O torcer é parente do orar (por Eduardo Giannetti)

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O futebol foi a religião da minha infância. O Cruzeiro de Tostão, Piazza e Dirceu Lopes – como esquecer a glória daquele time? – era o santuário. Eu narrava o futebol de botão jogado a sós no assoalho de casa, colecionava figurinhas de craques e torcia pela Raposa com um fervor de devoção mais intenso do que quando ia à missa e comungava. A memória do drama íntimo de certos jogos é das lembranças mais remotas que tenho de estar vivo. Se o sofrimento é a única causa da consciência de si, como diz o homem subterrâneo de Dostoiévski, então a paixão sofredora do torcedor mirim foi o berço da minha vida consciente.

Taça Brasil, anos 60. Chegou a tarde da grande final. Tenho cinco ou seis anos e estou grudado ao pé de uma radiovitrola Telefunken. O Cruzeiro perde do Santos por dois a zero – Pelé endiabrado em campo. Termina o primeiro tempo: silêncio e consternação. Bate o desespero, começo a chorar. O tempo corre, e a reação não vem; passo a chorar convulsivamente. Os adultos ficam preocupados com o meu estado. Quando mamãe faz menção de desligar o rádio e pôr um fim à agonia, o meu pai, Cruzeiro roxo, desautoriza-a secamente e me fulmina com seu olhar-fuzil. “Homem não chora!”

Súbito, porém, ressurge a esperança: Tostão marca e Dirceu Lopes logo empata. O jogo prossegue, mas não paro de chorar. “Por que agora?”, perguntam todos. Já não há razão, não há o que dizer. A angústia da decisão por pênaltis me sufoca. Então o milagre acontece. O ponta Natal faz o gol da virada! Os céus explodem. O meu choro, misturado à balbúrdia, já não perturba ninguém. Do ponto extremo da dor, como num parto, rompe a alegria. Hoje ainda, quando penso naquela tarde de aflição e júbilo, os gritos do locutor – “Natal! Natal!” – ressoam nas dobras do ouvido interno; a entonação, o timbre esganiçado, o desafogo da voz deixaram marcas indeléveis no meu cérebro de menino.

O Cruzeiro de hoje não é o da minha infância: mudou o futebol, e mudei eu. Assisto aos jogos na TV; torço e vibro por meu time (e pela seleção, é claro); estico cada fibra da alma quando chegamos às finais, mas perdi o dom da entrega daqueles tempos. Não há drama futebolístico concebível que me transporte aos píncaros do desespero e da alegria como no passado. Foi-se o vigor da pulsão furiosa, a seiva enérgica  das origens; tornei-me um torcedor maduro, amarrado, incapaz de ir até o fim no desatino. O tempo esfria a alma. Não sou metade do que fui de nascença e a vida esgarçou.

Mas o que é, afinal, torcer por alguma coisa? A mesma madureza que esfria trouxe uma certa distância, como que um olhar externo do que vai por mim. É estranho: todos estes anos torcendo, milhares de jogos na bagagem, decisões de vida ou morte, e nunca antes cheguei a me perguntar: o que se passa comigo enquanto estou torcendo? Cada um, é claro, vive e sente as coisas do gramado à sua maneira. O jogo jogado é o mesmo para todos: o placar final tem a solidez do granito. Mas, quando se trata do jogo vivido, tudo se transfigura. Qual o segredo do arrebatamento a que nos abandonamos na agonia de torcer? Que tramas e surtos da mais singular subjetividade não se filtram pelos olhos e mentes grudados aos volteios da bola numa tela de TV?

Há toda uma metafísica da mais remota origem embutida na alma torcedora. A palavra torcer, bem compreendida, capta o essencial. Torcer é se contorcer e remoer por dentro. É a sensação de esticar e distender os músculos e tendões dos nossos desejos e vontades: enfiar-se com as emoções campo adentro como se estivessem misturadas aos pés dos atletas e às trajetórias caprichosas da bola. As contorções faciais e os gestos do torcedor são apenas o sinal visível da ginástica interna que o consome.

Mas não é só. O contorcionismo subjetivo do torcer está ligado a uma crença espontânea indissociável da inclinação torcedora – um modo mágico de pensar e sentir que irrompe na mente com o ímpeto de uma planta selvagem. Torcer é entregar-se à vivência primária e avassaladora de que as contorções que agitam e devoram a alma torcerão o curso dos acontecimentos na direção desejada. A explosão do gol – ou de um pênalti defendido – é a confirmação da potência do meu bruto querer.

O torcer é parente do orar, só que sem rodeios e intermediários. Na reza, o devoto se concentra e abre o canal da interlocução pela oração: ele se dirige ao santo ou deus da sua predileção, rogando-lhe que interceda a seu favor. Promessas e sacrifícios podem facilitar o trâmite, mas a eficácia da prece não é fruto da vontade crua do devoto. Ela depende de um despacho da autoridade invocada. O torcedor, é claro, também reza e promete, mas no calor da hora ele vai direto ao ponto. Não é algo consciente ou que se possa escolher e evitar. É um processo mental involuntário, de origem arcaica, e que nos transporta para um mundo mítico onde os nossos desejos e emoções gozam de poder causal sobre o enredo aberto e imprevisível do que está em jogo.

O banco de reservas interiores do torcedor entra em campo, desvia a bola perigosa, corta o passe, mata no peito, cruza o escanteio, espalma e cabeceia, vibra no momento exato em que a sua onipotência se confirma na catarse do gol. Uma teia de medos e desejos, temores e esperanças cerca cada lance e afeta cada movimento da bola. Não é à toa que o verdadeiro torcedor se descobre extenuado no final do jogo.

No fundo, a fé selvagem de quem torce é a crença de que podemos domar e torcer o curso natural das coisas – coagir o futuro – por meio da força bruta do nosso querer. O mundo, berra em silêncio a alma torcedora, não é surdo e indiferente ao meu desejo. O devir se rende à minha vontade soberana. É por isso que saber de antemão o resultado de uma partida a cujo videoteipe se assiste mina a possibilidade de torcer.

A torcida diante da bola é um caso extremo de família numerosa. Torcemos para que alguém se recupere de uma doença grave; para que o avião vença a turbulência; para que o tempo melhore; para que os bons triunfem e os calhordas afundem; para que o telefone toque ou o e-mail chegue. Diante de um futuro aberto com desfecho incerto, o animal humano não se rende à sua impotência e desamparo cósmicos. Como um apostador inveterado, ele crê na sua vontade como causa de efeitos reais e investe o que pode na roleta mágica do seu louco querer: quando eu me contorço por dentro, o mundo se torce a meu favor. A psicologia do torcer é um escândalo da razão – fé animista que me habita em segredo.

- Eduardo Giannetti

Altamiro Carrilho e Carlos Poyares – Pixinguinha De Novo (1975)

Altamiro Carrilho e Carlos Poyares
Álbum: Pixinguinha De Novo
1975

1. 0:00 Diplomata
2. 3:12 Recordações
3. 6:09 Te Encontrei
4. 9:26 A Vida É Um Buraco
5. 11:24 Sonhos
6. 14:54 Desencanto
7. 18:15 Não Me Digas
8. 21:13 Surravulho
9. 24:16 Um Chorinho Para Elizeth
10. 26:33 Inspiração
11. 29:14 Caixa Alta
12. 32:17 Salto Do Grilo

R.I.P. Maya Angelou (1928-2014) – She knew why the caged bird sings…

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I’LL RISE

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may tread me in the very dirt
But still, like dust, I’ll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
‘Cause I walk like I’ve got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I’ll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops.
Weakened by my soulful cries.

Does my haughtiness offend you?
Don’t you take it awful hard
‘Cause I laugh like I’ve got gold mines
Diggin’ in my own back yard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I’ve got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I’m a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.
Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.

MAYA ANGELOU

* * * * *

AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO

Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.

Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.

Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh’alma enfraquecida pela solidão?

Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.

Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?

Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.

(Tradução de Mauro Catopodis) 

* * * * *

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Maya Angelou with Malcolm X in Ghana, 1964.

Maya Angelou with Malcolm X in Ghana, 1964.

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“A Impossibilidade do Crescimento” – por George Monbiot

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THE IMPOSSIBILITY OF GROWTH
Georges Monbiot / The Guardian UK
Tradução: Arlandson Matheus Oliveira

Imaginemos que em 3030 a.C. todas as posses da população do Egito ocupassem um metro cúbico. Suponhamos que essas posses crescessem 4,5% ao ano. Quão grandes elas estariam na Batalha de Ácio em 30 a.C.? Esse é o cálculo feito pelo investidor Jeremy Grantham.

Vá em frente, arrisque um palpite. Dez vezes o tamanho das grandes pirâmides? Toda a areia do Saara? O oceano Atlântico? O volume do planeta? Um pouco mais? 2,5 bilhões de bilhões de sistemas solares. Não demoraria muito, ponderando sobre esse resultado, para você chegar à posição paradoxal de que a salvação consiste no colapso.

Ter sucesso é destruir a nós mesmos. Falhar é destruir a nós mesmos. Esta é a armadilha que criamos. Ignore, se desejar, as mudanças climáticas, o colapso da biodiversidade, o esgotamento da água, do solo, dos minérios, do petróleo; mesmo se todos esses problemas miraculosamente desaparecessem, a matemática do crescimento composto torna impossível continuar.

O crescimento econômico é um artefato do uso de combustíveis fósseis. Antes de grandes quantidades de carvão mineral serem extraídas, cada aumento na produção industrial seria acompanhado de uma queda na produção agrícola, já que o carvão vegetal ou os cavalos-vapor demandados pela indústria reduziam as terras disponíveis para o cultivo de alimentos. Todas as revoluções industriais anteriores entraram em colapso, uma vez que o crescimento não podia ser mantido. Mas o carvão mineral quebrou esse ciclo e viabilizou – por algumas centenas de anos – o fenômeno que denominamos crescimento sustentado.

Não foi nem o capitalismo nem o comunismo que tornou possíveis os progressos e as patologias (guerra total, concentração sem precedentes de riqueza global, destruição planetária) da era moderna. Foi o carvão, seguido pelo petróleo e pelo gás. A meta-tendência, a narrativa-mãe, é a expansão movida a carbono. Nossas ideologias são meras subtramas. Agora que as reservas mais acessíveis foram exauridas, precisamos saquear os cantos mais recônditos do planeta para sustentar nossa proposição impossível.


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Na sexta-feira, poucos dias depois de cientistas anunciarem que o colapso do manto de gelo da costa leste da Antártida é agora inevitável, o governo equatoriano decidiu permitir a exploração de petróleo no coração do parque nacional Yasuni. Foi feita uma oferta aos demais governos: se estes dessem ao Equador metade do valor do petróleo contido naquela parte do parque, o país deixaria o petróleo no solo. Você pode ver isso como mercado negro ou como justo comércio. O Equador é pobre, suas reservas de petróleo são ricas. Por que, argumentou o governo, deveríamos deixá-las intocadas, sem compensação, quando todo mundo está perfurando até o círculo interior do inferno? O governo pediu 3,6 bilhões de dólares e recebeu 13 milhões. O resultado é que a Petroamazonas, uma empresa com um histórico colorido de destruição e vazamentos, agora entrará em um dos lugares com maior biodiversidade no planeta, no qual um hectare de floresta tropical contém mais espécies do que as existentes em todo o território norte-americano.

A empresa de petróleo britânica Soco espera penetrar no mais antigo parque nacional africano, Virunga, na República Democrática do Congo; um dos últimos redutos do gorila da montanha e da ocapi, dos chimpanzés e dos elefantes da floresta. Na Grã-Bretanha, onde depósitos contendo possivelmente 4,4 bilhões de barris de óleo de xisto foram identificados na região sudeste, o governo fantasia transformar os subúrbios arborizados em um novo delta do Níger. Com esse propósito, está alterando as leis de violação da propriedade privada para permitir a perfuração sem aprovação e oferecendo pródigos subornos à população local. Essas novas reservas nada resolvem. Elas não põem fim à nossa fome por recursos; exacerbam-na.

A trajetória do crescimento composto mostra que o esvaziamento (1) do planeta está apenas começando. À medida que o volume da economia global aumenta, qualquer lugar que encerre algo concentrado, raro, precioso, será vasculhado e explorado, seus recursos extraídos e dispersados, as diversas e diferenciadas maravilhas do mundo reduzidas ao mesmo restolho cinza.

Alguns tentam resolver essa equação impossível com o mito da desmaterialização: a alegação de que, à proporção que os processos se tornam mais eficientes e os aparelhos são miniaturizados, usamos, no conjunto, menos materiais. Mas não há nenhum sinal de que isso esteja acontecendo. A produção de minério de ferro subiu 180% em 10 anos. A Forest Industries nos diz que “o consumo global de papel alcançou um nível recorde e continuará a crescer”. Se, na era digital, não reduziremos sequer nosso consumo de papel, o que esperar das outras mercadorias?

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Veja a vida dos super-ricos, que definem o ritmo do consumo global. Seus iates estão ficando menores? Suas casas? Suas obras de arte? Acaso estão comprando menos madeiras raras, peixes raros, pedras raras? Aqueles que têm meios compram casas cada vez maiores para armazenar um crescente estoque de coisas que não viverão tempo bastante para usar. Por acréscimos que passam despercebidos, uma parte cada vez maior da superfície do planeta é usada para extrair, manufaturar e armazenar coisas de que não necessitamos. Talvez não surpreenda que fantasias sobre colonizar o espaço – que nos fazem crer que podemos exportar nossos problemas em vez de resolvê-los – tenham reaparecido.

Como o filósofo Michael Rowan assinalou, as inevitabilidades do crescimento composto significam que, se a taxa de crescimento global prevista para 2014 (3,1%) se mantiver, ainda que nós milagrosamente reduzíssemos em 90% nosso consumo de matérias-primas, adiaríamos o inevitável em apenas 75 anos. Eficiência não resolve nada, enquanto o crescimento prosseguir.

O inescapável fracasso de uma sociedade construída sobre o crescimento e sua destruição dos sistemas vivos da Terra são os fatos esmagadores de nossa existência. Por consequência, eles não são mencionados em praticamente nenhum lugar. São o grande tabu do século 21, os temas com garantia de afastar seus amigos e vizinhos. Vivemos como que presos em um suplemento de domingo: obcecados pela fama, pela moda e pelos três temas de conversação enfadonhos da classe média – receitas, reformas e resorts. Tudo, exceto o tópico que requer nossa atenção.

Declarações da sangria evidente, resultados de aritmética básica, são tratados como distrações exóticas e imperdoáveis, enquanto a proposição impossível segundo a qual vivemos é considerada tão sã, normal e banal que não é digna de menção. Eis como medir a profundidade do problema: por nossa incapacidade de até mesmo discuti-lo.

NOTAS

(1) No original, scouring; literalmente, lavagem, limpeza. O sentido é de esvaziamento, retirada até o esgotamento.

Mais artigos do mesmo autor:
http://www.monbiot.com

In Praise of Arundhati Roy’s “The God of Small Things” – by Eduardo Carli de Moraes

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“She is one of the great writers and intellectuals of our time. I was thinking about what makes her a really great writer, a really great person, and a really great rebel: someone who listens more than she talks. Someone who goes to find where the silence is, and tries to understand why the silence is there. She is so precious and so rare. Like Charles Dickens, like Charlotte Brontë, like Virginia Woolf, like Victor Hugo, like all those wonderful writers who spoke for the people who had no voice. Arundhati Roy joins a long and proud list of people who care deeply, and who listen deeply, and who then speak fearlessly. This is our salvation, this kind of writer, this kind of person…” - ALICE WALKER , author of Pulitzer-Winning novel The Color Purple (filmed by Steven Spielberg)

I.  A SUNBEAM LENT TO US TOO BRIEFLY

ARUNDHATI ROYTo listen attentively, to care deeply, to speak fearlessly: these are some of the many virtues of our brave sister, Arundhati Roy. Even if she never writes another book of fiction, she already deserves a place in the history of English-language literature: The God Of Small Things, the winner of 1998′s Booker Prize Award, can be easily included in the Olympus of the 20th century’s true masterpieces in the realm of novels. Her story-telling talents are such that it’s hard not to get hooked on the tale she’s telling so compellingly: The God Of Small Things entrances with its language, seduces withs its humour, and then delivers, apart from a delicious verbal banquet, a blood-soaked tragedy.

