Flight from Death – The Quest for Immortality [Full Documentary]

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Considero Ernest Becker – vencedor do prêmio Pulitzer de 1974 por “A Negação da Morte: Uma Abordagem Psicológica da Finitude Humana” – um dos mais profundos pensadores do século 20. A abordagem multidisciplinar de Becker, que une Psicologia, Antropologia, Filosofia, Sociologia e Crítica Cultural, permitiu que ele compreendesse a condição humana com uma extraordinária amplidão de visão. Grande leitor e comentador de Freud e Otto Rank, dos existencialistas e de Kierkegaard, de Huizinga e Norman O. Brown, dentre muitos outros autores com o qual dialoga, Ernest Becker foi um brilhante e inovador “sintetizador” do problema antiquíssimo e sempre atual da Mortalidade.

O filme “Flight From Death”, que A Casa de Vidro aqui compartilha na íntegra, é o primeiro documentário calcado na obra de Ernest Becker – e é uma excelente porta-de-entrada para os grandes temas explorados nos livros de Becker. Narrado por Gabriel Byrne e com declarações contundentes de figuras como Sam Keen, Robert Jay Lifton e Irvin Yalom, o filme é uma excelente exploração de como as mais variadas culturas inventam meios para lidar com a finitude da existência humana – e quais são as consequências disso para as relações interpessoais e interculturais.

Uma das idéias-chave do pensamento de Ernest Becker é a de que só compreenderemos a Humanidade, inclusive em suas manifestações mais horrendas (guerras, massacres e arroubos cotidianos de agressividade), quando entendermos nossa relação com o fato incontornável de nossa mortalidade, tão denegada, renegada, sublimada e mal-compreendida. A prática da negação da morte, por exemplo, que Becker descreve como uma denegação tanto psíquica quanto cultural, como prática não só individual mas coletiva, é essencial para a nossa compreensão de nós mesmos e de nossas coletividades. Doutrinas destinadas a confortar-nos com a ideia da imortalidade estão presentes nas mais variadas culturas e atravessam a história desde os tempos mais arcaicos até a contemporaneidade – e a obra de Becker procura avaliar as consequências destas crenças e destes sistemas culturais, em especial quando entram em choque. Afinal de contas, a negação-da-morte tem várias facetas (uma cultura vizinha nega a morte de modo diferente do que a minha própria cultura, assim como em tempos passados vigiam outros tipos de ideologias de negação da morte…) e quase sempre há “clashs” sangrentos entre diferentes sistemas-culturais denegadores-da-mortalidade.

Enfim, é um excelente filme! Baseado na obra de um pensador que considero muito subestimado, e que está entre os meus psicólogos e filósofos prediletos,um grande desvendador da condição humana e que merece ser muito mais lido, Ernest Becker (1924-1974). A contribuição dele é imensa, em especial a análise de nossa tendência psíquica de fingirmos que somos imortais, agarrando-nos a doutrinas negadoras-da-morte oferecidas no supermercado das culturas; a problemática da fé religiosa é compreendida a partir dos desejos psíquicos que ela satisfaz – mas penso que Becker vai muito além de Freud em “O Futuro de Uma Ilusão” e tem um pensamento até mais multi-facetado do que o do Pai da Psicanálise.

Deixem-se provocar e refletir por este documentário crucial, que explora as idéias magistrais de Ernest Becker sobre a agressividade humana, o choque de civilizações, a repressão da consciência da mortalidade e suas consequências (tanto individuais quanto coletivas), entre outros temas suculentos, desmascarados sem medo por um filme corajoso e provocativo.

Ótimo para antropólogos, sociólogos, filósofos, psicólogos e quem quer que se interesse por compreender a condição humana e porque ela é tão lotada de “som e fúria”.

Coloquei o vídeo inteiro no Vimeo em 3 partes, saquem aí (em inglês, sem legendas):

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“Patrick Shen’s award-winning “Flight From Death: The Quest for Immortality” is a provocative study of “death denial” in cultures around the world. It draws upon the expertise of scholars, theologians and philosophers to examine how human behavior is influenced by the universal fear of death, especially in a post-9/11 climate of terrorism. It’s a stimulating, ultimately life-affirming film, filled with big ideas and revelatory footage.” -Seattle Times

Gabriel Byrne“Narrated by Golden Globe Winner Gabriel Byrne (Usual Suspects, HBO’s In Treatment, Miller’s Crossing), this 7-time Best Documentary award-winning film is the most comprehensive and mind-blowing investigation of humankind’s relationship with death ever captured on film. Hailed by many viewers as a “life-transformational film,” Flight from Death uncovers death anxiety as a possible root cause of many of our behaviors on a psychological, spiritual, and cultural level.

the-denial-of-death-e9b699lFollowing the work of the late cultural anthropologist, Ernest Becker, and his Pulitzer Prize-winning book Denial of Death, this documentary explores the ongoing research of a group of social psychologists that may forever change the way we look at ourselves and the world. Over the last twenty-five years, this team of researchers has conducted over 300 laboratory studies, which substantiate Becker’s claim that death anxiety is a primary motivator of human behavior, specifically aggression and violence.

Flight from Death features an all-star cast of scholars, authors, philosophers, and researchers including Sam Keen, Robert Jay Lifton, Irvin Yalom, and Sheldon Solomon culminating in a film that is “not only thought-provoking but also entertaining and put together with a lot of class” (Eric Campos, Film Threat). Three years in the making and beautifully photographed in eight different countries, Flight from Death is “a stimulating, ultimately life-affirming film, filled with big ideas and revelatory footage” (Jeff Shannon, Seattle Times).”

