostra um cordão bastante extenso de atos de vandalismo e atividades terroristas. O menor sinal de quebra da ordem pública é suficiente para explodir como uma bomba bem ao estilo do conturbado Oriente Médio. As notícias que chegaram na manhã de domingo à capital roraimense, e por certo extrapolaram as divisas do Estado, cruzando as fronteiras, indo ter ressonância imediata em países do Primeiro Mundo, eram de que índios ligados ao Conselho Indígena de Roraima (CIR) teriam invadido as obras de construção do aquartelamento do 6o Pelotão Especial de Fronteira, tocando fogo nas dependências e trocando tiros com os militares baseados naquele local. (…) Mas todo o alvoroço registrado no intervalo de 21h30 a 22 horas de sábado não passou de alarme falso. O Exército não conseguiu estabelecer se era índio, branco ou marciano o único ser que chegou a ser visto apenas pelo sentinela. (Francisco Espiridião, jornal Tribuna, 2 a 8/9/2001)

O dedo acusa a Via Láctea. “Lá!”, berra o homem. À beira do Rio Branco, em Boa Vista, ele levanta-se intempestivo. Os filhos que brincavam ao redor da mesa se imobilizam. Os clientes do Meu Caso, bar de petiscos, suspendem as conversações. Esquadrinham o céu em alerta. “Os americanos espionando a Amazônia”, esclarece. Satisfeito com a perspicácia, volta a sentar-se. Missão cumprida. Perto dele ninguém será enganado por satélites vestidos de cordeiro.

Encravado no extremo norte do mapa, Roraima é assim, 324.152 pares de olhos em ação de vigília permanente. Os demais 172.675.848 brasileiros desconhecem, afinal ainda hoje confundem Roraima com Rondônia, Boa Vista com Porto Velho, mal suspeitam do que se passa nas sobrancelhas do país continental. Sabem mais hoje sobre o Afeganistão que sobre o ex-território, transformado em Estado pela Constituição de 1988. Ligados na CNN, os brasileiros não adivinham. Mas Roraima está em guerra.

Enclave de brancos cercados de índios por todos os lados, coleciona alguns dos títulos mais curiosos do Brasil sem que o Brasil perceba. É o Estado mais aborígine, com 57% do território ocupado por 30 mil índios. É o mais despovoado: cada um dos 324 mil habitantes, 200 mil deles na capital, tem, em tese, 1,5 quilômetro quadrado à disposição. Representa 0,2% na população do país, motivo pelo qual nem sequer é visitado pelos candidatos a inquilinos do Planalto. Os 184 mil eleitores são pouco menos que a zona eleitoral do bairro de Jabaquara, em São Paulo. No terceiro milênio ainda está em fase de colonização, eldorado de 1.000 novos migrantes por mês, metade deles recém-chegada do Maranhão de Roseana Sarney.

À noite, Roraima fecha. Por terra, ninguém sai, ninguém entra. O Estado tem duas estradas asfaltadas. A BR-401 liga a capital a Bonfim, na fronteira com a Guiana, mas quem quiser cruzar em direção ao país vizinho precisa chegar antes das 17 horas, o último horário da balsa. Em corte longitudinal, a BR-174 une Boa Vista a Manaus e a Pacaraima, vizinha da Venezuela. Ao norte da rodovia, a fronteira com Santa Elena de Uiarén fecha às 22 horas. Ao sul, permanece trancada, com cancela e tudo, das 18 às 6 horas: os 125 quilômetros na divisa com o Amazonas cruzam a reserva dos uaimiris-atroaris, que não querem nem ouvir falar de brancos circulando na madrugada.

Roraima é uma terra isolada, ligada ao resto do país apenas por uma transfusão de recursos — intensa e de mão única — de Brasília para o Estado. Mais perto de Miami que do Rio de Janeiro, a capital vive em crise de identidade. Quando um roraimense viaja, anuncia aos amigos: “Vou para o Brasil”. A primeira pergunta aos “estrangeiros” é: “Vieram do Brasil?” Por Brasil, entende-se tudo o que existe do Amazonas para baixo. Para cima está Roraima, cuja geografia nem mesmo se enquadra na canção de Chico Buarque, sobre não existir “pecado do lado de baixo do Equador”. Quase 100% do território de Roraima fica acima, no Hemisfério Norte. O senso comum nem sequer reconhece um paradigma geográfico: o Monte Caburaí é o ponto mais setentrional do país, mas ao sul de Roraima vive se repetindo a clássica “do Oiapoque ao Chuí”. A síntese mais famosa do brasileiro é Macunaíma, o herói dito sem caráter do modernista Mário de Andrade. Pois o mais brasileiro dos brasileiros é uma lenda dos índios macuxis, de Roraima. Nunca se dá o crédito.

