“Mixed with the funeral is the wildered wail / Of infants coming to the shores of light…” (Lucretius)

Capa

Sem dúvida, de todos os poetas que conheci, Lucrécio (99 – 55 a.C.) é um dos que mais me comove e inspira. Ficar fuçando pelos esplêndidos sebos de Toronto valeu demais a pena: um dos melhores frutos da caça foi uma edição de Of The Nature Of Things, publicada em 1957 (New York, Dutton Paperback), que encontrei pela bagatela de 4 dólares. Dizer que este já virou um livro de estimação, um pet-book, é pouco; o poema-tratado lucreciano é um amigo pra carregar vida afora (e cabe no bolso!). Há certas sequências de versos que tem a força dos melhores monólogos de Shakespeare, o pathos trágico de um Ésquilo ou Sófocles, e ainda por cima comunicam com perfeição a essência da filosofia de Epicuro. No vasto oceano da matéria em eterno movimento e tumulto, vida e morte dançam entrelaçadas. E os funerais dos que morreram recentemente sempre ocorrem simultaneamente aos choros dos recém-nascidos que acabam de chegar às praias da luz…

“Nor can those motions that bring death prevail
Forever, nor eternally entomb
The welfare of the world; nor, further, can
Those motions that give birth to things and growth
Keep them forever when created there.
Thus the long war, from everlasting waged,
With equal strife among the elements
Goes on and on. Now here, now there, prevail
The vital forces of the world – or fall.
Mixed with the funeral is the wildered wail
Of infants coming to the shores of light:
No night a day, no dawn a night hath followed
That heard not, mingling with the small birth-cries,
The wild laments, companions old of death
And the black rites…”

LUCRETIUS.
Book II. Pg. 66.
Translated by William Ellery Leonard.

Por um Materialismo da Multiplicidade (por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com)

Materialism 3

POR UM MATERIALISMO DA MULTIPLICIDADE

Por Eduardo Carli de Moraes

“Pensar no corpo antes de pensar na alma
é imitar a natureza que fez um antes do outro.”
LA METTRIEDiscours Sur Le Bonheur
(Ed. Fayard, Paris, 1987, p. 271)

Seria uma tolice transplantar para o âmbito da Filosofia o maniqueísmo, esquema mental típico das ideologias religiosas carniceiras, que cortam a realidade em dois (Bem e Mal, Mundo e Deus, Corpo e Alma). No trato com a história da filosofia, não se trata de um julgamento onde devemos condenar ou celebrar as diferentes doutrinas e então enfiá-las à força no campo das boas ou das más filosofias. Muito mais fecundo para o amelhoramento da vida é lidar com mente aberta e coração alerta com as múltiplas e diversas filosofias nascidas nestes mais de 2.500 anos de história da philia pela sophia. Filosofia não foi feita pra fechar a mente no casulo dos dogmas, mas para abri-la como uma vasta janela que nos entrega à vivência da vastidão da matéria-em-devir – ela, que em seu seio carrega, móvel e mutante, a teia da vida em evolução (e em perigo). Filosofar é perigoso e inquietante, ou então não é filosofar mas sim adormecer no colo dos dogmas.

No Abecedário, Gilles Deleuze sublinha que a palavra filosofia carrega em seu seio a amizade, philia, um dos nomes gregos do Amor. Filosofia não é culto à racionalidade fria, “pura”, des-apaixonada; filosofia é amizade pela sabedoria, amor ao conhecimento que é o útil para o bem-viver e o bem-agir. No Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, André Comte-Sponville reflete minuciosamente, em seu capítulo de encerramento sobre o Amor, sobre a tríade grega composta por Eros, Philia e Agapé. Não se trata, no caso da filosofia, de sentir eros pela sabedoria, como se esta nos incitasse à luxúria dos abraços carnais e dos prazeres sensíveis – o que não significa que a filosofia não possa ser atividade profundamente hedônica, deleitosa, aprazível, especialmente quando, como em Nietzsche ou Epicuro, vemos o pensamento fazendo suas festas, curtindo a animação de seus jardins, embriagando-se com seus vinhos, cantando seus evoés… 