She told BBC that she never meant to write a thriller, but her novel is filled with thrills, like a rollercoaster ride through Aymenem, Kerala, India, where Arundhati Roy grew-up. Perhaps it’s her own way of embarking on a Proustian recherche du temps perdu. Yet this book ain’t a memoir or an auto-biography, but something much more ambitious: an Indian tragedy, set to the background of a nation in turmoil. Bloody messy turmoil. We only need to remember what happened in Gujarat in 2002 – more than 1.000 Muslims butchered and murderer openly in the streets by Hindu fanatics, and more than 150.000 fleeing the scene of the pogroms as refugees – to have a glimpse of the turmoils of India. Who dawned to the 21st century on the brink of nuclear war with Pakistan, and who holds Kashmir hostage with the biggest military occupation in the word – this is a scary picture of India, which Arundathi Roy paints, and it rings so much true than the demagogues propaganda.

She belongs to a pantheon of writers capable of writing passionately, with words that a sensible reader feels at the same time as he deciphers them. While reading The God Of Small Things, I was frequently aware not only of an intellectual process going on in my head, the whole process of language-deciphering, but of something else, ringing with truthfulness and verve: Arundathi’s words were injected with feeling. These are sentences written to be felt rather than simply understood. In a prose so marvellous that I can only find something similar in writers, which I cherish a lot, such as Anton Tchekov, Katherine Mansfield, Heinrich Heine, Manoel de Barros…

And yet The God of Small Things, so often, seems to focus on banalities, on minute occurrences – for example, the funny description of the twins in their “delight with underwater farting”. Several times, it seems she’s jokingly playing with language like Lewis Carroll or James Joyce did so well. She evokes images – for example: a child been forced to eat spinach – that seem at first sight to be trivial chronicles of day-to-day life. But Arundhati Roy portrays this commonest matter of life as something dynamic, in perpetual motion, and that can undergo sudden changes. As if she is saying that the extraordinary is the most ordinary thing there is, yet not all among us can see it and realize it. The motto, running like an underground stream in her narrative, is this: “things can change in a day”. So we better be prepared.

 When you reach the last page of the book, and you look behind you, remembering the path you’ve traveled together with Arundhati, you can feel the wisdom of every minute detail to the general composition. It reminds me of an interesting piece of literary criticism written  by an excellent Artist-of-the-Word, Cioran: “No true art without a strong dose of banality. The constant employment of the unaccustomed readily wearies us, nothing being more unendurable than the uniformity of the exceptional.” (CIORAN, The Trouble With Being Born, p. 37) In other words: a work-of-art doesn’t necessarily need to be an overdose of extraordinary occurrences and events. The common fibre that weaves human life must be used to compose a portrait of human life as it is – and life undeniably includes in its bosom much minute trivialities and minor events without further consequence. Until it comes: the day that changes everything.

The genius of Arundathi Roy’s book lies in her hability to portray how the extraordinary disrupts the web of common life. Thus the leitmotiv in The God of Small Things - “things can change in a day”, which means: your whole life may be suddenly transformed. It may be thrown out of its usual tracks, like a derailed train bound to a blind-date with fate.

After reading this book, I also emerge from it like a diver rising up from the seas, where he saw and witnessed little fish behind devoured by big ones (just like in Radiohead’s song). Life as a frail flame that can be blow off by the wind. Life as quicksand where our feet can never quite stand in firm ground. Life as box-of-surprises (not necessarily gentle ones) . These are some of the feelings about life Arundathi’s novel  may evoke and provoke. When she describes injustices being done against the powerless, her words have the beauty and the courage of similar ones written by Simone Weil or Emma Goldman. It seems to me that Arundathi depicts the destructibility of life as something that’s part of its essence –  mortality is something no mortal can escape from – and yet Arundathi’s voice is far from depressing. Her words have an up-lifting effect, like an injection of enthusiasm shot right in the veins. It’s a voice filled with such compassion and boldness, and such lucid indignation and witty critique, that listening to her is a delight. Art can be empowering, it can communicate enthusiasm, it can teach a frame of consciousness, and it also certainly can act upon life – like Spinoza taught, it can become something we love because it enhances our vitality, adds vigor to our conatus.

20130628-gramsciThis book may be playful and filled with wit, but ain’t kitsch at all: there’s pedophilia and police brutality and class struggles ending up in bloody mess. There’s scenes to make a punk’s hairdo spike-up. There’s enough to make Chuck Norris cry. She extracts beauty from tragedy, from loss, from terrible grief, as if Arundathi was some sort of magic bee capacle of manufacturing sweet honey even from fly-trap plants. From brief sunbeams drowned out too soon. Elizabeth Bishop’s famous poem says that “the art of losing isn’t hard to master”; Arundhati Roy also paints a poignant portrait of loss, and also points out that even the most precious things can easily be lost (“things can change in a day…”). Like the fateful day in which Sophie Mol tried to cross a river on a little small-boat with her cousins, the twins Rahel and Estha. Touched by tragedy in childhood, the twins learn from life some lessons that are usually reserved for older people. The wisdom that dawns upon them, written in their flesh by death’s killings upon the living, is stated very cleverly by little Estha: “Anything can happen to anyone, so it’s better to be prepared.” The wisdom of keeping eyes opened to the possibility of the worst, and yet continuing the struggle to act in order to build something better, is something that, it seems to me, is one of the many virtues of Arundhati’s work. Maybe she agrees with Gramsci that we should keep burning two flames, simultaneously: pessimism of the intellect, optimism of the will.

It’s always good news to discover that Humanity still holds among the living some people so wise and so courageous.

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II. HOLES IN THE UNIVERSE

In The God Of Small Things, I kept bumping into some re-occuring events, popping up several times in the narrative: the Holes in the Universe. No: this novelist isn’t venturing into the territories of astrophysics, nor trying to decipher the mystery of supermassive Black Holes. Arundhati Roy uses “holes in the universe” in order to portray the human mind’s experience of death: “Joe was dead now. Killed in a car crash. Dead as a doorknob. A Joe-shaped Hole in the Universe.” (p. 113)

Of course not only death can open these holes in the Universe, subjectively-perceived, and Arundathi knows it well. It’s so brilliant the way she is able to communicate a lot with a single word, when for example she writes “die-vorce”  (p. 124). This is no crass error of misspelling, and this is no mere typo that the publisher’s reviser didn’t detect: this, my friends, is poetry in action. Instead of writing the word as the dictionary demands (“divorce”), she subverts official language, and in this process links divorce with death. Both death and divorce (understood not only as the end-of-marriage, but as a sudden separation between affectively bonded humans) have the power to “open” these Holes in The Universe that The God Of Small Things so frequently talks about.

(She also uses, with equivalent brilliancy, the witty expression “die-able” (154), to convey the sense of “being able to die”, of being in a state of danger.)

The way she deals with Time in her narrative is also quite fascinating, and it works really well: instead of following a straight path in her story-telling, always going forward in linear time, she messes up with our coordinates. Like a brat willing to spread confusion in a world of bureaucrats and stock-market money-junkies, she sets the clocks to different times and steps back to laugh at how confused and lost in Time we really are. We, short-sighted short-term beings who are neither beasts nor prophets. She does not only take us on a ride through India – it’s also a ride through Time. For example: Ammu’s death occurs in the middle of the novel, at page 154 (out of 315), and yet Ammu is present in the very last chapter. She even says the very last word of the book (“Tomorrow”).

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“The church refused to bury Ammu. So Chacko hired a van to transport the body to the electric crematorium. He had her wrapped in a dirty bedsheet and laid out on a stretcher. Rahel thought she looked like a Roman Senator. (…)  It was odd driving through bright, busy streets with a dead Roman Senator on the floor of the van. (…) Outside the vans windows, people, like cut-out paper puppets, went on with their paper-puppet lives. Real life was inside the van. Where real death was.

The crematorium had the same rotten, rundown air of a railway station, except that it was deserted. No trains, no crowds. Nobody except beggars, derelicts and the police-custody dead are cremated there. People who died with nobody to lie at the back of them and talk to them. When Ammu’s turn came, (…) the steel door of the incinerator went up and the muted hum of the eternal fire became a red roaring. The heat lunged out at them like a famished beast. Then Rahel’s Ammu was fed to it. Her hair, her skin, her smile.

20 minutes: that’s how long Chacko and Rahel had to wait for the pink receipt that would entitle them to collect Ammu’s remains. Her ashes. The grit from her bones. The teeth from her smile. The whole of her crammed into a little clay pot. Receipt No. Q 498673.”

(pg. 154-155)

aroyrArundathi paints images of holes in the Universe that emerge and take the place where joy was once intensely present. She portrays beautifully some occurrences that are far from cute – including pedophilia; child-sized coffins; police brutality against people from the lower castes; several acts of violence (both verbal and physical). As if she was trying to paint a huge mural of a world – ours, the real one – where careless words are legion, and where sometimes death comes to claim life’s yet to be lived, or who had many fruitful years ahead of them. Untimely deaths. No one should live somewhere where infancy is normally considered as a very “die-able” age. And yet India, may I remind us, has the largest population of undernourished children in the planet. And the emergence of shopping malls and billionaires, of Bollywood movie-stars and triumphant stock markets, ain’t stopping neither the tragedy of massive deaths by famine, of children and adults alike, nor the tragedy of massive suicides of empoverished peasants, which sometimes end up killing themselves by drinking pesticides made by Monsanto…

algebraWithout resembling in any way a political pamphlet, the novel is in fact deeply political. I would strongly recommend to you Arundhati Roy’s books of essays, excellent and thought-provoking books such as Algebra of Infinite Justice and Listening to Grasshoppers: Field Notes on Democracy. After reading them recently, I got the impression that, both in her fiction and non-fiction writings, she delivers a portrait of India as a country still suffering from the tragedies that ensue from the rigid social hierarchy of a Caste System.

Baby Kochamma, for example, feels very proudly that she is higher and nobler in society than those she calls “the sweeper class” (pg. 132). It seems to be one of the main intentions of The God of Small Things to give voice to the voiceless. To portray those who are so often killed without leaving behind them no portrait. No footprints in the sand’s shore. Those Power wants to thrown into Oblivion. Arundhati Roy, through the means of such a compelling story, communicates to the reader the lived experience of the lower castes, the toiling masses, and she makes us suffer together with those who suffer from the anathema and the stigma of being “Untouchables”, the pariahs of Indian society.

And some books, after we finish them, never quite leave us. They become part of us. We move on, but transformed by them. We have been taught to care more for the voiceless, for the powerless, for the wretched of the Earth; we have learned empathy towards small frail things such as ourselves. We now have been enriched by the new holes we now carry in our hearts: a Sophie-shaped hole in the Universe; a Velutha-shaped hole in the Cosmos; an Ammu-shaped hole in the Fabric of Life…

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III. THE LOVE LAWS (AND THE RISKS OF TRANSGRESSION)

It’s evident that Arundhati Roy is pretty well-read, and that she has learned a lot from the masters of the English Language: she evokes images and characters from Joseph Conrad’s The Heart of Darkness, for example, and she inserts into her narrative verses from Shakespeare’s Julius Caesar. Apart from the direct references to other books, she also can remind the reader of highly creative artists such as Virginia Woolf, Samuel Beckett or Julio Cortázar, especially because of her ability to invent a language of her own, a verbal landscape that’s quite unlike any I’ve ever read. Of course some of the scenes may remind us of other novels – for example: when Arundanthi described the minute details of the family business Paradise Pickles & Preserves (“Emperors of the Realm of Taste!”), I felt some resemblance to John Steinbeck’s marvellous narrative in The Winter of Our Discontent. And wild rivers, with dangerous secrets lurking below the surface of the waters, may also make some experienced reader reminisce the days spent surfing the pages of Moby Dick.

Of course a little boat, with three children in it, crossing a river in India, is quite different from Ahab’s vessel, in its epic journey in search of the giant white whale. But what I mean to point out is this: The God of Small Things is such a great book also because it can evoke in us past reading experiences, and good thrilling ones such as Herman Melville or Steinbeck wrote. Arundhati Roy’s work can “drown” us in a literary experience of aesthetic amazement. However, there’s  no l’art pour l’art here: this novel can teach us a lot about India, if we care to listen to the narrative’s details. When you least expect it, she writes, for example: “Some days Estha walked along the banks of the river that smelled of shit and pesticides bought with World Bank loans.” (p. 15) That’s how politics manifests itself in this novel: acting directly on the characters and their environment. Politics is something the flesh-and-blood, the pulsating heart, knows about by its effects on life.

There’s a mist of mystery surrounding the narrative that contributes a great deal to the thrilling sense of suspense of the book. He are told right from the beginning  about the tragic loss of Sophie Mol, but Arundhati takes her time in unveiling what happened to this English child visiting her cousins and aunts in India. Sophie and her mother came to India after experiencing trauma in England – the death of Joe – but unaware that they would be further traumatized rather than healed. After all this is India, a country filled with “public turmoils”, where “various kinds of despair competed for primacy”, “poised forever between the terror of war and the horror of peace”, and where “Worse Things kept happening” (20).

I see in The God of Small Things a tragedy set in India, a country where “caste issues are very deep-rooted” (263). People are “conditioned from birth”, says Comrade Pillai, to think and feel in accordance with the caste system – which is, of course, a system of stratification of social classes in which a lot of violent conflict keeps exploding (in his century, the Mumbai terrorist attacks of 2008 and the Gujarat pogrom of 2002 stand as examples). This Caste Segregation is the political background for a tale of forbidden love, and love loved in spite of laws forbidding it.

Ammu and Valutha are a bit like Romeo and Juliet, daring to love when the social landscape around them deems it a scandal. What an obscenity, to love someone outside of one’s caste! In Arundathi Roy’s novel, two persons from two castes who aren’t supposed to mix end up choosing the experience of forbidden love, even tough they know this could be their doom. When Ammu and Velutha join their bodies in the delights of wild love-making, there’s a big fear lurking inside them. There’s an anguished panic poisoning their delightfully forbidden love. This love, in the wildness of its force, tramples underfoot the taboos of caste. They will be punished, for certain, by their transgression. This love is risky business, and in daring it you gamble with your life.

Stanton_R&J CoverIt’s quite similar to what happens in Shakespeare’s Romeo and Juliet: the “clash” and conflicts that sets apart Capuletos and Montecchios, as you well remember, is the background for the forbidden love between Romeo and Juliet. They transgress the Laws of Segregation with their Union in Love. Tough brief, it’s a symbol of love’s power to demolish frontiers and unite what has been kept severed. Romeo and Juliet refuse the segregation imposed by their families, and by the social structure, and dare to love and unite amidst a conflict filled with bloody hate. I wouldn’t say that The God Of Small Things is inspired by Romeo and Juliet, but rather that Shakespare’s famous play deals with similar dilemmas.