Assim, isolado, maltratado até, e um tanto órfão, Roraima vive a guerra do começo do mundo. E ninguém se importa. O Brasil não dá importância a Roraima, mas Roraima importa-se muito. Boa parte dos habitantes acredita piamente que será tomado do Brasil a qualquer momento. Espremidos entre a Venezuela, a Guiana e o Amazonas, defendem a tese de que o império de George W. Bush está de olho no rico subsolo roraimense, com suas jazidas de ouro, diamantes e cassiterita. As organizações não-governamentais e os missionários religiosos usam a desculpa de proteger os índios, mas não passariam de testas-de-ferro do ávido Primeiro Mundo. Quando todas as terras indígenas forem demarcadas, os nativos vão declarar independência, de imediato o país será reconhecido pela ONU e o território miliardário anexado. Essa tese é defendida até em documentos entregues a Fernando Henrique. Graças a ela, o Estado é partido em trincheiras. Até mesmo geográficas: floresta à esquerda, lavrado à direita. Assim, no céu de Roraima, nem as estrelas cadentes escapam à suspeição.

Os brasileiros, mais preocupados com o noticiário do centro econômico e político nacional (leia-se o estreito circuito entre São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília) ou com os ataques sangrentos de Bush e Bin Laden, têm perdido o mais fascinante capítulo da história do país. Em pleno século XXI, Roraima protagoniza a última guerra entre brancos e índios. E várias pequenas batalhas entre índios e índios. É o Brasil de 500 anos atrás acontecendo agora. Em tempo real, para manter o jargão da moda. Sem a CNN nem Pero Vaz de Caminha, out of Brazil, out of the world.

Num dia comum no oeste de Roraima, um ianomâmi da aldeia Xaruna chamado Chicão espanca a mais bela de suas duas mulheres na mata. Abandona a adolescente desmaiada, a cabeça aberta como uma flor de sangue. Ao voltar sozinho para o xapono, a casa comunitária, o povo se espanta, se agita. Os índios perseguem a menina pela floresta, perscrutam os sons. Só encontram um rastro de sangue ainda morno. Desolados, concluem que fora devorada por uma das onças que patrulham o território.

Numa manhã comum no sul de Roraima, a maranhense Cleonice Conceição, de 36 anos, despenca do ônibus, traz no corpo a poeira dos caminhos. A fome azeda o estômago, o medo escala o esôfago. Pela mão arrasta os dois filhos, Silene, de 15, e Rosenildo, de 8, assustados como ela, resignados também. Carregam um colchão emprestado, meia dúzia de roupas, as escovas de dentes penduradas na caixa de papel. Cleonice não tem um centavo. Gastou tudo o que amealhou com a venda de um guarda-roupa e de uma mesa na viagem de Santarém, no Pará, a Rorainópolis, a porta de entrada de Roraima. Não tem para onde ir.

Numa tarde comum no leste de Roraima, Maurício Habert Filho, de 54 anos, supervisiona a labuta dos guianenses contratados para a safra de melancias, suor barato e abundante na região. O pensamento atravessa o oceano. O agricultor vaga pelas ruas de Paris, cujas luzes não conhece. De lá veio seu pai, Maurice Habert, ladrão e desertor da Primeira Guerra Mundial, fugitivo de prisões da Guiana Francesa. Depois de 26 dias numa balsa feita de folhas, bebendo água da chuva, aportou na costa da Guiana Inglesa com cinco parceiros salgados, cozidos em sol, em farrapos por dentro e por fora. O sexto tombara na travessia. Perfurou a selva e alcançou o Brasil em 1941. Tornou-se pioneiro no território de ninguém.

Maurício está decidido a limpar o nome do patriarca. Empenha-se em desmentir a teoria de que Maurice foi cúmplice de Papillon, herói da vida e do cinema. Pior ainda, quase engasga ao contar, que Maurice era homossexual. Tudo uma confusão com outro prisioneiro de mesmo nome, como tem provado em documentos que vão e voltam da França. O filho só pensa na honra do pai.