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P.S. A LINK TO ALL HOT DOCS PREVIOUSLY POSTED ON AWESTRUCK WANDERER CAN BE FOUND ON TOP OF THE BLOG, ABOVE THE COLLAGE OF HUMAN FACES. CHECK IT OUT!

21 ÁLBUNS ESSENCIAIS DA MÚSICA BRASILEIRA NO SÉCULO 21

Dentre muitos outros mais!
Sugiram nos comentários os favoritos de vcs,
que entrarão em um próximo post, “A Escolha do Leitor” (em breve!)

NICOLAU SEVCENKO (1952 – 2014) – In Memoriam

Nicolau

NICOLAU SEVCENKO (1952 – 2014)

Biografia via Revista Fórum: “Filho de imigrantes russos vindos da região da Ucrânia, Sevcenko nasceu em São Vicente, no litoral paulista. Formou-se em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), em 1975, e se dedicou ao estudo da cultura brasileira e do desenvolvimento de cidades como São Paulo e Rio.

Ele se tornou doutor em História Social pela FFLCH-USP e pós-doutor pela University of London em História da Cultura. Lecionou na USP de 1985 até 2012, ano em que se aposentou. Deu aulas ainda na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e em Harvard, onde ministrava História e Cultura da América Latina e do Brasil.”

Obras publicadas pela Cia das Letras:

SEvcenko3LITERATURA COMO MISSÃO – Tensões sociais e criação cultural na Primeira República

Euclides da Cunha e Lima Barreto são os escritores que Nicolau Sevcenko elege como referência para traçar um panorama dos cruzamentos entre história, ciência e cultura no Brasil da passagem do século XIX ao XX, momento que marcou a entrada do país na modernidade, após a Abolição e o advento da República. Num período – a Belle Époque – de negação do passado escravista e de forte espírito cosmopolita, os dois autores vislumbravam na literatura um projeto de país que levasse em conta as contradições históricas brasileiras. Sevcenko mostra que a permanência das obras de Euclides e Lima se deve a esse sentimento de missão – animado por um impulso utilitário de atuação pública -, assim como à inventividade da linguagem que desenvolveram. A reedição atualizada de Literatura como missão, publicado pela primeira vez em 1983, traz um posfácio inédito em que o autor aponta para a contribuição decisiva de escritores, principalmente Machado de Assis, que, ao lado de Euclides da Cunha e Lima Barreto, também traduziram o desacordo entre o conservadorismo do pensamento dominante e a lucidez visionária da literatura.

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SEvcenko4ORFEU EXTÁTICO NA METRÓPOLE – São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20

Orfeu, herói da mitologia grega, era louvado como o celebrante da música, da exaltação e do êxtase coletivo. Neste estudo sobre o impacto das novas tecnologias nos processos de metropolização, Nicolau Sevcenko usa as imagens dos rituais órficos como um emblema. O cenário é a cidade de São Paulo nos anos 20, quando passava pelo boom de crescimento e urbanização que a transformaria numa metrópole moderna. O frêmito das tecnologias mecânicas de aceleração se transpõe para os corpos e as mentes por meio de celebrações físicas, cívicas e míticas no espaço público. O pano de fundo: a Primeira Guerra, as tensões revolucionárias, a explosão da Arte Moderna e o delírio frenético do jazz. Os personagens: a população de um experimento social em escala gigantesca, na busca de uma identidade utópica.

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A CORRIDA PARA O SÉCULO XXI – No loop da montanha-russa

No sétimo e último volume da Coleção Virando Séculos, o historiador e crítico da cultura Nicolau Sevcenko faz uma reflexão lúcida e perturbadora sobre a passagem para o século XXI. Tomando uma viagem de montanha-russa como sua imagem e inspiração básicas, Sevcenko avalia essa transição como um processo de aceleração contínua, impulsionado pela aplicação dos conhecimentos científicos na criação de novas tecnologias. Iniciado com o desenvolvimento de poderosos recursos energéticos, como a eletricidade e os derivados de petróleo, esse processo atinge um clímax no momento atual, com a revolução microeletrônica e as comunicações por satélite e cabos de fibra óptica. É como se no início do século XX tivéssemos embarcado numa montanha-russa e agora, na entrada do novo século, fôssemos apanhados pela vertigem do loop. Essa aceleração, que é excitante, é também inconseqüente: vai aumentando as desigualdades entre os grupos e sociedades, multiplicando crises e violências e ameaçando o equilíbrio ambiental. Mas Nicolau Sevcenko mostra também que, no limiar do século XXI, surge uma nova geração disposta a lutar para que as prioridades desse mundo globalizado se voltem para os homens, a natureza e a solidariedade.

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Obras publicadas por outras editoras:


Robert Mandrou – Magistrados e feiticeiros na França do século XVII (tradução). São Paulo, Perspectiva, 1979.

- A Revolta da Vacina, mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo, Brasiliense, 1983; Scipione, 1993. Download e-book: http://bit.ly/1v29xVo.

- Lewis Carrol – Alice no país das maravilhas (tradução). São Paulo, Scipione, 1986.

- O Renascimento. São Paulo/Campinas, Atual/ Ed.da UNICAMP, 21.a ed., 1995.