Rahel and Estha, Ammu and Velutha, are characters which transgress the Love Laws, which lay down who should be loved, and how much, and according to what dogmas and rules. “…once again they broke the Love Laws. That lay down who should be loved. And how. And how much.” (p. 311) Ammu and Velutha unite in the art of seeing the common, beyond differences, in the boundary-transcending light of a loving-eye. They transgress the Love Laws and then are crushed to an horrendous death. And yet the genius of Arundhati lies not only in the tragic grandeur she can convey in her story-telling, but also in the lush sensuality of her imagery. The sex scenes at the very end of the novel are the greatest example. Love-making description skyrockets to Shapespearean heights in these pages, and the beauty of them resembles the beauty in D. H. Lawrence’s Lady Chatterley or in Abdel Kechiche’s film Blue Is The Warmest Color… 

In Arundhati’s Roy, the tragedy of the lovers runs parallel with the children-in-the-boat subplot. An accident happens, the children’s boats hits some obstacle in the waters of the river, and then the fragile vessel throws into the water Rahel, Estha and Sophie.  “Just a quiet handing-over ceremony. A boat spilling its cargo. A river accepting the offering. One small life. A brief sunbeam.” (pg. 277) Velutha – the Romeo of the forbidden-love saga – now is claimed by another play, another saga: he’s to be a scape-goat, the one to be punished by the death of a child. Velutha, tender lover and hard-working man, an activist of the Marxist Party and a friend of maoists, ends up being beaten to death by the police. Beaten out of existence. To be buried in the Pauper’s Pit. And then one suddenly awakes to the fact: what impels Arundhati Roy to write is clearly indignation for the horrors and strifes that she describes. She suffers with these crushed lives because of her extraordinary capacity for empathy. An hability to have attentive antennas to listen to the voices of human diversity.

In recent years, amazing works-of-art also reflected upon false accusations and unjust punishments – Ian McEwan’s Atonement and the film The Hunt by Thomas Vinterberg are examples take occur to me. It would certainly be interesting to attempt a comparison of these works with The God of Small Things. My impression is that Arundhati Roy deals with matters of Crime and Punishment with such depth and intelligence as one can find only in the works of great masters such as Franz Kafka or Dostoiévski.

Alive, awake, alert. That’s what some books do for us: they kick-start our mind’s capacities to marvel and wonder. They expand our horizons by unveiling the magnitude (it’s huge) of all that we can’t understand. They enchant us with their language, until we wake up to what what we were previously unaware of. They tell stories that we feel that needed to be told. When he reach the last page, we feel that the book isn’t finished, it will reverberate and echo inside us, perhaps for years. We close this book and it’s possible we’ll be burdened by a grief similar to the one we feel when a loved-one dies. I surely carry now within me a Velutha-shaped hole in the Universe, a Sophie-shaped hole in Existence. And yet I feel enriched by these new holes, by these tales of transgressive love, by these human kaleidoscope flowing in Time on the Earth Woman’s bosom.

“We belong nowhere”, Chako said. “We sail unanchored on troubled seas. We may never be allowed ashore. Our sorrows will never be sad enough. Our joys never happy enough. Our dreams never big enough. Our lives never important enough. To matter.”

Then, to give the twins Estha and Rahel a sense of Historical Perspective, he told them about the Earth Woman. He made them imagine that the earth – 4600 million years old – was a 46-year-old woman. It had taken the whole of the Earth Woman’s life for the earth to become what it was. For the oceans to part. For the mountains to rise. The Earth Woman was 11 years old, Chacko said, when the first single-celled organisms appeared. The first animals, creatures like worms and jellyfish, appeared only when she was 40. She was over 45 – just 8 months ago – when dinosaurs roamed the earth.

“The whole of human civilization as we know it”, Chacko told the twins, “began only 2 hours ago in the Earth Woman’s life.”

It was an awe-inspiring and humbling thought, Chacko said, that the whole of contemporary history, the World War, the War of Dreams, the Man on the Moon, science, literature, philosophy, the pursuit of knowledge – was no more than a blink of the Earth Woman’s eye.

“And we, my dears, everything we are and ever will be are just a twinkle in her eye…”

The God Of Small Things is a fountain of life: drink it up with might, O you who thirst for Truth, Freedom, Justice, O you who grieve everyday by seeing them crushed!

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“Amar Desesperadamente” – Reflexões sobre a filosofia de André Comte-Sponville

GOSTO DE VIVER

“O GOSTO DE VIVER”
de André Comte-Sponville (1952 – )
(Éditions Albin Michel, 2010)
por Eduardo Carli de Moraes
educmoraes@hotmail.com

 I. A FELICIDADE DE DESEJAR

aimer2O desejo humano, segundo Platão, tem a mania de querer o que não tem: o ausente e o distante são sempre mais desejáveis do que o presente; o longínquo, mais amável que o próximo; a grama é sempre mais verde no jardim do vizinho… O platonismo em uma pílula: “aquilo que nós não temos, aquilo que nós não somos, aquilo que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” Que tristeza seria viver, se Platão tivesse razão e se todos os amores fossem platônicos!

Pois conceber o desejo como falta, como faz a tradição filosófica platônica-cristã, é condenar o homem a um destino de Sísifo, bem ilustrado pela imagem da condição humana pintada por Schopenhauer, um dos pessimistas-mor da história do pensamento: “Toda nossa vida oscila, como um pêndulo, da esquerda à direita, do sofrimento ao tédio.”  Enquanto desejamos o que não temos, sofremos com esta falta; quando conquistamos o que desejávamos, logo nos entediamos – e segue em sua marcha avante o desejo insaciável até que a morte lhe imponha a última mordaça.

O platonismo não é de cortar os pulsos? E nada me surpreende o fato de que tantos poetas, ébrios de platonismo, tenham de fato procurado na morte o repouso de seus frustrantes arrebatamentos! Que isso exista, não dá pra negar:  todos sabemos bem o quão pouco polidos e nada comportados, o quão insensatos e desprovidos de sabedoria,  são com frequência os nossos desejos “ávidos, vorazes, devorantes” (COMTE-SPONVILLE: Le Gôut de Vivre, pg. 192). Mas “todo casal feliz, e existem alguns, é uma refutação do platonismo.” (pg. 226)

Em busca dos que nos falta, marchamos sempre: eis o quadro platônico. Lembremos do que significa um amor platônico: desejar à distância, sem gozar de convivência íntima; fabricar uma imagem idealizada do outro, ao invés de conhecê-lo como é de fato; perder-se em infindas fantasias de felicidade, estritamente imaginárias, em amores cujo único palco é a imaginação… O amor enredado nas teias do platonismo, em suma, é o amor narcísico: aquele que só sabe amar as produções ensandecidas de um eu tirânico que quer impor ao outro a figura que mais lhe agrada. É Dom Quixote, exposto por Cervantes em todo o seu ridículo, que transforma a simplória e feiosinha Dulcinéia del Toboso numa deusa viva, sempre distante e somente sonhada, ornada pela fantasia do amante com as auréolas e as maravilhas mais estupendas – e que é de se suspeitar que ela não possua de fato.

Mão e a Luva

As qualidades que o amante platônico atribui ao objeto de seu desejo são projeções de si mesmo: incapaz de amar o outro pelo que ele é, fantasia um outro que se adequaria tão perfeitamente a si quanto uma chave numa fechadura: harmonia perfeita. Em A Mão e a Luva, Machado de Assis demole a golpes de ironia estas ingenuidades e Guiomar, a deslumbrante carioca que deixa gamados três dos homens da narrativa, prefere o mais ambicioso e sóbrio ao sentimental e platônico Werther tupiniquim.

Idealizar o outro e exigir dele adequação às miragens da imaginação: de tais sonhos perigosos é constituída a matéria dos amores platônicos, sempre vividos sob o signo da falta e da distância, e sempre tão frustrantes quando a realidade se intromete. Como o outro, sempre um ser finito e imperfeito, corresponderia à fantástica demanda de um platonista quixotesco e ensandecido que exige do outro o infinito e o absoluto?

 Opondo-se a esta visão de mundo, reivindicando um desejo que seja potência ao invés de falta, um amor que ame fora-de-si ao invés de só saber se inebriar com as produções fantasmáticas do eu, existe toda uma antiga e venerável escola filosófica que engloba Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Nietzsche, Deleuze, e na qual André Comte-Sponville também pode ser seguramente incluído.

Enxotando para longe o platonismo e seu séquito de horrores, há o conatus spinozano, este desejo como força ativa que impele cada um nós a perseverar em sua existência e nos leva a nos rejubilar com as causas exteriores que nos causam alegria, isto é, aumentam nossa potência de existir. E por falar em “potência”, cabe lembrar outro empreendimento radicalmente anti-platônico: a vontade de potência nietzschiana, que sustenta que não agimos impelidos somente pelo instinto de preservação/auto-conservação, mas por uma vontade de “dar vazão à nossa força”  e colocar em ação os potenciais criadores do desejo. O desejo, dirá André Comte-Sponville contra a ladainha platônica da falta, não é falta, mas sim potência de gozar e gozo em potência.

A mais natural e espontânea das manifestações do querer humano, a “base” de nossa vida desejante, o desejo que está estreitamente vinculado às nossas necessidades orgânicas de sobrevivência, ou seja, desejos/necessidades como a fome, a sede e a excreção, são decerto explicáveis pela teoria platônica do desejo como falta: como negar que sentimos fome ou sede quando a comida ou a água começa a nos faltar? Adiar a satisfação destes desejos é sofrimento na certa: eles são tirânicos em suas exigências reiteradas. O copo d’água para o sedento, a comida para o faminto, são decerto aquilo que falta, desejado em sua ausência. Mas esta não é a única concepção possível sobre o desejo – aquele que come, durante sua refeição, não está sentindo falta do objeto de seu desejo, mas está se rejubilando com ele, gozando da satisfação que, como diria Jean Paul-Sartre, conduzirá à “morte do desejo”.

O desejo, satisfeito, se abole. Mas o erro do pessimismo à la Schopenhauer é descrever um pêndulo que só viaja entre dois extremos igualmente pavorosos: o tédio e o sofrimento. Ora, entre eles, lá onde Aristóteles nos mandava procurar a virtude, há o gozo. E não sejamos como os pessimistas que negam a existência dos gozos somente pelo fato deles serem fugazes. O passageiro não é menos real do que o duradouro – e negar a existência do fugaz talvez nos levasse a negar a existência de quase tudo. O gozo, ainda que fugaz e temporário, existe em toda sua positividade: todos podemos vivenciar um desejo que se rejubila por sua própria existência, que se esforça por perseverar em seu ser, que não é nada platônico mas que justamente por isso atinge o júbilo mais puro: o de amar o que tem, amar o outro como ele é, amar o vínculo que nos une a ele.

“Fazer amor, quando nós nos amamos, não é desejar um orgasmo ou uma fusão impossível que nos faltaria. É desejar aquele ou aquela que não nos falta, que está lá, que se doa, que se abandona, e é por isso que é tão bom, tão doce, tão forte! Não é mais o vazio devorante do outro; é a plenitude replenificadora e plena de sua existência, de sua presença, de seu deleite, de seu amor… O que desejamos? Que o outro seja, e que esteja ali, e que doe ou nos abrace… É exatamente o que se passa: como não nos sentiríamos plenificados? Depois do coito, o quê? A gratitude, a doçura, a alegria de amar e ser amado.”

 (“Faire l’amour, quando on s’aime, ce n’est pas desirer l’orgasme ni je ne sais quelle fusion impossible, qui nous manquerait. C’est désirer celui ou celle qui ne manque pas, qui est là, qui se donne, qui s’abandonne, et c’est pourquoi c’est si bon, si doux, si fort! Ce n’est plus le vide dévorant de l’autre; c’est la plenitude comblante et comblée de son existence, de sa présence, de sa jouissance, de son amour… Que désire-t-on? Que l’autre soit, et qu’il soit là, et qu’il se donne ou nous prenne… C’est exactement ce qui se passe: comment ne serait-on comblé? Après de coït, quoi? La gratitude, la douceur, la joie d’aimer et d’être aimé.” (pg. 195)

O amor é também o berço do valor: seguindo os passos de Spinoza, Sponville afirma que não é uma bondade ou beleza intrínsecas aos objetos que causam nosso amor, mas, ao contrário, é o amor que, primevo, julga que são boas e belas as coisas que deseja. Sem o amor, tudo seria neutro ou indiferente: é o “tanto faz” ou o “tudo dá na mesma” do niilismo. A vida e o outro só adquirem valor através do amor, que é potência de gozar mas também de sofrer, que equivale a expor-se e abrir-se à possibilidade da perda, ao invés do quietismo infértil dos desapegos ascéticos: “Por um objeto que não é amado, escreve Spinoza, não nascerá nenhuma querela; não sentiremos tristeza se ele perecer, nem ciúme se ele cair em posse de outro, nem temor, nem ódio, nem perturbação d’alma…” (pg. 223)

Mas o próprio Spinoza afirma não ser possível, para criaturas como nós, prescindir de amar, já que “em razão da fragilidade da nossa natureza, sem algo com o qual estejamos unidos e pelo qual sejamos fortificados, não poderíamos existir.” (pg. 224) O amor, longe de ser onipotente, é uma marca de nossa fraqueza, nossa fragilidade, nossa finitude: é criação dos mortais em sua vontade de um vínculo que torne menos duro nossa estadia temporária neste mundo, fugazes criaturas viventes no seio do Ser que nos engloba e nos carrega.

Essencial para a filosofia Sponvilleana, pois, é a distinção entre “duas definições de amor que dominam toda a história da filosofia: o amor segundo Platão, falta devorante do outro concebido como ausente e reduzido a uma figura imaginária, e o amor segundo Spinoza, que é o deleite com a existência do outro”. É o que o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes distingue como Eros e Philia. A imagem exemplar que utiliza o filósofo é a da mãe com um recém-nascido no colo: a criaturinha que chega ao mundo é Eros em estado bruto e procura o seio com “um amor que agarra, que quer possuir e guardar, um amor egoísta, passional, devorador” (p. 225).  Já a mãe seria o amor como dom, como alegria pela existência do outro, um amor que é de partilha e não de devoração. Todos nós, de fato, começamos por “tomar”: Eros é nosso ponto de partida. Crescer e amadurecer consiste em aprender a arte do dom, da partilha, da amizade, da convivência mutuamente deleitosa. Sabedoria é ir em direção a Philia.

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Um dos 101 capítulos da obra O Gosto de Viver têm um título particularmente feliz: “le bonheur de désirer”, ou “a felicidade de desejar”. É uma fórmula que sintetiza bem a filosofia de André Comte-Sponville, este empreendimento filosófico anti-platônico que procura realizar, dentre muitas outras coisas, uma crítica da noção de desejo como falta, como ausência, como negatividade. O desejo não é tentação do Capeta, raiz do pecado, aquilo que devemos aniquilar em nós para “merecermos o Céu”, como alguns pregadores apregoam por aí. Nem é o desejo aquilo que deve ser negado, reprimido e pisoteado – a Sponville é inaceitável, por exemplo, a conclamação nirvânica de Schopenhauer em prol da “negação da vontade de viver”. Aliás, o quanto isto não incomodou também a Nietzsche, que viu aí um dos pontos de desacordo que o afastou e o opôs a seu antigo e venerado mestre!

  Talvez a visão-de-mundo de Sponville fique mais clara se a contrastarmos com outra visão sobre o desejo que está nos antípodas do sponvillianismo: é aquela apresentada por Freud em Além do Princípio do Prazer, no qual o Pai da Psicanálise sugere que a vida orgânica em seu conjunto, englobadas aí todas as espécies de viventes, “teria uma tendência inerente que lhe empurra para o re-estabelecimento de um estado anterior”. Freud diz, em outros termos, que a vida psíquica é dominada pela “tendência ao enfraquecimento, à invariação, à supressão da tensão interna provocada pelas excitações”. (Gout de Vivre, Pg. 186.)