Numa noite comum no norte de Roraima, o sentinela do 6o Pelotão de Fronteira, quartel em construção no município de Uiramutã, sobressalta-se. Adivinha um vulto na escuridão, despacha um foguete sinalizador para o alto. Abaixo, a comunidade, em vigília permanente de olhos e intrigas, interpreta: “Os índios invadiram o quartel”. Imediatamente, armam-se de paus e pedras. Marcham em direção à aldeia, no outro lado do igarapé que divide brancos e índios em trincheiras de ódio. “Vamos botar fogo na maloca”, é o grito de guerra.

É um dia comum em Boa Vista, capital de Roraima. A bordo do ultraleve, Walter Vogel, de 56 anos, apalpa o horizonte com os olhos azuis do berço suíço de Berna. O pai plantava em 7 hectares no país seis vezes menor que Roraima. Para Walter faltava ar no cenário claustrofóbico. Se fez homem em busca de espaço e, com pouco mais de 20 anos, carregou a mulher pelos descaminhos da América do Sul à procura de uma pátria para o coração. Só a encontrou 19 anos atrás, ao parar no meio da ponte sobre o Rio Branco. Auscultou o peito, pronunciou: “Este é o meu lugar”. A 3 mil metros, desliga o motor e plana, torna-se um homem-pássaro no país que escolheu.

A oeste de Walter Suíço, a floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final.

Chicão, essa espécie de tataravô mítico do imaginário ocidental, duvida do rastro da mulher que espancou. Não sente no sangue o cheiro da morte. Fareja, descobre. Sua índia foi raptada por um makabei. Não vacila. Precisa retomar a fêmea. Assim manda o costume. Começa mais uma batalha entre irmãos.

A região que se estende por Surucucu, Parafuri e Arathaú é a mais belicosa do território, dilacerada por brigas que ninguém sabe como começaram. Assemelham-se ao horror eterno entre judeus e árabes. Impossível localizar o assassinato original. Ou o primeiro rapto de mulher.

Os ianomâmis cremam seus mortos, guardam as cinzas por meses, marcam o dia em que serão banqueteadas com mingau de banana. A cabaça que guarda os despojos existe para lembrar o imperativo de vingá-los. Assim, para cada um que tomba numa disputa, outro cairá em seguida, numa interminável fogueira de ódio. Desde que 40 mil garimpeiros alcançaram o território em busca de ouro nos anos 80, a tradição guerreira tornou-se a segunda causa de morte. Os brancos carregaram as espingardas para o útero da selva, com elas compraram o silêncio e mais tarde a cumplicidade dos índios. Desequilibraram os conflitos.

“Quem criou vocês? De onde vieram? Qual é sua raiz?”, indaga Davi Kopenawa, o grande líder ianomâmi, um dos poucos a falar português. “Antes, morriam dois dos nossos. Vocês trouxeram as espingardas, inventaram as bombas, os aviões, a guerra pesada. Trouxeram as doenças. E agora morrem 200, milhares.” Davi peregrina pelo território numa campanha de desarmamento. Troca as armas dos índios por panelas de alumínio.

Nem panelas tem a maranhense Cleonice. “Só vim com a coragem e a fé em Deus”, diz, falando mais com os olhos de fogo perpétuo dos migrantes nordestinos que com a boca. Tem menos dentes que esperança. Rorainópolis, aonde ela chega, é uma das cidades que mais engordam no Brasil: saltou de 7.500 habitantes em 1996 para 17.500 no último censo. Os pés de êxodo de Cleonice preenchem as estatísticas, ela e o exército de refugiados eternos na própria pátria, em busca da terra prometida que sempre escapa como se o mapa inteiro fosse de areia movediça.

Cleonice procura os conhecidos de janela em janela, encontra abrigo numa casinha de porta vermelha de outro retirante. Instalam-se ela, suas crianças e suas trouxas, sonhando cada vez menos, cada vez mais escuro. Corre até a rodoviária, o centro de tudo num lugarejo que só se multiplica no desespero. Encontra Sindi da Silva, a moça de coração generoso e língua afiada, que vende bilhetes mais de ida que de volta e fitas piratas com músicas de marido traído e “outras para quem só está treinando para corno”. Sindi está alarmada, não se conforma, uma paca devorou a perna de uma conhecida no centro da cidade. “Tem cabimento criar uma paca em casa? Por que não cria galinha? Diz que tem amor pela paca, alimentada na mamadeira, que mundo”, apavora-se. Cleonice, aflita, dá o recado, “quando o meu homem chegar diga que estou na casa de porta vermelha”.