A senhorita sophia, que filósofos e filósofas perseguem e cortejam, não instiga somente o ímpeto erótico, calcado no biológico, simbolizado pelo termo Eros, mas convoca a um relacionamento duradouro, amigável, mutuamente recompensador. A filosofia se situa, de preferência, nem no âmbito do erótico-pulsional (Eros) nem no da caridade egosacrificante (Ágape), mas sim no seio de Philia, o amor-amizade ou o amor feliz (pois os há, eis um fato da existência! E a raridade dos amores felizes jamais provou que fossem impossíveis… Os amores felizes, em suma, são raros mas possíveis). Sophia quer entrar conosco em uma relação de philia, o que significa que esta dama quer de nós não somente um one night stand, não somente uma transa casual e esquecível, mas um compromisso de fidelidade. Porém é impossível ser fiel à tudo: sempre escolhe-se ser fiel àquilo que a vida-em-nós sente como benéfico, aumentador da potência de existir (como dirá Spinoza), e no meu caso sinto-me impelido à fidelidade a uma tradição filosófica em específico, o materialismo. Aqui entendido, para usar a expressão de Comte-Sponville, como “um monismo da matéria”.

Sem sermos maniqueístas, tentemos refletir sobre o materialismo enquanto tradição filosófica que atravessa seus 25 séculos de devir histórico. Não adianta tacar pedras e tomates sobre o materialismo achando que uma agressão, um ataque, uma ofensiva violenta, é um argumento. Depredar o materialismo com truculência é o esporte predileto de muita gente rasa e fanática, que confunde os socos verbais que desfere com uma refutação minimanente válida. Dito isso, sustento a tese discutível que estou aqui para defender: o materialismo não foi refutado. Em termos mais particulares: Epicuro, Lucrécio, Diderot, Marx etc. – pensadores pertencentes à “linha de Demócrito”, como dizia Lênin (que opunha a tradição Democritiana à “linha de Platão” [1]) – esta tradição milenar do materialismo prossegue vivíssima e decerto terá um longo futuro (caso a humanidade o tenha, o que é de se duvidar em nossos tempos de tão vastos ecocídios…).

O primeiro equívoco a evitar é igualar materialismo e capitalismo. Até com uma certa frequência, ouve-se os detratores do capitalismo lançando seus anátemas e condenações contra os sujeitos demasiado “materialistas” de nossas sociedades industriais de alto consumo, como se a devastação ecológica global pudesse ser compreendida como culpa da “conduta materialista” do capitalistão egocêntrico e concentrador-de-riqueza, voluptuoso gozador de prazeres sensíveis sem fim, que ignora e despreza a penúria e a miséria que sabe existir em profusão no mundo. É preciso compreender materialismo como doutrina filosófica, ética, sócio-política, para além do uso pejorativo frequente do termo.

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“É sabido que a palavra materialismo é empregada principalmente em dois sentidos, um trivial, outro filosófico. No sentido trivial, designa certo tipo de comportamento ou de estado de espírito, caracterizado por preocupações “materiais”, isto é, no caso, sensíveis ou baixas. Querer ganhar muito dinheiro, gostar da boa mesa, preferir o conforto do corpo à elevação do espírito, buscar os prazeres em vez do bem, o agradável em vez do verdadeiro… tudo isso é materialismo, no sentido trivial, e vê-se que essa palavra é usada sobretudo pejorativamente. O materialista é, então, o que não tem ideal, que não se preocupa com a espiritualidade e que, buscando apenas a satisfação dos instintos, sempre se inclina para seu corpo, poderíamos dizer, em vez de para sua alma. Na melhor das hipóteses, um bon vivant; na pior: um aproveitador, egoísta e grosseiro.” [2]