Ora, isso seria o mesmo que dizer que nosso desejo só sabe querer pra trás. Que somente desejamos algo que ficou no Passado: o Paraíso Perdido é que alimenta o sonho de um Paraíso Re-Encontrado. “Freud retrouve ici une idée qu’on trouvait dèjà chez saint Agustin: la nostalgie emporte sur l’ésperance. Ce qu’on espère, c’est ce qu’on a perdu. Le bonheur est derriere nous – avant la faute (saint Agustin), avant le refoulement (Freud). Il n’y a que des adultes qui regrettent ou répètent leur petite enfance, qui ne cessent, névrose ou sublimation, de tendre vers cette terre qui n’est promise, hélas, que pour autant qu’elle est perdue.” (pg. 188)

(EMPORTER = ARRASTAR, EMPURRAR)

Freud chega mesmo a especular – e é uma das idéias mais schopenhauerianas que ele pensou! – que havia “uma tendência geral de tudo o que está vivo em re-mergulhar no repouso do mundo inorgânico” (p. 189). A vida teria desejo pelo nada. O repouso seria o objeto último do desejo de todos os viventes:  o mínimo que se pode dizer é que esta idéia freudiana talvez peque pelo excesso de generalização. É, além disso, mais uma especulação metafísica do que ciência. O conceito de instinto de morte aí parece ganhar primazia sobre o princípio de prazer: é como se Tânatos virasse o jogo e subjugasse Eros, como se Freud, no cabo-de-guerra entre Spinoza e Schopenhauer, tivesse escolhido, e já em sua velhice, em meio aos horrores ameaçadores do III Reich, filiar-se ao pessimismo niilista do autor da Metafísica do Amor / Metafísica da Morte.

 Já Sponville filia-se a Spinoza, como que engrossando as forças falando em favor do conatus, re-descobrindo a potência afirmativa de Eros! Na visão freudiana, tão agostiniana e platônica, tão sub-repticiamente judaica, o desejo é signo da falta, vontade de retorno a um repouso perdido: a fome é o desejo de se livrar da fome e retornar a um estado de repouso onde a pança não reclama; a sede, o desejo de se livrar da sede e retornar à tranquilidade dos que não estão mais sedentos; e o desejo erótico nada mais seria do que vontade de retornar ao estado anterior de não-excitação…

Comte-Sponville contesta esta lógica: “que a tensão sexual seja desagradável, é uma evidência? Em caso de frustração, talvez. Mas para os que se amam? Durante a transa? O erotismo prova o contrário: ele se rejubila com esta tensão.” (Pg. 189) O erotismo seria, portanto, uma espécie de “cenário prático” onde podemos vivenciar o desejo como júbilo por sua própria existência e pela existência do outro, com o qual nos rejubilamos em conjunto. Aliás, se Freud tivesse razão, a transa mais gostosa seria aquela da ejaculação precoce:  “quanto mais rápido nós nos livrarmos desta tensão, melhor!” Mas isso não tem nada a ver com erotismo: ele, que se agrada em prolongar o desejo, que gosta de fazer a transa durar, que não corre frenético ao orgasmo mas saboreia as deliciosas tensões esparramadas no deleitoso caminho que a ele conduz…

Seríamos injustos com a vida se a caluniássemos dizendo que ela só contêm desejos dolorosos, votados ao fracasso, conducentes a frustrações: há os desejos felizes, que rejubilam-se por existirem, e é a isto que chamam de “amor” os autores autenticamente materialistas, como Sponville e Spinoza: o amor é a alegria que alguém sente acompanhada pela idéia de uma causa exterior, ou seja, o amor é o rejúbilo que sentimos ao sermos causas de alegrias uns para os outros.

Esta dimensão da alteridade parece ausente da concepção freudiana: falta no quadro schopenhaueriano e tanatocêntrico o reconhecimento da existência do “prazer de desejar e ser desejado” (“le plaisir de désirer et d’être desiré”, como diz Sponville na pg. 190). Tentar sustentar que a Humanidade em Geral é “motivada” por um impulso inato de busca pelo repouso do mundo inorgânico é, portanto, insustentável: aliás, muitos físicos e químicos decerto sustentariam que o mundo inorgânico é bem mais movimentadinho do que Freud o imagina! Além do mais cada um de nós sente em si mesmo o ímpeto vital erótico-rejubilativo, cada um de nós reconhece esta força que nos anima e que os pensadores já batizaram como libido, conatus, élan vital, vontade de potência…

 Inserindo-se à sua maneira da tradição que engloba Spinoza, Nietzsche e Deleuze, André Comte-Sponville afirma, contra Platão, a positividade do desejo, sua produtividade existencial, o próprio júbilo que há em exercê-lo. O desejo, que Buda descrevia como a fonte de todo sofrimento, decerto não é “aureolado” com o signo da divindade pelo ateu convicto que é Sponville: ele sabe muito bem que o desejo não é nenhum deus. O desejo não pode tudo (que adianta desejar a modificação da órbita dos planetas?), tampouco é mais forte que a morte (de que adianta desejar não morrer? Por mais intenso e obstinado que for o nosso desejo de imortalidade, isso nos faz morrer menos?).

Sponville sabe também que o desejo comporta frustrações, que nem sempre atingimos o que desejamos, e que às vezes os gozos nos decepcionam ou nos entediam – nada disso é motivo o suficiente para não desejar, e o sponvillianismo parece, muitas vezes, uma doutrina filosófica que soube unir num sábio mélange o que de melhor criaram os epicuristas e os estóicos.

Epicuro sempre foi escancaradamente admirado na obra de Sponville, que ecoa os elogios desmedidos que Lucrécio devota a seu mestre Epicuro, celebrado no De Rerum Natura como o mais sábio dos homens. No livro que dedicou a Lucrécio, O Mel e o Absinto, Sponville revela suas afinidades eletivas: no Jardim Epicurista da filosofia sponvilliana, não se vendem mentiras confortáveis, mas o absinto amargo da verdade, nua-e-crua. Mais vale uma verdade que nos mate as ilusões, do que uma mentira que nos console ao preço de alienar-nos do real. A beleza das palavras, a doçura das construções verbais, o encantamento quase musical que esta prosa destila, este estilo que parece emanar sapiência como a naturalidade com que uma flor emana perfume, parece-me ser, tanto em Sponville quanto em Lucrécio (dois poetas de imenso talento, aliás!), aquilo que serve de mel que torna suportável a dureza impiedosa da realidade.

Como os médicos que espalham açúcar na borda da taça, onde se encontra o salutar remédio re-estabelecedor da saúde, estes filósofos dirigem-se a seus leitores com uma série de “más notícias” sobre os infortúnios múltiplos dos mortais, mas ao mesmo tempo nos dizem tudo com tamanha doçura nos lábios, musicalidade no verbo, delicadeza e sapiência no pensar, que desce em nós o sentimento expansivo do sublime.

“O real é pra pegar ou largar”: Sponville quer que a gente pegue, ou melhor, que encare. Ousar encarar a verdade ao invés de se refugiar numa dogmática crendice que nos conforta. A filosofia é só para aqueles que preferem uma verdade dolorosa a uma mentira doce. Aqueles que querem ouvir aquilo que lhes infla o próprio ego, aquilo que lhes acaricia o narcisismo, fariam melhor em emprestar seus ouvidos aos padres ou viver de retinas grudadas à TV. No reino da filosofia,  aquilo que instiga a coragem e fornece estímulo e excitação é o desejo de entrar em contato com a verdade nua-e-crua, tal qual aparece a alguém desprovido de ilusões e que encara o Presente sem extraviar-se em imaginações pelos descaminhos da esperança e da nostalgia…

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Há dúzias de razões para recusar a fé – o dogmatismo de suas afirmações sem provas, os absurdos e as contradições que se encontram às pencas nos escritos sagrados, as pavorosas crueldades que através da História foram motivadas por crenças religiosas (a Inquisição, as Cruzadas, a jihad, o genocídio dos hereges e das “feiticeiras”…). Resumindo os argumentos que expõe em minúcia em seu O Espírito do Ateísmo, Sponville elenca em um dos artigos de O Gosto de Viver alguns principais em prol do ateísmo:

O que me parece mais irrefutável é o argumento da “A IMENSIDÃO DO MAL”: há “horrores, sofrimentos e atrocidades sem número” neste mundo que os padres, rabinos e aiatolás pregam ter sido criado por um deus justo e bom. Muitos dos males que sofrem os humanos não se explicam de forma alguma com o argumento da “punição divina”: “Como imaginar que um Deus tenha querido os tremores de terra, as doenças, o sofrimento das crianças, a decrepitude dos velhos?” (pg. 113)

São obscenos todos os dogmas que tentam culpabilizar o homem, são escandalosos os mitos que querem nos convencer que nascemos impuros: o Pecado Original é uma invenção humana para tentar explicar os sofrimentos que padecemos. Alguns acham consolo na idéia de que suas dores são punições divinas que recaem sobre nós, hoje, por causa da desobediência primordial de Adão e Eva aos interditos de um autoritário deus mandão. É isto que o ateísmo sponvilliano nega: não existe nenhum deus, nenhum pecado original, nenhuma mácula de culpa que nos mancha desde o berço.

No sponvillianismo não há fé alguma, nem apego a dogmas criados lá fora e impostos pela doutrinação e pela violência. Mas tampouco por aqui se aloja o “hóspede sinistro” do niilismo: em André Comte-Sponville, ser um ateu não significa perder todo direito à chamada “vida espiritual” – pelo contrário! Os ateus não tem menos inteligência, nem menos sensibilidade, nem menos capacidade de raciocínio, nem menos potencial criativo (seja artístico ou científico), nem menos aptidão para a música ou para as artes, em relação aos crentes. Se alguns crentes chegam a crer em sua própria superioridade em relação aos que não comungam da mesma fé, só provam com isso que dão preferência a si mesmos, e que o egocentrismo neste mundo é a coisa mais bem repartida que há.

Pascal pinta um retrato tenebroso da “miséria do homem sem Deus”: será seu retrato verídico? André Comte-Sponville é prova viva de que é possível pensar o ateísmo em outros termos: não mais o que os crentes imaginam que seja a vida dos ateus, mas a vida dos ateus como ela é de fato. Deixar de crer em Deus não equivale a lançar no lixo todos os valores e dizer que nada vale a pena – pelo contrário! Este niilismo, longe de acompanhar necessariamente o ateísmo, é muito mais o efeito de uma fé prévia: o niilista teve que primeiro crer nas construções metafísicas que lhe foram apresentadas como verdades absolutas, e depois que elas ruíram, caíram em descrédito, deixaram de ser críveis, lamentaram-se sobre as ruínas e os escombros das mentiras metafísicas, choramingando que a vida não valia a pena ser vivida… Ora, depois dos escombros há a ação, a reconstrução, a criação, o amor: e que desta vez seja na lucidez!

“L’athéisme, pour une mystique de l’immanence, constitue une condition favorable”, aponta Sponville, respondendo a um amigo que lhe pergunta se sua posição é “mística”. Esta “mística da imanência” que o ateu Sponville assume é descrita por ele sem que jamais seja preciso recorrer ao “sobrenatural” ou ao “transcendente”: “c’est une façon de me contenter du réel, tel qu’il se donne ici et maintenant, plutôt que de lui chercher toujours um sens” (pg. 287). Trata-se de “habitar o presente”, estar presente à presença de tudo, ao invés de se alienar do aqui-e-agora. O objetivo não é “encontrar sentido”, mas abrir-se ao que há: é plausível, aliás, que nem tudo que há faça sentido (“quem faz sentido é soldado”, dirá o poeta Quintana). E Fernando Pessoa: “sábio é quem se contenta com o espetáculo do mundo”. Mesmo que o espetáculo do mundo seja caos e nonsense.

Enxergando no ateísmo uma possibilidade de mística imanente, que é abertura à presença que nos rodeia e nos engloba, André Comte-Sponville define o místico como aquele que deixou de sentir falta de Deus, ou seja, não tem mais necessidade de fé: “le mystique, c’est celui à qui Dieu même a cesse de manquer: celui que habite l’absolu, au moins par moments, qui en jouit et s’en réjouit.” (pg. 288) Ser uma criatura finita e ínfima englobada no infinito cósmico, criatura esta com capacidade de abertura e atenção àquilo que está ao redor dela e que a inclui e a carrega: “c’est ce que Spinoza appelait la necessité, qui n’est pas um destin, si l’on entend par là que tout serait écrit à l’avance, encore moins une providence, mais la verité de ce qui est.” (idem)

O místico ateu habita o cosmos com consciência de que seus desejos fazem parte do real, sua vontade faz parte do real, sua imaginação faz parte do real, “que sua ação faz parte do real e o transforma sem dele sair” (COMTE-SPONVILLE: pg. 289). Ele se apressa em deixar claro: “isso não tem nada de religioso”. Trata-se somente de estar desperto, atento à presença imensa que nos rodeia, capazes de ouvir a sabedoria do vento (“la sagesse du vent”). É assim que, ao invés de “substituir o real por outra coisa”, acabamos por “participar no processo de auto-transformação ininterrupto  do real  (o devir)”. Esta não é uma mística cuja apoteose é uma enxurrada de sentido, mas, ao contrário, uma mística que culmina no silêncio contemplativo daquele que se plenifica através de sua abertura ao real do mundo: o encontro que o místico consuma não é com nenhum deus, nenhum anjo, mas com o “toujours-présent du réel ou du vrai”:

 “J’ai le sentiment plutôt d’une évidence, qui abolirait les problèmes dans la simplicité d’une présence. Présence de quoi? De tout, c’est ce qu’on apele l’univers. Nous sommes dedans – au coeur de l’être, au couer de l’absolu… C’est un mysticisme de l’immanence. Le ciel étoilé, la nuit, m’en apprend plus que les prières de mon enfance. Son silence, plus que nos cantiques. J’y vois aussi une leçon de courage. Ne te contente pas de rever, dans ton lit, à ce que tu pourrais faire. Lève-toi, et marche.” (Le Gôut de Vivre, pg. 290).

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Confira também:

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“Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” – DOWNLOAD E-BOOK

LUTAS.DOC – 5 documentários sobre a realidade brasileira

Lutas.doc é uma série de documentários, com reflexões profundas sobre a violência, seus contextos e formas de representação na história do Brasil. A série combina densidade de reflexão com uma linguagem dinâmica e acessível. Grandes pensadores brasileiros, doutores em filosofia, psicologia, economia, história e sociologia, como Eduardo Gianneti, Olgária Mattos, Laura de Mello e Souza e Contardo Calligaris, ao lado de grandes protagonistas políticos, como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva e Soninha, e livres-pensadores egressos dos movimentos sociais, como Ferrez, Júnior do AfroReggae, João Pedro Stédile e Esmeralda Ortiz, analisam a realidade brasileira em pé de igualdade. A história do país é revista, com um olhar crítico e ousado. Com um ritmo dinâmico e trechos de animação, os episódios procuram levar audiências intelectualizadas e jovens sem grande formação intelectual, do mesmo modo, à reflexão. A série tem codireção de Luiz Bolognesi e Daniel Sampaio.”

 

 

 

 

Os protestos de Seattle em 1999: veja o documentário “Essa É a Cara da Democracia” (completo)

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“THIS IS WHAT DEMOCRACY LOOKS LIKE”

DIRECTED BY JILL FRIEDBERG & RICK ROWLEY / US / 2000 / 72 ‘

PRODUCED BY BIG NOISE FILMS AND CORRUGATED FILMS

Synopsis 01: This film, shot by 100 amateur camera operators, tells the story of the enormous street protests in Seattle, Washington in November 1999, against the World Trade Organization summit being held there. Vowing to oppose, among other faults, the WTO’s power to arbitrally overrule nations’ environmental, social and labour policies in favour of unbridled corporate greed, protestors from all around came out in force to make their views known and stop the summit. Against them is a brutal police force and a hostile media as well as the stain of a minority of destructively overzealous comrades. Against all odds, the protesters bravely faced fierce opposition to take back the rightful democratic power that the political and corporate elite of the world is determined to deny the little people. - Written by Kenneth Chisholm

Synopsis 02: A gripping document of what really happened on Seattle’s streets. The film cuts through the confusion and tear gas to paint an intimate, passionate portrait of a week that changed the world. With narration by Susan Sarandon and Spearhead’s Michael Franti, and with a driving soundtrack including Rage Against the Machine and DJ Shadow, This Is What Democracy Looks Like is the first documentary to capture the raw energy of the WTO protests, while clarifying their global and historic significance. The Independent Media Center provided a production infrastructure for over 450 media activists during the WTO protests in November 1999. With autonomous, volunteer-run media centers operating in four continents, ten countries and twenty-one cities, the IMC represents a new and powerful emerging model for independent media.