- Primeira Página, Folha de São Paulo, 1925-1985, São Paulo, Gráfica da Folha de S. Paulo, 1995.

- Arte Moderna: os desencontros de dois continentes. São Paulo, Fundação Memorial da América Latina, Coleção Memo, Secretaria de Estado da Cultura, 1995.

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ENTREVISTA NO PROGRAMA PROVOCAÇÕES, DA TV CULTURA:

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Leia também:

Claire Fontaine – “Notas de Rodapé Sobre o Estado de Exceção”

Freedom

NOTAS DE RODAPÉ SOBRE O ESTADO DE EXCEÇÃO
Por Claire Fontaine

1. a guerra acontece. Da guerra não sabemos nada, e isso nos é recordado incessantemente. Desde a mais tenra infância, a guerra, sempre una e múltipla, esteve em nossos pratos, naquilo que não deveríamos permitir que fosse desperdiçado. Ofenderam-nos devido à nossa suposta ignorância da guerra, como se houvéssemos ignorado a dor ou a enfermidade, ou simplesmente como se essa guerra sempre ausente estivesse terminada para sempre, e tivesse de ser recordada como se recorda os mortos nas famílias. Através do pesar.

2. bem-estar. Todos aqueles que nasceram longe da guerra, ou depois dela, sabem bem que ela não terminou. Conhecem-na em um estado de possibilidade, como uma ameaça que se cumprirá. E esse conhecimento se verte em inquietação quando a guerra explode à distância, queimando as infâncias, os odores de cozinha, os lençóis de cama dos outros. O passado cavou um túmulo no presente e enterra mais uma vez os vivos – dizem, mas é uma inverdade. Pois a guerra é efetivamente um dos nomes do nosso presente, e não um relato de dias passados. Vive nos corpos; corre pelas instituições, atravessa as relações entre desconhecidos e conhecidos, mesmo aqui, neste instante, desde muito tempo. E quanto mais pretendemos ser inocentes e alheios aos acontecimentos, tanto mais nos sabemos culpados. Culpados por não estar no lugar onde corre o sangue, e, contudo, de alguma maneira nos encontramos lá… Ouvíamos “vocês, filhos do bem-estar” como se fosse “vocês, filhos da puta”, mas quem invocou e edificou este bem-estar, fonte inesgotável da guerra? Algumas vezes fomos levados até mesmo a suspeitar de que, se a guerra está outra parte, aí está também a vida.

3. descanse em paz… Da guerra sabemos tudo, como sabemos tudo da prisão, sem necessidade de termos estado lá, pois a “paz” e a “vida livre” as levam em seu seio, implicam-nas. Do mesmo modo que sabemos não há inocentes em nosso sistema, que há tão somente relações de poder e que são os perdedores, não os culpados, aqueles que são castigados. É por isso que a guerra se trasmuda no trabalho sujo dos demais, que somos obrigados a ignorar. Em todas as esquinas da rua, pedem-nos para que olvidemos sua possibilidade, bem como sua realidade, para que nos mostremos surpresos por ela e para que não sejamos jamais seus cúmplices. Agradecem-nos de antemão por nossa vigilância. Nossa escolha é entre colaborar com a paz social ou com os partidários do terror. A guerra já não nos diz respeito, olhamo-la e ela não olha de volta, está demasiadamente próxima. Sua distância de nós não é aquela entre um espectador e uma partida de futebol, em que ainda podemos desejar a vitória de um time e a derrota de outro. Ela se encontra no limbo das coisas que desejaríamos abolir. Para nunca mais ter que tomar partido ou crer que as palavras têm um peso que se imprime nos corpos, ou que a vida tem um sentido e que esse sentido pode inclusive causar seu desfecho repentino.

4. …e viva em guerra. Se não sabemos o que quer dizer viver em guerra, é porque não sabemos o que é viver em paz. Quanto mais somos governados, mais temos medo e necessidade de que outros se armem em nosso lugar. E é assim que a guerra continua. Os esforços feitos no passado para obter certos direitos e liberdades de expressão não são reconhecíveis para nós como uma experiência (de conflito e de vitória), mas como um resultado. Somos não mais que os herdeiros aturdidos de uma fortuna impossível de gastar: um patrimônio arqueológico que desmorona um pouco a cada dia, sem nenhum valor de uso. Essas velhas vitórias nem sequer são para nós adquiridas, são coisas já perdidas, porque não sabemos lutar para defendê-las quando são ameaçadas. O devir revolucionário é um processo que parece agora excluir nossa participação. Foi esquecendo a opressão do controle em nome da garantia de proteção que expulsamos a nós mesmos da nossa própria história. E assim tomamos a luta pela guerra e deixamos que seja simultaneamente criminalizada e delegada a profissionais. Ao passo que a luta é aquilo que surge por todas as partes da desmedida entre as demandas dos governos e as possibilidades de oferta dos governados. Nas lutas, procuramos por aqueles que nos acompanharão e darão reforço, enquanto que vamos à guerra sozinhos e regressamos dela sozinhos (já que são sempre os outros que morrem).