Sindi promete, acostumada que está, também ela vinda de outro canto. Por ali são todos forasteiros, todos teimosos. E todos fazendo de conta que aquele rincão poeirento, feioso e pobre, com tanto calor quanto moscas, é o éden bíblico que os pastores não se cansam de lhes prometer. Só para ao final descobrir que por paraíso esperam apenas um lugar de onde não sejam expulsos por mais uma fome, cansados de andar, com mais bolhas na alma que nos pés. Então enfeitam o que lhes coube no mundo com flores de plástico, almofadas de franjas, tapetes de pavões do Oriente, penduram provérbios pelas paredes, reúnem sua pequena fortuna mais de desejos que de concreto. “Cheguei com R$ 10, três panelas, duas delas furadas, e uma mulher grávida”, conta Braulino da Silva, de 51 anos. “Agora tenho casa e trabalho pro governo. A casa fica na frente do cemitério, mas não faz mal, é pra lá mesmo que eu vou um dia e assim já encurta o caminho.” No balcão de Sindi ele se prepara para fazer uma ligação, mandar um recado para a família baiana. “Que venham, melhor que aqui só no Céu.”

Bem mais perto do inferno fica Uiramutã. Brancos e índios estão decididos a resolver no pau, talvez nos tiros, quem é o dono daquele pedaço de Brasil. Trata-se de 1,7 milhão de hectares de cerrado, demarcados, mas nunca homologados, povoados por 12 mil macuxis, ingaricós, uapixanas, taurepangues e patamonas. Sobre essa terra desenham-se as plantações de arroz dos gaúchos, única cultura em que Roraima é auto-suficiente. Nela se escondem os diamantes que movem a cobiça tanto de garimpeiros avulsos, pobres e estropiados, como das grandes mineradoras. E, por fim, elevam-se as vozes dos políticos — e seus interesses — em nome do “desenvolvimento do Estado”. Na última guerra entre brancos e índios, 500 anos após o Descobrimento, os dois lados só comungam de uma ameaça: se o governo federal não se apressar, “vai ser um banho de sangue”.

O tuxaua de Uiramutã, Orlando da Silva, de 58 anos, confere a posição do inimigo pela janela. “Estou cercado”, constata. Da aldeia avista o quartel em construção, a cidade a sua porta. Um e outro, acredita, instalados com o objetivo de ficar no caminho da reconquista da terra. “Não tenho sossego. Se isso acontecer, voltaremos a ser escravos.” Ele sabe o que diz. Aos 8 anos foi vendido pelo pai a um comprador de diamantes por cinco sacas de sal, uma enxada e um machado, um forno e uma espingarda. Só aos 17 conseguiu romper o jugo e voltar. “Encontrei índios encachaçados, mulheres abusadas, forró o dia todo. Nenhuma roça, só meu povo trabalhando para o branco em troca de nada”, lembra. “A isso chamam de boa convivência entre índios e brancos.”

Outra guerra preocupa Maurício Habert. Ele vive numa cidade batizada de Normandia em homenagem ao desembarque das tropas aliadas. Tem na carne a prova dos fios que se entrelaçam para construir destinos só previstos em cenas do realismo fantástico. A saga da família de Maurice Habert, pai de Maurício, é a própria gênese de Roraima, terra de aventureiros proibidos de conjugar o tempo pretérito, em busca furiosa do futuro. Um ladrão de Paris, fugitivo dos calabouços da Guiana Francesa, garimpeiro, marreteiro e produtor de tomates no Brasil funda uma cidade de nome Normandia a leste do fim do mundo. Por ironia ou por culpa, ninguém sabe dizer, já que Maurice fechou a boca sobre o passado e poucas explicações dava para o presente, batizou-a em homenagem ao fim da Segunda Guerra quando tinha fugido já da primeira. Fez três filhos numa mestiça, Maurício Filho, Marta Maria e Joel. Maurício e Joel plantam melancias, Marta foi varada a balas pelo marido.

Maurice morreu de câncer no pulmão aos 68 anos graças a duas carteiras diárias de Continental. Não viveu o suficiente para saber dos nove netos e oito bisnetos. Muito menos para constatar que a cidade semeada por ele viraria o berço do forró de Roraima. Pipoquinha de Normandia é a banda mais famosa, tem seu neto, Joel Perley, no teclado. Outros dois, Joeldson e Maicon, arrastam os pés de Roraima no grupo da Lambe Sal.