“The IMC isn’t waiting for the old guard media to tell the true story… the IMC is simply doing the job itself, reporting directly form the front lines.

 Naomi Klein, author of NO LOGO

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“A Confissão da Leoa”, de Mia Couto – por Gisele Toassa

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MIA COUTO E O SER-LEOA

IMAGINE uma ínfima aldeia de um país muito pobre, chamada Kulumani.

IMAGINE uma mulher que passou sua vida toda nessa aldeia, Mariamar.

IMAGINE que ataques de leões estão matando apenas – e tão-somente – as mulheres nessa aldeia, fazendo da irmã de Mariamar, Silência, uma das suas vítimas.

E você terá o cenário da “A confissão da leoa”, do moçambicano Mia Couto, nosso compadre nos infortúnios da colonização portuguesa – autor único na fragrância animista do seu português. Para quem nunca teve o hábito de ler folclore, mas ama a mistura popular-erudito, esse livro é uma sólida introdução para o modo-de-vida, o modo-de-fala – e, mais do que tudo – para o cruzamento (fascinante, perigoso?) entre religião e costumes de uma nação escravizada até muito pouco tempo. Somos irmãos na opressão. Também somos irmãos na desigualdade e na linhagem da nossa América Latina que, como a África, soa para mim mais feminina do que a Europa.

“Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.Ao inverso,quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.” (p.15)

Das mulheres nascidas e finadas em Kulumani sobra pouco rastro, habituadas que eram ao silêncio e às sombras. “Pobre Kulumani que nunca desejou ser aldeia. Pobre de mim que nunca desejei ser nada” (p.50). Nascida em uma aldeia do interior de São Paulo que, por acaso, hoje tem 300,000 habitantes, senti em Mariamar uma verdadeira irmã espiritual. Como eu sonhava com o Príncipe Encantando, ela sonha com o caçador que, trouxera, com um olhar, a vida ao seu corpo de sombras (dei de cismar que a opressão não é preta nem branca – é apenas uma sombra que inunda nosso espírito com uma antecipação do irremovível Nada). Seu silêncio é uma percepção do feminino como infantilidade adiada, feita de esperas: espera por um homem, pelo Salvador ou por um outro ser vivo que lhe agitará o ventre, vindo por certo tempo se abrigar na sua (inviolável) sombra; três esperas tão silenciosas quanto necessárias para que a renovação dos capítulos dessa nossa trágica Comédia Humana.

Eu só faço admirar a destreza na escolha dos personagens (parece a mecânica perfeita de Ibsen); os seus nomes que rompem a fronteira do hábito para nos transportar a esse universo onde não veremos a pobreza (como falta), a doença (como atraso) ou a violência (como mal do caráter). A África de Couto é a África vivida e padecida como dores universais. Quando Arcanjo Baleiro, o caçador, junta-se ao escritor e ao administrador para matar leões em Kulumani, entra em cena também Naftalinda [!], a gorda mulher do administrador, a única que faz ouvir sua voz – tal como a Lua no céu, oprimida por astros mais significativos, mas ainda viva. Agora que aprendi a necessidade do feminismo como luta contra as pequenas e grandes guerras (desde a depilação até a ocupação da Ucrânia), posso admirar essa mulher que tenta falar pelas suas companheiras. Mia Couto é um grande feminista, por se ocupar da história dos vencidos, sejam as mulheres ou os leões: “Até que os leões inventem as suas próprias histórias,os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Provérbio africano – MIA COUTO, A confissão da leoa (epígrafe) – p.11.

Paralisia, mudez completa, são alguns dos sofrimentos com que a pequena Mariamar defronta-se. É um jeito de amurar-se a si mesma; sem andar ou sem falar, ela deixa de realizar atos que pouco importavam a alguém. Debaixo de sua imobilidade, há lembranças de um avô amoroso e de uma guerra sangrenta, onde os africanos foram as presas.

“Aconteceu o mesmo no tempo colonial. Os leões fazem-me lembrar os soldados do exército português. Esses portugueses tanto foram imaginados por nós que se tornaram poderosos. Os portugueses não tinham força para nos vencer. Por isso,fizeram com que as suas vítimas se matassem a si mesmas. E nós, pretos, aprendemos a nos odiar a nós mesmos.” (p.120)

Esse é um livro sobre morte-em-vida, vida Severina, mas também sobre um encarceramento sem paredes, o de ser-Colônia e não se governar. Os majestosos leões vão ficando à mercê dos homens, e os homens, presa dos outros homens, ficando as mulheres na última ponta da cadeia alimentar, onde viram comida – literal e metaforicamente – recebendo na cabeça e no corpo uma dominação multiplicada. Seus mortos nunca foram realmente enterrados. Sua revolta não tem espaço para crescer, pois se acostumou ao silêncio e à força: se não dão, lhes tomam. Mas os livros são aventura certa para além desse mundo restrito onde a tarefa vital é abrir as pernas e fechar os olhos, ou apenas levar água no balde, do poço à casa:

“Kulumani e eu estávamos enfermos. E quando, há dezasseis anos, me encantei pelo caçador, essa paixão não era mais que uma súplica. Eu apenas pedia socorro, em silêncio rogava que ele me salvasse dessa doença. Como antes a escrita me tinha salvado da loucura. Os livros entregavam-me vozes como se fossem sombras em pleno deserto.” (p.95)

Tal como nós e os moçambicanos, Mariamar mostra que silêncio e loucura não são estranhos, mas parentes próximos. É por isso que vou colocando Mia Couto na minha prateleira de autores queridos, destes que são curativo para a alma, e instrumento para a luta.

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Confira também:

O Redemoinho da Existência: Palavras de Jean-Marie Guyau, Pintura de K. Hokusai, Música de Claude Debussy…

Katsushika Hokusai (1760 – 1849)

“The Great Wave”, by Katsushika Hokusai (1760 – 1849)

“Perhaps there is nothing which offers to the eye and the mind a more complete and more sorrowful representation of the world than the sea. In the first place, it is a picture of force in its wildest and most unconquerable form; it is a display, a luxury of power, of which nothing else can give an idea; and it lives, moves, tosses, everlastingly without aim. Sometimes we might say that the sea is animated, that it palpitates and breathes, that it is an immense heart, whose powerful and tumultuous heaving we see; but what makes us despair here is that all this effort, this ardent life, is spent to no purpose. This heart of the world beats without hope; from all this rocking, all this collision of the waves, there results only a little foam stripped off by the wind.

I remember that, sitting on the beach once, I watched the serried waves rolling towards me. They came without interruption from the expanse of the sea, roaring and white. Behind the one dying at my feet I noticed another; and further behind that one, another; and further still, another and another – a multitude. At last, as far as I could see, the whole horizon seemed to rise and roll on towards me. There was a reservoir of infinite, inexhaustible forces there. How deeply I felt the impotency of man to arrest the effort of that whole ocean in movement! A dike might break one of these waves; it could break hundreds and thousands of them; but would not the immense and indefatigable ocean gain the victory?

The ocean neither works nor produces; it moves. It does not give life; it contains it, or rather it gives and takes it with the same indifference. It is the grand, eternal cradle rocking its creatures. If we look down into its fathoms, we see its swarming life. There is not one of its drops of water which does not hold living creatures, and all fight one another, persecute one another, avoid and devour one another… The ocean itself gives us the spectacle of a war, a struggle without truce… And yet this tempest of the water is but the continuation, the consequence, of the tempest of the air; is it not the shudder of the winds which communicates itself to the sea?

There is nothing which is not carried away by the whirlpool of cosmic existence. Earth itself, man, human intelligence, nothing can offer us anything fixed to which it would be possible to hold on – all these are swept away in slower, but not less irresistible, undulations…

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Let us imagine a ship in a storm, rising and falling by a series of curves… If at one moment of the passage the descending curve bears the ship down, and she does not rise again, it would be a sign that she is sinking deeper and deeper, and beginning to founder. Even so is it with life, tossed about on waves of pleasure and of pain: if one marks these undulations with lines, and if the line of pain lengthens more than the other, it means that we are going down. Life, in order to exist, needs to be a perpetual victory of pleasure over pain.”

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JEAN-MARIE GUYAU (1854-1888)
French philosopher and poet
Esquisse d’une morale
sans obligation ni sanction


Originally published in 1884.
Quoted from the English translation,
by Gertrude Kapteyn. London, 1898.
Chapter I. Pgs. 42 – 35.

Download e-book in French or English.

“La Mer”, by Claude Debussy (1862-1918)

Pepe Mujica, presidente do Uruguai, sobre a crise ambiental e a necessidade de uma nova cultura

“A tese central que sustento é que, no fundo, a crise ambiental é uma consequência, não uma causa. Que, na verdade, os problemas que temos no mundo atual são de caráter político. E isso se manifesta nessa tendência de destroçar a natureza.E por que político? É político e é sociológico porque remontamos a uma cultura que está baseada na acumulação permanente e em uma civilização que propende ao “usa e descarta”, porque o eixo fundamental dessa civilização é apropriar-se do tempo da vida das pessoas para transformá-lo em uma acumulação. Então, é um problema político. O problema do meio ambiente é consequência do outro. Quando dizemos que “para viver como um americano médio, são necessários três planetas” é porque partimos de que esse americano médio desperdiça, joga fora e está submetido a um abuso de consumo de coisas da natureza que não são imprescindíveis para viver.Portanto, quando digo político, me refiro à luta por uma cultura nova. Isso significa cultivar a sobriedade no viver, cultivar a durabilidade das coisas, a utilidade, a conservação, a recuperação, a reciclagem, mas fundamentalmente viver aliviado de bagagens. Não sujeitar a vida a um consumo desenfreado, permanente. E não é uma apologia à pobreza, é uma apologia à liberdade, ter tempo para viver e não perder o tempo em acumular coisas inúteis. O problema é que não se pode conceber uma sociedade melhor se ela não se supera culturalmente.”

José “Pepe” Mujica
Presidente do Uruguai
Na Carta Maior

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Confira também:Entrevista de Mujica à Al Jazeera
Papo de Mujica com jornalistas Ricardo Boechat, Fernando Mitre e Fabio Pannunzio

Sobre segurança e terror – por Giorgio Agamben

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II Ato Contra a Copa em São Paulo é cercado pela PM (23/02/2014)

Sobre segurança e terror
de Giorgio Agamben

Segurança é o princípio básico das políticas estatais desde o nascimento do estado moderno. Hobbes já a mencionava como o oposto do medo, que compele seres humanos a se juntarem na formação de uma sociedade. Mas o pensamento da segurança (1) não se desenvolve completamente até o século XVIII. Em uma conferência ainda não publicada, proferida no Collège de France em 1978, Michel Foucault mostrou como as práticas políticas e econômicas dos fisiocratas opõe a segurança à disciplina e à lei como instrumentos de governo.

Turgot e Quesnay, assim como os oficiais fisiocratas, não estavam primariamente preocupados com a prevenção da fome ou a regulação da produção, mas queriam permitir seu desenvolvimento para então governar e “assegurar” suas consequências. Enquanto o poder disciplinar isola e encerra territórios, medidas de segurança conduzem a uma abertura e à globalização; enquanto a lei tem por objetivo prevenir e ordenar, segurança quer intervir nos processos em curso para dirigi-los. Em suma, disciplina visa produzir ordem, segurança almeja governar a desordem. Como medidas de segurança só podem funcionar inseridas em um contexto de liberdade de tráfego, comércio e iniciativa individual, Foucault demonstrou que desenvolvimento da segurança e desenvolvimento do liberalismo coincidem.

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Setembro de 2001, Manhattan

Hoje estamos enfrentando desenvolvimentos extremos e muito perigosos no pensamento da segurança. No curso de uma gradual neutralização de políticas e do progressivo abandono das tarefas tradicionais do estado, a segurança se torna o princípio básico de atividade estatal. O que costumava ser um amontoado de várias medidas decisivas de administração pública até a primeira metade do século XX, agora se torna o único critério de legitimação política. O pensamento da segurança acarreta um risco essencial. Um estado que tem a segurança por sua única tarefa e fonte de legitimidade é um organismo frágil; pode sempre ser levado pelo terrorismo a tornar-se, ele próprio, terrorista.

Não deveríamos esquecer que a maior organização terrorista pós-guerra, a Organisation de l’Armèe Secréte (OAS), foi estabelecida por um general francês, que se considerava um patriota e estava convencido de que o terrorismo era a única resposta ao fenômeno de guerrilha na Algéria e na Indochina. Quando política, à maneira como era entendida pelos teóricos da “ciência policial” (Polizeiwissenschaft) no século XVIII, reduz-se à polícia, a diferença entre estado e terrorismo tende a desaparecer. No final, segurança e terrorismo podem formar um único sistema mortífero, no qual eles justificam e legitimam as ações um do outro.

O risco não é meramente o do desenvolvimento de uma cumplicidade clandestina de opositores, mas o de que a obsessão por segurança conduza a uma guerra civil mundial que tornaria impossível qualquer coexistência civil. Na nova situação criada pelo fim da forma clássica de guerra entre estados soberanos, percebe-se claramente que segurança encontra seu desfecho na globalização: isso implica a ideia de uma nova ordem planetária, que é, na verdade, a pior de todas as desordens. Mas há outra ameaça. Uma vez que requerem constante referência a um estado de exceção, medidas de segurança realizam uma crescente despolitização da sociedade. A longo prazo, elas são inconciliáveis com a democracia.

Nada é mais importante que uma revisão do conceito de segurança como princípio básico das políticas estatais. Políticos europeus e americanos finalmente têm levado em consideração as consequências catastróficas de um uso generalizado e acrítico dessa imagem de pensamento. Não que as democracias devam deixar de se defender: mas talvez tenha chegado o tempo de trabalhar no sentido de prevenção de desordens e catástrofes, não simplesmente no sentido de contê-las. Hoje em dia existem planos para todos os tipos de emergências (ecológicas, médicas, militares), mas não há políticas para preveni-las. Ao contrário, podemos dizer que as políticas secretamente são responsáveis pela produção de emergências. É dever das políticas democráticas impedir o desenvolvimento de condições que resultem em ódio, terror e destruição, e não se limitarem a controlá-los, quando se fazem presentes.