Guy Debord


5. o jogo da guerra. As vanguardas históricas e a guerra: uma história de amor nem mesmo tormentosa, um romance quase sem entraves, salvo algumas expatriações. Podia-se ainda – antes do estado de exceção – jogar a singularidade excepcional, jogar com amigos e inimigos o jogo de guerra. Mas isso é distinto de nossa experiência presente. A guerra paradigma das rivalidades entre grupúsculos, a guerra-matriz do imaginativo da guerrilha, estratégias paramilitares, os surrealistas, os situacionistas, os mao-dadaístas (e a lista segue) viviam em um mundo onde as palavras e as experiências mantinham um diálogo apaixonado que poderia ser levado ao extremo, irromper em um escândalo ou mesmo ser interrompido em definitivo. Esses eram joguetes de guerra, guerras para esnobes. Agora podemos enquadrar e exibir esses gestos amáveis e regressar ao toque de recolher de nosso dia a dia já filmado, às superfícies saturadas de imagens publicitárias, às nossas solidões socioeconomicamente integradas. E compreender de uma vez por todas que o terreno de enfrentamento mudou, que precisamos inventar derivas muito mais ambiciosas, até mesmo para simplesmente escapar à normatividade amplificada de nossas percepções.

6. visões do mundo. Uma vez desmobilizadas nossas consciências, fomos confortavelmente enfiados dentro do pesadelo de um presente ilegível, surdo-mudo, em um território marcado por angústias. As celas onde se encerra e se olvida os presumidos culpados, os quartos vazios com cadeiras e uma mesa onde se tortura para que se confesse, continuam a existir, e, mesmo se não os podemos ver, os percebemos. Seus odores, seus silêncios, suas luzes brancas povoam os níveis inaparentes do cotidiano administrado. Não desapareceram. A eterna noite dos noticiários televisivos nos traz essa intuição acompanhada de imagens dos atuais teatros de guerra. Dos postos policiais, dos hospitais, das autoestradas, das escolas, dos cárceres, das zonas de alta segurança e dos quartéis, até os caminhões, os aviões e os trens exportando ódio em nome da guerra, ou daquilo que concordamos em chamar guerra – todas essas coisas nos enchem de medo. Já que as contemos e elas nos contêm.

7. coerências. Por vezes, em nossas vidas ritmadas pela precariedade, reconhecemos um fio de coerência. O mesmo fio que transmite o conhecimento de uma guerra que não vivemos, mas cujos efeitos e afetos circulam em nossos corpos. O fio que conecta os gestos mais comuns de nossa cotidianidade aqui com os dramas que se consumam em outros lugares – fio elétrico, fio paratático, que vincula esse vínculo feito de ausência de vínculos. Eichmann amontoava cifras sem ser torturado pela ideia de que representavam humanos enviados ao matadouro. Desse hábito de participar do desastre sem ser capaz de interrogá-lo, a arte contemporânea constituiu seu princípio básico, estrutural. Constrói superfícies de coexistência entre elementos incompatíveis, questiona isso que não compreendemos, e, não obstante, contribui, tanto quanto essas linhas mesmas, para o funcionamento da máquina. Os meios para deter nosso devir ou para transformar nossa subjetividade já não parecem então acessíveis para nós. Outros vêm designando a forma de nossas vidas: agora só somos lives para escolher a forma de nossos produtos e para esperar que nossa propriedade privada nos proteja da guerra. Nesse ínterim, a propriedade privada é ela própria o primeiro estágio da guerra.

Fist Fight

8. a noite na qual todas as singularidades são quaisquer. O simples soldado ou o guerrilheiro armado de uma causa são sempre representados como anônimos, a carne de canhão a ser pulverizada por uma nação ou um ideal, os corpos abstratos, as vidas a cronômetro. Pelo contrário, o cidadão comum, ou o civil livre, é o único indivíduo, diferente de qualquer outro, envolvido na especificidade de suas relações sociais, supostamente para isolá-lo de seu próximo, para exaltá-lo em sua identidade irredutível. Apesar disso, podemos buscar em todas as partes esse indivíduo verdadeiramente humano sem encontrá-lx em nenhuma região do mundo do trabalho: por trás do balcão, nos supermercados e nos escritórios, interagimos com singularidades intercambiáveis e insignificantes, todas reproduzindo a mesma tarefa de modo a não serem expulsas do processo produtivo.

9. exceções. Por outro lado. A experiência, por empobrecida que seja, nos ensina que o amor não é uma adesão a um sujeito pré-definido, que o que amamos ou o que nos liga ao outro é sua singularidade como tal, sua singularidade qualquer. Porque o amor não tem uma causa específica ou uma razão comunicável. (i) Quanto mais formos governados e integrados em uma disciplina, tanto mais seremos controlados e isolados em nossas performances e em nossos comportamentos. Uma singularidade amada é qualquer e não-intercambiável, enquanto que uma singularidade produtiva é isolada e individuada, e, ainda assim, a todo momento substituível. (ii) As regras produtivas de substitutibilidade universal causam nossa certeza de vacilar. O conhecimento que os órgãos de controle possuem de nossas vidas faz de todos nós exceções aos olhos do poder. E quando encontramos o braço da lei, o que ele fará conosco não dependerá das convenções estabelecidas, mas da contingência desse particular atrito. Nosso presente tornou-se imprevisível, cada instante um momento potencialmente excepcional. Esta é precisamente a nova configuração da guerra, que opõe o Poder Identificador às singularidades quaisquer, que obriga uns à guerrilha suicida e outros à solidão anônima rodeada de objetos.