A Pipoquinha tornou-se a banda da hora nos eventos oficiais. Sua música transforma a Praça das Águas, em Boa Vista, no palco de uma grande fornicação dançante porque ao norte do Equador há pecados, sim, muitos e de antemão absolvidos. Enquanto as crianças brincam, o povo se esfrega, esquece das dores. Alguns, como o poeta Eliakin Rufino, de 45 anos, acham uma pobreza o tal do forró. Mera importação do que de mais indigente há na fortuna musical do Nordeste. Ele é o filósofo de Roraima, o pensador de um ponto de interrogação, a identidade roraimense. Sim, porque nem sobre isso há unanimidade.

O que seriam eles afinal? Os 11 mil migrantes que ultrapassaram a divisa somente no ano passado? O senador Romero Jucá, o mais conhecido político no cenário nacional, pernambucano da gema? Ou sua mulher, Teresa Jucá, prefeita de Boa Vista e tão pernambucana quanto? Ou outro pernambucano legendário, ex-governador, ex-prefeito, eterno candidato, o brigadeiro Ottomar Pinto? Talvez o governador Neudo Campos, nascido e criado em Roraima. Os índios, provavelmente, por isso é que os ditos roraimenses se referem aos da terra como “macuxis”. Mas estes são apenas uma das nove etnias do Estado, complicando tudo mais uma vez.

Eliakin, buliçosa mistura de brancos, negros e índios, compôs três definições para capturar a amplitude dos da terra. “Roraimense é quem nasce, roraimada quem não nasceu mas ama, roraimoso só suga o Estado”, explica. “Boa Vista é a cidade mais brasileira do país. Contém o Brasil inteiro. O sul é europeizado, o Nordeste é africano, o Sudeste é americanizado e nós é que somos brasileiros!” Decidido a derrubar a ideologia da desinteligência nativa, tornou-se o comandante da cruzada contra o forró.

Também na arte Roraima vive em guerra. De um lado da paliçada, Eliakin canta: “Já em Roraima encontrei muito garimpeiro/Todo mundo fissurado por dinheiro/Matando índio e pondo as índias no puteiro/Tudo por causa de um pedaço de metal/Amazônia Legal, não há nada igual/Amazônia Legal, destruição é geral”. Do outro lado da muralha, a Pipoquinha responde em versos: “Não sou preconceituoso, mas certas coisas não aceito/Se o índio é igual a gente, por que ele tem mais direito?/Roubar gado, tocar fogo em ponte/Pro índio é uma diversão/Rouba tudo do fazendeiro e ainda quer demarcação/Área contínua, não/O índio tá querendo é ser nosso patrão”.

A música escolhe a posição no tabuleiro da Raposa-Serra do Sol, disputado por peões, bispos e cavalos em Uiramutã. Os brancos culpam os padres que um dia vieram batizar, casar e enterrar os filhos de fazendeiros e, não se sabe por qual sussurro de Deus ou do diabo, mudaram de trincheira. “A ala esquerdista da Igreja Católica gerou o ódio nas comunidades”, discursa a prefeita, Florany Mota, de 29 anos. “Os índios têm centros de treinamento de guerrilha, fazem reuniões secretas na aldeia do Maturuca. É lá que mora o padre Jorge, é ele quem comanda tudo”, garante o marido, Sebastião Silva, o Babazinho.

Espécie de Padre Antônio Vieira de Roraima, odiado um como foi o outro pelas elites em formação, o padre italiano Giorgio Dal Ben é vendido como a mente maligna que manipula os fios de marionetes de pele escura. Comandante de um exército de índios, xeque de um harém de mulheres, dono de uma fortuna em ouro e diamantes garimpada pelos fiéis, repete-se de um canto a outro do território. Basta aparecer um índio de olho azul para imediatamente tornar-se o “filho do padre Jorge”. “O cão chupando manga”, segundo a imprensa local. Tornou-se uma lenda.

Diante de tal envergadura, o pouco mais de 1,60 metro do padre de 57 anos é uma decepção. Os partidários dão paradeiros diferentes para confundir quem o procura. Encontrá-lo exige uma via-sacra. Há muito se recusa a aparecer em fotografias, convive com ameaças de morte, move-se como se enfrentasse uma Guerra Fria a 40 graus. Desconfia de tudo, de todos. Tem voz de ferro quente. “Quando cheguei a Roraima encontrei ao mesmo tempo a minissaia e uma sociedade quase feudal. Os índios viviam um quadro de morte”, descreve. “Esbarramos em um problema que se arrastou por cinco séculos e estourou nas nossas mãos. Mudar essa situação foi uma decisão pela vida. Não me interessa o que falam. A história toda é um delírio.”