O materialismo, para além de seu sentido pejorativo, é uma tradição de pensamento que não é somente crítica das ilusões idealistas, espiritualistas ou religiosas, mas também guia ético e político para uma existência transformadora e congregadora. Quando acusa-se alguém de materialista por “não ter ideais”, cai-se no ridículo: figuras como Karl Marx, Piotr Kropotkin ou Vladimir Lênin, não obstante serem materialistas convictos em matéria filosófica, não deixavam por isto de serem motivados por um ideal de justiça social e de convivência intersubjetiva “camarada” que, de tão incomuns, merecem mesmo ser ditas “ideais”. O comunismo ou o anarquismo são ideais, no sentido de que neles encontra-se formulada uma situação inexistente no presente concreto do mundo, mas diferem dos ideais dos idealistas / espiritualistas pois são ideais da imanência, ideais que jamais deixam o solo da história e da física. O Céu com que sonham as pessoas-de-fé, e que julgam acessível só após à morte, e somente aos bons e aos justos (aos que passarem na prova do Julgamento Final), é também um ideal, mas lançado para a transcendência do além-túmulo. O materialismo, portanto, não é ausência de ideal, mas o ideal de melhorar este mundo, no curso desta História. O ideal materialista histórico “localiza-se” no futuro e não no além. 

Em matéria de ética, o materialista costuma dar a primazia ao corpo (mortal) e não a um espírito supostamente imortal. O bem do corpo é o que importa mais, o que não significa que o materialista seja um crasso perseguidor de volúpias imediatas, já que o bem do corpo envolve necessariamente a saúde física e mental. Materialismo: primazia da saúde, do bem-estar, o que não impede de exercitar as virtudes da temperança, da prudência, da generosidade, da justiça… Na frase da epígrafe, La Mettrie sugere que a natureza fez o corpo antes da alma: tese autenticamente materialista, já que aquilo que chamamos de “alma” é tido pela tradição do materialismo como algo que surge posteriormente, no tempo, à base material corporal. Para muitos materialistas, dá-se o nome de “alma” a algo que está no corpo, que participa das atividades do corpo, que nunca existiu nem pode existir independente do corpo. Materialismo, portanto, é doutrina da alma mortal, ou seja, da Psique temporária, da vida individual fugaz. Filosofia do reconhecimento pleno de nossa mortalidade inelutável.

Não faltaram, entre os pensadores idealistas, aqueles que procuraram depredar o materialismo: Leibniz é um dos principais detratores das “más doutrinas dos que crêem que a alma é material” ou que o ser humano “não passa de um corpo” [3]. O ataque de Leibniz contra alguns dos maiores representantes do materialismo filosófico (o Pangloss das Mônadas julga, por exemplo, “má e falsa” a doutrina de Epicuro) serve-nos como síntese da compreensão rasa e medíocre que os idealistas costumam ter do materialismo. De fato, o materialismo também se caracteriza, escreve Comte-Sponville, “pela rejeição do espiritualismo, se por esta última palavra entendermos a afirmação de que existe uma substância espiritual (a alma ou o espírito), independente da matéria, que seria, no homem, princípio de vida ou de ação. […] O materialismo também é, contra todas as filosofias da alma, uma filosofia do corpo.” [4]

O materialismo, desde a Antiguidade greco-romana conectado às físicas atomistas de Demócrito, Epicuro, Lucrécio etc., é um monismo físico (em oposição ao dualismo idealista, que cinde o real em dois, impondo uma cisão, por exemplo, entre o natural e o sobrenatural). O materialismo defende a tese de que a Matéria (ou seja, para sermos fiéis à tradição Democritiana-Epicurista, os átomos em movimento no espaço), é a substância única – e tudo que chamamos de “espírito” é derivado das “danças” imensas e múltiplas dos átomos. “Nenhum filósofo, é evidente, pode negar absolutamente a existência do pensamento: seria negar a si mesmo e pensar que não pensa. O monismo dos materialistas”, esclarece Comte-Sponville, “não é portanto a negação da existência do pensamento, mas apenas a negação da sua independência ou, se preferirem, da sua existência autônoma: não se trata de dizer que o pensamento não existe, mas simplesmente (se é que isso pode ser simples!) que ele é tão material quanto o resto…” [5]