Tradução: Arlandson Matheus Oliveira
(Leia em inglês)

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Manifestante na Espanha e as forças de “segurança”

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V Ato Contra a Copa em São Paulo, 14 de Abril de 2014

POST SCRIPTUM FOUCAULTIANO

foucault“O atestado de que a prisão fracassa em reduzir os crimes deve talvez ser substituído pela hipótese de que a prisão conseguiu muito bem produzir a delinqüência, tipo especificado, forma política ou economicamente menos perigosa — talvez até utilizável — de ilegalidade; produzir os delinqüentes, meio aparentemente marginalizado mas centralmente controlado; produzir o delinqüente como sujeito patologizado. O sucesso da prisão: nas lutas em torno da lei e das ilegalidades, especificar uma “delinqüência”. Vimos como o sistema carcerário substituiu o infrator pelo “delinqüente”. E afixou também sobre a prática jurídica todo um horizonte de conhecimento possível. Ora, esse processo de constituição da delinqüência-objeto se une à operação política que dissocia as ilegalidades e delas isola a delinqüência. A prisão é o elo desses dois mecanismos; permite-lhes se reforçarem perpetuamente um ao outro, objetivar a delinqüência por trás da infração, consolidar a delinqüência no movimento das ilegalidades. O sucesso é tal que, depois de um século e meio de “fracasso”, a prisão continua a existir, produzindo os mesmos efeitos e que se têm os maiores escrúpulos em derrubá-la.” – MICHEL FOUCAULT. Vigiar e punir – nascimento da prisão. Trad.: Raquel Ramalhete. 20a. ed. Petrópolis: Vozes, 1987. IV Parte: Prisão, II Capítulo: Ilegalidade e delinquência, pp. 230-231.

NOTA DO TRADUTOR

1) Na tradução pro alemão, do Achim Bahnen, lemos “Sicherheitsdenkens”, literalmente “thought of security”, pensamento da segurança. Acho o termo “dispositivo” mais adequado.

LEIA TAMBÉM

“El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarías con el dedo…” (García Márquez)

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Gabriel García Márquez (1927-2014),
Prêmio Nobel de Literatura 1982

Um dos mestres da literatura latino-americana foi-se da carne para entrar na história, deixando um belo legado para os leitores de hoje e de amanhã: o colombiano “Gabo”, como era conhecido, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1982, era um sublime artista do verbo e um genioso contador de histórias (e também de estórias, já que se aventurou nas sendas do jornalismo e da não-ficção). Aproveitem para relembrar um dos mais célebres e clássicos livros de García Marquez, “Cem Anos De Solidão” (de 1967) – cujo ebook completo, a ser saboreado no espanhol em que foi escrito, disponibilizamos para download gratuito no link a seguir: http://bit.ly/1jaETSb (PDF, 2 MB). Descanse em paz, mestre!

Começa assim:

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. Macondo era entonces una aldea de veinte casas de barro y cañabrava construidas a la orilla de un río de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarías con el dedo. Todos los años, por el mes de marzo, una familia de gitanos desarrapados plantaba su carpa cerca de la aldea, y con un grande alboroto de pitos y timbales daban a conocer los nuevos inventos. Primero llevaron el imán. Un gitano corpulento, de barba montaraz y manos de gorrión, que se presentó con el nombre de Melquiades, hizo una truculenta demostración pública de lo que él mismo llamaba la octava maravilla de los sabios alquimistas de Macedonia. Fue de casa en casa arrastrando dos lingotes metálicos, y todo el mundo se espantó al ver que los calderos, las pailas, las tenazas y los anafes se caían de su sitio, y las maderas crujían por la desesperación de los clavos y los tornillos tratando de desenclavarse, y aun los objetos perdidos desde hacía mucho tiempo aparecían por donde más se les había buscado, y se arrastraban en desbandada turbulenta detrás de los fierros mágicos de Melquíades. «Las cosas, tienen vida propia -pregonaba el gitano con áspero acento-, todo es cuestión de despertarles el ánima.» José Arcadio Buendía, cuya desaforada imaginación iba siempre más lejos que el ingenio de la naturaleza, y aun más allá del milagro y la magia, pensó que era posible servirse de aquella invención inútil para desentrañar el oro de la tierra. Melquíades, que era un hombre honrado, le previno: «Para eso no sirve.» Pero José Arcadio Buendía no creía en aquel tiempo en la honradez de los gitanos, así que cambió su mulo y una partida de chivos por los dos lingotes imantados. Úrsula Iguarán, su mujer, que contaba con aquellos animales para ensanchar el desmedrado patrimonio doméstico, no consiguió disuadirlo. «Muy pronto ha de sobrarnos oro para empedrar la casa», replicó su marido. Durante varios meses se empeñó en demostrar el acierto de sus conjeturas. Exploró palmo a palmo la región, inclusive el fondo del río, arrastrando los dos lingotes de hierro y recitando en voz alta el conjuro de Melquíades. Lo único que logró desenterrar fue una armadura del siglo xv con todas sus partes soldadas por un cascote de óxido, cuyo interior tenía la resonancia hueca de un enorme calabazo lleno de piedras. Cuando José Arcadio Buendía y los cuatro hombres de su expedición lograron desarticular la armadura, encontraron dentro un esqueleto calcificado que llevaba colgado en el cuello un relicario de cobre con un rizo de mujer…”

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Leia os obituários de: New York TimesAlJazeera, NPRThe TelegraphThe GuardianFlavorwire, The New Yorker.

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GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Obra

  • 1955 - La hojarasca
  • 1961 - El coronel no tiene quien le escriba
  • 1962 - La mala hora
  • 1962 - Los funerales de la Mamá Grande
  • 1967 - Cien años de soledad
  • 1968 - Isabel viendo llover en Macondo
  • 1968 - La novela en América Latina: Diálogo (junto aMario Vargas Llosa)
  • 1970 - Relato de un náufrago
  • 1972 - La increíble y triste historia de la cándida Eréndira y de su abuela desalmada
  • 1972 - Ojos de perro azul
  • 1972 - Nabo, el negro que hizo esperar a los ángeles
  • 1973 - Cuando era feliz e indocumentado
  • 1974 - Chile, el golpe y los gringos
  • 1975 - El otoño del patriarca
  • 1975 - Todos los cuentos de Gabriel García Márquez: 1947-1972
  • 1976 - Crónicas y reportajes
  • 1977 - Operación Carlota
  • 1978 - Periodismo militante
  • 1978 - De viaje por los países socialistas
  • 1978 - La tigra
  • 1981 - Crónica de una muerte anunciada
  • 1981 - Obra periodística
  • 1981 - El verano feliz de la señora Forbes
  • 1981 - El rastro de tu sangre en la nieve
  • 1982 - El secuestro: Guión cinematográfico
  • 1982 - Viva Sandino
  • 1985 - El amor en los tiempos del cólera
  • 1986 - La aventura de Miguel Littín, clandestino en Chile
  • 1987 - Diatriba de amor contra un hombre sentado: monólogo en un acto
  • 1989 - El general en su laberinto
  • 1990 - Notas de prensa, 1961-1984
  • 1992 - Doce cuentos peregrinos
  • 1994 - Del amor y otros demonios
  • 1995 - Cómo se cuenta un cuento
  • 1995 - Me alquilo para soñar
  • 1996 - Noticia de un secuestro
  • 1996 - Por un país al alcance de los niños
  • 1998 - La bendita manía de contar
  • 1999 - Por la libre: obra periodística (1974-1995)
  • 2002 - Vivir para contarla
  • 2004 - Memoria de mis putas tristes
  • 2010 - Yo no vengo a decir un discurso

 

Gabriel-Garcia-Marquez-with-“One-Hundred-Years-of-Solitude”-on-his-headThe Nobel Prize of Literature lecture (1982) [excerpt]:

“Latin America neither wants, nor has any reason, to be a pawn without a will of its own; nor is it merely wishful thinking that its quest for independence and originality should become a Western aspiration. However, the navigational advances that have narrowed such distances between our Americas and Europe seem, conversely, to have accentuated our cultural remoteness. Why is the originality so readily granted us in literature so mistrustfully denied us in our difficult attempts at social change? Why think that the social justice sought by progressive Europeans for their own countries cannot also be a goal for Latin America, with different methods for dissimilar conditions? No: the immeasurable violence and pain of our history are the result of age-old inequities and untold bitterness, and not a conspiracy plotted three thousand leagues from our home. But many European leaders and thinkers have thought so, with the childishness of old-timers who have forgotten the fruitful excess of their youth as if it were impossible to find another destiny than to live at the mercy of the two great masters of the world. This, my friends, is the very scale of our solitude.

In spite of this, to oppression, plundering and abandonment, we respond with life. Neither floods nor plagues, famines nor cataclysms, nor even the eternal wars of century upon century, have been able to subdue the persistent advantage of life over death. An advantage that grows and quickens: every year, there are seventy-four million more births than deaths, a sufficient number of new lives to multiply, each year, the population of New York sevenfold. Most of these births occur in the countries of least resources – including, of course, those of Latin America. Conversely, the most prosperous countries have succeeded in accumulating powers of destruction such as to annihilate, a hundred times over, not only all the human beings that have existed to this day, but also the totality of all living beings that have ever drawn breath on this planet of misfortune.

On a day like today, my master William Faulkner said, “I decline to accept the end of man”. I would fall unworthy of standing in this place that was his, if I were not fully aware that the colossal tragedy he refused to recognize thirty-two years ago is now, for the first time since the beginning of humanity, nothing more than a simple scientific possibility. Faced with this awesome reality that must have seemed a mere utopia through all of human time, we, the inventors of tales, who will believe anything, feel entitled to believe that it is not yet too late to engage in the creation of the opposite utopia. A new and sweeping utopia of life, where no one will be able to decide for others how they die, where love will prove true and happiness be possible, and where the races condemned to one hundred years of solitude will have, at last and forever, a second opportunity on earth.”

- Read the full Nobel Lecture

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E-BOOKS (IN ENGLISH / FULL)

Safatle: “helicópteros, jatos particulares e iates não pagam IPVA porque, no Brasil, os ricos definem as leis que protegerão seus rendimentos e desejos de ostentação…”

COMO NÃO PAGAR IPVA
por Vladimir Safatle

Todos os anos você precisa pagar o IPVA do seu carro. Como o nome diz, trata-se de um Imposto de Propriedade sobre Veículos Automotores. Bem, um veículo automotor é, pasmem vocês, “aquele dotado de motor próprio”.

Por exemplo, um carro de boi não pagará IPVA por não ter motor próprio: o motor é o boi, a saber, uma entidade ontologicamente a parte do aparato técnico de motricidade desenvolvido pelo saber humano. A bicicleta não pagará o imposto pela mesma razão, assim como o helicóptero do banqueiro, o jato particular do escroque e o iate do Naji Nahas.

“Assim como o helicóptero, o jato particular e o iate”? Sim. Você poderá procurar todos os meandros do saber jurídico, encontrar explicações surreais, como aquela que afirma que o atual IPVA substituiu a antiga TRU (Taxa Rodoviária Única), logo os veículos automotores que pagarão impostos são apenas aqueles colados no chão.

No entanto, a verdade é uma só: helicópteros, jatos particulares e iates não pagam IPVA porque, no Brasil, os ricos definem as leis que protegerão seus rendimentos e desejos de ostentação. Bem-vindo àquilo que economistas como o francês Thomas Piketty chamam de “capitalismo patrimonial”: um capitalismo construído para quem ganha mais continuar a ganhar mais, a não precisar devolver nada para a sociedade, enquanto quem ganha menos é continuamente espoliado e recebe cada vez menos serviços do Estado.

Se os 20 mil jatos particulares e os 2.000 helicópteros que voam livremente no Brasil pagassem IPVA, teríamos algo em torno de mais R$ 8 bilhões. Esse valor é o equivalente a, por exemplo, dois orçamentos da USP. Ou seja, se aqueles que têm mais capacidade de contribuição simplesmente pagassem para ter seu singelo helicóptero o mesmo que você paga para ter seu carro, poderíamos financiar mais duas universidades com 90 mil alunos estudando gratuitamente.

Esse é apenas um dentro vários exemplos de como o Brasil se organizou para ser um país onde ser rico é um ótimo negócio. Um país que, só em 2014, deverá ter mais 17 mil milionários e nenhum deles pagando aquilo que você paga. Porque, aqui, quanto mais você sobe (de preferência de jato ou helicóptero), mais você é protegido. Isso pode parecer uma explicação primária, mas muitas vezes o óbvio é o que há de mais difícil a enxergar.

Como disse, não um esquerdista de centro acadêmico, mas o megainvestidor norte-americano Warren Buffett: “Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo”.

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Leia também:

Vladimir

“É sintomático que a única resposta efetiva às demandas vindas das manifestações de Junho seja uma lei que visa transformar o uso de máscaras em crime contra a segurança nacional. Como nada foi feito a respeito das exigências de melhores serviços sociais, contra os gastos absurdos para a realização da Copa do Mundo, por democracia efetiva, melhor pedir para senadores do porte moral de Renan Calheiros (PMDB-AL) que aprovem uma lei antiterrorista. (…) A melhor maneira de lutar contra a violência é com a escuta. A surdez dos governos em relação às exigências de ação, visando criar as condições para uma qualidade de vida minimamente suportável nas grandes cidades, é a verdadeira causa da violência nas manifestações. Escutar significa, por exemplo, não prometer uma Assembleia Constituinte, depois uma reforma política e acabar por apresentar apenas o vazio…” [ARTIGO COMPLETO]

Páscoa Maconheira

Easter Sunday
Domingo de Páscoa em Toronto e milhares de maconheiros se reuniram no epicentro da metrópolis canadense, na rua Yonge com a Dundas, em prol da legalização. Na foto, a nuvem de fumaça não é sinal de poluição, mas sim o efeito de uns 1.000 baseados acesos simultaneamente (às 4:20, é claro!). O Canadá já regulamentou tanto a cannabis medicinal quanto o plantio industrial de cânhamo – e a intensa pres
são das ruas talvez faça com que se torne em breve o segundo país no mundo – após o Uruguai – a legalizar a marijuana completamente. Será que agora vai? 

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Saiba mais sobre o atual estado das coisas cannábicas no Canadá:

A edição mais recente da NOW Magazine de Toronto inclui um excelente dossiê sobre a situação atual da maconha no Canadá – que foi o primeiro país no mundo a legalizar a cannabis medicinal, em 2001, após a evidência inegável do benefício terapêutico da planta no tratamento da epilepsia.

“Although there are no federally regulated clinical trials involving medical marijuana, and Health Canada and the Canadian Medical Association don’t currently encourage doctors to prescribe the untested drug, CBD and medical marijuana have been used with success to treat epilepsy, autism, Parkinson’s disease, Crohn’s disease, lupus, fibromyalgia and a host of other disorders including Tourette syndrome. Talk to the mother of an epileptic child and you’ll understand that medical marijuana is a lifesaver.”  [http://bit.ly/1teHZN4]

Dia a dia, cresce o número de médicos canadenses que receitam cannabis medicinal para seus pacientes e clínicas especializadas estão nascendo em Toronto com amplas perspectivas de sucesso, como relata esta outra reportagem:

“Cannabidiol, or CBD, is one of the 60 active, naturally occurring ingredients in marijuana that have more medical uses than tetrahydrocannabinol (THC), the psychoactive ingredient that gets you high. CBD has demonstrated anti-seizure and pain management properties and seems to have neuro-protective qualities – meaning it reduces the rate of neuron loss over time. A 2012 Israeli study also showed promising outcomes when CBD was used to treat rheumatoid arthritis, colitis, liver inflammation, heart disease and diabetes.” [http://bit.ly/1eR3dMZ]

O Canadá também já legalizou o plantio industrial de cânhamo – o Hemp Farming – desde 1998 (consulte os detalhes no site oficial do governo federal para a Agricultura). Pesquisas revelam que 2/3 (dois terços) dos canadenses são favoráveis à legalização não só do cânhamo – que é utilizado para fabricação de roupas, alimentos, papel, bio-combustível, entre dúzias de outros usos… – mas também da maconha (apenas uma das maravilhas derivadas desta planta multi-uso e multi-benefícios que é o cânhamo).