Estrangeiro como o padre, Walter Suíço, o rei de Roraima, voa de ultraleve sobre seu quinhão de império. Ao avistar a terra que o marido havia elegido como eldorado pessoal, dona Heidy achou que era o limite. Pegou um avião de volta para a Suíça com os três filhos, encerrou o casamento e a paciência. Walter casou com uma maranhense, naturalizou-se brasileiro e entregou-se à conquista do novo mundo. Com tanto afinco que hoje existe um escritório em Zurique só para capturar investimentos para Roraima. Perto de US$ 20 milhões já foram semeados na região de lavrado. “Sou brasileiro por escolha, daqui ninguém me tira”, diz. Para provar, em terra tão desconfiada , ergueu ele mesmo um monumento pelos 500 anos. Nem assim o perdoam. “Quantos será que esse suíço matou para se esconder no fim do mundo?”, cochicham. Walter logo demonstra que se transformou num genuíno made in Roraima. Um paradoxo ambulante, portanto. “Os estrangeiros querem tomar conta da Amazônia”, alerta.

Os interesses internacionais sobre o que de mais verde e amarelo há no mapa revolvem os brios e a imaginação dos militares plantados em Roraima. Eles marcham pelos salões da sociedade local com toda a pompa. E uma circunstância que desde o fim da ditadura já perderam ao sul do Brasil. A principal ameaça estrangeira, na concepção de mundo de alguns oficiais, atende pelo nome de Conselho Indígena de Roraima (CIR). Sim, são os índios ligados ao presidente do CIR, o macuxi Jacir de Souza, e ao padre Jorge que conspiram contra o Brasil. “O CIR é uma ONG e como ONG está numa posição contrária aos interesses nacionais, na medida em que é contra a instalação do pelotão em Uiramutã”, brada o general Claudimar Magalhães Nunes, de 53 anos, espigado como uma espada. “Um Estado com 50% de áreas indígenas é um verdadeiro absurdo, emperra o desenvolvimento.”

Nas fileiras nativas alinhadas ao Exército, o ex-vereador, diácono da Igreja Batista Popular e também índio, Jonas Marcolino, de 33 anos, profetiza. Tem as mãos postas na Bíblia: “O povo de Deus não é só joelho no chão. É guerreiro e nunca perde batalha. Não vamos perder nosso direito à energia elétrica, à televisão e à educação por causa do padre Jorge e do CIR. Essa é uma guerra entre o povo de Deus e o povo do diabo”.

Deus é muito popular em Roraima. O problema é que lá, como no resto do mundo, não se sabe bem de que lado está. O crente Francisco Gildo dos Santos, de 35 anos, tem certeza de que ele acompanha cada um de seus passos tristes, muitas vezes descalços até de esperança. Cada um deles tão difícil, tão moroso de consumar. Para alcançar a mulher, Cleonice, e os dois filhos trabalhou cinco dias como pedreiro em Santarém. Com os R$ 50 recebidos chegou a Manaus. Mais nove dias de labuta numa fruteira para completar a passagem. Ao todo 14 dias sonhando com uma casa sua na mais nova terra de leite e mel. “Uma casa, rapaz, de qualquer maneira, uma casa de madeira bem fechada, um quarto para cada filho, um computador, uma geladeira para beber água fria e um vídeo para ver filmes de pregação”, ergue os alicerces de sua utopia enquanto assenta o tijolo de mais um edifício de doutor.

Desembarca na rodoviária de Rorainópolis sem um centavo, a mesma quantia que possuía a mulher. “Cadê a minha Cleonice?”, pergunta à moça do guichê. “Procura a casa de porta vermelha e bate. Corre homem, já é madrugada.” Francisco caminha com a trouxa no ombro, pedindo ajuda à lua para não passar batido pela cor de seu destino. “Quem é?”, pergunta Cleonice, o coração pulando feito um cabrito. “É eu”, responde Francisco, a alma escapando pelas falhas dos dentes. Assim começa mais uma saga em Roraima.