10. as regras do jogo. Viver em sociedade se converteu em uma experiência nova e atemorizante. O humanismo tradicional nos assegurou que o progresso consiste na administração aperfeiçoada de nossas vidas. Mas atualmente sabemos que a disciplina que nos governa pode produzir tanto mercadorias quanto cadáveres. Nossa percepção desse atual estado de coisas não se traduz em palavras; é feita de imagens e gestos.iii Esta nova solidão nos transformou em seres extraordinariamente contemplativos. Milhares de dispositivos nos permitem uma visualização intermitente e hipnótica do monopólio da violência que nos governa. Nosso contato com a informação geopolítica tem crescido, mas é cada vez menos íntimo, e o vocabulário, chamado a definir toda sorte de exterioridade, começa a se desgastar. Os corpos que recebem essa enxurrada de notícias se tornam desconexos. Os olhares descansam sobre as telas. Memórias-tela, imagens-tela: a realidade fragmentada dá origem à necessidade de novas distrações. Nossas percepções se conectam apenas esporadicamente: esse é o efeito mais devastador da nova guerra. Essa é também a razão de não podermos nos contrapor a ela no terreno das imagens ou da iconoclasia (a tela preta não é o mesmo que um monocromo, pois o pintor jamais pretendeu nos informar diretamente sobre o estado do mundo). Os espectadores nunca tiveram tamanha influência, porque suas condições nunca estiveram tão compartilhadas. É o valor de uso ético de nossas percepções que será negociado e estabelecido, mas que já existe em potência, à espera do gesto que o colocará em circulação. Porque, em tempos de guerra, não são apenas as trocas monetárias, mas é também a economia do desejo em sua totalidade que é tocada pela inflação.

Claire Fontaine 3Claire Fontaine
Nova Iorque, 7 de janeiro de 2007
Tradução: Arlandson Mateus Oliveira
Leia em francêsinglêsespanhol

 

NOTAS

(i) Na tradução ao espanhol por nós consultada (disponível aqui: http://goo.gl/iTUVqQ), lemos (também): Aquilo que alguém ama em outrem é o agenciamento social possível ou real de que este é portador, seu potencial de conexão ou de liberdade que faz com que nossos sentimentos possam surgir e perdurar.

(ii) Na referida tradução ao espanhol, lemos (também): O governo vê as massas, mas não considera mais que os indivíduos. Mede a potência, mas só se concentra nos atos. Compreende-se, então, como uma singularidade amada é qualquer e não-intercambiável, enquanto que uma singularidade produtiva está isolada e individualizada, e, ainda assim, é a todo momento substituível.

(iii) Na tradução ao espanhol, lemos também: não se aloja de maneira duradoura na linguagem.

“Os Índios da Palestina” – por Gilles Deleuze & Elias Sanbar

DeleuzeOS ÍNDIOS DA PALESTINA
Deleuze & Sanbar
(Trad. Arlandson Matheus Oliveira)

Gilles Deleuze: Parece que alguma coisa amadureceu no campo palestino. Um novo tom se insinua, como se eles tivessem superado o primeiro estágio de sua crise, como se tivessem chegado a um lugar de certeza ou de serenidade, com um novo senso de seus “direitos”. Isso sugeriria uma nova consciência. O novo tom parece ter-lhes permitido falar de uma nova maneira, nem agressivamente nem defensivamente, mas como“iguais” com o mundo. Como você explica isso, tendo em vista que os palestinos têm ainda de alcançar seus objetivos políticos?

Elias Sanbar: Tivemos uma sensação desse direito após a publicação do nosso primeiro número. Muitos preocupados com o conflito disseram: “Agora os palestinos têm seu próprio jornal”, e isso parece ter sacudido uma antiga imagem dos palestinos aos olhos do mundo. Não esqueçamos que, aos olhos de muitos, a imagem do palestino combatente – aquela que estamos tentando promover – permaneceu demasiadamente abstrata. Em outras palavras, antes de impormos a realidade da nossa presença, pensavam em nós exclusivamente como refugiados. Quando o nosso movimento de resistência deixou claro que a nossa luta não poderia ser ignorada, fomos uma vez mais reduzidos a uma imagem clichê: éramos vistos pura e simplesmente como militaristas. A imagem era isolada e reproduzida ad infinitum. Não éramos percebidos como nenhuma outra coisa. É para nos libertar da imagem militarista no sentido estrito que preferimos essa outra imagem do combatente.

Acredito que a surpresa que o nosso jornal tem suscitado também vem do fato de que algumas pessoas devem estar dizendo a si mesmas que os palestinos efetivamente existem, e não meramente por uma questão de evocar princípios abstratos. Apesar de o jornal ser palestino, constitui-se num terreno onde muitas preocupações diferentes podem ser expressas, um lugar onde não somente vozes palestinas podem ser ouvidas, mas também vozes árabes, judaicas e europeias.

Algumas pessoas devem também estar se dando conta de que esse tipo de trabalho, oriundo de vários horizontes, remete à existência de muitos palestinos diferentes nos vários setores da sociedade palestina: pintores, escultores, trabalhadores, fazendeiros, romancistas, banqueiros, atores, homens de negócio, professores, etc. Em suma, elas compreendem que existe toda uma sociedade por trás desse jornal.

A Palestina não é apenas um povo, mas uma terra. A Palestina é o que conecta esse povo à terra que tem sido pilhada e defraudada. É um lugar onde o exílio e um imenso desejo de retornar se conjugam, um único lugar, composto de todas as expulsões que o nosso povo vem sofrendo desde 1948. Quando estudamos a Palestina, e acompanhamos as mudanças que a afetam, temos uma imagem sua diante de nós. E nunca a perdemos de vista.