A NOW destaca ainda a ascensão da percepção social de que as atuais políticas de Guerra às Drogas, em especial o proibicionismo anti-cannábico, é profundamente racista:

“Arrest patterns tend to follow racial lines. The 1995 Commission on Systemic Racism in the Ontario Criminal Justice System identified a continued pattern of racism in drug enforcement, with blacks 27 times more likely to end up in jail awaiting trial on drug charges than whites.”  [http://bit.ly/1i080ev]

A legalização causaria vasta economia de gastos com a repressão e o encarceramento, além de ganhos econômicos para o Estado, em impostos, previstos em 2 bilhões de dólares anuais. “If Canada legalized it, the annual estimated revenue from taxing marijuana would be somewhere around $2 billion. And that’s not counting savings from enforcement.” [http://bit.ly/1i080ev]

Devidamente taxada por impostos, esta movimentação econômica cannábica poderia ser revertida com imenso benefício para áreas como saúde, educação e cultura. A vitória sobre o mercado negro do tráfico através da regulação deste mercado aparece cada vez mais aos canadenses não só como a medida mais sensata, mas também como ótimo do ponto de vista econômico e como um dos meios concretos para financiar um certo Welfare State.

A NOW também dissipa muitos dos temores nascidos da ignorância e reitera o que a ciência já comprovou: não existe nenhuma morte por overdose de maconha registrada na história da humanidade. “It’s nearly impossible to overdose on weed. You’d have to smoke 800 joints in, like, 15 minutes.” E sem medo da apologia, a matéria ainda afirma que a inteligência sai ganhando com o consumo sensato do THC: “Weed makes you smarter. Cannabinoids in pot increase the rate of nerve cell formation in the hippocampus, the part of brain associated with memory and learning, by a staggering 40 per cent.”


Leia: 42 fatos sobre a maconha no Canadá
[http://bit.ly/1i080ev]

Já no que diz respeito à ECOLOGIA e à atual crise planetária causada pelo aquecimento global, uma das poucas esperanças da humanidade é o cânhamo, sugere o jornalista investigativo Doug Fine. Em entrevista brilhante à NOW, ele destaca que a biomassa gerada pelo hemp é uma alternativa viável aos combustíveis fósseis. Além disso, é uma planta que resiste bem a climas secos e possui capacidades de reabilitação do solo:

Doug Fine: - “Hemp is an annual plant whose foot-long taproot helps stabilize soil and provides a vital ecosystem for microflora and fauna. Colorado’s first commercial hemp farmer, Ryan Loflin, comes from an experienced farm family. He told me hemp uses half the water his wheat crop did. Imagine the implications for drought-ravaged parts of the world like sub-Saharan Africa.” [http://bit.ly/1i6GPdg] A mesma entrevista revela: “five times more – that’s the amount of climate-cooking CO2 hemp absorbs compared to trees, according to Agriculture Canada.”

No dia 3 de Maio, sábado, a Marcha Mundial da Maconha acontece em Toronto e estarei lá filmando e cobrindo; pelo menos 5.000 pessoas são esperadas para o evento que pressionará as autoridades pela legalização e regulamentação.

São milênios de uso, décadas de proibição.

E o proibicionismo – a julgar peloes recentes avanços no Uruguai, no Colorado, em Washington… – está rapidamente caindo aos pedaços e se desintegrando.

* * * * *

O documentário “O Sindicato – O Negócio Por Trás do Barato” [http://youtu.be/0YWaCTjX94U] prossegue sendo um dos melhores, mais informativos e bem argumentados dentre os filmes já feitos sobre o tema – altamente recomendado para quem quer conhecer mais sobre a situação da maconha no cenário sócio-político canadense (e norte-americano em geral, já que 80% da mega-produção de British Columbia é exportada para os EUA):

Lars Von Trier: Gênio ou Fraude? (por Linda Badley)

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“Lars Von Trier – genius or fraud?” – asks a May 2009 Guardian Arts Diary poll. Its subject is arguably world cinema’s most confrontational and polarizing figure, and the results: 60.3% genius, 39,7% fraud.

Trier takes risks no other filmmaker would conceive of (…) and willfully devastates audiences. Scandinavia’s foremost auteur since Ingmar Bergman, the Danish director is “the unabashed prince of the European avant-garde” (IndieWIRE). Challenging conventional limitations and imposing his own rules (changing them with each film), he restlessly reinvents the language of cinema.

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Personally he is as challenging as his films. After having written some of the most compelling heroines in recent cinema and elicited stunning, career-topping performances from Emily Watson, Björk, Nicole Kidman, and Charlotte Gainsbourg (photo), he is reputed to be a misogynist who bullies actresses and abuses his female characters in cinematic reinstatements of depleted sexist clichés.

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Actress and singer Charlotte Gainsbourg, who acted in Lars Von Trier’s films “Antichrist” and “Nymphomaniac”

He is notorious at Cannes for his provocations and insults, as in 1991, when he thanked “the midget” (Jury President Roman Polanski) for awarding his film Europa third, rather than first, prize. Some years later, at Cannes, in a scene worthy of Michael Moore, he called U.S. President George W. Bush an “idiot” and an “asshole”, lending vituperation to the already divisive Manderlay (2005), his film about an Alabama plantation practising slavery into the 1930s…

Coming from a small country infiltrated by America’s media-driven cultural imperialism, he has found it not merely his right or duty to make films about the United States but impossible to do otherwise. Despite that, Von Trier is known for his celebrated refusal or inability (he has a fear of flying) to set foot in the United States…

A similar effrontery had provided the catalyst for Dogme 95, the Danish collective and global movement that took on Hollywood in the 1990s and continues to be well served by the punk impertinence of the Dogme logo: a large, staring eye that flickers from the rear end of a bulldog (or is it a pig?).

Dogme shows where the provocateur and auteur come together. Claiming a new democracy in which (in the manifesto’s words) “anybody can make films”, Trier and the Dogme “brothers” market out a space for independent filmmaking beyond the global mass entertainment industry. Although he rarely leaves Denmark, he has cultivated a European and uniquely global cinema. Making his first films in English, he quickly found a niche in the international festival circuit. He drew inspiration from a wide swath – from the genius of Andrei Tarkovsky to movements such as Italian neorealism and the international New Waves of the 1960s-1970s, to American auteurs Stanley Kubrick and David Lynch…

1867LARS CAIXA 3DTrier’s long-term affinity with German culture – from expressionism and New German cinema to the writings of Karl Marx, Franz Kafka, and Friedrich Nietzsche – extends to equal passions for Wagnerian opera and anti-Wagnerian (Brechtian) theater… In spite of his flaunted internationalism, Trier has become the standard-bearer for Nordic cinema. Like Bergman and Carl Th. Dreyer, whose visions transcended nationality, he has exploited Scandinavian “imaginary” – bleak landscapes, Lutheran austerity and self-denial, the explosive release of repressed emotions – to project it elsewhere. He has similarly appropriated the Northern European Kammerspiel (chamber play) that Henrik Ibsen and August Strindberg had condensed into a charged medium. 

Reincarnating Dreyer’s martyrs (The Passion of Joan of Arc, 1928; Ordet, 1955) and the anguished female performances of Bergman’s films for the present era, he has invented a form of psycho-drama that traumatizes audiences while challenging them to respond to cinema in new ways.

His interest in theater goes back to his youth, and his films are theatrical in several senses: stylized, emotionally intense, and provocative. His features have invoked 20th century theatrical initiatives clustered under the heading of the performative: especially Antonin Artaud’s Theatre of Cruelty, Allen Kaprow’s “happenings”, and Guy Debord’s situationism, which reformulated Marxist-Brechtian aesthetics for the age of the “spectacle” in which power, concentrated in the media image, turns individuals into passive consumers.  In 1952, Debord called for an art that would “create situations rather than reproduce already existing ones” and through the performance of “lived experience” disrupt an expose the spectacle. In 1996, Trier similarly explained his view of cinema-as-provocation: “A provocation’s purpose is to get people to think. If you subject people to a provocation, you allow them the possibility of their own interpretation” (Tranceformer). (…) The films bear witness, make proclamations, issue commands, pose questions, provoke responses… Thus his films have had an impact on their surrounding contexts, affecting audiences, producing controversies, and changing the aesthetic, cultural, and political climate of the late 1990s an the 2000s.” 


By Linda Badley.

“Making The Waves: Cinema As Performance”.

University of Illinois Press. 2010.

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DOWNLOAD  “Nymphomaniac I & II” (3.6 GB / 3.1 GB) [torrent inside the ZIP]

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You might also enjoy:

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Thomas Vinterberg is the co-creator, together with Lars Von Trier, of Dogme 95. Linda Badley remembers that Dogme 95  “required abstinence from Hollywood-style high tech cosmetics, calling for an oppositional movement with its own doctrine and ten-rule “Vow of Chastity”. Coming up with the infamous rules was “easy”, claims Vinterberg: “We asked ourselves what we most hated about film today, and then we drew up a list banning it all. The idea was to put a mirror in front of the movie industry and say we can do it another way as well.”

- Post reblogado do Awestruck Wanderer

O Mito de Prometeu: poema de Goethe, pintura de Rubens, música de Schubert e Hugo Wolf


Prometheus (1774)
 Wolfgang von Goethe (1749-1832)

Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!

* * * * *

Hide your heavens, Zeus,
in cloudy vapours
and practise your stroke, like a boy
beheading thistles,
on oaktrees and mountain summits;
still you must leave me
my steady earth,
and my hut, not built by you,
and my hearth,
whose warm glow
you envy me.

I know nothing more pitiful
under the sun than you Gods!
You feed your splendour
pathetically
on expensive sacrifices
and the breath of prayers
and would starve, were not
children and beggars
fools full of hope.

When I was a child,
not knowing out from in,
I turned my bewildered gaze
to the sun, as if there might be above it
an ear to hear my sorrow,
a heart like mine
to have mercy on the afflicted.

Who helped me
against the overweening Titans?
Who rescued me from death,
from slavery?
Was it not you, my holy glowing heart,
who did it all?
and young and good, deceived,
glowed thanks for rescue
to the slumberer in the heavens?

I, worship you? What for?
Did you ever relieve
the ache of the heavy-laden?
Did you ever wipe away
the tears of the terror-stricken?
Was I not hammered into the shape of Man
by almighty Time
and eternal Destiny,
my masters, and yours?

No doubt you supposed
I should hate life,
flee to the desert,
because not every
blossom of dream became fruit?

Here I sit, make men
on my own pattern,
a breed to resemble me,
to suffer pain, to weep,
to feel pleasure and joy,
and, like me,
to pay you no attention!

 

* * * * *

Wolfgang von Goethe (1749-1832)
English translation by D.M. Black
Modern Poetry in Translation
New Series, No. 16 (2000)
ORIGINAL EM ALEMÃO

 

Prometheus depicted in a sculpture by Nicolas-Sébastien Adam, 1762 (Louvre)

Prometheus depicted in a sculpture by Nicolas-Sébastien Adam, 1762 (Louvre)

Music by Hugo Wolf (1889):

Music by Franz Schubert (1819):

* * * * *

Poetas já publicados no projeto paralelo (em inglês) Awestruck Wanderer:

NIETZSCHE – A Graphic Novel (Texto: Michel Onfray; Arte: M. Le Roy) – DOWNLOAD PDF (em espanhol)

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NIETZSCHE – SE CRÉER LIBERTÉ
Graphic novel com texto de Michel Onfray e arte de Maximilien Le Roy.
Faça o download gratuito do e-book (traduzido para o espanhol):
http://uploaded.net/file/663tkjpd/Sfrd19952ni.rar
(118 MB – Em formato CBR - Software para ler)

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“It’s better to burn out than to fade away” – 20 Anos Sem Kurt Cobain (1967-1994)

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It seems to me quite ironic and ambiguous that a band named Nirvana was actually the living and struggling embodiment of what Buddhists call Samsara. As if he was bound to the wheel of craving and suffering, Kurt Cobain screamed his guts out just like I imagine Prometheus (so beautifully depicted in Rubens’ painting) screamed day after day as the eagle devoured his liver. Nirvana is perhaps the most tragic rock and roll band there was, seen from the perspective of Cobain’s death, but it ‘s also one of the most exciting pages of rock history in the 1990s. It inspired us, with its punkish courage, to take mainstream culture by assault. Off with commercial shitty kitsch! He wanted art to be undiluted expression of raw and true emotion, communicated through the means of songs bursting with juvenile energy, suicidal tendencies, drug experiences, Beatlemania, and an up-bringing in what he called “a punk rock world”.

 He violently departed from us, 20 years ago, in April 1994, by blowing his brains out with a shotgun on his 1-million-dollar mansion, chez lui on Trigger-Happy America. When he chose suicide as a way-out-of-the-Samsarian-mess, his daughter Frances was 20 months old and couldn’t possibly understand anything about the struggles of a heroin addict with his condition as an international pop-superstar. Singing as if he was a tree rooted in dark angry soil, his voice seemed to arise from an abyss of suffering, especially located in an intense point of pain inside his belly. That invisible wound made tremendously audible by his music rang so true and filled with authenticity, in an era of poseurs and fakers and hair-metal yuppie cowshit. Lester Bangs once wrote that “expression of passion was why music was invented in the first place”, and Cobain also seemed to believe in this – and he wasn’t ashamed to put his “dark” emotional side, from depression and paranoia to sociophobia and alienation, to craft the punk-rock hymns that turned him unwillingly into The Spokesman Of A Generation. Extraordinarily capable of expressing his feelings, Cobain’s heart poured out of himself like lava from a volcano, letting us peek through a sonic keyhole into the labyrinths of an anguished life seeking release and craving for pain to end.

Cobain’s musicianship was spectacularly exciting and innovative – even though he borrowed a lot from a similar heavy, distorted and fast guitar-sound, similar to the one invented and mastered in previous decades by Johnny Ramones and Mick Joneses - he created out of that something that was distinguishable his own. Cherishing intensity rather than complexity, and emotional catharsis more than rational self-controlness, Nirvana’s music carried within it some much power that the whole thing mushroomed into one of those rares episode in music history when a band becomes History, defines an Era, before burning-out instead of fading-away. I call them “The Exploding Stars”. I would argue, If you permit me to trip a little bit on some stoned hypotheses, that Cobain’s voice spoke to millions, and his music stirred up such an intense commotion, because of the authentic and desperate artistical expression that he was able to create out of his Samsarian suffering. In 1991, the kitsch of American pop culture – from Michael Jackson to Guns’N’Roses – was suddenly kicked in the butt by the 1990s equivalent to MC5′s Kick Out The Jams to the 1960s and Nevermind The Bollocks, Here’ The Sex Pistols to the 1970s.  

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And here we are, 20 years after he took a shortcut into that land which no voyager ever comes back from (like Shakespeare’s Hamlet said), discussing his legacy and trying to understand his life and his death. Violent deaths occur every day and all the time, of course, and why should the death of a rock star be made so much fuzz about? The thing is: American Culture is deeply influenced by the realm of Pop, which is a money-making-machine mainly, of course, but sometimes explodes out of control and becomes a cultural force that manages to transcend the markets. It becomes something to be dealt with by Art History, by Sociology, by Philosophy, by Anthropology, by Existential Psychology etc. Or do you perhaps think that the more than 60 people who committed copycat suicides after Cobain’s demise in 1994 related to Cobain only as consumers do with manufacturers of products? Could we possibly say that the more than 5.000 people who went to his funeral, and joined in a candlelight vigil, were merely mourning because they had lost one of their hired entertainers? What about more than 50 million records sold (how many billions of downloads, I wonder?): did all these listeners heard Cobain just as a manufactured commodity? No! Cobain had an authenticity arising from the trueness of feeling underlying his music, and this set him apart from everything that was going on in “Mainstream American Culture” in that era.