No caso do Marxismo, o materialismo dito histórico/dialético propõe uma solução para aquela que Engels sugere ser a questão fundamental de toda filosofia (que é “a questão da relação entre o pensamento e o ser, entre o espírito e a natureza”): “o materialismo considera a natureza [material] a única realidade.” [6] A matéria é realidade objetiva, e dela participamos; a própria História é material, e a matéria é histórica pois eternamente móvel. Em outros termos: é a matéria que pensa, é a matéria que sente, é a matéria que compõe sinfonias, que pinta quadros, que ergue catedrais e fábricas, que escreve tratados de filosofia etc. Todo gênio da história da arte criou através de seu corpo material, todo grande pensador fez o que fez pelas ações (materiais, físicas, naturais) de seu cérebro, de sua sensibilidade, enfim de seu organismo material vivo. A Fenomenologia do Espírito A Crítica da Razão Pura são também frutos de corpos. O que se chama de “espírito” não passa de um dos produtos – decerto um dos mais complexos, intrigantes e múltiplos – da matéria. A palavra “Matéria”, pois, não deve ser entendida como sinônimo de algo homogêneo, mas sim como imensa diversidade e inumerável riqueza de formas, cores, velocidades, aromas, sons. Uma orquestra que toca uma sinfonia, pássaros que cantam em uma floresta, ondas oceânicas golpeando praias e rochas, tudo isso é do âmbito da materialidade – o que nos abre para um problema suplementar, o de como diferenciar o materialismo do panteísmo.

No palco da História, sempre cheio de som e fúria, o materialismo está envolto com as hostilidades, os antagonismos, os conflitos: é uma “filosofia de combate” que, como observa Marcel Conche, “supõe um adversário” (o idealismo, o espiritualismo…) e “se define em função desse adversário” [7]. É por isso que às vezes o materialismo fica preso na rede de conceitos do inimigo – e precisa adotar o vocabulário dualista ou maniqueísta de seu adversário no sentido de tentar convencer ou persuadir o oponente idealista/espiritualista. A síntese que Comte-Sponville nos fornece do materialismo é a seguinte:

“Chama-se materialismo a doutrina que afirma que tudo é matéria ou produto da matéria (salvo o vazio) e que, por conseguinte, os fenômenos intelectuais, morais ou espirituais (ou assim supostos) têm realidade secundária e determinada. […] O materialismo se caracteriza assim, negativamente, pela rejeição do dualismo e do espiritualismo (não existe nem mundo inteligível nem alma imaterial), do ceticismo e do criticismo (a realidade em si não é inconhecível), enfim e em geral do idealismo. É incompatível […] com toda crença num Deus imaterial, criador ou legislador. […] O materialismo, repitamos, é antes de mais nada um pensamento de recusa, de combate. Trata-se (Lucrécio, La Mettrie e Marx não cansaram de lembrar) de vencer a religião, a superstição e, em geral, a ilusão. O materialismo é uma empresa de desmistificação. […] O materialismo permanece submetido, e cada vez mais, ao desenvolvimento das ciências naturais, desenvolvimento esse que ele teve primeiro de antecipar (o atomismo antigo) e que agora se contenta, na maioria das vezes, com acompanhar. O essencial não está aí: o materialismo, considerado em seu impacto máximo, é sobretudo uma teoria do espírito. Trata-se de explicar o espírito por outra coisa que não ele mesmo e, em especial, explicar este ou aquele fenômeno mental, cultural ou psíquico por processos materiais, sejam eles de ordem cerebral (La Mettrie), econômica (Marx), sexual (Freud) ou outros. Daí vários tipos de materialismo… A pluralidade das doutrinas e dos métodos, aqui, apenas reflete a pluralidade, talvez irredutível, do real… O materialismo é um monismo pluralista: se tudo é matéria, tudo é múltiplo.

Explicar o superior pelo inferior (o espírito pelo corpo, a vida pela matéria inanimada, a ordem pela desordem…) é, de Demócrito a Freud, a conduta constante do materialismo… Em todo o caso o materialismo sempre tem, como teoria, essa tendência a descer, isto é, a buscar a verdade, como dizia Demócrito, no fundo do abismo, quer esse abismo seja o da matéria e do vazio (os atomistas), o do corpo (La Mettrie, Diderot…), o da infra-estrutura econômica (Marx) ou o de nossos desejos inconscientes (Freud)… Essa descida, na teoria, tem por contraponto uma subida, no real ou na prática. […] O pensamento materialista, percorrendo ao revés o aclive do real, tudo o que faz, ao longo da sua descida, é pensar a ascensão que a torna possível. ‘É da terra ao céu que se sobe aqui’, escreviam Marx e Engels em A Ideologia Alemã, e a imagem pode ser generalizada. A história se inventa de baixo para cima… 