Gilles Deleuze: Muitos dos artigos no seu jornal se referem, e analisam de um jeito novo, os métodos que tem sido empregados para afugentar os palestinos do seu território. Isso é crucial porque os palestinos não se encontram em uma típica situação colonial. Eles são mais removidos e expulsos que colonizados. No seu livro (nota I), você compara os palestinos aos índios americanos. Há, com efeito, dois movimentos distintos no capitalismo. No primeiro, um povo é mantido na sua terra e forçado a trabalhar, explorado para acumular uma mais-valia. Isso é o que geralmente chamamos “colônia”. Mas no segundo, um território é esvaziado do seu povo. O capitalismo então faz um salto gigante em um único esforço, mesmo se isso exigir a importação de trabalhadores e labor manual. A história do sionismo, a história de Israel e a história dos Estados Unidos, todas têm feito este percurso: como criar um vácuo, como esvaziar um território?

Yassir Arafat em uma entrevista assinalou os limites da comparação (nota II), e esse limite abrange o horizonte do seu jornal: ele diz que a diferença é o mundo árabe, enquanto que os índios americanos, tendo sido expulsos do seu território, não tinham ninguém a quem poderiam recorrer para obter suporte econômico ou militar.

Elias Sanbar: Como exilados, a nossa situação é bastante particular, porque fomos expulsos não para um país estrangeiro, mas para os confins da nossa “pátria”. Fomos exilados em países árabes onde nunca passou pela mente de ninguém nos dispersar. Estou pensando na hipocrisia de alguns israelenses que declaram que os árabes têm culpa por não nos “integrar” – o que na fala israelense significa “nos fazer desaparecer”. Aqueles que nos expulsaram estão repentinamente preocupados com algum suposto racismo árabe contra nós. Isso significa que não encontramos situações difíceis em certos países árabes? Claro que não. Certamente encontramos. Mas essas dificuldades não se devem a sermos árabes. Elas são inevitáveis, porque éramos e ainda somos uma revolução armada. Mas, para nossos colonizadores judeus, somos de fato os índios da Palestina. Tudo o que estávamos a fazer era desaparecer de vista. Nesse sentido, a história do estabelecimento de Israel é uma repetição do processo que deu origem aos Estados Unidos da América. Aí provavelmente reside um dos ingredientes essenciais na sua mútua solidariedade.

Nisso, ademais,vemos os elementos que ilustram como, durante o período da Custódia Britânica (nota III), não fomos sujeitos à colonização “clássica”, onde colonizadores e colonizados viviam lado a lado. Os franceses, os ingleses, etc., queriam estabelecer áreas cuja condição mesma de existência dependia da presença dos povos indígenas. Para qualquer dominação efetiva, deveria ser um povo a ser dominado. Isso criou, talvez não intencionalmente, áreas comuns, isto é, redes ou setores ou aspectos da vida social onde o “encontro” entre colonizador e colonizado teve lugar. Que esse encontro era insuportável, explorador, esmagador ou opressivo, não muda o fato de que o “colonizador estrangeiro” teve primeiro de estar “em contato” com “os locais” a fim de exercer a sua dominação.

Então surgiu o sionismo, mas as suas suposições são o oposto: a nossa ausência é uma necessidade, mais ainda, como mostrou Ilan Halevi (nota IV), a pedra angular da nossa rejeição, do nosso deslocamento, da nossa “transferência” e substituição é um traço específico dos sionistas, a saber, o seu pertencimento a uma comunidade judaica. Assim, nasceu toda uma nova classe de colonizadores, “uma desconhecida”, chegando no meio da massa daquilo que acabei de chamar “colonizadores estrangeiros”. Esse novo colonizador opera fazendo das suas próprias características a base da total rejeição do Outro.

Além disso, em alguns sentidos, o nosso país não foi só colonizado em 1948 – ele “desapareceu”. De qualquer forma, é como os colonizadores judeus que se tornaram “israelenses” deve tê-lo experienciado. O movimento sionista mobilizou a comunidade judaica na Palestina não com a ideia de que os palestinos sairiam algum dia, mas com a ideia de que o país estava “vazio”. Houve, é claro, judeus que vieram, viram que era uma inverdade e escreveram sobre isso! Mas a maioria da comunidade judaica agiu como se o povo que eles encaravam todo dia, vivendo e trabalhando, não estivesse lá. Essa cegueira, contudo, não era física. Ninguém poderia enganar-se a esse ponto. Mas todos entendiam que o povo vivendo em seu meio estava “em processo de desaparecimento”. E eles se deram conta de que, para que o desaparecimento se consumasse, a primeira coisa a ser feita era agir como se tal consumação já tivesse ocorrido, “nunca vendo” a existência do Outro, que, no entanto, estava inegavelmente presente. O esvaziamento do território, para ser bem-sucedido, teria de começar pelo banimento “do Outro” da cabeça do colonizador.