E outra termina. Armados de paus, os ianomâmis se confrontam. Ao lado do xaruna se posta a aldeia de Komomassipe. Polassai e Roxeana defendem o makabei. Chicão vence a disputa ritual. Toma sua índia de volta. A paz retorna ao território. Nunca por muito tempo. Objetos de amor e guerra, as mulheres movem os homens por seu destino. Oficialmente, são condenadas à passividade. Na prática, comandam mais do que confessam os fios invisíveis de suas vidas. Os roubos são consentidos, muitas vezes combinados. Como em outras culturas, as fêmeas vencidas pela força tramam seus ardis no território que dominam melhor, o da sutileza, seguidamente o do embuste. Defendem-se. Na teia de seus enredos tombam os machos. É assim, provam os ianomâmis, desde o começo do mundo.

Mais um dia comum em Roraima. No oeste os ianomâmis açulam as fogueiras eternas, nus como eram os homens no princípio dos tempos. Os dentes afiados trituram manduruvás assados na brasa. No leste, Maurício Habert mal se contém. Espera mais uma carta com selo da França provando que o pai nunca foi parceiro de Papillon na Ilha do Diabo, menos ainda homossexual. O fundador de Normandia pode até ter sido ladrão, mas muito macho. No sul, de braço dado com Cleonice, Francisco desfila por Rorainópolis. Veste uma camiseta estampada com a imagem da prefeita, expediente aconselhado por outros migrantes para conseguir uma casa. Na rádio de poste da cidade, conhecida por A Voz, o locutor Zé Passos avisa em tom solene: “Homem está precisado de uma mulher de 40 anos para cá, filho só pequeno, para compromisso”. No norte, os macuxis seqüestram um par de botinas e uma boina dos militares para mostrar quem manda naquela quina de Brasil. Diante do ataque estrangeiro, o valente general ameaça tomar os troféus de guerra “na marra”.

Não há dias comuns em Roraima.

* * * * *

ELIANE BRUM.
Olho da Rua: Uma Repórter Em Busca da Literatura da Vida Real.
Pg. 40.

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PREDILETOS DE 2014: DISCOS, FILMES, LIVROS & SHOWS [A CASA DE VIDRO.COM]

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Aí vai, meu povo, uma “retrospectiva cult” do ano que acaba de terminar, em forma de listão de prediletos-da-casa; aí estão reunidas algumas das novidades culturais que mais marcaram meu 2014: são álbuns nacionais e internacionais, filmes de ficção e documentários, além de livros publicados recentemente, que eu prezo pra valer e estimo como alguns dos melhores lançamentos destes últimos tempos… Voilà!

DISCOS

[NACIONAIS]

* JUÇARA MARÇAL, “Encarnado”

* CRIOLO, “Convoque Seu Buda”

* CARNE DOCE, “Carne Doce”

* DIEGO MASCATE, “A.C.”

* CEUMAR, “Silencia”

* FAR FROM ALASKA, “Mode Human”

* TAGORE, “Movido a Vapor”

*ESTRELINSKI E OS PAULERA, “Leminskanções”

* NÔMADE ORQUESTRA, “Idem”

* RUSSO PASSAPUSSO, “Paraíso da Miragem”

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[INTERNACIONAIS]

* TEMPLES, “Sun Structures”

* THE WAR ON DRUGS, “Lost in the Dream”

* ROGER DALTREY & WILKO JOHNSON, “Going Back Home”

* SHARON VAN ETTEN, “Are We There?”

* DEATH FROM ABOVE 1979, “The Physical World”

* ST. VINCENT, “St. Vincent”

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SHOWS

* Queens of the Stone Age, Festival d’été de Québec
* Layla Zoe, Festival International de Jazz de Montréal
* Deltron 3030, Fest. de Jazz de Montréal
* Carne Doce, Festival Juriti de Música e Poesia Encenada
* Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine, Toronto’s Opera House
* Soundgarden, Festival d’été de Québec
* The Kills, Festival d’été de Québec


* * * * *

FILMES

[FICÇÃO]

Snowpiercer-Poster

– SNOWPIERCER: EXPRESSO DO AMANHÃ, de Joon-ho Bong
– NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier
– O LOBO ATRÁS DA PORTA, de F. Coimbra
– WE ARE THE BEST, de Lukas Moodyson
– BOYHOOD, de Richard Linklater
– RIOCORRENTE, de Paulo Sacramento
– MAPS TO THE STARS, de David Cronenberg
– LUCY, de Luc Besson
– NIGHTCRAWLER, de Dan Gilroy