Se a vida se explica pela matéria inanimada, é que a matéria produz a vida, como uma novidade que ela decerto determina mas que não possui… A matéria, nesse sentido, é criadora, e não cessa de gerar o novo… Daí dois pólos, que podemos chamar de desespero e beatitude, necessários um e outro, e que definem o campo do materialismo filosófico. A verdade está no fundo do abismo, dizia Demócrito; mas a filosofia, diz também Lucrécio, ‘nos eleva até o céu…’ Desespero e beatitude, abismo e céu, teoria e prática… no fim das contas são uma só e mesma coisa (como o nirvana e o samsara, de acordo com Nagarjuna)…” [8]

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

[1] LÊNIN. Matérialism et empiriocriticisme. Oeuvres complètes, t. 14, Paris-Moscou, 1962, p. 132.

[2] COMTE-SPONVILLE. O Que É Materialismo? In: Uma Educação Filosófica, Ed. Martins Fontes, p. 104.

[3] LEIBNIZ. Réplique aux réflexions de Bayle (1702). Ed Janet, 1866, p. 583.

[4] COMTE-SPONVILLE. Op Cit. p. 109.

[5] Idem. P. 111.

[6] ENGELS, F. Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Paris, 1968, I, p. 23.

[7] CONCHE, M. Orientation philosophique. P. 174.

[8] COMTE-SPONVILLE. Op Cit. p. 120-126.

E.C.M., Dezembro de 2014

Marilena Chauí & Gerd Bornheim, “O Drama Burguês” (46 min, TV Cultura & 02 Filmes)

Ceumar, “Turbilhão”: cada rasteira que a vida dá… capoeira!

Ceumar

“Capoeira!
Cada rasteira que a vida dá…
Capoeira!

Escorreguei na ladeira
E gostei da brincadeira
Não quero parar…
Capoeira!
Mergulhei na cachoeira
E deixei a choradeira
Pro rio levar…”

Do álbum “Silencia” (2014)
Baixe a DISCOGRAFIA de Ceumar

CACHOEIRAS DE CRIATIVIDADE – Concerto magistral da Filarmônica de Goiás revive Tchaikovsky, Smetana e Dvorak

Gyn Classic

Chovia a cântaros. O que não impediu o público goianiense amante da boa música de preencher as centenas de cadeiras do Teatro Goiânia, nesta última Quinta-Feira, 27 de Novembro, para um concerto de lavar a alma. Não faltaram experiências estéticas sublimes jorrando como temporal sobre a platéia: sob a batuta do maestro israelense Yishai Stekler, regendo a afinadíssima Orquestra Filarmônica de Goiás, ouvimos interpretações magistrais de Smertana, Tchaikovsky e Dvorak. A tempestade lá fora era tão intensa que cheguei a suspeitar que o evento teria que ser cancelado: uma pequena cachoeira de garoa, antes do começo de espetáculo, chovia do teto do teatro justo sobre o spot destinado ao maestro. Com um pouco de improviso, no calor da hora, tudo se arranjou para que o concerto prosseguisse a contento, iniciando com uma impactante interpretação da abertura da ópera “A Noiva Vendida”, do compositor tcheco Smetana (1824-1884).

Apesar da ausência de relâmpagos e trovões lá fora, a presença da chuva fazia-se presente, cúmplice da orquestra, não chegando porém a constituir concorrência à sonoridade poderosa do conjunto de músicos impecavelmente entrosados. A tensão que pairava no ar estava mais alta do que é corriqueiro nos tão solenes e regrados eventos de música erudita, já que a intempérie trouxe a Natureza para dentro do teatro de um modo incomum, exigindo dos músicos que adaptassem-se velozmente a um contexto novo, a que não estão acostumados. O violoncelista alemão Johannes Gramsch, nascido em Düsseldorf, mas radicado no Brasil desde 2003, quando assumiu seu posto na OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), solou um Tchaikovsky com muita graça, tirando de letra, para júbilo geral, as “Variações Sobre Um Tema Rococó Op. 33″. Foi tão aclamado que teve que voltar pro bis.