Um dos meios de o sionismo obter êxito era jogar o jogo da raça, fazendo do judaísmo o fundamento mesmo para a expulsão, para a rejeição do Outro. As perseguições racistas na Europa foram extremamente úteis nesse sentido, uma vez que forneceram ao sionismo a confirmação dos passos que deveria seguir. Consideramos que o sionismo aprisionou os judeus, mantendo-os cativos da visão que acabei de descrever. Quero enfatizar que ainda os mantém cativos. Isso não é verdade apenas em um momento histórico particular. Digo isso porque a racionalidade sionista mudou depois do Holocausto. O sionismo se modificou, postulando um pseudo-“eterno princípio” de que os judeus seriam desde tempos imemoriais o “Outro” em qualquer sociedade em que vivessem. Contudo, nenhum povo, nenhuma comunidade pode reclamar ocupar essa posição de marginalizado, do maldito “Outro” de forma permanente e inalterável. E afortunadamente isso é verdade, em especial para os judeus.

Hoje no Oriente Médio, o Outro é o árabe, e o palestino. O desaparecimento desse Outro é agora a ordem do dia, e o fato de que é a esse Outro, que corre o risco de desaparecer, que os poderes ocidentais pedem por garantias é a medida da hipocrisia e do cinismo. Somos aqueles que precisam de garantias, para sermos protegidos da loucura dos líderes militares israelenses.

Em qualquer caso, a OLP [Organização de Libertação Palestina], nossa única representante, propôs uma solução para o conflito: um estado democrático na Palestina, um estado onde os muros que existem entre os habitantes, quem quer que fossem,seriam demolidos.

Gilles Deleuze: As páginas de abertura do primeiro número do seu jornal contêm um manifesto: somos “um povo como qualquer outro”. O sentido dessa declaração é múltiplo. Em primeiro lugar, é um lembrete, ou um clamor. Os palestinos são constantemente acusados de não reconhecerem Israel. Bem, dizem os israelenses, eles querem nos destruir. Mas por mais de 50 anos, os palestinos têm lutado para serem reconhecidos como um povo. Em segundo lugar, a declaração marca uma oposição ao manifesto de Israel, que diz “não somos um povo como qualquer outro” por causa da nossa transcendência e da enormidade das nossas perseguições. Daí a importância, no segundo número, dos dois textos de escritores israelenses sobre o Holocausto e a significância que esse evento teve em Israel, especialmente com relação aos palestinos e ao mundo árabe, intocado por uma tal catástrofe. Exigindo “ser tratado como um povo com um status excepcional”, o Estado de Israel mantém uma dependência econômica e financeira do Ocidente de uma maneira que não pode jamais ser equiparada à de nenhum outro Estado (Boaz Evron, nota V). Essa dependência do Ocidente explica o porquê de os palestinos serem tão duros relativamente à declaração contrária: eles desejam se tornar o que são, a saber, um povo com um status “excepcional”. À medida que opõem a história ao apocalipse, existe um sentido da história como possibilidade, a multiplicidade daquilo que é possível, a profusão de múltiplas possibilidades a cada momento. Não é isso que o seu jornal espera fazer evidente na sua análise?

Elias Sanbar: Absolutamente. A ideia de um clamor para recordar ao mundo a nossa existência é profundamente plena de sentido, mas é também bastante simples. É o tipo de verdade que, uma vez reconhecida, fará as coisas muito difíceis para qualquer um que ainda conte com o desaparecimento do povo palestino. No fundo, o que essa verdade diz é que todo povo tem “um direito aos seus direitos”, por assim dizer. Isso é auto evidente, mas é tão poderoso que representa o ponto de partida e o objetivo de toda luta política. Veja os sionistas: o que eles têm a dizer a esse respeito? Você nunca os ouvirá dizer: “os palestinos têm direito a alguma coisa”. Nenhum dispêndio de força pode sustentar tal posição, e eles o sabem. Eis por que a afirmação da existência do povo palestino é tão poderosa, muito mais do que pode parecer à primeira vista.

[Essa entrevista com Elias Sanbar foi publicada no Libération, em 8-9 de maio de1982, p. 20-21. Precedendo-a, havia umas poucas palavras que Deleuze escreveu sobre a Revue d’Etudes Palestiniennes, criada em outubro de 1981, e cujo objetivo era analisar os fatores responsáveis pela crise no Oriente Médio: “Desde algum tempo, esperávamos por um jornal árabe na França. Pensávamos que ele viria do norte da África, mas acontece que os palestinos o fizeram primeiro. Embora claramente focado nos problemas palestinos, esse jornal tem duas características que deveriam preocupar o mundo árabe como um todo. Primeiro, contém uma penetrante análise sociopolítica que revela um perfeito autocontrole, em um tom sereno; segundo, delineia um “corpus” literário, histórico e sociológico que é propriamente árabe, extremamente rico e pouco conhecido.” Elias Sanbar é um escritor palestino nascido em 1947 e editor-chefe da Revued’Etudes Palestiniennes. Deleuze e ele eram amigos desde o final dos anos setenta.]

[Traduzido ao português a partir da tradução ao inglês de Ames Hodges e Mike Taormina contida em “Two Regimes of Madness – Texts and Interviews, 1975-1995.”]

NOTAS

(i) Elias Sanbar, Palestine 1948, l’expulsion (Paris: Les Livres de la Revue d’Etudes Palestiniennes, 1983).
(ii) In Revue des Etudes Palestiniennes, 2, inverno de 1983, p. 3-17.
(iii) A Palestina esteve sob um regime militar britânico até 1921, quando a Liga das Nações declarou-a um Território de Custódia da Grã-Bretanha. A administração civil começou em 1923 e se encerrou em 15 de maio de 1948, quando os britânicos se retiraram e o estado de Israel foi criado.
(iv) Ilan Halevi, Question juive, la tribu, la loi, l’espace (Paris: Editions de Minuit, 1981).
(v) Boaz Evron, “Les interprétations de ‘l’Holocaust:’ Un danger pour le peuple juif,” Revue d’Etudes Palestiniennes, no. 2, inverno de 1982, 36-52.