Nirvana kicked the door to the ground for Underground America to step into the spotlight in 1991, “The Year that Punk Broke” (when Sonic Youth signed to a major; when Pearl Jam and Soundgarden skyrocketed to the top of charts; when Seattle’s scene became “The Big Thing” in a process juicily conveyed by Hype! , the documentary). Violent and untimely deaths happened all around Cobain while he experienced and interacted with people from the music scenes of Aberdeen, Olympia, Tacoma and Seattle. Prior to Cobain’s suicide, there had been other tragedies in Seattle Rock City: for example, Mia Zapata‘s cold-blooded murder in July 1993, when the singer-songwriter of The Gits (one of the awesomest “grunge” bands that never made it to the Mass Media…) was raped and killed after leaving a bar in Seattle. Or the fatal-OD that took to an early grave Andrew Wood, singer in Mother Love Bone (whose remaining members went on to build Temple of The Dog and then Pearl Jam).

* * * * *

TWO GRUNGY TRAGEDIES BEFORE COBAIN:  MIA ZAPATA’s murder (watch below the full The Gits doc) and ANDREW WOOD’s fatal OD (listen below to the tribute album by Temple Of The Dog, wich contains the grungy-hymn in which Eddie Vedder and Chris Cornell share vocal duties, “Hunger Strike”).

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Suicide is common currency in rock’n’roll mythology. The Who had screamed in the 1960s, for a whole generation to hear: “I hope I die before I get old”. Neil Young’s “Hey Hey My My” stated that “it’s better to burn out than to fade away” – a phrase later to become one of the most quoted from Cobain’ suicide letter. The Dead-at-27 Club had already a plentiful of members – Hendrix, Morrison, Janis… – when Nirvana’s lead singer joined them on this fraternity of bones. His originality was in his means-of-death: he was the first of them to have commited suicide. But did he really choose to leave life in order to become myth? Or such ambitions were not the case for someone craving to escape a labyrinth of angst, rage, stomach-aches, annoying fame, never-ending tours and chronical dissatisfaction? To get back to my point in the beggining of this trip: isn’t suicide, in Cobain’s case, an succesfull attempt simply to blow to smithereens the whole damned Samsara? After all, this man was an extremist not only in art but also in life, and it’s quite possible he entertained extreme notions about what Nirvana was all about.

 Nirvana’s music was not Zen at all – it was the sound of fury delivered in packages of Beatlesque melody and punkish attitude. When, 20 years ago today, he chose utter self-destruction, this was hardly a surprising ending for someone who had talked openly about suicide for years and years, and who had previously attempted it some times before, and who almost named the follow-up to Nevermind with the phrase I Hate Mysef And I Want To Die… Not surprising, but still mysterious and fascinating and hard to fully understand. Some writers and interpreters see Cobain’s suicide as something despicable, and criticize him for being a sell-out who couldn’t enjoy his success, or a kid who couldn’t stand his “tummy-ache” and chose some dumb radical medicine. In his article “An Icon of Alienation”, Jonathan Freedland writes, for example, about Cobain’s Last Days (also portrayed in cinema by Gus Van Sant):

“Generation X-ers are meant to be the slacker generation, yet here was the slacker-in-chief living the yuppie dream: married, padding around a $1.1 million luxury mansion with a garden for his baby daughter to play in, and Microsoft and Boeing executives for neighbours. It proved to be no refuge for Kurt Cobain, the boy who had come from blue-collar nowhere and made himself an international star and millionaire. Holed up inside the house overlooking the perfume-scented lake, he pumped his veins full of heroin, wrote his rambling suicide note, and did so much damage to his head that police could only identify his body through fingerprints. Dental records were no use, because nothing was left of his mouth.” – JONATHAN FREEDLAND, An Icon Of Alienation.

Some say some sort of suicide gene or tragic curse ran in the Cobain family: three of Kurt’s uncles had killed themselves. But the picture, of course, is much more complex than the “family tree” explanations wants to admit. It’s well known that Kurt Cobain was deeply pained both by stomach-aches and by childhood traumas (he was, every journalist repeated to exhaustion, the “son of a broken home”). His heroin-addiction, which he justified as a means of self-medication, it seems to relate also to some frantic need to numb his existential discomfort and disgust, to reach periodically some “artificial paradises” similar to the ones experienced by Baudelaire, De Quincey, Burroughs, Ken Kesey and tons of other artists and mystics. But no explanation of his bloody choice of escape from life can be convincing without a discussion about Celebrity, Fame, Success. As Will Hermes wrote in Rolling Stone magazine: “The singer-songwriter, who wrestled with medical problems and the drugs he took to keep them at bay,  was also deeply conflicted about his fame, craving and rejecting it.”

That’s what makes Nirvana so interesting: a punk band kicking out the jams in Sub Pop records turns into the highest-selling band in the world and becomes rich on the payroll of a major record company – Geffen. I would like to attempt to reflect briefly upon some of the reasons that explain Cobain’s suicide, but without venturing to give a comprehensive biography of the man or his band – a job already done brilliantly by Charles Cross’s Louder Than Heaven, by the Nirvana bio written by Everett True, or by the documentary About a Son by A. J. Schnack.

Let’s head back to 1991, when Nevermind exploded into the mainstream pop arena and became a cultural phenomenon of huge proportions. This landmark album wasn’t only a big commercial hit, destined to sell more than 30 million copies worldwide. It wasn’t only one of the greatest rock’n’roll albums ever made, with songs so powerful that Simon Williams describes them as “savage indictments of the rock ethos, eye-bulging, larynx-blistering screamalongs”. It wasn’t only a passing fancy of youngsters who would completely forget about the band when the next wave of pop novelties came along. Nevermind was an era-defining masterpiece of epic proportions, the most important album of the whole grunge era, the record that stands out in the 1990s as something unique and unsurpassed. It kicked out the jams with its raw power and heartfelt catharsis, and finally punk rock aesthetics and ethics became common currency and were delivered to the astonished masses. “Smells Like Teen Spirit”, a song named jokingly after a deodorant, and in which Cobain said he was merely ripping off The Pixies, took MTV by storm in 1991 and buried for awhile the Disco-Yuppie-Crap and the Hair-Metal-Bullshit. It kick-started the Grunge Era and opened the gates wide open for the Seattle scene to become immensely influential through Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Mudhoney, The Screaming Trees, and many others. For the first time ever in the U.S., it seemed like Punk Rock was gonna win its battle and inject rebelliousness and dissent into the veins of American suffering from a hangover after the Reagan-years in Shopping Centerish Yuppie America.

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 “Nirvana have also been seen in sociological terms: as defining a new generation, the twentysomething ‘slackers’ who have retreated from life; as telling unattractive home truths about a country losing its empire and hit by recession; as representing the final, delayed impact of British punk on America. They have also shocked people by trashing male gender codes: kissing each other on the national network show Saturday Night Live, appearing in dresses in the video for their single ‘In Bloom’, doing pro-gay benefits. We may be more used to this in Britain, but America is a country with much more machismo in its popular culture. A sensational appearance on last year’s globally broadcast MTV Awards, where they smashed their equipment and mocked rock competitors Guns N’Roses, sealed their status as America’s bad boys…” JON SAVAGE, Sounds Dirty – The Truth About Nirvana

 Nirvana wasn’t political like The Clash, but yet they certainly did a political statement with their career. Kurt Cobain shoots himself in the head and his brains get splattered all over the American Dream – that thing that, George Carlin said, “you have to be asleep to believe in”. Nirvana was much more about a provocation, à la William Burroughs (Cobain’s favorite writer), on the despised Square Society of White America. It’s punkish agression against Yuppie bullshit. It states that music shouldn’t be seen only as product or merchandise, and that it can convey emotions that can “infect” large portions of society with its groove, its stamina, its mind-expansion and energy-raising powers.

Kurt Cobain could be described by psychopathologists as clinically depressed or bi-polar – it’s known he had familiarity with Ritalins and Lithiums and other creations of the Pharmacological Industries in Capitalist America. But Nirvana’s music is not only a downer – on the contrary, Nevermind cointained so much power that it seemed like it was capable of awakening a whole generation out of its lethargy and inaction. But Cobain couldn’t and wouldn’t be the “leader of a generation”, the preacher telling in the microfone for the converted masses which way to follow. He wouldn’t become a parody of himself (“I hope I die before I turn into Pete Townsend”, he said), he wouldn’t be a happy millionaire smiling for the papparazzis, he simply wouldn’t conform to letting Nirvana become a sell-out act of merely market-wise relevance. With his death, he turned Nirvana into a symbol for decades to come, a band never to be forgotten.

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 “The sleeve of Nevermind shows a baby swimming underwater towards a dollar bill on a fish hook. The intended meaning is clear: the loss of innocence, the Faustian contract that usually comes with money. Take it, but if you do, you’re hooked for life. It’s a parable of Nirvana’s current dilemma: they’ve taken the bait, but the contradictions of their success are threatening to tear them apart. How can the members of Nirvana retain their integrity, which is very important to them, in a situation which demands constant compromise? How can they sing from the point of view of an outsider now that they’re in a privileged position? How can they suffer relentless worldwide media exposure and still retain, in Grohl’s words, ‘the spontaneity and the energy of something fresh and new’ that has marked their career?” – JON SAVAGE

“Teenage angst paid off well, now I’m bored all old”: that was the statement that began In Utero’s sonic ride. In it, Cobain wants to take us with him on his downward spiral, never afraid to let the songs show his inner confusion and Samsarian suffering. He didn’t believe in a loving God acting as a Daddy up above on the clouds, looking out for their pet-children, but rather was seduced by Buddhist notions, for example that of Karma. Nirvana’s music seems like some sort of ritual of Karmic cleansing, in which Cobain attempts, through a visceral outpouring of emotions, especially the ones that are burdensome, to attain some release.

But he didn’t arrive at no Enlightnenment – not even plain and simple piece of mind. In Rome, March 1994, he attempts suicide with more than 50 pills of Roipnol. He couldn’t stand the never-ending tours, the stupid interviews, the persecution by papparazis, the fans acting like Neanderthals, the need to repeat for the thousandth time “Smells Like Teen Spirit” – even in those nights when we didn’t felt like doing it. He simply wasn’t able to “enjoy” the ride of popstardom inside the Commercial Machinery of Profit Seeking Corporate America. When Rolling Stone did a cover issue with Nirvana, Kurt Cobain wore a t-shirt that read: ‘CORPORATE MAGAZINES STILL SUCK’. Even tough he hated Corporate America, he was immersed in it, and it had the means for him to take his message to larger audiences instead of limiting himself to the narrow world of punk-rock and indie concerts where you only preach to the converted. Nirvana never did corporate rock, but instead they did dangerous music that the industry soon discovered that resounded with millions of people worldwide. To call them “sell-outs” is narrow-mindedness. They tried instead to deeply transform Mainstream culture by taking it by storm. This is one of the most influential bands in the history of rock because it inspired us to reclaim the airwaves out of the hands of those fuckers Terence McKenna talks about in “Reclaim Your Mind”:

He never felt at ease or at home under the spotlight of mass media, gossip magazines, commercial TV shows. Always a punkish outsider and underdog that never quite fitted into the mainstream’s machinery of popstardom, he identified himself with feminists, oddballs, weirdos and other non-conformist and eccentric individuals and urban tribes. He despised pop icons like M. Jackson or Axl Rose, and loved The Pixies, The Raincoats, Young Marble Giants, all sorts of lo-fi and low-budget underground “indie” stuff. Even tough proto-grungers such as Husker Du’s Bob Mould, Black Flag’s Henry Rollins or The Replacements’ Paul Weterberg done something similar to Cobain both musically and lyrically, neither exploded internationally like Nirvana to wide-spread impact on thousands of lives.

I remember him as punk rock kid from a fucked-up town filled with macho-men rednecks, and who expressed his rage against mainstream American culture with extraordinary talent. I remember him as an aesthetic extremist who loved William Burroughs stoned literature, and who entertained himself in his Aberdeen years with peculiar fun such as watching Faces of Death after eating hallucinogenic mushrooms. I remember him also as a sometimes sensitive and tender guy who had pet-turtles in his bathtub and hated in his guts all sorts of homophobia, misoginy and Neanderthal stupidity. I remember him as a music geek that loved underground music and did everything in his power to invite his audience to listen to his favorite “indie” artists (like Pixies, Breeders, Meat Puppets, Vaselines, Daniel Johnston, Beat Happening, Flipper, Bikini Kill, Half Japanese, Billy Childish, Butthole Surfers…).

David Stubbs, in his article “I Hate Myself And I Want to Die”, writes:

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“Rock’n’roll mythology is fed and defined by its occasional deaths. Usually, these are due to some excess or other – driving too fast, getting too high, taking too much, going too far, the romantic pushing back of life’s envelope, testing the limits, wanting too much, wanting it now, forfeiting tomorrow in the bargain. Rock’n’roll mythology dictates that its heroes die because they wanted to live too much. Kurt Cobain, however, didn’t want to live. He wanted to die.”

It can be said that he’s the most perfect embodiment in rock music of  Nihilism, that cultural phenomenon which Nietzsche predicted, in the 19th century, that would become wide-spread. Cobain radically acted upon his nihilism, towards his self-destruction, what sets him apart from other famous nihilists, like Emil Cioran or Arthur Schopenhauer, who died of old age and so-called “natural causes”.

The man died, but his deeds are still with us, haunting us like Prometheu’s scream as he’s being eaten by an eagle, inspiring us like a Punk Monument to raw power in an age of slumber, provoking us like a tragic character which awakens us to a life that ain’t no picnic. There’s reason to mourn and get the paralysing blues when we considerer Cobain’s suicide, but there’s also reason to cherish and celebrate a life that has left a legacy that millions of us feel that have enriched our lives. Cobain struggled in Samsara and that makes him a member of a brotherhood called Humanity. Nirvana always sounded to me like the music of a brother, expressing what we, his brothers in suffering, also experienced but were unable to express so powerfully and unforgettably as he did.

[By Awestruck Wanderer]

“I’m worse at what I do best…” – 20 years without Kurt Cobain (1967-1994), PART II – Quotes from his interviews; “About a Son” (full doc); Nirvana’s Discography (stream or download)…

MTV Unplugged: Nirvana

“I’m a spokesman for myself. It just so happens that there’s a bunch of people that are concerned with what I have to say. I find that frightening at times because I’m just as confused as most people. I don’t have the answers for anything. I don’t want to be a fucking spokesperson.”

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“I definitely have a problem with the average macho man – the strong-oxen, working-class type – because they have always been a threat to me. I’ve had to deal with them most of my life – being taunted and beaten up by them in school, just having to be around them and be expected to be that kind of person when you grow up. I definitely feel closer to the feminine side of the human being than I do the male – or the American idea of what a male is supposed to be. Just watch a beer commercial and you’ll see what I mean.”

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“If you’re a sexist, racist, homophobe, or basically an asshole, don’t buy this CD. I don’t care if you like me, I hate you. “

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“I wouldn’t have been surprised if they had voted me Most Likely To Kill Everyone At A High School Dance.”

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“I don’t want to sound egotistical, but I know our music is better than a majority of the commercial shit that’s been crammed down people’s throats for a long time.”

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“All the albums I ever liked delivered a great song one after another: Aerosmith’s ‘Rocks’, The Sex Pistols’ ‘Never Mind The Bollocks’, Led Zeppelin’s ‘II’, AC/DC’s ‘Back In Black’. (…) I really liked R.E.M., and I was into all kinds of old ’60s stuff. (…) With ‘Smells Like Teen Spirit’ I was trying to write the ultimate po song. I was basically trying to rip off the Pixies. I have to admit it.. When I head the Pixies for the first time, I connected with that band so heavily I should have been in that band – or at least in a Pixies cover band. We used their sense of dynamics, being soft and quiet and then loud and hard…”

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“Birds scream at the top of their lungs in horrified hellish rage every morning at daybreak to warn us all of the truth, but sadly we don’t speak bird.”

Kurt Cobain
(1967 – 1994)

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“Kurt Cobain: About a Son” (A Film By A. J. Schnack)

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NIRVANA’s DISCOGRAPHY:

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LIVE AT READING – 1992