Tchaikovsky, “Variações Sobre Um Tema Rococó Op. 33″
com Orquestra Sinfônica da UNICAMP, 2012

Foi também sensacional e inesquecível ter testemunhado a Orquestra Filarmônica de Goiás tocando a Nona do Dvorak – “Sinfonia Novo Mundo” – no Teatro Goiás fustigado pela chuvarada. Sempre sonhei em um dia poder conferir ao vivo e a cores em minhas retinas estarrecidas esta peça de uma sublimidade e uma violência que não cessam de me espantar mesmo depois de anos de convivência. Para o meu paladar sônico Dvorak foi nada menos que um gênio do porte de Tchaikovsky, Schubert, Mozart, Beethoven e Bártok. Os “bravos!” ecoaram fortes e autênticos depois da última nota, a platéia transbordante de gratidão depois de tanta potência e graça. Oscar Wilde é que estava certo: “a música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela seu último segredo.”

E enquanto o Dvorak, o Tchaikovsky e o Smetana eram tocados à perfeição, a cachoeira no palco foi uma espécie de participação cenográfica imprevista, gerando um efeito estético inolvidável, pingando belamente sobre os suores dos músicos. Ao invés de empecilho, pedra no caminho, a Cachoeira de Garoa acabou tornando este um dos concertos mais memoráveis que já presenciei. Nesta noite, a OFG, o maestro israelense e o violoncelista alemão fizeram por merecer os aplausos efusivos da platéia: mandaram muito bem na atividade coletiva fantasticamente complexa que é reavivar, com tanta verve, uma obra-prima da história da Música. Parabéns a todos os envolvidos nesta noite musical em que nossos corações e mentes banharam-se em uma tempestade relampejante de belezas sem número!

Relembrem a peça de Dvorak, com Herbert Von Karajan e a Filarmônica de Viena:

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Veja também:

2 horas de B. Smetana (1824-1884), compositor tcheco, em concerto realizado em Praga com a Orchestre Philharmonique de Radio France em 2013. Peça: “Má Vlast”.

Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

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Se me perguntarem quais foram as experiências estéticas mais impressionantes que já vivenciei, entre as mais fortes estará a atuação de Björk em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. Ali descobri, espantado, o enorme talento que ela possui para comunicar algo de tal magnitude e complexidade que só dá pra descrever apelando para os adjetivos “épico” e “trágico”. Depois de “conhecer” Selma na sala de cinema, é impossível não carregá-la consigo na memória, com seus olhos que vão gradualmente fracassando na percepção do mundo externo, enquanto o colorido carrossel interior da personagem segue transformando toda desgraça em opereta. Até que o cadafalso cala todas as canções – e é talvez o silêncio mais cruel que o enfant terrible Von Trier já nos expôs a sentir.

Se evoco aqui a obra-prima do provocador dinamarquês é para relembrar que Björk já tem um tremendo precedente em sua carreira “extra-musical” – e quão raro é que alguém do ramo da música vença um prestigioso prêmio como Melhor Atriz no Festival de Cannes. Agora Björk demonstra mais uma vez suas múltiplas habilidades como performer no filme-concerto Biophilia, que demorou 4 anos para ser concretizado: é um espetáculo multi-mídia, que congrega teatralidade, coreografia e ritual pagão de adoração à Pan em uma obra que deve entrar para a história como um dos mais interessantes “filmes-show” já feitos, juntando-se ao Olimpo que já tem The Last Waltz (Martin Scorcese filmando a The Band) e Stop Making Sense (Jonathan Demme em sintonia com os Talking Heads), dentre outras pérolas do “cinema musical”.

Björk revela-se uma artista de imensa ambição e múltiplos talentos ao construir, em Biophilia, um retrato sônico, visual e teatral de certas coisas que não se imagina caberem no espaço restrito de um palco: por exemplo, galáxias de revirantes corpos celestes, unidos pela força invisível de abraços gravitacionais, que são evocados com recorrência durante o concerto: “heavenly bodies are whirling around me”, canta Björk como se em delírio de fascinação diante do dínamo iluminado da noite. A luz que penetra as retinas, vinda de astros há bilhões de anos-luz de distância, tem como equivalente interno a “nebula interior” que ela explora em uma das mais lindas composições do álbum, “Crystalline”.