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LEIA TAMBÉM: DELEUZE SOBRE A PALESTINA (1978 NO LE MONDE)

BONUS TRACK:
DELEUZE, O ABCDÁRIO / LETRA G de “GAUCHE” (ESQUERDA):

O HOMEM QUE VIROU SUCO (1981) #ClássicosCinemaBrasileiro (Assista ao filme na íntegra em HD)

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Clássicos do Cinema Brasileiro:
O HOMEM QUE VIROU SUCO (1981)
de João Batista de Andrade
estrelando José Dumont

Assista completo e em HD: https://vimeo.com/103135361

Curiosidade: O diretor João Batista de Andrade chegou a cogitar o nome do músico Tom Zé para o papel do imigrante Deraldo.

Premiações:

- Festival Internacional de Moscou (1981): Recebeu a Medalha de Ouro (Melhor Filme)
– Festival de Gramado (1981): Venceu nas categorias de Melhor Roteiro, Melhor Ator, Melhor Ator Codjuvante.
– Festival de Brasília (1980): Venceu na categoria de Melhor Ator.
– Festival Internacional de Huelva (1981) (Espanha): Venceu na categoria de Melhor Ator.
– Juventude Soviética – Moscou (1981): Recebeu o Prêmio Mérito Humanitário.
– Festival de Nevers (1983): Venceu nas categorias de Melhor Filme e Prêmio da Crítica.
– Prêmio Qualidade Concine (1983) (Brasil)
– Prêmio São Saruê, concedido pela Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro (1983)

Resenhas: Centro de Memória Sindical (CMS) – L. C. Merten no EstadãoCinema de Boteco – Kátia Regina Miche 

“ACTION, AFFECT AND TRANSINDIVUALITY IN SPINOZA’S PHILOSOPHY” – by Hasana Sharp

9780226750743

ACTION, AFFECT AND TRANSINDIVUALITY IN SPINOZA’S PHILOSOPHY By Hasana Sharp (1)

To think in terms of affect is necessarily to think in terms of “transindividuality”, such that forms of individuality are necessarily incomplete and variable in response to other beings.

Understanding human expression in terms of natural forces and affective determination urges us to conceive of speech as something that emerges by virtue of a complex play of contact and contiguity with other beings, human and nonhuman.

When defining human action, Spinoza’s target and antagonist is most obviously Descartes. André Gombay notes that there is something shocking and even abhorrent to most people about the Cartesian dictum “I think therefore I am.” (2) Aren’t we also embodied, feeling beings who relish the experience of awe before natural beauty and artistic expression?

With Spinoza’s theory of affect, we have a comprehensive redefinition of human agency. More than an affirmation of our corporeality, Spinoza’s theory of affect gives rise to a notion of agency that is in no way exclusively human.

The limitless possibilities ascribed to mind and body include not only those we call human but also the ideal and corporeal powers of beasts, computers, and collectivities.

“Affect” names those changes in power that belong to finite existence by virtue of being connected necessarily to other beings, immersed in a field of powers and counterpowers…

It would be difficult to overestimate the importance of affect in Spinoza’s philosophy as a whole. “Affectus” is the first word of the Political Treatise and remains a protagonist throughout the text. The Theological-Political Treatise begins with a vivid portrait of the misery provoked by hope and fear, the affects that nourish the superstition and despotism that are the treatise’s objects of critique.

Affect refers to a universal power to affect and be affected, to the fact that finite beings enhance or diminish one another’s power necessarily, by virtue of their inescapable interdependency. An affect is an encounter between bodies that involves a change in one’s power, for better or for worse, together with the idea of that change:

“By affect [affectum] I understand affections [affectiones] of the body by which the body’s power of acting is increased or diminished, aided or restrained, and at the same time, the ideas of these affections.” (3)

Spinozean desire exists within a relational field and is fully actualized only with favorable relations. (…) The striving to persevere in being is the “essence” or “nature” of each and every singular thing. “Each thing, as far as it can by its own power, strives to persevere in its being.” (4)

Conatus names the singularity of beings, a force of existence unique to each thing, which accounts for the infinite diversity of finite things in nature. Conatus names a power of self-organization, self-maintenance, and striving to preserve one’s distinctness amidst infinetely other singular beings.

Nevertheless, within Spinoza’s relational ontology, the singularity of each essence does not entail that the conatus is the exclusive cause of a being’s perseverance. To remain this table or this body, one must maintain a constant flow of exchanges with myriad ambient beings. One must perpetually mutate in order to remain what one is. (…) Our most fundamental power to be cannot ultimately be separated from the concurrent forces of other beings. It is for this reason that the concept of “transindividuality” is particularly apt for Spinoza.” (5)

REFERENCES

(1) Sharp, H. Spinoza and the Politics of Renaturalization. Chicago, 2011, pg. 24-26.

(2) Gombay. Descartes, IX.

(3) Spinoza, B. Ethics. III. Definition 3.

(4) Idem. Ethics.  III. Proposition 6.

(5) Sharp, H. Op cit. P. 132-33.

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Veja também… De Tariq Ali, “Spinoza: Apóstolo da Razão”

(completo e legendado em português)