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[DOCUMENTÁRIOS]

– THE MISSING PICTURE, de Rithy Pahn
– JE SUIS FEMEN, de Alain Margot
– WATCHERS OF THE SKY, de Edet Belzberg
– FAITH CONNECTIONS, de Pan Nalin
– FINDING FELA KUTI, de Alex Gibney
– THE INTERNET’S OWN BOY: STORY OF AARON SCHWARTZ, by B. Knappenberger
– BJÖRK: BIOPHILIA LIVE
– PARTICLE FEVER, de Mark A. Levinson
TEENAGE, de Matt Wolf

[LIVROS]

thischangeseverything

– NAOMI KLEIN, This Changes Everything
– 
ARUNDHATI ROY, Capitalism: A Ghost Story
– 
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO E DÉBORAH DANOWSKI, Há Mundo Por Vir?
– PETER LINEBAUGH, Stop, Thief! – The Commons, Enclosures and Resistance
– 
RAJ PATEL, The Value of Nothing
– 
RODRIGO SAVAZONI, Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo

[MELHOR ESCRITOR DESCOBERTO E LIDO PELA PRIMEIRA VEZ EM 2014…]

Arundhati RoyARUNDHATI ROY

 

DR. JOHN: O groove de New Orleans – Discografia pra Baixar + Seleta de Vídeos [#CYBER_JUKEBOX]

Dr John 2Dr John – Discografia de 1968 a 2012 (torrent, MP3, 4.2 GB)

“New Orleans pianist and singer whose blend of snaky rhythms, Crescent City funk, and voodoo flair made him one of the city’s prime musical ambassadors.” AMG All Music Guide

“Dr. John belongs to a prestigious lineage of New Orleans keyboard greats that includes such names as Professor Longhair, Huey “Piano” Smith and Fats Domino. His name has become synonymous with the city in which he was born. Dr. John’s music is stamped with the rhythms and traditions of the Crescent City, and he has spent a career that now spans more than half a century championing its music.

His best-known work includes Gris-Gris, an album steeped in the otherworldly sounds of Louisianan voodoo culture; Gumbo, wherein he offered an authoritative overview of New Orleans’ finest music; and In the Right Place, which gave him the Top Ten hit “Right Place, Wrong Time.” His concerts are ritual invocations of New Orleans’ enduring musical spirit. More broadly, he’s helped bring the sound of New Orleans into the national mainstream.” Rock and Roll Hall of Fame

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Dr John

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“Culturas em Extinção” – por Wade Davis, antropólogo canadense, TED Talk

Present and Past

“The voices of traditional societies ultimately matter because they can still remind us that there are indeed alternatives, other ways of orienting human beings in social, spiritual and ecological space. This is not to suggest naively that we abandon everything and attempt to mimic the ways of non-industrial societies, or that any culture be asked to forfeit its right to benefit from the genius of technology. It is rather to draw inspiration and comfort from the fact that the path we have taken is not the only one available, that our destiny therefore is not indelibly written in a set of choices that demonstrably and scientifically have proven not to be wise. By their very existence the diverse cultures of the world bear witness to the folly of those who say that we cannot change, as we all know we must, the fundamental manner in which we inhabit this planet.” – WADE DAVIS

Wade-Davis-Photo-Credit-Ryan-Hill

Download recomendado:

Light At The Edge Of The World
(audiobook + pdf)

PATTI SMITH: Discografia completa de 1975 a 2012 (“There’s a million membranes to break through…”)

pattishoulder

PATTI SMITH
Discografia completa de 1975 a 2012:
http://bit.ly/1lFmtzp (torrent, 320kps, 2.6 gb)

1975 – Horses [30th Anniversary Legacy Edition] 2 Disc
1976 – Radio Ethiopia
1978 – Easter
1979 – Wave
1988 – Dream Of Life
1995 – Paths That Cross – 2 Disc
1996 – Divine Intervention
1996 – Gone Again
1997 – Peace And Noise
2000 – Gung Ho
2002 – Land – Best Of 1975 To 2002 – 2 Disc
2004 – Trampin
2007 – Twelve
2011 – Exodus – Live 1978
2012 – Banga

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Submissão e Insurgência em Franz Kafka – Leia o artigo em A Casa de Vidro.com

Submissão e Insurgência em Franz Kafka

Segundo Pierres Bourdieu e Clastres, Michael Löwy, Ernst Pawel, dentre outros