O nome do projeto também dá o que pensar: como é evidente, Biophilia tem como proposta colocar a música em um contexto biológico e litúrgico, constituindo uma espécie de culto musical à Vida. Tanto é assim que o grande naturalista e broadcaster britânico David Attenborough é uma figura importante neste processo. Conhecido pelas mais de 5 décadas de trabalho educativo televisionado, em especial pela BBC, Attenborough viaja o mundo documentando a diversidade da vida para séries consagradas como Life e Planet Earth. Seu vozeirão à la John Hurt faz o prelúdio à Biophilia, convocando o público a explorar o amor à natureza em todas as suas manifestações.

Attenborough

Quando Björk desponta em cena, é em exuberante e exótica fantasia, que deixa aberta a via para múltiplas interpretações: a mim pareceu que ela estava vestida com uma espécie de fantástico animal marítimo, com os cabelões em fogo como uma espécie de Agni animalizada e encarnada com feições asiásticas… É como se Björk quisesse se desumanizar, mas em um bom sentido: ela tenta identificar-se com animais, plantas, rios, florestas, nuvens, estrelas, em uma espécie de devir-outro em que procura transcender os estreitos antropomorfismos e atingir uma arte que, apesar de humana, procura ser retrato de toda a beleza, força e mistério do inumano. Nada do que não é humano lhe é estranho.

Todos os conceitos que estão por detrás do projeto Biophilia são difíceis de compreender para um espectador que vai “virgem” ao álbum, ao espetáculo ou ao filme, o que é mais uma razão para louvar um documentário como When Attenborough Met Björk, que vai muito além de registrar uma conversação entre o erudito biólogo e a talentosa cantora no interior do Museu de História Natural de Londres. O documentário serve como ótimo “aperitivo” para Biophilia e merece ser exibido na sessão de cinema imediatamente anterior, fornecendo o “contexto” que possibilita perceber mais nuances da obra principal. Attenborough desfila seu vasto conhecimento sobre os animais e os sons que eles produzem para compartilhar uma tese que a alguns pode até soar estranha: a música transcende a humanidade; pode-se inclusive falar na “música dos pássaros”, na “música das baleias”, na “música dos macacos”…

Oliver Sacks

Oliver Sacks, com todo o conhecimento adquirido em mais de 80 anos de vida, devotada a pesquisas sobre o cérebro humano, revela no documentário suas opiniões sobre o quão importante a música pode ser como “terapia”, relatando um experimento com pacientes idosos, em estado de demência, que só “despertam” de suas letargias ou de seus delírios quando “penetrados” por uma música evocativa, que traz memórias à tona e comunica para além da verbalidade.

Björk, ela também, procura em sua música ir muito além da verbalidade – é evidente que suas canções tem palavras e que é plenamente possível imprimir suas letras em um encarte ou fazê-las aparecer em legendas, mas seu trabalho sobre o som é muito mais amplo do que uma mera artesania vocabular. A arte de Björk cria uma espécie de “atmosfera” em que o ouvinte-espectador pode mergulhar, realizar uma imersão, deixar-se afetar em todos os seus sentidos, para além da razão. Em Biophilia, o filme, as paisagens sonoras aparecem mais como forças da natureza do que como algo a ser restrito ao âmbito da criatividade humana.

Eis uma arte que não apela somente ao intelecto, mas sim à sensibilidade por inteiro, e quem quiser “entender” Björk unicamente com a cabeça vai fracassar, assim como aquele que é “todo coração” e zero cérebro, em sua relação com a música dela, também deixará de apreciar todo o arcabouço conceitual que está por detrás. A melhor atitude, creio eu, é ir de cabeça aberta e coração alerta, pronto para o encontro com a estranheza maravilhante e o exotismo exuberante. E quem quisar dropar um ácido ou intensificar sinapses com uma ganja pode ir a Biophilia sem medo de bad trip. O único risco, que não é grave, são experiências intensas de misticismo exacerbado, paganismo panteístico e biophilia desabrida. Em suma, Biophilia manifesta Björk ensinando-nos a melhor amar a vida ao encenar e cantar seu próprio amaravilhamento cósmico, e com aquela Exuberância que William Blake dizia ser sinônimo de Beleza.